Arritmia
1 I - A medicina é o nosso próprio motivo
Notas iniciais
Internos sempre possuíam a mesma expressão ao entrar no hospital. Eram olhos arregalados e levemente intimidados misturados com bocas abertas ou lábios pressionados que sempre faziam Alfred rir. Não fazia muito alarde sobre isso, pois sabia muito que bem que sua face provavelmente era a mesma apenas quatro anos atrás, em seu grande primeiro dia. Entendia como era ser novo e inexperiente em um lugar que abrigava incríveis ícones da medicina. Para o bem ou para o mal, porém, já ter passado pela mesma situação não fazia a coisa perder totalmente a graça.
- Quais são os seus? – perguntou uma voz vinda por trás do americano. Alfred reconheceria aquele sotaque (que mal era realmente um sotaque) em qualquer lugar. O tom que vinha junto era sempre tão gentil e calmo que era impossível desconhecer Matthew quando este falava.
Alfred olhou para o canadense antes de se virar novamente para a pequena multidão de ansiosos estudantes e dar um sorrisinho. – Grupo B. Olhe só para a carinha perdida dele. É de certa forma fofo e engraçado ao mesmo tempo!
Matthew lhe deu uma olhadela pelo canto do olho. – Não seja muito cruel com eles, Alfred, ainda são muito novos para serem corrompidos tão cedo por você.
Alfred soltou uma risada alegre e passou os braços pelos ombros do outro, puxando-o para perto. – Ah, Matt, é mesmo necessário falar isso todo ano?
O canadense suspirou e se abaixou para se livrar dos braços do mais alto. – Contando que sou sempre eu que tenho que consolar seus meninos e cobrir suas histórias ridículas quando é pego aos beijos com uma interna em algum quarto, sim, Alfred, é um aviso que considero bastante necessário.
O americano fez uma careta e botou a língua para fora como se estivesse no jardim de infância. Matthew revirou os olhos. – Eu não faço isso há muito tempo e você sabe disso! Além do mais, meus bebês são sempre os que acabam se saindo melhor nas provas finais.
Matthew não respondeu, parte porque sabia que qualquer coisa dita entraria por uma orelha de Alfred e sairia rapidamente pela outra, parte porque o americano falara a verdade. Não importa o quão imoral fosse ou quantos jovens corações Alfred quebrasse, no fim do dia ele ainda seria o residente habilidoso que os cirurgiões atendentes disputavam para ter em sala como discípulo.
Matthew adotou uma expressão um pouco entediada e resolveu mudar de assunto. – Eu realmente gostaria que Roderich chegasse no horário pelo menos algumas vezes na vida.
Alfred concordou solenemente com a cabeça, pois de fato era sempre assim, toda santa vez. Os residentes que estavam no segundo ano para cima se reuniam anualmente no inicio da temporada em frente a algumas dezenas de pessoas que eventualmente seriam suas responsabilidades. O correto seria que os chefes de cada área chegassem pontualmente para designar cada grupo para um residente. O administrador geral da ala psiquiátrica era sempre pontual, assim como a maioria dos outros. O chefe da dermatologia (Bill – era esse seu nome? Alfred não conseguia lembrar com muita certeza) e Roderich, porém, poderiam muito bem apostar para ver quem chegaria por último. Vendo que o austríaco era chefe não apenas da tão importante Neurocirurgia como também da ala cirúrgica inteira, se é levemente esperado que este seja um homem extremamente inteligente e organizado. Inteligente com toda a absoluta certeza, com a cabeça no lugar também não havia dúvidas, mas organizado? Alfred suspeitava que Roderich frequentemente não soubesse nem em que dia da semana se encontrava.
Matthew se recostou na parede parecendo levemente cansado, o cabelo loiro comprido caindo nos ombros de seu pálido jaleco médico. Seu pulso carregava várias pulseiras coloridas típicas de praia que sempre faziam Alfred arquear as sobrancelhas. Desde os óculos até os pés, Matthew era basicamente a imagem perfeita de um hippie muito inteligente.
Passos soando atrás fizeram ambos virarem a cabeça, os dois se perguntando quem estava chegando depois de tanto tempo. Matthew deu um sorriso suave ao perceber quem era.
- Por que você só chegou agora sendo que eu estou aqui plantado há mais de meia hora? – bradou Alfred, mas seu tom era brincalhão, assim como a curva em seus lábios.
- Porque eu sou claramente mais esperto e já entendi que não existe um mundo sano em que nosso amado chefe não se atrase – o garoto respondeu, dando de ombros e também sorrindo, cabelos avermelhados completamente bagunçados no topo de sua cabeça. – Sinto muito por você, Matt, que ficou aqui tanto tempo com Alfred por perto.
