Arcanum

14 Gesto de Boa Fé


A luz matinal de Cinderhelm invadia a sala dos fundos da barbearia de Bertram Bellamy, iluminando as ferramentas espalhadas sobre a mesa larga de mogno: pincéis finos, frascos de tinta, documentos em branco carimbados com selos falsificados, e pilhas de fotografias tiradas às pressas nos últimos dois dias. O cheiro de cola fresca e tinta de impressão se misturava ao aroma persistente de café forte que Porto despejava em sua caneca pela terceira vez naquela manhã.


Bertram ergueu um dos documentos contra a luz, os olhos experientes percorrendo cada detalhe com a precisão de um artesão avaliando sua obra-prima.


— Perfeito — murmurou, um sorriso satisfeito se formando sob o bigode. — Nem o próprio Conselho das Máquinas conseguiria distinguir esses documentos dos originais. Meus contatos no Distrito das Sucatas fizeram um trabalho impecável. Selos autênticos, papel oficial, até a maldita marca d'água está correta.


Adam se aproximou, pegando um dos documentos com cuidado. Seu nome falso—Aldric Thorne—estava impresso com perfeição burocrática, acompanhado de uma fotografia sua de perfil, o rosto parcialmente coberto por uma barba falsa que Bertram havia aplicado com maestria. O cargo listado era "Inspetor de Manutenção Noturna, Setor de Arquivos".


— Isso realmente vai funcionar? — perguntou Alstro, nervoso, ajeitando os óculos enquanto examinava sua própria identidade falsa. Seu cabelo escuro havia sido tingido de loiro e cortado rente, e uma peruca discreta cobria completamente suas orelhas pontudas de fada.


Bertram bufou, batendo no ombro do menor com força suficiente para fazê-lo cambalear.


— Vai funcionar se você parar de suar como um porco assustado. Confiança, rapaz! Confiança é metade da mentira.


Porto, encostado na parede com os braços cruzados, soltou uma risada rouca.


— Fala o homem que já enganou meio mundo com identidades falsas. — Ele ajeitou a peruca preta que cobria suas próprias orelhas, fazendo uma careta. — Mas essa coisa coça pra caralho!


— Beleza exige sacrifício. — retrucou Bertram, virando-se para Astrid, que estava sentada em uma cadeira alta no centro da sala.


Evelyn Bellamy trabalhava ao redor da andróide com a concentração de uma cirurgiã. Pincéis delicados deslizavam sobre a pele sintética de Astrid, aplicando camadas finas de maquiagem especializada que imitavam a textura e o tom de pele humana. Os olhos mecânicos de Astrid—normalmente cintilantes—haviam sido cobertos com lentes de contato coloridas que imitavam íris castanhas naturais.


— Fica quieta — ordenou Evelyn, inclinando-se para aplicar blush nas maçãs do rosto de Astrid. — Se você piscar no momento errado, vai borrar tudo e vou ter que recomeçar.


— Entendido — respondeu Astrid, a voz modulada em um tom neutro. — Permanecerei imóvel.


Evelyn recuou, avaliando seu trabalho com olhos críticos. Astrid agora parecia... humana. Assustadoramente humana. A pele artificial brilhava com um leve rubor natural, e as lentes de contato mascaravam completamente a natureza mecânica de seus olhos.


— Pronto — declarou Evelyn, cruzando os braços com satisfação. — Agora você parece uma secretária respeitável de Cinderhelm. Ninguém vai suspeitar.


Astrid inclinou a cabeça, processando.


— A ilusão é convincente. Probabilidade de detecção reduzida em 87,3%.


— Ótimo — disse Adam, aproximando-se. — Agora é sua vez, Koryu.


O espadachim estava sentado em silêncio no canto da sala, os olhos fechados em meditação. Sua pele era pálida demais—quase translúcida—e chamaria atenção imediata em qualquer ambiente público. Evelyn se aproximou dele com uma esponja embebida em base bronzeadora.


— Você vai ter que confiar em mim — disse ela, sorrindo. — Prometo não te deixar parecendo um palhaço.


Koryu abriu os olhos lentamente, avaliando-a com seriedade antes de assentir.


— Faça o que for necessário.


Evelyn trabalhou rápido, aplicando camadas uniformes de maquiagem que aqueciam o tom de pele de Koryu, transformando sua palidez fantasmagórica em algo mais próximo de um humano comum. Quando terminou, ela recuou, admirando o resultado.


— Perfeito. Agora você parece alguém que vê o sol de vez em quando.


Koryu se levantou, examinando seu reflexo em um espelho de parede. Ele não disse nada, mas o leve aceno de aprovação foi suficiente.


Bertram bateu palmas, chamando a atenção de todos.


— Muito bem, pessoal. Vocês estão prontos. Identidades falsas, aparências ajustadas, documentos impecáveis. Agora é só uma questão de timing. Clara vai abrir a brecha no Big Bang durante o Baile de Máscaras, e vocês terão 35 minutos—talvez 1 hora na melhor das hipóteses—para entrar, localizar o projeto original do Núcleo Arcanum, destruí-lo, e sair sem serem detectados.


Adam assentiu, o peso da responsabilidade pressionando seus ombros.


— Entendido. Não será um problema.


Do outro lado da sala, Alexandros Carbone estava encostado na janela, olhando para as ruas movimentadas de Cinderhelm lá embaixo. Seus pensamentos estavam distantes, focados no encontro que planejava com Caesar. Havia semanas que não via o irmão, e a preocupação roía suas entranhas como ácido.


— Eu vou ao Baile de Máscaras. — disse Alexandros, virando-se para o grupo. — Vou tentar extrair informações dos outros nobres, e preciso alertar Caesar sobre o que está acontecendo. Ele merece saber.


Adam franziu o cenho.


— Você acha que ele vai acreditar?


Alexandros soltou um suspiro pesado.


— Ele vai ter que acreditar. Não temos escolha.


Antes que alguém pudesse responder, a porta da sala se escancarou com um estrondo. Clara Gildspring entrou apressada, o rosto pálido, os olhos arregalados. Ela segurava um jornal dobrado em mãos, os dedos tremendo levemente.


— Vocês... vocês precisam ver isso — disse ela, a voz tensa.


Adam se aproximou imediatamente, estendendo a mão. Clara lhe entregou o jornal, e ele o desdobrou, os olhos percorrendo a manchete da primeira página.


As palavras pareceram saltar do papel, cada letra um golpe no estômago.


"ATENTADO CATASTRÓFICO NA EOSIMIST: EXPLOSÃO DESTRÓI SEDE PRINCIPAL"


Abaixo, em letras menores:


"Dezenas de trabalhadores feridos. Reação em cadeia no processo de refinamento de carvão. Sabotagem suspeita. Entre os feridos: Caesar Carbone, herdeiro da EosMist."


O sangue de Adam gelou. Ele ergueu os olhos lentamente, virando-se para Alexandros.


— A EosMist... a sede foi alvo de um atentado ontem à noite.


Alexandros ficou imóvel por um instante, o rosto inexpressivo. Então, em três passos longos, ele atravessou a sala e arrancou o jornal das mãos de Adam com força suficiente para quase rasgá-lo.


Seus olhos percorreram a manchete, a respiração ficando mais pesada a cada palavra. Quando chegou à parte sobre Caesar, seu maxilar travou, os dentes rangendo audível.


— Não... — murmurou, a voz rouca. — Não, não, não...


Ele leu novamente, como se esperasse que as palavras mudassem. Mas não mudaram.


Com um rugido de fúria contida, Alexandros rasgou o jornal ao meio, os pedaços caindo no chão como folhas mortas.


— BLACKWELL! — rosnou, a voz reverberando pelas paredes. — Aquele cretino desgraçado! Aquele doente filho da puta!


Ele girou nos calcanhares, agarrando seu casaco pesado do encosto da cadeira e o jogando sobre os ombros com movimentos bruscos.


— Eu preciso ir ao pronto-socorro... Agora! Imediatamente!


Adam deu um passo à frente, a mão erguida.


— Alexandros, espera—


— Não! — cortou o elfo, os olhos faiscando de raiva e desespero. — Meu irmão está ferido! Ele pode estar morrendo! Eu não vou ficar aqui parado enquanto Blackwell destrói tudo que eu amo!


Ele marchou em direção à porta, mas parou na soleira, virando-se brevemente para encarar Adam.


— Continuem com o plano e destruam o projeto. Eu... eu vou cuidar do Caesar…!


E então, sem esperar resposta, Alexandros saiu, a porta batendo atrás dele com um estrondo final.


O silêncio que se seguiu era pesado, sufocante.


Clara segurou o próprio queixo, franzindo o cenho, pensativa, o olhar baixo.


— Será que Blackwell está mesmo tão obstinado a ponto de fazer algo tão baixo?


Porto cuspiu no chão, a expressão sombria.


