Arthur
1 Arthur
Notas iniciais
“Que lindas mãos ele tem.”
Esse foi meu primeiro pensamento sobre o Arthur.
Eram mãos grandes e bem cuidadas, ornadas por dedos magros e longos, e uma aliança de ouro no dedo anelar esquerdo. Pareciam de alguma maneira ser mãos severas e macias, e se tornava ainda mais belas quando entravam contato com as teclas de marfim branco pertencentes ao piano alemão do restaurante onde eu trabalhava como barman.
Preciosas mãos dotadas de magia, que só se exibiam em todo esplendor quando seu cuidadoso dono encontrava-se sentado ao centro do salão, bem abaixo da antiga luminária de cristal, encantando a todos com sua música.
Eu amei aquelas mãos de imediato.
E logo depois amei-o como um todo.
Amei sua postura austera e impecavelmente reta. O olhar castanho e rígido, parecendo levemente arrogante e audaz para aqueles que não o conheciam. Amei o corpo alto, magro e elegante, aparentemente frágil; os cabelos um tanto grisalhos, impecavelmente penteados e arrumados. As roupas sempre formais e bem passadas, com vincos perfeitos nas calças e notável lustre nos sapatos pretos.
E as mãos e a magia.
E a magia que se estendia à sua fala, que mesmo adaptada ao português do Brasil, ainda possuía notável sotaque britânico. Amei ouvi-lo falar tão calmamente, tão convincentemente. Amei o seu tom e o seu timbre, os quais conseguiam soar contidos e carregados ao mesmo tempo; a maneira esquisita como ele pronunciava o próprio nome ao se apresentar. Achei incrível como ele conseguia falar de maneira tão altiva e doce ao mesmo tempo, sempre tão sábio e agradável.
Amei tanto.
Amei conhecer sua casa, tomar chá amargo e forte com ele; tornar-me seu amigo, descobrir coisas sobre sua vida. Amei saber que fazíamos aniversário no mesmo dia, saber da sua vinda traumática ao Brasil, da sua viuvez prematura, da perda de uma filha de oito anos. Do declíneo de uma carreira promissora e até de uma tentativa de suicídio.
Amei tocar-lhe os largos ombros, abraçar-lhe o magro corpo, enxugar-lhe as tristes lágrimas, beijar-lhe as sinceras cicatrizes, sentir-lhe os secos lábios.
Amei até quando ele me afastou ofegante e exasperado, quando disse que aquilo estava errado, que éramos ambos homens, que eu tinha idade para ser seu filho. Que não, não e ponto final.
Amei rebater seus argumentos, insistir, convencer, implorar por uma chance. Amei pedir perdão e dizer que não mais faria o que meu coração imperava. Amei mentir para ele nesse aspecto e ter meu sono tomado por angustiantes pesadelos e intermináveis momentos de insônia.
Amei receber seu abraço, suas novas lágrimas, seu pedido de desculpas. A explicação por sua insegurança e falta de jeito.
Amei ouvi-lo tocar Bach e Chopin só para mim; amei ouvi-lo rir de uma piada sem graça após beber uns coquetéis que eu inventei. Amei testemunhar a sutileza presente no humor inglês; ouvi-lo recitar em inglês um poema do Lord Byron; ver seus olhos incertos finalmente me encarando de maneira intensa; ver sua face tão serena finalmente corar graças a um toque superficial.
Amei vê-lo desviar o olhar e por fim fechar os olhos para receber um novo beijo meu. Sentir as amadas mãos subindo por meus braços, adentrando minha camisa, tocando-me com calma e fulgor ao mesmo tempo. Amei sentir o carinho emanado a cada sussurro, ouvir suave voz falar baixinho que me amava, que me queria.
Amei desabotoar calmamente sua camisa de linho, observar meus próprios dedos trêmulos descobrindo finalmente seu tronco pálido; tirar as calças e sapatos, apertar as coxas alvas, sentir a pele se arrepiar, sentir o sabor da mesma. Amei tocá-lo e tê-lo por inteiro; entregar-me a ele sem receios ou vergonhas; ouvir novos sussurros e inéditos gemidos. Ter as amadas mãos agarrando meus cabelos, as unhas aparadas roçando a minhas costas.
Amei senti-lo em mim.
Senti-lo me apertar contra seu corpo.
Sentir sua respiração suavizando-se aos poucos enquanto acariciava meu peito.
Amei passar noites e mais noites ao seu lado, costurar os botões que eu mesmo arrancava. Abraçá-lo durante a noite, após reclamar de seu ronco. Roubar-lhe um beijo quando não tinha ninguém olhando. Amei levá-lo a um motel, realizar algumas fantasias que ele jamais teve capacidade de externar; andar de mãos dadas de noite em ruas tranqüilas, poder chamá-lo de ‘amor’.
Amei ver o tempo passar lentamente, assistir ao lado dele os filmes de drama antigos e as ondas se quebrando calmamente contra a praia. Amei comemorar com ele nossos aniversários, ajudá-lo a assumir para a irmã mais velha o nosso relacionamento, vê-lo se apresentar no teatro municipal, aplaudí-lo de pés.Consegui amar até mesmo as lágrimas derramadas no aniversário do falecimento de sua esposa. Amei o bicho de pelúcia que compramos e deixamos no cemitério no dia que fomos visitar sua filha.
Amei compartilhar histórias, momentos, pequenas brigas motivadas por ciúme.
Amei tudo.
Mas amei, sobretudo, a certeza de que vou amá-lo eternamente.
Notas finais
Um ano se passa, e cá está Samila (esse é meu nome) cheia de projetos atrasados...
Eu peço sinceras desculpas pelas minhas demoras em Purest Form Of Love, Trilo do Diabo, Relatos da Queda e especialmente Blind Angel.
Se forem capazes de perdoar, gostaria de convidar vocês a me acompanharem em 2011, pois a presença de vocês, o apoio, as broncas, são todos preciosos demais para mim.
Eu não escreveria, se não fossem vocês e o carinho que eu sinto em cada comentário que recebo.
Muito obrigada!
Samila Lages
ps: Não vamos esquecer que 2011 será ano da publicação da lenda de Fausto! Conto mais uma vez com vocês para mostrarmos ao mercado editorial o poder do yaoi! =*
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