Arcano

3 III ― Arcano Zero


Notas iniciais
Olá pessoas! Então, gostando? Hoje descobriremos algumas coisas nesse capítulo, não muitas, mas no próximo as revelações virão :3 UAHUAH Mudei a capa da fic, gostaram? *---* Na verdade a imagem é a mesma, só acrescentei algumas coisas UAHUAH Boa leitura e obrigada a Bibs, sua leitora linda *000* Beijos~

Pesadelo tangível

Ela observava a chuva que havia caído no final daquela tarde sentada próxima à janela.

― Querida? Você quer um pouco de chá? ― ouviu a voz de sua mãe.

― Não mãe, obrigada. ― respondeu lhe dando um sorriso, mesmo que este não parecesse verdadeiro, nem para si mesma.

Virou novamente para a janela e observou a chuva.

Sora não havia aparecido por dois dias. Kiara não era idiota, já tinha percebido que havia algo errado. Só estava esperando a chance de sair de casa para procurar Sora.

― Eu vou para o laboratório agora, tudo bem querida? ― sua mãe lhe deu um beijo na testa. ― comporte-se. Eu e seu pai estaremos voltando cedo para casa hoje.

― Ok. ― Kiara assentiu. ― quer que eu faça a janta?

― Não, acho que hoje iremos comer fora.

― Ok. Cuidado, está chovendo bastante.

Sua mãe lhe jogou um beijo e saiu porta a fora.

Kiara observou o carro se distanciar e correu em direção ao porta-chaves pegando as chaves da casa e da moto quase não usada. Pegou sua capa longa no cabide de casacos e saiu rapidamente porta a fora.

Lamentou mentalmente a moto ser sua única escolha, mas rapidamente montou nesta, colocando o capacete e saiu garagem a fora.

A visão estava um pouco prejudicada pela chuva que havia ficado mais forte, mas Kiara era uma boa motorista, sempre fora. Apesar das gotas grossas e dolorosas contra sua pele, ela estava conseguindo dirigir a moto normalmente.

Estacionou a moto e rapidamente desceu tirando o capacete, ignorando as gotas grossas que iam contra o seu rosto violentamente.

Correu em direção a porta com o capacete no braço. O local era um tanto afastado do resto da cidade, era como um depósito para adolescentes problemáticos, pois a triste realidade era que a maioria, se não todos, os adolescentes órfãos dali eram problemáticos.

Ela apertou rapidamente a campainha, frenética tentando fugir da chuva.

Quando a porta foi aberta ela se empurrou rapidamente para dentro.

― O que você deseja querida? ― uma mulher lhe perguntou, a que abrira a porta.

Kiara se virou para a mulher, os olhos negros como piche encarando a mulher.

― Eu desejo falar com Adam e Katarina.

A mulher a observou por alguns momentos, e então pareceu se recordar de algo.

― Ah! Você é a amiga de Sora, não é?

Algo estalou na mente de Kiara.

― Você conhece a Sora? ― perguntou afobada.

― Sim, claro. Era uma moça tão inteligente, mesmo que um pouco... Ousada. ― por um momento a mulher não conseguiu encontrar a palavra adequada.

― Sim... Ousada. ― Kiara repetiu, ainda encarando a mulher. ― onde ela está?

A mulher soltou um murmúrio. ― você não sabe?

Por um momento Kiara pensou que se ela estava perguntando, é lógico que ela não sabia, mas repreendeu a si mesma por tais pensamentos. Continuou a encarar a mulher, a espera de respostas.

― Ela está desaparecida desde a noite de sábado.

Kiara já sabia.

Ela sentia isso dentro de si, mesmo assim sentiu uma tontura ao ouvir tais palavras.

Ela não havia ousado pensar aquilo durante aqueles dias. Uma estranha mania, entretanto, parecia que se ela não pensasse naquilo, não se tornaria verdade.

Parecia que quanto menos ela pensasse no pior, menor a chance de realmente acontecer.

― E... ― pausou, engolindo seco e tentando colocar seus pensamentos em ordem. ― e você teria alguma notícia sobre ela?

A mulher ficou calada por alguns segundos, mas em seguida, como se não conseguisse conter a si mesma, disparou as palavras rapidamente, atropelando umas as outras. ― sabe, geralmente as pessoas não ligam para essas crianças, por isso a maioria não percebe, mas muitas crianças daqui já sumiram. Sora não foi a primeira, várias crianças quando chegam na idade dela desaparecem, mas isso é confidencial sabe? Ninguém realmente me disse algo sobre isso, mas depois de trabalhar tanto tempo aqui não tem como não suspeitar desse tipo de coisa. A Esquadra nunca faz nada quanto a esses desaparecimentos. Essa cidade não é tão segura quanto parece ser. Bem, talvez seja para o resto, pessoas normais, mas crianças jogadas como estas realmente não...