— Aquele arrombado está eliminando a concorrência, tá na cara. Alexandros era o único barão industrial que ainda ousava desafiá-lo abertamente.


Bertram apertou os punhos, a prótese mecânica chiando sob a pressão.


— Isso muda tudo. Se Blackwell está disposto a cometer atentados em plena luz do dia, ele não vai hesitar em fazer pior.


Adam fechou os olhos, respirando fundo. A raiva fervia em suas veias, mas ele a forçou para baixo, canalizando-a em determinação fria.


— Então temos que agir rápido — disse, abrindo os olhos e encarando cada um de seus aliados. — Domingo à noite, faremos o que for necessário. E depois... depois vamos atrás de Blackwell.


Ele pegou os pedaços rasgados do jornal do chão, olhando para a foto borrada de Caesar sendo carregado em uma maca.


— Eu prometo.


[.]


A escuridão do subsolo dos Ponteiros era cortada apenas pelo brilho laranja-avermelhado das fornalhas, que cuspiam chamas intermitentes enquanto as mesas de cirurgia rangiam sob o peso dos corpos recém-chegados. O cheiro de carne queimada e metal derretido impregnava o ar denso, quase sufocante, enquanto os ciborgues grotescos se moviam em sincronia mecânica, arrastando os cadáveres parcialmente carbonizados para os postos de "ressurreição".


Miló e Fjorn desciam a escadaria estreita, cada um carregando um corpo sobre os ombros como se fossem sacos de carvão. Miló, com sua postura relaxada e sorriso cínico, parecia quase entediado. Fjorn, por outro lado, respirava pesado, os músculos tensos sob o peso, mas seus olhos brilhavam com uma satisfação brutal.


— Mais trinta aqui — anunciou Miló, jogando o corpo que carregava sobre uma das mesas de ferro com um impacto seco. O cadáver rolou levemente, revelando queimaduras profundas que expunham ossos enegrecidos e carne derretida. — Fresquinhos, como encomendado.


Fjorn soltou o seu com menos cerimônia, o corpo batendo no chão antes de ser arrastado por dois ciborgues que se aproximaram imediatamente, suas garras metálicas cravando-se na carne morta.


— Espécimes de qualidade — rosnou Fjorn, limpando as mãos sujas de cinza e sangue seco na calça. — Trabalhadores da EosMist. Treinados, fortes, disciplinados. Exatamente o que vocês queriam.


Do fundo do salão, a voz cavernosa do Big Ben ecoou, reverberando pelos tubos colossais como um trovão subterrâneo.


— Impressionante... muito impressionante. — A boca sem fundo da máquina grotesca parecia pulsar com cada palavra, os olhos vazios fixos nos recém-chegados. — Vocês provaram ser dignos de confiança. Algo raro... muito raro entre sacos de carne e osso.


Miló fez uma reverência exagerada, o sorriso afiado nunca abandonando seus lábios.


— Somos profissionais, Big Ben. Quando prometemos algo, entregamos.


— Então está selado. — A voz do Big Ben vibrou com uma nota de satisfação mecânica. — Na segunda-feira, meus servos espalharão o caos por Cinderhelm. O Big Bang será sitiado. As ruas arderão. E vocês terão sua distração.


Fjorn deu um passo à frente, os punhos cerrados, os olhos estreitando-se enquanto encarava a parede colossal de maquinário.


— Ótimo. Agora que terminamos nossa parte, podemos—


— Agora podem sair. — A voz do Big Ben cortou como uma lâmina enferrujada, fria e desdenhosa. — Não precisamos mais de vocês aqui. Vão embora.


O maxilar de Fjorn travou, os dentes rangendo audível. Seus músculos se contraíram, e por um instante, parecia prestes a avançar, a esmagar aquela parede grotesca de tubos e engrenagens com as próprias mãos.


Miló, no entanto, colocou uma mão firme no ombro do guerreiro, sussurrando baixo, a voz calma mas carregada de advertência.


— Calma. Não agora. Espere a hora certa.


Fjorn respirou fundo, o peito subindo e descendo em ondas pesadas, antes de finalmente recuar. Ele cuspiu no chão, virando-se bruscamente e marchando em direção à escadaria.


Miló o seguiu, lançando um último olhar para o Big Ben—um olhar que carregava algo entre desprezo e diversão—antes de desaparecer nas sombras da escada.


Atrás deles, os ciborgues já começavam a trabalhar nos cadáveres, serras elétricas zumbindo, brocas perfurando ossos, tubos sendo enfiados em torsos abertos. O som era uma sinfonia de horror mecânico.


O navio de Adrian estava ancorado em uma enseada oculta, completamente camuflado por feitiços de ilusão que o faziam parecer nada mais que uma formação rochosa coberta de musgo. A luz do sol da tarde mal penetrava o interior do convés inferior, onde Adrian aguardava, sentado em uma cadeira de couro negro, os dedos tamborilando ritmicamente no braço.


Milena estava ao seu lado, em pé, o olho direito fixo na porta. Ashka limpava as lâminas de suas manoplas com um pano manchado de sangue de muito tempo atrás, assobiando uma melodia desafinada. Celindra permanecia no canto, os braços cruzados, o rosto uma máscara de tensão contida.


A porta se abriu com um rangido, e Miló entrou primeiro, seguido por Fjorn, que ainda parecia prestes a explodir.


Adrian ergueu o olhar, a expressão impassível.


— E então?


Miló se aproximou, o sorriso cínico intacto.


— Missão cumprida. Big Ben está comendo na palma da nossa mão. Ele aceitou o acordo. Segunda-feira, os Ponteiros vão transformar Cinderhelm em um inferno.


Adrian assentiu lentamente, os dedos parando de tamborilar.


— Bom. — Ele se inclinou para frente, os olhos cravando-se em Miló com intensidade gelada. — E os dispositivos? Vocês implantaram os dispositivos nos cadáveres como eu solicitei?


Miló puxou um pequeno controle remoto do bolso, erguendo-o para que Adrian pudesse ver. O aparelho era compacto, feito de metal negro polido, com uma série de botões e uma tela digital que piscava em azul pálido.


— Cada cadáver está equipado com um disruptor de frequência neural. — Miló explicou, a voz carregada de satisfação profissional. — Cipher fez um trabalho impecável. Esses dispositivos são sintonizados especificamente para as frequências neurais dos ciborgues dos Ponteiros. Assim que os corpos forem transformados e reanimados, os disruptores estarão ativos. Se Big Ben tentar nos trair, ou se precisarmos mudar o plano...


Ele pressionou um dos botões, e a tela piscou em vermelho.


— ... Um único comando, e todos os ciborgues equipados com os disruptores vão espalhar a frequência aos demais, e então estarão sob nosso controle. Completo e absoluto.


Adrian se recostou na cadeira, um sorriso frio e calculado se formando em seus lábios.


— Perfeito. — Ele cruzou as pernas, os olhos brilhando com satisfação. — Não confio em seres repugnantes como aqueles. O Big Ben é útil, mas previsível. Fanáticos sempre são. Eles acreditam em algo maior que eles mesmos, o que os torna... manipuláveis.


Milena inclinou a cabeça levemente, a voz baixa e neutra.


— E se ele descobrir os dispositivos antes da segunda-feira?


Adrian balançou a cabeça, desdenhoso.


— Não vai. Cipher projetou os disruptores para serem indetectáveis até que sejam ativados. Eles são feitos com base em nanotecnologia, penetram na pele como uma segunda camada tão pequena que é imperceptível mesmo com visores como os que usam.


Ashka soltou uma risada rouca, guardando as manoplas.


— Então, basicamente, estamos transformando os servos dele em nossos servos. Genial. Esquisito, mas genial.


Fjorn, ainda de pé perto da porta, cruzou os braços massivos.


— Eu ainda quero esmagar aquela máquina maldita. A forma como ele falou conosco...


Adrian ergueu uma mão, cortando-o.


— Paciência, Fjorn. Você terá sua chance. Mas não antes de segunda-feira. Precisamos dos Ponteiros para criar o caos que nos dará cobertura. Depois disso... — Ele pausou, o sorriso se alargando. — … depois disso, você pode fazer o que quiser com Big Ben.


Fjorn rosnou baixo, mas assentiu.


Adrian se levantou, caminhando até a janela do convés e olhando para a silhueta distante de Cinderhelm, onde as chaminés cuspiam fumaça e os bondes cortavam o céu como veias de metal.


— Tudo está se encaixando. — murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. — Os Ponteiros atacarão. A Guarda de Ferro será forçada a responder. E enquanto a cidade queima... nós entraremos, pegaremos o Núcleo Arcanum, e sairemos antes que alguém perceba.


Ele virou-se, encarando cada membro de seu grupo.


— Segunda-feira será o dia em que Cinderhelm cai. E nós estaremos lá para colher os pedaços.


O silêncio que se seguiu era denso, carregado de expectativa e violência iminente.