O americano chutou nada discretamente a perna do outro. – Você é um lixo, Lovino – disse, mas seu rosto ainda estava aberto em um bem-humorado sorriso. – Além do mais, existem várias pessoas bem aqui que adorariam conversar com o nosso tão precioso Matt, então se ele está comigo é porque claramente me ama mais do que os outros.
Matthew fez uma careta diante do “precioso”, mas não era algo que ele realmente pudesse continuar negando, não mais. Jogou as mãos para cima em falso desespero. – Sim, Alfred, você descobriu meu segredo: eu te amo e não consigo ficar sem você. Pronto, falei!
O americano gritou “eu sabia!” rindo ao mesmo tempo em que Lovino balançou a cabeça de modo alegre e disse:
– Você realmente faz péssimas escolhas na vida, Matt.
Antes que o canadense pudesse responder, finalmente duas figuras apareceram distantes, revelando-se serem ambos os chefes desaparecidos. Estavam conversando casualmente como se não houvesse nada de errado com o passo lento e despreocupado que apresentavam sendo que ambos deveriam muito bem saber que haviam atrasado um evento importante por quase uma hora inteira. Alfred se perguntou se Roderich fazia de propósito, porque honestamente não era uma coisa normal.
Quando todos os líderes já estavam devidamente unidos e os dois atrasados haviam recebido olhares graves e reprimendas de outros médicos, a separação ocorreu de modo prático e muito rápido. Os grupos já previamente separados de acordo com áreas e divididos por ordem alfabética foram designados para seus respectivos tutores. Alfred, como já bem sabia, ganhou o grupo B da ala cirúrgica, Lovino ficou com o E enquanto Matthew recebeu o A.
Os três trocaram olhares divertidos antes de andarem em direção aos jovens médicos. Alfred se aproximou dos quatro que lhe haviam indicado e sorriu tentando ser o mais amigável e tranquilo possível ao invés de um temível líder tirano.
- Olá! – ele disse suave, carregando as palavras. Observou que seu grupo era formado perfeitamente por um par de meninos e um de meninas. Os quatro disseram em uníssono um tímido “oi” que fez Alfred bufar levemente. – Agora não é hora de timidez! – disse, recebendo como resposta quatro olhares surpresos antes de continuar. — Embora vocês estudem em clínicas e hospitais desde o segundo ano de faculdade, é hoje o primeiro dia de verdade da carreira de vocês, a primeira vez que vocês vão estudar e trabalhar ao mesmo tempo, a primeira vez que realmente serão responsáveis por nada mais do que vidas. Não podem se dar ao direito de serem tímidos.
Os estudantes olharam para ele como se estivessem metade impressionados e metade questionando por que estavam ouvindo aquele pequeno discurso sendo que apenas haviam dito um quieto “olá” para uma cara que nunca tinham visto antes na vida.
- Você é Alfred Jones. – Um dos meninos, alto e loiro disse, comentando obvio.
Diante disso Alfred não conseguiu evitar um sorrisinho, percebendo que de fato os internos sempre sabiam nomes de determinados residentes e se deveriam ou não torcer para serem de seus grupos. O americano sabia claramente o que diziam sobre ele, sobre o jovem médico extremamente habilidoso que os atendentes tanto valorizavam. Além de admirado, tinha também feito nome por ser extremamente rígido – especialmente durante operações – e por não tolerar o menor dos erros. A última parte não particularmente animava Alfred, devido ao fato de que ele tratava os novatos como seus próprios filhos, mas talvez esse fosse o exato problema: nenhum pai deseja ver sua criança errando, principalmente quando esses erros em geral custam muito caro e os fazem chorarem desconsolados por um canto.
- Sim, de certo sou eu e a partir de hoje vocês são meu bebês – Disse Alfred, não realmente prestando muita atenção à reação dos mais jovens. – E também é assim que eu vou chamar vocês o ano inteiro, portanto nem lutem contra isso, é completamente inútil. Além do mais, vocês virão a amar, todos eventualmente se apegam ao apelido, então não se preocupem, bebês, tudo vai dar certo!
Algumas sobrancelhas se ergueram incrédulas ao mesmo tempo em que sorrisos apareceram. Alfred também sorriu satisfeito antes de se forçar a assumir uma postura mais séria e suspirar, pronto para começar o discurso que ele sabia ser necessário, embora não gostasse muito dele.