Kiara levantou a mão, um pouco aflita por ser atingida por uma avalanche de palavras, e a mulher parou de falar lhe dando um sorriso envergonhado.

― Perdão senhorita, às vezes acabo falando demais sem perceber.

― Não, tudo bem. ― Kiara murmurou, digerindo as palavras e informações da mulher, que a observava.

Era muita coisa para se descobrir de uma vez só, chocante para alguém como ela que julgava a cidade como um lugar totalmente seguro.

Por alguns segundos, Kiara observou o chão branco como todo o resto do estabelecimento.

― Onde ― por um momento, sua voz falhou. ― onde estão? Digo, Adam e Katarina.

― Ah sim. Aqueles dois são imprevisíveis, nunca sei para onde vão. ― disse em tom lamurioso. ― mas quando estiverem aqui, eu lhe telefono. Poderia me informar seu telefone?

Kiara concordou e deu o número de telefone de sua casa. A mulher tentou conversar mais um pouco, mas Kiara não lhe deu atenção. Por algum milagre, a mulher faladora ― que Kiara descobrira atender pelo nome de Helena ― notou a dispersa Kiara e compreendeu o choque da moça.

Claro que ela sabia quem Kiara era, a filha de Leônidas e Lara Ohana, os cientistas reservados que trabalhavam para o governo da cidade.

Era estranho Kiara Ohana andar com Sora, a menina desgarrada e desregrada, uma completa má influência. Não entendia como os pais de Kiara a deixavam andar com a tal Sora.

Enquanto a mulher pensava sobre Kiara, a observando sair porta a fora, a própria Kiara sentia como se seus pensamentos tivessem dado um nó cego.

Ela sentia sua cabeça doer, latejar. E seu coração também.

Na viagem de volta para casa ― apressada, para sua mãe não descobrir que ela fora visitar a casa de assistência social ― sua imaginação rolava solta. As perguntas surgiam em sua mente, dúvidas e incertezas que ela nunca havia tido estavam começando a tomar conta de si.

E se Sora, naquele ato desesperado no estacionamento da casa de festas, estivesse verdadeiramente tentando lhe alertar sobre algo errado na cidade? E se todas as certezas que ela tinha sobre a cidade ― a segurança, a liberdade, o acolhimento ― fossem mentiras? E o pior, algo que Kiara não queria pensar, mas acabou por surgir em meio as suas perguntas desesperadas: e se Kieran e sua família realmente tivessem algo haver com tudo isso?

*

Ouviu batidas na porta e ouviu alguém abri-la. Ouviu vozes e ouviu passos.

Mas tudo parecia tão irreal, tão distante. Nada naquele momento parecia palpável, era como se fosse um sonho que a qualquer momento fosse acabar, desvanecer.

― Kiara? ― ouviu a voz de Kieran e fechou os olhos.

Não queria pensar naquilo, mas a verdade era que ele era a última pessoa que ela gostaria de ver naquele momento. Ela sabia que ― de um jeito ou de outro, ― ela iria acabar colocando a culpa nele. Se ele não estivesse lá, talvez a briga não tivesse acontecido.

Talvez ela ainda acreditasse naquela realidade, nas pessoas.

E ela realmente não queria realizar que ela já estava colocando a culpa nele. Ela realmente não queria colocar a culpa nele.

― Kiara, tudo bem? ― Kiara assentiu, mas não se virou para ele quando este se sentou à sua frente.

Ele ficou em silêncio, como se tivesse entendido o porquê do silêncio dela. Kiara pensou que doeu mais nela mesma do que nele aquele silêncio.

― Você sabe que não foi minha culpa. ― ela deixou cair uma lágrima com a sentença dele.

E várias outras se seguiram, e de repente soluços baixos.

Braços a envolveram, ela se sentira tão suja e tão acabada. Não conseguia decidir se era certo ou errado abraçar Kieran, quem sempre fora tão honesto e carinhoso, pensando que ele fora o culpado.

Mas deixou de pensar na culpa, apenas chorou o que ainda não havia chorado desde que a Esquadra visitou sua casa, há quatro dias.

Faziam quase noventa e seis horas que Sora havia desaparecido. Toda cidade agora sabia e, em verdade, ninguém realmente ligava.

Sora, apesar da inteligência fora do normal, era uma causadora de problemas. Ela e sua pequena gangue de revoltados, amigos dela que a própria Kiara não tinha muito contato.

Por algum motivo, tanto Sora, quanto Kieran, quanto seus próprios pais concordavam sobre manter Kiara longe do grupo de amigos de Sora. Entendia que os amigos de Sora eram encrenqueiros, entendia que seus entes queridos não queriam Kiara perto deles, mas e Sora? Sora também não era uma má influência?