[.]


Em um beco estreito entre dois armazéns abandonados, iluminado apenas pela luz fraca de uma lanterna a óleo pendurada em um gancho enferrujado, dois homens se encontravam.


O primeiro era magro, nervoso, com olhos que não paravam de se mover, sempre checando as sombras ao redor. Suas roupas eram surradas, manchadas de graxa e fuligem, e ele segurava um chapéu gasto entre as mãos trêmulas. O informante.


O segundo era uma presença que dominava o espaço ao redor dele, mesmo em silêncio.


Seu nome? Ironhide.


Ele era imenso—quase dois metros de altura, com ombros largos como vigas de aço e músculos que pareciam esculpidos em pedra roxa vibrante. Sua pele tinha uma tonalidade antinatural, um roxo profundo que brilhava levemente sob a luz fraca, resultado da substância tóxica que os Ponteiros haviam injetado nele anos atrás. Veias escuras serpenteavam sob a superfície da pele, pulsando com cada batida do coração.


Mas o que realmente chamava atenção era o rosto.


Onde deveria haver pele, músculos e expressões humanas, havia apenas uma máscara de ferro brutalmente soldada ao crânio. A máscara era simples, sem ornamentos—apenas placas grossas de metal negro que cobriam completamente o rosto, deixando apenas duas fendas estreitas para os olhos, que brilhavam em vermelho incandescente, como brasas vivas. Não havia boca visível, apenas uma grade de ventilação na altura da mandíbula, de onde escapava uma respiração pesada e metálica.


Ele vestia um longo casaco de couro reforçado, coberto de placas de metal improvisadas que serviam como armadura. Nas mãos enormes, usava luvas de ferro cravejadas com rebites, e na cintura pendia uma corrente grossa que terminava em um gancho de carne—uma ferramenta tanto de trabalho quanto de tortura.


Ironhide cruzou os braços massivos, os olhos vermelhos fixos no informante.


— Fala. — A voz que saiu de trás da máscara era distorcida, rouca, como se passasse por um filtro de metal antes de emergir.


O informante engoliu seco, ajeitando o chapéu nas mãos nervosas.


— E-Eu vi, Ironhide! Vi com meus próprios olhos…! Dois homens... carregando corpos da EosMist... Corpos queimados, mas ainda... ainda inteiros o suficiente. Eles os levaram para baixo. Para o covil…


Ironhide não se moveu, mas a respiração pesada atrás da máscara ficou mais lenta, mais deliberada.


— Quantos corpos?


— Vinte... talvez trinta? Ou mais... — O informante tremeu, limpando o suor da testa. — Eles eram rápidos. Eficientes. Não pareciam amadores ou… sequer daqui…


Ironhide deu um passo à frente, e o informante recuou instintivamente, as costas batendo contra a parede de metal enferrujado do armazém.


— Descreve eles.


O informante respirou fundo, tentando organizar os pensamentos.


— Um deles era... magro. Ágil. Cabelo vermelho, com um visor bem diferenciado nos olhos. Ele se movia como uma cobra, sabe? O outro era... o oposto. Grande. Todo tatuado e sem nada da cintura pra cima. Ele carregava os corpos como se fossem sacos de penas. E tinha uma... uma presença estranha. Não parecia ser totalmente humano.


Ironhide processou as informações em silêncio, os olhos vermelhos brilhando mais intensamente.


— E o ataque à EosMist? Por que ela?


O informante balançou a cabeça, desesperado.


— Eu não sei! Ninguém sabe! A EosMist nunca se envolveu com os Ponteiros. Eles sempre mantiveram distância de todos—das gangues, dos nobres, de todo mundo. Por isso que não faz sentido! Por que atacar eles agora?


Ironhide ficou em silêncio por um longo momento, os punhos se fechando lentamente. A corrente em sua cintura tilintou suavemente com o movimento.


— Tem coisa aí. — murmurou, mais para si mesmo do que para o informante. — Big Ben não faz nada sem razão. Se ele está pegando corpos da EosMist, é porque precisa de algo específico. Trabalhadores treinados. Corpos fortes. Espécimes de qualidade.


Ele virou-se bruscamente, encarando o informante com intensidade suficiente para fazer o homem encolher.


— Você não fala disso com ninguém. Entendeu? Ninguém além de mim. Isso é pessoal.


O informante assentiu freneticamente.


— S-Sim, sim! Eu juro! Ninguém vai saber!


Ironhide puxou uma bolsa de couro da cintura e a jogou aos pés do informante. A bolsa bateu no chão com um tinir pesado de moedas.


— Descobre mais. — ordenou, a voz fria e autoritária. — Quero saber por que a EosMist foi alvo. Quero saber quem são esses dois homens. Onde estão. Com quem trabalham. Detalhes. Tudo.


O informante pegou a bolsa com mãos trêmulas, abrindo-a brevemente para confirmar o conteúdo. Seus olhos se arregalaram ao ver a quantidade de dinheiro dentro—mais do que ele ganharia em seis meses de trabalho honesto.


— E-Eu vou descobrir! Prometo! Vou trazer tudo que conseguir!


Ironhide assentiu lentamente, então se virou, caminhando em direção à saída do beco. Antes de desaparecer nas sombras, ele parou, virando a cabeça levemente para trás.


— Se Big Ben está trabalhando com humanos... — A voz saiu baixa, carregada de uma raiva fria e controlada. — … tem algo maior acontecendo. Terrorismo industrial, talvez. Ou pior.


Ele cerrou os punhos, a corrente em sua cintura balançando.


— Mas de uma coisa eu tenho certeza: aquela aberração não vai continuar com essa religião doentia. Não enquanto eu estiver vivo.


E então, Ironhide desapareceu na escuridão, deixando apenas o eco de seus passos pesados e o brilho vermelho de seus olhos se dissipando na noite.


O informante ficou sozinho no beco, segurando a bolsa de moedas contra o peito, o coração disparado. Ele sabia que acabara de aceitar um trabalho perigoso—talvez o mais perigoso de sua vida. Mas também sabia que, se alguém podia enfrentar os Ponteiros e viver para contar a história, era Ironhide.


Ele guardou a bolsa sob o casaco e saiu do beco, desaparecendo nas ruas labirínticas do Distrito das Sucatas, já planejando seus próximos passos.


Enquanto isso, nas sombras acima, Ironhide escalava os telhados enferrujados com agilidade surpreendente para seu tamanho. Seus olhos vermelhos varriam a cidade abaixo, focados, implacáveis.


Os Ponteiros tinham tirado tudo dele. Sua família. Seu rosto. Sua humanidade.


Mas não tinham tirado sua vontade de viver. E não tinham tirado sua sede de vingança.


Se Big Ben estava planejando algo grande, algo que envolvia aliados externos e ataques coordenados, então Ironhide precisava saber. Precisava entender. Porque se ele não agisse, mais famílias seriam destruídas. Mais vítimas seriam arrastadas para aquele inferno subterrâneo e transformadas em monstros mecânicos.


E Ironhide tinha jurado—sobre os corpos desfigurados de sua esposa e filhos—que isso nunca aconteceria novamente. Não enquanto ele respirasse.


Ele parou no topo de uma chaminé alta, olhando para o horizonte onde o Big Bang se erguia, sua torre colossal dominando o céu noturno de Cinderhelm.


— Não sei o que você está planejando, Big Ben. — murmurou, a voz distorcida ecoando na noite. — Mas eu garanto que você não vai viver pra ver seja lá o que for se concluir…


A corrente em sua cintura balançou ao vento, o gancho de carne refletindo a luz pálida da lua, antes de saltar do topo da chaminé para dentro da escuridão das ruas abaixo.


[.]


A fachada do Hospital Central de Cinderhelm era uma obra-prima de arquitetura vitoriana adaptada ao estilo steampunk—colunas de mármore branco entrelaçadas com tubos de cobre polido, janelas de vidro fosco emolduradas em bronze, e uma entrada ampla protegida por um toldo de ferro forjado que exalava vapor aquecido para manter o frio da noite afastado. Era o tipo de lugar onde apenas os mais ricos e influentes de Cinderhelm recebiam tratamento, onde cada quarto era equipado com as mais avançadas tecnologias médicas da cidade.


E, naquela noite, estava sitiado por repórteres.


Dezenas deles se aglomeravam na entrada, segurando blocos de anotações, câmeras portáteis de flash de magnésio e gravadores mecânicos que zumbiam ao capturar cada palavra. Eles se empurravam, gritavam perguntas uns sobre os outros, criando um muro caótico de vozes e flashes de luz que transformavam a entrada do hospital em um circo.


Quando Alexandros Carbone emergiu da carruagem que o trouxera, o caos explodiu.


— Senhor Carbone! Senhor Carbone! — gritou um repórter, empurrando um microfone em forma de cone na direção do elfo. — Onde o senhor esteve durante a explosão? Por que não estava ao lado de seu irmão?


