Ariel Archetti e os Olimpianos
2 CAPÍTULO 1- Foi só um sonho
Notas iniciais
–Isso não faz sentido, Ariel! – disse Pedro – Você mesma disse que filhos de Hades não existem! — enquanto contava-lhe o que acontecera na noite anterior.
Pedro era meu melhor e único amigo da escola, ele entrou dois meses depois do início das aulas. No primeiro dia em que o vi ele chegou atrasado e, assim que entrou, cheirou o ar e franziu a testa, cheirou de novo e olhou para a professora com uma expressão de alerta, então cheirou uma última vez e olhou para mim sorrindo.
Ele era a mistura das coisas que eu mais gostava em todos os namorados que já tivera e teria nos próximos meses: tinha o rosto infantil de Quigley Quagmire, a expressão ousada de Rudy Stainer, os cabelos negros de Farid, os cachos cheios de Grover Underwood, a palidez de Nico Di Angelo e o estilo magrelo gostoso pra dedéu de Leo Valdez . Sim, todos meus namorados são de livros. Nunca tive um de verdade. Nunca beijei um garoto. Nunca fiquei realmente apaixonada, a não ser por meninos feitos de letras. Apesar de meus colegas de escola dizerem que estava namorando todos os meninos que eram meus amigos, para mim pelo menos, eram só amigos, os melhores, mas apenas amigos. E com Pedro não era diferente.
Quando o garoto dos meus sonhos entrou na minha sala, olhou para mim, sorriu para mim, eu fiz o que? Fiquei babando e batendo a cabeça na carteira? Falei “Qual é seu nome? Senta do meu lado!”? Olhei para baixo e fiquei dando risadinhas? Não. Não fiz nada disso, nada do que uma garota normal ou incomum, diferente ou comum faria, nem o que uma garota estranha, esquisita, ou até mesmo bizarra faria. Eu fiz o que uma garota completamente anormal faria: olhei para suas mãos e vi um livro, imediatamente, sem pensar, disse “Que livro é esse? Posso ver?”.
Quando fiz isso me arrependi, mas fiz o máximo para não demonstrar meu arrependimento. Já tinha mostrado meu verdadeiro eu que, de acordo com os livros, era a parte mais difícil de um relacionamento. Não ia voltar atrás e fingir ser alguém que não era.
Fiquei aliviada quando ele disse “Claro!” ainda sorrindo. Em minhas mãos vi que o livro era algum de As Crônicas de Gelo e Fogo, um livro que não tinha lido ainda, mas era um dos que mais queria ler, admirava quem lia e via a série de TV. Neste momento, e só neste momento, pensei “gamei”, expressão que usava apenas dentro de mim ou com amigas, quando tinha a ilusão de tê-las. Não queria dizer que estava apaixonada, mas sim que tudo o que eu precisava era de alguém assim, que ele era perfeito, um sonho realizado.
Ele sentou na carteira à minha esquerda, comecei a conversar com ele, mas a professora de geografia, Janaína, brigou conosco dizendo que ele chegara no meio do ano, atrasado, e se achava no direito ficar atrapalhando a aula. Apesar de exagerada e grossa, ela estava em parte certa. Comecei a conversar com ele novamente, mas Pedro disse que tínhamos que obedecer a professora. Pensei que ele era completamente certinho, entretanto, quando a aula de geografia acabou, ele se demonstrou bem bagunceiro.
Outras características dele: olhos verdes claríssimos e um pouco puxados, rosto latino, sotaque chileno (pois era de lá), boca rosada e carnuda e... bem... pernas enormes. Pedro me dissera que tinha uma doença nas pernas, que eram cheias de bolotas que não paravam de crescer até ele fazer um tratamento, o que ocupou os primeiros dois meses de aula, e elas não voltariam ao normal. Por isso sua pernas eram fofas e inchadas, e ele andava como se cada passo doesse, porque doía.
Batíamos em todos os aspectos, de desenhos animados a livros, de filmes a comida preferida, funcionávamos por igual.
Porém isso mudou quando eu comecei a ler Percy Jackson e os Olimpianos. Ele me desencorajou ao máximo para não começar a ler. Tudo o que eu falava que gostava no livro ele replicava dizendo que não fazia sentido ou algo do tipo. “Não acha muito cômodo ter uma névoa mágica que disfarça tudo de estranho o que centenas de pessoas fazem?” era o que mais dizia, só não mais que “Percy Jackson é um desrespeito a algo tão lindo que é a mitologia grega”. Ele me impedia de conseguir entrar por completo no mundo do livro, algo que sempre tive sucesso em fazer. Ele estava me privando do maior dos prazeres da leitura. Deixei eu de gostar de Percy Jackson e os Olimpianos? Não. De jeito nenhum. Eu continuava enfeitiçada por aquele mundo de deuses e monstros, de semideuses e seus traidores, cada vez mais. Já estava na metade de O Mar de Monstros.
– Eu não falei que os filhos de Hades não existiam, apenas que não existiam desde a Segunda Guerra Mundial!- disse, irritada com seu extremo ceticismo.
– E porque voltariam a existir? – Pedro replicou como se falasse com uma criança de cinco anos de idade.
– Também não existiam filhos de Zeus e Poseidon desde a Segunda Guerra Mundial, e daí surgiram a Thalia e o Percy! – já estávamos gritando, as pessoas em volta olhavam disfarçadamente.
– Ariel, isso foi um sonho. Você mesma disse que queria acordar seus pais e conversar com eles, mas foi dormir, sabe por quê? Porque era um sonho, um sonho!- ele estava berrando, já tinha uma pequena multidão, que deu enormes gargalhadas quando Pedro tentou sair batendo os pés. – QUAL É A GRAÇA? – berrei para aqueles idiotas, devia estar com o rosto tomado pelo ódio, porque todos olharam para baixo, assustados.
Minha amizade com Pedro era tão forte que mesmo estando com muita raiva dele, ainda o defendia com unhas e dentes.
Aquela não tinha sido nossa primeira nem última briga feia.
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