E, em verdade, ela sabia a resposta: não. Pelo menos não para Kiara. Desde sempre Sora fora uma companhia saudável para ela.

Mas agora, mais do que nunca, os amigos de Sora eram uma peça chave para descobrir o que aconteceu com ela. E Kiara necessitava desesperadamente encontra-los.

A mulher tagarela não havia ligado para ela até o presente momento, e ela não havia saído de perto do telefone desde que saiu daquele lugar, com medo de que seus pais descobrissem que ela está procurando os amigos de Sora.

Enquanto divagava abraçada fortemente a Kieran, Kiara sentia um peso em seus ombros que jamais sentira.

Sentia-se mais do que obrigada a encontrar Sora. Não somente pelo seu dever como amiga, mas também pela consciência culpada.

A consciência culpada é como um morcego que espreita a todos durante as noites solitárias, pronto para beber da nossa vitalidade até nos tornar escravos dela.

E mais: a curiosidade incontível. Tudo aquilo que Sora e a mulher tagarela lhe disseram girava na sua cabeça, dava voltas e voltas, atormentava-a.

Não conseguia olhar para Kieran da mesma forma, nem para as pessoas que passavam na rua. Agora cada atitude de Kieran ― a autoconfiança, a gentileza, a vivacidade ― parecia meticulosamente pensada.

Como se ele medisse cada palavra, cada gesto para encantar Kiara.

E as pessoas nas ruas? Ela se perguntava o porquê de tanta felicidade. De tanta satisfação. Por que as pessoas não se entristeciam? Por que elas não ligavam para aqueles órfãos? Por que as pessoas não questionavam nada?

Ela, que sempre esteve tão satisfeita com tudo, não conseguia mais entender tal sentimento.

E essa desconfiança maculou tudo que ela acreditava ser imaculável. Puro.

Mais uma vez uma onda de choro irrompeu de si, e Kieran apertou seu abraço.

Kiara o amava, mais do que qualquer coisa. E se sentia suja por desconfiar da integridade de Kieran, logo ele, a pessoa que mais confiava no mundo inteiro depois de Sora.

Por fim, o cansaço a venceu. Acabou deitando-se no colo de Kieran, fechando os olhos lacrimosos e ouvindo os murmúrios acalentadores e suaves dele.

Mas mesmo quando dormia, não tinha paz.

Em seu sonho estava em uma clareira, bem no meio, sentada.

Olhava para baixo, para si mesma, mas não conseguia enxergar seu próprio corpo. O céu era incrivelmente azul e a temperatura agradável. A clareira deixava as luzes do sol entrar em contato com um tapete de gramíneas e nenhuma árvore, isso aquecia sua pele e ela fechou os olhos.

Ouviu um barulho então.

Voltou-se para o barulho e enxergou Sora e ela mesma ainda crianças saindo do meio de algumas árvores que cercavam a clareira. Elas corriam uma atrás da outra, pareciam brincar de pega-pega. As risadas infantis e calorosas faziam seu coração se aquecer. Os cabelos da sua “eu” pequena brilhavam no sol, e os de Sora pareciam uma pérola negra contra a luz. E assim, ainda brincando, desaparecem em meio das árvores da mesma forma que apareceram.

Kiara sentiu como se chorasse.

Em seguida, ouviu outro barulho.

Ela e Sora um pouco mais velhas, por volta dos doze anos de idade, com Kieran. Eles andavam juntos e conversavam, sorrindo por vezes. Uma nuvem ou outra passaram no céu azul enquanto os três caminhavam gargalhando de algo dito por Sora. E assim como na outra vez, sumiram por entra as árvores.

Dessa vez não houve pausa para que Kiara pensasse. Do mesmo lugar que os três se foram surgiu Kieran um pouco mais velho com as mãos no bolso, logo em seguida Kiara e Sora uma do lado da outra. A claridade que antes reinava começou a dar espaço para a sombra das nuvens.

Kiara e Sora observavam Kieran de longe, e Sora segurou no ombro de Kiara, desviando sua atenção de Kieran. Sorriu-lhe, olhos se apertando ainda mais, e Kiara lhe deu um sorriso complicado, em uma mistura de tristeza com alegria.

Dessa vez eles não caminharam para as árvores, simplesmente desvaneceram como vapor.

A visão de Kiara estava um pouco debilitada pela sombra das nuvens que agora cobriam totalmente o céu.

Em seguida, assim como os três desvaneceram, eles apareceram ― como vapor.

Algumas gotas de chuva começaram a cair do céu, e a imagem que Kiara teve em sua frente começou ter nitidez. Kiara estava de frente para Sora, afastadas pela distância de um braço. Kieran estava atrás de Kiara, afastado pela mesma distância.