— É verdade que o senhor abandonou suas responsabilidades na EosMist? — disparou outro, uma mulher de óculos redondos e cabelo preso em coque apertado. — Os trabalhadores estão dizendo que o senhor desapareceu há semanas!


— Como o senhor se sente sabendo que Caesar quase morreu enquanto o senhor estava ausente? — berrou um terceiro, segurando uma câmera que disparou um flash cegante diretamente no rosto de Alexandros.


Alexandros cerrou os dentes, a mandíbula travando enquanto avançava em direção à entrada. Ele empurrou o primeiro repórter com o ombro, depois o segundo, abrindo caminho à força enquanto as perguntas continuavam chovendo sobre ele como projéteis verbais.


— Senhor Carbone, o senhor tem algo a dizer sobre as acusações de negligência?


— Vai assumir o controle da EosMist agora que Caesar está incapacitado?


— É verdade que a explosão foi causada por sabotagem interna?


Alexandros parou abruptamente, girando nos calcanhares para encarar o repórter que fizera a última pergunta—um homem baixo, de bigode fino e expressão arrogante. Os olhos de Alexandros faiscaram, a raiva contida ameaçando transbordar.


— Se você tivesse um pingo de decência — disse, a voz baixa mas carregada de veneno — saberia que agora não é hora de fazer perguntas idiotas.


Ele virou-se novamente e empurrou as portas duplas do hospital, entrando no saguão principal e deixando os repórteres do lado de fora, suas vozes abafadas pelo vidro grosso.


O interior do hospital era silencioso em comparação ao caos lá fora. O chão de mármore polido refletia a luz suave das lâmpadas a gás que pendiam do teto alto, e o ar cheirava a antisséptico e vapor medicinal. Enfermeiras vestidas em uniformes brancos impecáveis se moviam com eficiência, empurrando carrinhos de equipamentos ou carregando pranchetas cheias de anotações.


Alexandros marchou diretamente para o balcão de recepção, onde uma enfermeira jovem de cabelos castanhos presos em um coque estava organizando fichas de pacientes. Ela ergueu os olhos ao vê-lo se aproximar, e sua expressão mudou imediatamente de neutra para surpresa.


— Senhor Carbone! Eu—


— Onde está meu irmão? — cortou Alexandros, a voz firme e autoritária. — Caesar Carbone. Onde ele está?


Antes que a enfermeira pudesse responder, uma voz irritada veio de trás dele.


— Ei! Eu estava na frente da fila!


Alexandros virou-se lentamente, encarando o homem que reclamava—um cidadão de meia-idade, vestido em roupas respeitáveis mas não aristocráticas, segurando um chapéu entre as mãos. O homem deu um passo à frente, o rosto vermelho de indignação.


— Você não pode simplesmente—


Alexandros estendeu a mão, colocando a palma aberta no rosto do homem e empurrando-o para trás com força suficiente para fazê-lo cambalear e bater contra a parede. O chapéu caiu no chão.


— Cala a boca. — disse Alexandros, a voz gelada.


O homem ficou paralisado, os olhos arregalados, enquanto Alexandros se virava de volta para a enfermeira, que agora estava pálida e claramente abalada.


— O número do quarto. Agora.


Ela engoliu seco, folheando rapidamente as fichas até encontrar a correta.


— Q-Quarto 304. Terceiro andar, ala leste.


Alexandros não esperou por mais nada. Ele girou nos calcanhares e marchou em direção à escadaria, subindo os degraus de dois em dois, o coração batendo pesado no peito.


O corredor do terceiro andar era silencioso, iluminado por lâmpadas a gás que emitiam uma luz suave e amarelada. As portas dos quartos eram numeradas em placas de bronze polido, e o cheiro de antisséptico era ainda mais forte aqui.


Alexandros parou diante da porta com o número 304 gravado na placa. Ele respirou fundo, a mão tremendo levemente ao segurar a maçaneta.


Então, abriu a porta bruscamente.


O quarto era espaçoso, equipado com as mais avançadas tecnologias médicas que Cinderhelm podia oferecer. Tubos de vapor conectados a máquinas de respiração artificial zumbiam suavemente, bombeando ar purificado para os pulmões do paciente. Um monitor mecânico ao lado da cama exibia o batimento cardíaco em ondas rítmicas, cada pico acompanhado por um bip metálico.


E na cama, envolto em bandagens que cobriam quase todo o corpo, estava Caesar Carbone.


Alexandros ficou paralisado na soleira da porta, os olhos arregalados.


O rosto de Caesar estava parcialmente coberto por bandagens, deixando apenas os olhos e a boca visíveis. Tubos saíam de seu nariz e boca, conectados à máquina de respiração. Seu peito subia e descia lentamente, mecanicamente, como se cada respiração fosse um esforço monumental. As mãos, antes fortes e capazes, estavam envoltas em gaze manchada de vermelho.


Alexandros deu um passo à frente, a garganta fechando.


— Caesar...


Antes que pudesse se aproximar mais, uma mão firme segurou seu ombro, puxando-o para trás.


— Senhor Carbone, por favor. — A voz era calma mas autoritária. Alexandros virou-se, encarando um homem de meia-idade vestido em jaleco branco impecável, com óculos redondos e cabelo grisalho penteado para trás. O doutor.


— Solte-me. — rosnou Alexandros, tentando se livrar do aperto.


O doutor não soltou, mantendo o tom firme mas empático.


— Eu entendo que o senhor está preocupado, mas o paciente está em estado de repouso. Ele ainda está sob efeito de anestésicos pesados. Não pode interagir com ninguém neste momento.


Alexandros olhou de volta para Caesar, os punhos se fechando com força suficiente para fazer as juntas estalarem.


— Ele... ele vai ficar bem?


O doutor hesitou, então suspirou, soltando o ombro de Alexandros.


— A explosão foi... catastrófica. Seu irmão sofreu queimaduras de terceiro grau em 40% do corpo, fraturas múltiplas nas costelas e no braço esquerdo, e trauma pulmonar severo. O coração dele parou duas vezes durante o transporte. Se não fosse pela intervenção imediata dos civis que o tiraram dos escombros, ele não teria sobrevivido.


Alexandros sentiu o chão fugir sob seus pés. Ele recuou lentamente, as costas batendo contra a parede do quarto.


— Duas vezes... — murmurou, a voz rouca. — O coração dele parou duas vezes...


O doutor assentiu, a expressão sombria.


— Conseguimos estabilizá-lo, mas o estado dele é crítico. Ele vai precisar de semanas, talvez meses, de recuperação. E mesmo assim... — Ele pausou, ajeitando os óculos. — … não posso garantir que ele voltará a ser o mesmo.


Alexandros fechou os olhos, a respiração tremendo.


— Eu preciso... preciso falar com ele.


— Não agora. — O doutor colocou uma mão no ombro de Alexandros, gentil mas firme. — Venha comigo. Vamos conversar em um lugar mais privado.


Alexandros abriu os olhos, olhando mais uma vez para Caesar—seu irmão, seu melhor amigo, a única família que realmente importava—antes de finalmente assentir.


O doutor acenou para a enfermeira que estava no canto do quarto, uma jovem de cabelos loiros presos em um coque.


— Fique de olho no paciente. Qualquer mudança, me chame imediatamente.


— Sim, doutor. — respondeu ela, assentindo.


O doutor então guiou Alexandros para fora do quarto, fechando a porta suavemente atrás deles.


A sala privada era pequena mas confortável, com duas cadeiras de couro, uma mesa baixa de madeira, e uma janela que dava para as ruas movimentadas de Cinderhelm lá embaixo. O doutor fechou a porta, garantindo privacidade, antes de se sentar em uma das cadeiras e indicar a outra para Alexandros.


Alexandros não se sentou. Ele ficou de pé, os braços cruzados, o maxilar travado.


O doutor suspirou, tirando os óculos e limpando-os com um pano.


— Seu irmão é um lutador, senhor Carbone. Ele sobreviveu ao impossível. Mas... — Ele colocou os óculos de volta, encarando Alexandros com seriedade. — ...ele vai precisar de apoio. De alguém em quem confie. Alguém que esteja presente.


Alexandros apertou os punhos, a culpa corroendo suas entranhas como ácido.


— Eu deveria estar lá. — murmurou, a voz quebrando. — Eu deveria ter protegido ele.


O doutor balançou a cabeça.


— Não há como prever uma tragédia como essa. O que importa agora é o que o senhor fará daqui para frente.


O doutor entrelaçou os dedos sobre a mesa, inclinando-se levemente para frente. A luz suave da lâmpada a gás refletia nos óculos redondos, ocultando parcialmente seus olhos enquanto ele escolhia as palavras com cuidado.