– O negócio aqui é muito sério, crianças. Claro que sempre existirão brincadeiras, amizade e laços entre nós, mas tudo isso fica em segundo ou terceiro plano. A partir do momento em que vocês quatro pisaram o pé nesse hospital, imediatamente se comprometeram a colocar outras pessoas, em geral completamente desconhecidas como primeira opção. O seu sono não será nem de perto priorizado, assim como muito menos o seu salário. Existirão dias estressantes em que nem sempre haverá hora para refeições, dias que vão esgotá-los tanto física quanto psicologicamente. Erros custam mais aqui do que em qualquer profissão. Em pouco tempo vocês terão pessoas em suas mãos, almas com famílias e felicidades que ficarão cegamente dependentes da habilidade e inteligência de vocês. Isso não é algo fácil de lidar.
Os discípulos ficaram quietos, ouvindo atentamente. Alfred se sentia um pouco triste por despejar as regras e avisos assim tão rapidamente neles. Tentou suavizar sua expressão facial antes de continuar. – Eu estarei aqui para ajudar, para tentar tornar as coisas mais suportáveis, assim como todos os outros residentes. Vocês estão nisto para aprender, então não hesitem em pedir minha ajuda, eu sou seu tutor por um motivo. Medicina não é fácil, acho que muito pelo contrário. É considerada a profissão mais complicada que existe e não há duvidas de que ela de fato é, mas o que nem todo mundo comenta é que também é a melhor coisa do mundo para quem realmente ama. Vocês conseguem entender isso? Conseguem entender o motivo?
Uma das garotas inesperadamente sorriu. Ela usava óculos redondos e seu cabelo ruivo preso obedientemente em um rabo-de-cavalo. – Porque nada nunca supera o sorriso de um paciente, não é mesmo? Nada é tão satisfatório quanto aquele olhar que eles às vezes dão, como se você fosse um anjo caído do céu ou algo do tipo.
Isso fez Alfred ficar surpreso antes de rir contente. – Sim, essa é a exata visão que eu esperava passar. Esses serão talvez os anos mais difíceis da vida de vocês — pelo menos estão sendo os meus – mas se já chegaram a esse ponto, se já saíram da faculdade, bem... Vocês provavelmente entendem, sabem por que vale tanto a pena. Sabem por que nós fazemos isso.
Quatro cabeças chacoalharam em um gesto de entendimento. O segundo menino, o que não era loiro, pareceu finalmente reunir coragem para finalmente falar o que queria. – Você é uma lenda viva entre os internos, Dr. Jones.
Os outros três o olharam esquisito, como se dissessem ele não precisa saber disso. Alfred, porém, chacoalhou a cabeça em divertimento.
- Eu não sou lenda nenhuma, com bisturis nas mãos nós valemos tudo a mesma coisa, somos todos aprendizes – disse solenemente. – Mas para essa via dupla funcionar eu também preciso saber o nome de vocês, se não fica um tanto quanto injusto!
O garoto magro de cabelos escuros se apresentou como Erik ao mesmo tempo em que a ruiva dizia um animado “Natalie”. A outra menina, uma morena bonita que não tinha dito nada até aquele momento disse que se chamava Annabeth e o garoto alto e loiro falou que era “David, mas pode me chamar de Dave”.
Alfred sorriu e balançou a cabeça para todos eles, sabendo que em minutos já haveria esquecido no mínimo dois dos nomes. Não que importasse muito, no final ele acabaria os chamando de bebês de mesmo, então a pergunta tinha sido mais por cortesia do que outra coisa.
- Certo, acho que entendi. Agora que nos conhecemos devidamente e considerando que eu já passei meu tão animador discurso adiante, está na hora de pelo menos apresentar esse local imenso para vocês, para poderem pelo menos ir ao banheiro certo quando precisarem ou qualquer coisa do tipo. Ah, e daqui a duas horas o trabalho já começa com força total e nem pensem em vir com desculpas esfarrapadas! Moleza não é aceita por aqui. – Disse firmemente (embora tivesse soado um tanto quanto teatral) e virando as costas ao começar a andar.
Os internos concordaram e obedientemente se puseram a seguir os passos do novo mentor, todos pensando, mas nenhum realmente proferindo o óbvio. “Quem quer moleza grita credo! e sai correndo ao simplesmente ouvir a palavra medicina”. Todos eles sabiam bem que passavam longe de tal realidade, pois não, não queriam moleza, ao invés disso desejavam e caçavam fervorosamente novos desafios desde que eram pequenos. Era uma vida intensa assim, como a que se levava dentro da medicina, que eles tanto buscavam.
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