A Kiara que estava sentada se levantou, indo para perto dos três e reconhecendo as vestimentas que eles usavam: estavam exatamente iguais ao dia da festa de formatura.

A precipitação ganhou intensidade, agora não sendo somente algumas gotas esporádicas, e sim um início de chuva.

Sora deu um passo à frente; Kiara deu um para trás.

A Kiara que observava sentiu uma dor em seu peito com isso. Ela viu os penteados e a maquiagem sumirem aos poucos, as roupas se encharcarem, e na medida em que Sora de aproximava, a Kiara se afastava.

E aquilo doía em seu peito, por que era apenas uma metáfora. Mas não muito distante da realidade.

A chuva agora caía livremente e com força.

Tentava gritar.

“Não!” vinha em sua mente, mas não conseguia reproduzir um som sequer.

A Kiara que observava aos poucos foi cedendo a dor de ver aquela cena, sentiu como se chorasse novamente e quando a outra Kiara estava somente a alguns centímetros de Kieran, os dois começaram a sumir como se fossem um vapor sendo soprado pelo vento.

E Sora ficou parada naquele lugar. Os cabelos cobrindo o rosto e a cabeça baixa.

A chuva torrencial ia de encontro a sua pele, doía. Mas não tanto quando o aperto de ferro em sua garganta. Queria gritar. Queria correr até Sora, mas não conseguia. Caiu de joelhos perante a imagem dela, o vestido branco sujo de lama, os cabelos bem penteados agora pesados com a água da chuva.

O rosto que não conseguia ver.

“Sora!” gritava silenciosamente.

De repente ouviu um barulho de algo rachando. E de repente a imagem a sua frente começou a dissipar-se. Nos últimos momentos, Sora se virou na direção da Kiara que observava.

E como se enxergasse a sua alma a encarou.

E sorriu.

Kiara gritou. Gritou por Sora, por Kieran, por si mesma e pela imensurável culpa que a perseguia.

Sentia-se a beira de uma estafa, mas não parecia ter acordado. Pelo contrário.

Tudo ao seu redor estava tão negro que não conseguia enxergar uma palma na frente de seu nariz.

Os únicos sons que lá havia eram os dela mesma ― a respiração, as batidas de seu coração.

Em meio à escuridão ouviu um grasnar e de repente sua respiração se tornou arquejante.

Como se seus olhos estivessem se acostumando com o negrume, conseguiu enxergar a forma de um corvo a sua frente.

Movia sua cabeça de forma típica dos pássaros, rapidamente. Os olhos do corvo, porém, eram atípicos: vermelhos, brilhavam na escuridão.

E Kiara ficou no que pareceram horas sendo encarada pelos olhos vermelhos.

Ela tremia mais do que nunca, o frio era insuportável e o medo, a ansiedade, não ajudava. Seu coração batia tão forte quanto nunca, sentia que a qualquer momento iria vomitar suas tripas, mas parecia imobilizada demais para mover qualquer músculo de seu corpo.

Estava em um estado de torpor apavorante.

O silêncio ― interrompido por seus ofegos ― e os movimentos do corvo eram insanamente aterrorizantes. O frio era brutal. A letargia tomava conta de si, como se a qualquer momento fosse esvanecer.

Mas o crocitar alto e perturbador do corvo ecoou na sua mente como um alarme de incêndio ― atordoando-a.

Tapava os ouvidos, agora suando frio.

E continuava ecoando em sua mente, cada vez mais alto até que tudo que era ouvia era aquele grito perturbado e louco interminavelmente.

E quando acordou seu próprio grito de desespero parecia ecoar o do pássaro moribundo.

Gritava abertamente por medo. Por culpa. Por loucura.

Por Sora.

E ainda o colo de alguém não foi o bastante para abrandar os seus berros agonizantes, ou os espasmos descontrolados.

A cada momento que conseguia parar de gritar por falta de ar, o sorriso de Sora lhe via a mente. Os cabelos tão negros quanto às asas do corvo pareciam fazer a imagem dos dois ― Sora e o corvo ― se fundirem em uma.

E continuava, parecia não ter fim para aquele sofrimento, aquele barulho estridente.

E quando sentiu uma picada em seu braço não ofereceu resistência: apenas se entregou para os braços da inconsciência.

Notas finais
Uwaaaaaah! E então? Agora que eu reli, percebi que nem tantas perguntas foram respondidas ^^' Mas no próximo com certeza vocês irão ter várias e várias respostas, e o próximo é o último da fase "Arcano Zero", após este irá começar a fase "Arcano Nove", com mais ação e surpresas :3 Obrigada por lerem pessoas lindas! Beijos~