— Senhor Carbone, preciso ser direto com o senhor. — Sua voz era calma, profissional, mas carregava o peso de quem já havia visto muitos pacientes à beira da morte. — Seu irmão está estável no momento, mas os danos são extensos. A recuperação natura, realisticamente falando, levará, no mínimo, um ano. E mesmo assim, não há garantias de que ele recupere completamente a mobilidade ou a função pulmonar.


Alexandros permaneceu imóvel, os olhos fixos no doutor, a mandíbula travada.


O doutor continuou.


— No entanto, temos opções. Opções que podem acelerar drasticamente o processo de recuperação. — Ele pausou, ajeitando os óculos. — Tratamento intravenoso mágico. Poções regenerativas de alta potência. Esses métodos podem reparar a maior parte dos danos em questão de semanas, ao invés de meses.


Alexandros sentiu um lampejo de esperança atravessar o peito, mas manteve a expressão controlada.


— Então faça isso. Agora.


O doutor ergueu uma mão, interrompendo-o.


— Não é tão simples, senhor Carbone. Antes de prosseguir, preciso de sua autorização formal, já que Caesar está incapacitado de tomar decisões no momento. E, mais importante... — Ele abriu uma prancheta sobre a mesa, revelando formulários médicos detalhados. — ...preciso saber se seu irmão tem algum histórico de problemas relacionados ao uso de magia em seu organismo.


Alexandros franziu o cenho.


— Problemas? Que tipo de problemas?


O doutor suspirou, recostando-se na cadeira.


— A essência de Arcanum—a magia em si—é uma força poderosa, mas também volátil. Nem todos os organismos reagem bem a ela, especialmente aqueles que não estão habituados ao seu uso regular. Alguns pacientes desenvolvem rejeição mágica, onde o corpo trata a essência como uma toxina e tenta expulsá-la, causando febre alta, convulsões, ou até falência de órgãos. Outros sofrem de sobrecarga arcana, onde o sistema nervoso é sobrecarregado pela energia mágica, resultando em danos cerebrais permanentes.


Alexandros sentiu o estômago revirar.


— E... qual é a taxa de sucesso?


— Para pacientes saudáveis, sem histórico de rejeição, a taxa de sucesso é de aproximadamente 92%. — O doutor pausou, os olhos sérios. — Mas para pacientes em estado crítico, como Caesar, o risco aumenta. Não posso garantir que não haverá complicações.


Alexandros fechou os olhos, respirando fundo. A imagem de Caesar envolto em bandagens, entubado, quase morto, queimava em sua mente.


— Ele... ele usa magia. — disse finalmente, abrindo os olhos. — Não muito, mas usa. Suplementos importados de Eldorwyn para manter a juventude. Ele tem 64 anos, mas parece ter 40. Nunca usou poções regenerativas, mas os suplementos funcionam com base em essência de Arcanum, então... deve ser a mesma coisa, certo?


O doutor assentiu lentamente, fazendo anotações na prancheta.


— Sim, os suplementos de longevidade funcionam de maneira similar. Se ele os usa regularmente sem efeitos colaterais, isso é um bom sinal. Significa que o organismo dele é compatível com a essência de Arcanum. — Ele pausou, erguendo os olhos. — Mas ainda assim, por precaução, vou realizar uma bateria completa de exames antes de recorrer a meios sobrenaturais. Teste de compatibilidade arcana, análise de sangue para detectar qualquer traço de rejeição, monitoramento neural... Tudo para garantir que o tratamento seja seguro.


Alexandros assentiu, a tensão em seus ombros diminuindo levemente.


— Quanto tempo vão levar os exames?


— Algumas horas. Talvez até amanhã de manhã, dependendo dos resultados. — O doutor fechou a prancheta, colocando-a de lado. — Mas há outro fator que preciso mencionar, senhor Carbone.


Alexandros arqueou uma sobrancelha.


— Qual?


O doutor hesitou, então disse com cautela:


— Custo. Tratamento mágico de alta potência não é barato. Poções regenerativas de grau médico custam milhares de coroas cada. Tratamento intravenoso contínuo pode facilmente chegar a dezenas de milhares. E Cinderhelm... bem, não é exatamente conhecida por sua expertise em magia. A maioria dos recursos precisa ser importada de Eldorwyn ou de outras nações mágicas, o que aumenta ainda mais o preço.


Ele pausou, ajeitando os óculos novamente.


— Estou falando de uma quantia significativa de recursos, senhor Carbone. Talvez até mais do que a EosMist possa cobrir no momento, considerando os danos da explosão.


Alexandros não hesitou. Sua voz saiu firme, inabalável.


— Custo não é um problema. — Ele se inclinou para frente, os olhos cravados nos do doutor. — Eu não me importo se custa cem mil coroas ou um milhão. Faça o que for necessário para salvar meu irmão. Entendeu?


O doutor piscou, surpreso pela determinação absoluta na voz de Alexandros. Então, lentamente, assentiu.


— Entendido, senhor Carbone. Vou começar os exames imediatamente e, se tudo estiver dentro dos parâmetros, iniciarei o tratamento mágico assim que possível.


Ele se levantou, pegando a prancheta e caminhando em direção à porta. Antes de sair, parou, virando-se para Alexandros.


— Senhor Carbone... eu recomendo que permaneça no hospital até que os exames estejam completos. Ou, se preferir, pode sair pelos fundos. Aqueles abutres lá fora... — Ele fez uma careta. — ...não vão embora tão cedo. Sei que deve ser sufocante.


Alexandros balançou a cabeça, cruzando os braços.


— Vou esperar pelos exames. Não vou sair daqui até saber que Caesar está seguro.


O doutor assentiu, respeitoso.


— Como desejar. Vou mantê-lo informado sobre qualquer mudança.


E então, ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.


Alexandros ficou sozinho na sala privada, o silêncio pesando sobre ele como uma mortalha. Ele caminhou até a janela, olhando para as ruas de Cinderhelm lá embaixo, onde as luzes a gás brilhavam como estrelas fracas contra o céu escurecido pela fumaça das chaminés.


Seus punhos se fecharam, as unhas cravando-se nas palmas.


Blackwell.


O nome ecoava em sua mente como um sino de morte.


Ele sabia. Sabia no fundo de sua alma que Luther Blackwell estava por trás da explosão. Não havia outra explicação. A EosMist era a única corporação que ainda ousava desafiar o monopólio de Blackwell sobre Cinderhelm. E agora, com Caesar incapacitado, a EosMist estava vulnerável.


Ele quase matou meu irmão.


A raiva fervia em suas veias, quente e venenosa. Mas Alexandros a forçou para baixo, canalizando-a em determinação fria.


Não agora. Ainda não.


Ele tinha um plano. Adam tinha um plano. E se tudo corresse bem, Blackwell pagaria por tudo que havia feito.


Mas primeiro, Caesar precisava sobreviver.


Alexandros se afastou da janela, sentando-se em uma das cadeiras de couro e apoiando o rosto nas mãos. A exaustão finalmente começava a pesar sobre ele, dias de tensão e preocupação cobrando seu preço.


Ele fechou os olhos, respirando fundo.


Anastasia.


O nome cortou através do nevoeiro de sua preocupação como um relâmpago.


Como ele pudera esquecer? A irmã deles. Sua gêmea mais velha. A rocha da família após a partida da mãe para Eldorwyn, e depois... o afastamento. O silêncio pesado que se instalou entre eles nos últimos anos, um abismo cavado por responsabilidades divergentes e palavras não ditas.


Será que ela sabia? Os jornais já estavam gritando a notícia, afinal. Mas Anastasia sempre viveu em uma espécie de reclusão elegante em sua propriedade nos arredores da cidade, imersa em seus estudos artísticos e evitando o turbilhão social de Cinderhelm. Ela poderia muito bem estar alheia ao desastre.


Ele não podia deixar Caesar aqui, à beira da morte, sem que ela soubesse. Ela tinha o direito de saber. A família precisava se reunir, mesmo que fosse sobre os escombros de tudo.


Com uma determinação renovada, Alexandros abriu a janela, deixando o ar frio e carregado de cheiro metálico da cidade invadir a sala. Fechou os olhos, bloqueando o mundo exterior.


Dentro dele, a energia do Raio, sua herança arcana, começou a agitar-se. Era uma força viva, tempestuosa e poderosa, que ele havia domado e moldado anos atrás. Ele a sentia fluir de seu núcleo, subindo por seus braços, concentrando-se em suas mãos erguidas.


Sussurros em Élfico Antigo, a língua dos elementos, escaparam de seus lábios. Palavras de invocação. O ar ao redor de suas mãos começou a crepitar, e pequenos arcos de eletricidade azulada dançaram entre seus dedos.


Então, com um estalo seco que pareceu partir o próprio ar, a energia explodiu em um flash ofuscante de branco-azulado.


Quando a luz se dissipou, pairando no ar diante dele, estava Pietersita.


