Artéria Seca
1 Artéria Seca
Notas iniciais
Um jovem magricela saiu cambaleando da boate. O falso sorriso no rosto, o cigarro pendendo de um lado da boca. A narina esquerda numa poça de sangue que ameaçava escorrer, mas o garoto não parecia ligar. Ria sozinho como os velhos costumam fazer. Os coturnos pesados batendo na calçada, a jaqueta de couro parecia larga demais nos ombros magros, o pescoço longo flutuando acima e o cabelo liso e sujo parecia estar descolado da cabeça ossuda.
Caminhou até a avenida, a cabeça erguida a certo custo. A essa altura, o sangue tinha descido cerca de um centímetro, mas ele se recusava a limpar. Carros passavam ao seu lado, pessoas estranhas olhavam do escuro. A cidade era feia na luz laranja dos postes. Chegou na metade da ponte. A rodovia lá embaixo lhe lembrava veias e artérias. Fechou os olhos, finalmente deixando a cabeça cair entre os antebraços apoiados no metal frio da contenção.
A vida era uma grande merda. Se sentia uma grande merda. Não queria pensar. Não queria lembrar que tinha agarrado a namorada do melhor amigo. Contra a vontade dela. E que Cleiton não o perdoaria de novo. Não dessa vez. Dessa vez estava sozinho e fodido. E por pior que fosse o seu mal estar, a dor no estomago onde levou um chute e a estúpida vontade de chorar agarrada na garganta, sabia que não iria chover. A rodovia era uma artéria seca e ele também.
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