A ave era magnífica. Do tamanho de um gavião-real, suas penas eram um misto de marrom, âmbar e dourado, mas cada uma delas cintilava e pulsava com uma luz elétrica interna. Seus olhos eram duas esferas de puro relâmpago, brancas e cegantes, e suas garras e bico pareciam forjados em bronze vivo, com faíscas saltando de suas pontas. Ela não batia as asas; flutuava, sustentada pela energia pura que a compunha, um leve zumbido emanando de sua forma.


Alexandros abriu os olhos, uma gota de suor escorrendo de sua têmpora. Invocar Pietersita exigia foco, ainda mais para o que ele ia pedir.


Ele estendeu a mão, não para tocá-la—sua forma era de energia semi-sólida, perigosa ao toque—mas em um gesto de conexão.


— Prole do vento e trovão. — sussurrou, agora em comum, mas com a intenção carregando o significado. — Ouça minhas palavras.


Ele fechou os olhos novamente, e concentrou-se. Assim, uma frase formou-se em seus pensamentos:


"Irmã. Caesar foi ferido. Gravemente. Ele está no Hospital Central. Precisa de nós. Por favor, venha."


Ele sentiu a mensagem, compactada e carregada de emoção, fluir de sua mente através do vínculo que compartilhava com o elemental. Pietersita emitiu um som agudo, como o ruído de um transformador sobrecarregado, e seus olhos de relâmpago brilharam mais intensamente por um segundo, absorvendo a carga mental.


Alexandros abriu os olhos, ofegante. O esforço deixara sua cabeça latejando.


— Vá — ordenou ele, sua voz rouca. — Para Anastasia. Leve isso até ela.


Pietersita não hesitou. Com um movimento que era mais um disparo do que um voo, a ave de raio virou-se e lançou-se pela janela aberta. Ela não cruzou o céu como um pássaro comum; ela cortou o ar, deixando para trás um rastro momentâneo de luz azulada, desaparecendo na direção dos distritos nobres num piscar de olhos.


Alexandros ficou à janela, observando o ponto de luz sumir no horizonte.


Agora, era esperar.


[.]


A sala de estar nos fundos da barbearia de Bertram era um estranho museu aos olhos de Alstroemeria.


Haviam tubos de cobre que serpenteavam pelas paredes, conectando válvulas de pressão a caldeiras compactas que zumbiam suavemente, aquecendo a água que alimentava os radiadores espalhados pelo cômodo. Um forno a lenha de ferro fundido ocupava um canto, sua porta de vidro grosso revelando as brasas alaranjadas que crepitavam dentro. Engrenagens decorativas—algumas funcionais, outras puramente estéticas—adornavam as paredes como troféus industriais.


Alstro estava absolutamente fascinado.


O fada movia-se pela sala com os olhos arregalados, tocando discretamente em tudo que podia—passando os dedos pelas válvulas de latão polido, inclinando-se para observar o medidor de pressão do radiador, chegando perigosamente perto do forno antes de Porto intervir.


— Alstro. — chamou Porto, a voz carregada de exasperação. — Você nunca viu um forno na vida?


Alstro virou-se, os olhos ainda brilhando de curiosidade infantil.


— Não assim! — respondeu ele, apontando para o aparelho. — Os das fadas ainda são os tradicionais de pedra! Nós não temos... tubos, válvulas, medidores de pressão... Nós só acendemos a lenha no forno de pedra, e esperamos!


Porto levou a mão à testa, dando um tapa sonoro.


— Puta merda. — murmurou, balançando a cabeça. — Eu fiquei tempo demais fora do Leste de Zaratharn. Tinha esquecido completamente que vocês ainda vivem na literal Era Medieval.


Alstro franziu o cenho, cruzando os braços.


— Não é medieval! É... tradicional! Sustentável. Respeitoso com a natureza.


— É atrasado. — retrucou Porto, sorrindo cinicamente. — Até Eldorwyn tem um pouco de tecnologia hoje em dia, cara. Vocês estão ficando pra trás.


Alstro abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um som metálico vindo da mesa próxima.


Astrid estava sentada à mesa de madeira escura, seu braço esquerdo desacoplado e apoiado sobre um pano limpo.


O membro mecânico estava aberto, revelando uma rede complexa de fios, engrenagens miniaturizadas e placas de circuito que brilhavam em azul pálido. Pequenos arcos de eletricidade saltavam entre os componentes enquanto ela trabalhava com precisão cirúrgica.


Ao lado dela, A.G.U.A—o pequeno caranguejo aquático de neon—estava conectado ao braço por uma série de cabos finos que saíam de sua carapaça metálica. Luzes piscavam ritmicamente enquanto ele processava informações, e um líquido prateado e viscoso fluía lentamente pelos cabos, sendo injetado diretamente nos componentes internos do braço.


Porto se aproximou, observando a cena com uma mistura de fascínio e confusão.


— O que diabos você está fazendo? — perguntou, inclinando-se para ver melhor.


Astrid não ergueu os olhos, mantendo o foco absoluto em sua tarefa.


— A.G.U.A está transferindo fluidos metálicos produzidos a partir da ingestão de variados metais obsoletos coletados ao redor da residência de Bertram. — explicou ela, a voz monótona e precisa. — Esses fluidos são então utilizados para regenerar danos internos e reforçar componentes desgastados. É uma das vantagens da nanotecnologia.


Porto piscou, processando as palavras.


— … Eu não entendi nada do que você acabou de falar.


Astrid pausou brevemente, virando a cabeça para encará-lo.


— Simplificando: A.G.U.A comeu metal velho. Transformou em líquido. Líquido conserta meu braço.


Porto assentiu lentamente.


— Ah. Tá. Isso faz mais sentido.


Do outro lado da mesa, Adam estava sentado, observando o processo com genuíno interesse. Seus olhos percorriam os movimentos precisos de Astrid, a forma como ela manipulava os componentes sem hesitação, a eficiência quase hipnótica da nanotecnologia em ação.


— Eu já ouvi falar sobre isso muitas vezes. — disse Adam, apoiando o queixo na mão. — Principalmente quando estava no início da carreira de inventor, procurando inspiração para o Núcleo Arcanum. A nanotecnologia é uma das tecnologias mais avançadas do mundo. Foi o que realmente deu independência industrial a Neonith... e o que tornou os neonithianos tão paranoicos de achar que os outros reinos tentariam tomá-la deles.


Ele pausou, olhando para Astrid.


— Sem ofensas.


Astrid não pareceu afetada.


— Não me ofendi. É a verdade. — Ela reconectou um dos fios internos do braço, e uma luz verde piscou, indicando sucesso. — Embora existam tecnologias mais avançadas do que a nanotecnologia.


Adam arqueou uma sobrancelha.


— Como assim?


Astrid finalmente ergueu os olhos, encarando-o diretamente.


— As mais poderosas são a Tecnologia de Fusão Orgânica e a Tecnologia Quântica. A primeira permite a integração completa entre matéria biológica e sintética, criando organismos híbridos com capacidades além de qualquer limite natural. A segunda manipula partículas subatômicas para criar efeitos que desafiam as leis da física convencional—teletransporte instantâneo, computação infinita, armas que apagam matéria da existência.


Ela pausou, ajustando um parafuso no braço.


— No entanto, é praticamente impossível ter acesso comercial a qualquer uma dessas tecnologias. A menos que você seja parte da ATC.


Alstro, que havia se aproximado silenciosamente, piscou confuso.


— O que é ATC? — perguntou, tímido.


Porto estalou os dedos, apontando para Astrid com um sorriso.


— Eu já ouvi falar desses caras! É a tal da maior megacorporação de toda Neonith, né?


Astrid assentiu.


— Correto. ATC significa “Advanced Technological Conglomerate”. Eles controlam aproximadamente 88% da produção tecnológica do continente Prince. Dominam setores de armamento, comunicação, transporte, energia e segurança. Sua influência política e econômica é absoluta.


Alstro franziu o cenho, ainda confuso.


— Mas... por que só eles têm acesso a essas tecnologias?


Astrid desconectou A.G.U.A do braço, e o pequeno robô emitiu um bip satisfeito antes de recolher os cabos de volta para sua carapaça. Ela começou a reencaixar o braço em seu ombro, as junções se selando com um clique metálico.


— A resposta é simples. — disse ela, testando os movimentos do braço. — A ATC é a principal força de segurança de todo o continente Prince. Eles fornecem exércitos privados, sistemas de defesa e armas de destruição em massa. Compartilhar suas tecnologias mais avançadas seria equivalente a entregar suas próprias armas particulares a potenciais inimigos. Portanto, mantém monopólio absoluto.


Adam se recostou na cadeira, cruzando os braços. Sua expressão era pensativa, quase sombria.


— Provavelmente é assim que o Conselho das Máquinas pretende fazer com a nova geração de Catalisadores. — murmurou ele, mais para si mesmo do que para os outros. — Se eles conseguissem lançar o projeto, se tornariam mais exclusivos do que jamais foram. Monopólio total sobre a energia arcana mecanizada. Cinderhelm se tornaria a ATC do continente Queen.


Porto soltou um assovio baixo.


— E aí todo mundo ia querer um pedaço. Guerras, sabotagens, invasões... Cinderhelm viraria um alvo gigante.


Adam assentiu lentamente.


— Exatamente. Tudo o que está acontecendo não é só sobre Adrian. É sobre impedir que Cinderhelm se torne o epicentro de um conflito internacional.


Foi então que a porta lateral se abriu, e Koryu entrou com seus passos silenciosos, quase fantasmagóricos.


O espadachim parecia renovado—a postura ereta, os ombros relaxados, os olhos calmos, quatro dos seis estando fechados. A maquiagem que Evelyn aplicara mais cedo ainda estava intacta, dando à sua pele pálida um tom mais humano e saudável.


— Cheguei em má hora? — perguntou ele, inclinando levemente a cabeça.


Porto virou-se bruscamente, os olhos arregalados.


— Onde caralhos voadores você estava?!


Koryu piscou, impassível.


— Meditando ao pôr do sol. — respondeu com a mesma serenidade de sempre. — Precisava colocar a mente no lugar.


Porto abriu a boca, claramente prestes a soltar algum comentário sarcástico, mas Adam o interrompeu com um gesto sutil da mão.


Koryu aproximou-se da mesa, observando brevemente o braço recém-consertado de Astrid antes de voltar sua atenção para Adam.


— Já tiveram notícias de Alexandros?


Adam balançou a cabeça, a expressão preocupada.


— Não. Ele ainda deve estar no hospital. Já fazem horas desde que saiu, e já está quase ficando de noite. — Ele pausou, cruzando os braços. — Estou preocupado.


Alstro, que havia retornado à mesa após sua exploração tecnológica, ergueu os olhos com determinação súbita.


— Nós deveríamos ir lá dar apoio a ele! — declarou, batendo a palma da mão na mesa. — Já estamos disfarçados, afinal!


Porto virou-se para ele, arqueando uma sobrancelha.


— O Adam disse que deveríamos ficar escondidos e focar no plano, lembra?


Alstro abriu a boca para responder, mas Adam se adiantou, surpreendendo a todos.


— Alstro está certo.


Porto piscou, confuso.


— … Sério?


Adam assentiu, levantando-se da cadeira.


— Já estamos disfarçados o suficiente. Já discutimos a tarde inteira acerca do plano. E no período da noite, ninguém vai reparar em mim. Além disso... — Ele pausou, olhando pela janela para as ruas que começavam a se iluminar com as lâmpadas a gás. — … as chances de Adrian ou dos afiliados dele estarem sequer remotamente perto do centro são muito pequenas. Ele provavelmente está se escondendo no Distrito das Sucatas. E Alexandros não pode passar por uma situação difícil como essa sozinho.


Porto soltou um suspiro dramático, jogando as mãos para cima.


— Tá bom, tá bom. Mas se algo der errado, a culpa é do Alstro.


Alstro ficou boquiaberto, indignado.


— O quê?! Por quê?!


— Porque você sugeriu. — retrucou Porto com um sorriso cínico.


— Mas o Adam concordou!


— Exato. Você plantou a ideia. Culpa sua.


Alstro cruzou os braços, o rosto corado de indignação, mas a expressão era tão genuinamente ofendida que beirava o adorável.


Astrid, observando a troca, inclinou a cabeça levemente.


— A lógica de Porto é falha. — comentou ela, monótona. — Responsabilidade compartilhada não pode ser atribuída exclusivamente a um indivíduo com base em sugestão inicial.


Porto revirou os olhos.


— Obrigado, Astrid. Muito útil.


Adam balançou a cabeça, reprimindo um sorriso, e se virou para pegar seu casaco.


— Vamos ao Hospital Central. Precisamos ver como Alexandros está.


Foi então que a porta da barbearia se abriu com um rangido familiar, e Bertram Bellamy entrou, ajeitando o colete e limpando as mãos em um pano manchado de creme de barbear.


Ele havia acabado de fechar o estabelecimento após atender seu último cliente da noite—um nobre que insistira em um corte elaborado que levara quase duas horas.


— Onde vocês vão? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha ao ver o grupo se preparando para sair.


Alstro foi o primeiro a responder, explicando brevemente a situação: Alexandros no hospital, Caesar gravemente ferido, a necessidade de apoio.


Bertram ouviu em silêncio, a expressão ficando gradualmente mais séria. Quando Alstro terminou, o velho barbeiro assentiu uma vez, firme.


— Neste caso, eu também vou.


Adam piscou, surpreso.


— Bertram, você não precisa—


— Alexandros é um bom amigo para mim. — interrompeu Bertram, pegando seu casaco pesado do cabide próximo à porta. — E Caesar também. Se ele está ferido, eu vou estar lá. Ponto final.


Ele enfiou os braços no casaco, ajeitando o colarinho, e então pausou, como se tivesse acabado de lembrar de algo.


— Aliás... — disse ele, virando-se para o grupo. — É melhor passarmos na confeitaria da minha sobrinha, Evelyn, antes de irmos ao hospital.


Porto franziu o cenho.


— Por quê?


Bertram sorriu, um sorriso pequeno mas genuíno.


— Pra pegarmos alguns docinhos pra levar para Caesar. — Ele ajeitou o chapéu sobre a cabeça. — Os Carbone sempre tiveram um dente doce. Se algo vai animá-lo, são os bolos de Evelyn.


Alstro sorriu, tocado pelo gesto.


— Isso é... realmente gentil, Bertram.


O barbeiro deu de ombros, mas havia um brilho caloroso em seus olhos.


— Gentileza é o mínimo que posso oferecer. Agora vamos. Não temos a noite toda.


A caminhada até La Gatita foi rápida. A confeitaria estava localizada a apenas alguns quarteirões da barbearia.


Quando chegaram, a placa pintada à mão—"La Gatita"—balançava suavemente ao vento noturno. As luzes dentro da confeitaria ainda estavam acesas, e através das janelas de vidro, podiam ver Evelyn limpando as mesas, os cabelos loiros presos nas maria-chiquinhas características, o vestido de maid café impecável apesar da hora tardia.


Bertram bateu na porta com os nós dos dedos, e Evelyn ergueu os olhos. Ao vê-lo, seu rosto se iluminou, e ela correu para abrir a porta.


— Tio Bertram! — exclamou ela, abrindo a porta de par em par. — E... oh! — Ela piscou ao ver o grupo completo. — Vocês todos! O que estão fazendo aqui?


Bertram entrou, seguido pelos outros.


— Precisamos de alguns doces, Evelyn. Para Caesar Carbone. Ele está no Hospital Central.


A expressão de Evelyn mudou imediatamente, a alegria dando lugar à preocupação genuína.


— Caesar...? O que aconteceu?


— Explosão na EosMist. — explicou Adam, a voz baixa. — Ele está gravemente ferido, de acordo com as notícias.


Evelyn levou a mão à boca, os olhos arregalados.


— Meu Deus... — Ela balançou a cabeça, recuperando a compostura. — Esperem aqui! Vou preparar uma cesta!


Ela desapareceu nos fundos da confeitaria, e o grupo ouviu o som de pratos sendo movidos, papel sendo amassado, e a voz de Evelyn murmurando para si mesma enquanto trabalhava.


Cinco minutos depois, ela retornou segurando uma cesta de vime forrada com um pano xadrez vermelho e branco. Dentro, havia uma seleção cuidadosa de doces: cupcakes decorados, tortas em miniatura, biscoitos amanteigados e, no centro, um bolo pequeno mas elaborado, coberto com glacê de baunilha e decorado com flores de açúcar.


— Aqui. — disse ela, entregando a cesta a Adam. — Levem isso para ele. E... digam que estou torcendo por ele.


Adam pegou a cesta, tocado pela gentileza.


— Obrigado, Evelyn. Isso significa muito.


Ela sorriu, ruborizando fortemente quando os dedos de ambos se tocaram bem brevemente.


— S-Só não vão arranjar confusão na porra de um hospital, viu?!


Bertram colocou a mão no ombro da sobrinha, apertando gentilmente com uma gargalhada sincera.


— Não prometemos nada! Haha!


O grupo saiu da confeitaria, a cesta de doces segura nas mãos de Adam.


A noite havia caído completamente sobre Cinderhelm, e as ruas estavam mais vazias agora, iluminadas apenas pelos lampiões a gás e pelo brilho distante das chaminés que nunca paravam de cuspir fumaça.


Enquanto caminhavam em direção ao Hospital Central, Koryu quebrou o silêncio.


— Evelyn é uma boa pessoa.


Porto soltou uma risada curta.


— Quando não está arrebentando a cara de alguém, né?


Alstro sorriu, ajeitando a peruca que cobria suas orelhas.


— Você não pode falar muito, Porto! Você também é um duas-caras quando convém!


O grupo continuou o caminho em silêncio pleno desde então.


[.]


O Quartel-General da Guarda de Ferro estava inquieto. Guardas armados patrulhavam os corredores internos, seus passos ecoando em sincronia militar sobre o piso de mármore polido.

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No subsolo do edifício, longe dos olhos curiosos e das orelhas indiscretas, ficava a ala dos Vigias. Era um labirinto de salas de interrogatório, arquivos classificados e câmaras de planejamento estratégico, todas protegidas por múltiplas camadas de segurança.


E em uma dessas salas—pequena, austera, com paredes revestidas de material isolante acústico—duas mulheres se encontravam.


Clara Gildspring estava sentada em uma cadeira de metal simples, as mãos entrelaçadas sobre a mesa à sua frente. Seu rosto normalmente sereno e doce estava tenso, os olhos verdes fixos na figura imponente diante dela.


Helena Draeven permanecia de pé, os braços cruzados, a postura ereta e autoritária. Ela vestia o uniforme completo da Guarda de Ferro—casaco negro de corte militar, ombreiras de bronze gravadas com o emblema da cidade, botas de couro reforçado que subiam até os joelhos. Seu cabelo grisalho estava preso em um coque apertado, e seus olhos esmeraldas examinavam Clara de forma plena.


O silêncio entre elas era pesado, quebrado apenas pelo zumbido distante das máquinas de ventilação.


Clara respirou fundo, preparando-se.


— Comandante Draeven. — começou ela, a voz firme apesar do nervosismo evidente. — Preciso lhe contar algo. Algo que pode mudar tudo.


Helena arqueou uma sobrancelha, mas não se moveu.


— Estou ouvindo.


Clara engoliu seco, então começou.


— Adam Altharion está vivo.


O efeito foi imediato.


Os olhos de Helena se arregalaram, e pela primeira vez em anos, sua máscara de controle absoluto rachou. Ela deu um passo à frente, as mãos batendo na mesa com força suficiente para fazer Clara pular.


— O QUÊ?! — A voz de Helena ecoou pela sala isolada, carregada de choque e incredulidade. — Como isso é possível?! Onde ele esteve esse tempo todo?! Quem o raptou?! Foram os Ponteiros?!


Clara balançou a cabeça rapidamente.


— Não. Não foram os Ponteiros. — Ela pausou, organizando os pensamentos. — Foi... complicado. Deixe-me explicar.


E então, Clara contou tudo.


Ela falou sobre o encontro com Alexandros Carbone, sobre como ele a levara até Adam. Descreveu a aparência transformada do jovem inventor—mais alto, mais forte, mais maduro. Explicou a história que Adam lhe contara: o teleporte misterioso para a Costa Sul de Eldorwyn, o treinamento com o mago Merlin, e, mais importante, a visão apocalíptica do futuro.


Clara detalhou a ameaça que Adrian representava—um homem capaz de se fundir com o Núcleo Arcanum, tornando-se praticamente um deus, dominando o planeta e o destruindo no processo. Explicou que Adam retornara ao presente com um único objetivo: impedir que essa linha do tempo se repetisse.


E então, Clara revelou o plano.


O plano para infiltrar o Big Bang durante o Baile de Máscaras de Blackwell. O plano para destruir o projeto original do Núcleo Arcanum. O plano que ela, Clara Gildspring, agente dos Vigias, havia concordado em apoiar.


Quando terminou, o silêncio voltou a dominar a sala.


Helena permaneceu imóvel, processando tudo. Seus olhos estavam fixos em Clara, mas a mente da comandante claramente trabalhava em velocidade máxima, conectando pontos, avaliando riscos, calculando probabilidades.


Finalmente, ela falou, a voz baixa e perigosamente calma.


— Você está me dizendo que concordou em cometer sabotagem industrial, invasão de propriedade privada, e destruição de tecnologia protegida pelo Conselho das Máquinas... tudo baseado na palavra de um jovem inventor que desapareceu misteriosamente e voltou com uma história de viagem no tempo?


Clara não vacilou.


— Sim.


Helena inclinou a cabeça, os olhos estreitando-se.


— E você entende que isso que acabou de me contar é uma literal confissão de crime? Talvez até alta traição contra o código industrial?


Clara assentiu, a voz firme.


— Entendo perfeitamente. — Ela se inclinou para frente, os olhos verdes brilhando com determinação feroz. — Mas é pelo bem de não apenas Cinderhelm, mas também de toda a humanidade e das demais raças do planeta! Se Adrian Paxton, ou mesmo o Conselho das Máquinas, se apossar do Núcleo Arcanum, as consequências serão devastadoras!


Ela bateu a palma da mão na mesa, a voz subindo.


— Eu desperdicei anos da minha vida trabalhando incansavelmente naquela maldita torre do Big Bang! Anos coletando informações, documentando corrupção, construindo o caso de acusação contra o Conselho das Máquinas! Tudo para você, Comandante! Tudo para os Vigias! E agora estou pedindo que você me ajude. Que confie em mim. Assim como eu confiei em você todos esses anos.


Helena ficou em silêncio por um longo momento. Então, lentamente, ela se afastou da mesa, caminhando até a parede oposta. Apoiou as mãos na superfície fria, a cabeça baixa, respirando fundo.


— Que tipo de ajuda você está solicitando? — perguntou finalmente, sem se virar.


Clara respirou aliviada. Era uma abertura.


— De acordo com Adam, se Paxton for atacar, será no dia da estreia do Núcleo Arcanum. Segunda-feira. — Ela pausou, escolhendo as palavras com cuidado. — Não sabemos como ele vai fazer. Se vai criar uma sabotagem, simplesmente roubar, ou algo pior. Mas tanto eu quanto Adam temos um péssimo pressentimento.


Ela se levantou, caminhando até ficar ao lado de Helena.


— Preciso que você reforce a segurança ao máximo nas ruas. Dobre as patrulhas. Coloque agentes disfarçados em posições estratégicas. Prepare a Guarda de Ferro para o pior cenário possível.


Helena virou a cabeça lentamente, encarando Clara de lado.


— Você está me pedindo para mobilizar recursos massivos da Guarda de Ferro baseado em um pressentimento?


Clara não recuou.


— Estou pedindo que você confie no meu julgamento. Assim como confiou quando eu lhe trouxe provas contra Blackwell. Contra Ravenshade. Contra Braxley. Eu nunca falhei com você, Comandante. E não vou começar agora.


Helena ficou em silêncio, os olhos cansados buscando os verdes de Clara, procurando qualquer sinal de dúvida, de mentira, de traição.


Mas tudo que encontrou foi convicção absoluta.


Finalmente, Helena soltou um suspiro longo e pesado, virando-se completamente para encarar Clara.


— Se você estiver errada... se isso for um erro... não haverá como voltar atrás. Você entende isso?


Clara assentiu.


— Entendo.


Helena cruzou os braços novamente, a expressão endurecendo.


— Muito bem. Vou reforçar a segurança. Mas não apenas nas ruas. Vou colocar agentes dentro do próprio Big Bang. Disfarçados como trabalhadores, seguranças, até convidados do evento de segunda-feira. Se esse tal de Adrian Paxton aparecer... — Seus olhos brilharam com determinação letal. — ...ele não vai sair vivo.


Clara sentiu o peito apertar de alívio.


— Obrigada, Comandante.


Helena deu um passo à frente, aproximando-se de Clara até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. A voz saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de autoridade absoluta.


— Mas Clara... se isso explodir na minha cara, se o Conselho descobrir que eu mobilizei a Guarda de Ferro sem autorização oficial... todos esses anos de investigação terão sido para nada. Entendeu?


Clara não vacilou.


— Entendi. E aceito.


Helena a encarou por mais um momento, então recuou, assentindo uma vez.


— Bom. Agora saia daqui. E não fale sobre isso com ninguém. Nem mesmo com Adam Altharion. Isso morre aqui.


Clara assentiu, virando-se para sair. Mas antes de alcançar a porta, a voz de Helena a deteve.


— Clara.


Ela parou, virando-se.


Helena a encarou, e pela primeira vez, havia algo próximo de respeito genuíno em seus olhos.


— Você tem coragem. Esse tanto eu devo admitir.


Clara sorriu levemente.


— Obrigada, Comandante.


E então, ela saiu, deixando Helena sozinha na sala isolada.


A comandante ficou parada por um longo momento, os braços cruzados, a mente trabalhando em overdrive.


Ela balançou a cabeça lentamente.


— Que bagunça... — murmurou para si mesma.


Mas então, seus olhos se estreitaram, a determinação voltando.


Se havia uma coisa que Helena Draeven sabia fazer, era transformar caos em ordem.


Notas finais
<3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.