Araignée au Plafond

2 Bem Vindo ao Instituto Étoile.


Notas iniciais
Boa leitura, povo! :3

Eu não quero ir, mas ninguém mais me escuta nessa casa. Enquanto fumo meu último — isso é o que meus pais pensam — e precioso cigarro, consigo escutá-los conversando dentro de casa. E assim que minha mãe sai, ela me manda colocar roupas mais alegres — afinal de contas, estou indo para o melhor instituto psiquiátrico do país. Eles podem chamar como quiserem... Mas pra mim, isso se chama hospício, manicômio. Eu devia ter pensado que eles me jogariam num lugar desse tipo depois da minha tentativa falha de suicídio.

Minha irmã mais velha, Françoise, já levou minhas malas para a casa dos loucos — eu estou carregando uma de mão com minhas coisas pessoais (ou seja, alguns maços de cigarro e bebidas) -, voltando para nos buscar. Eu não quero entrar naquele carro, mas hoje, logo hoje, eu não tenho permissão para ir a pé. Eu entro no banco do passageiro, maman senta do meu lado. Ela está sorrindo, tentando me acalmar, mas eu sei como ela realmente está — ontem eu ouvi ela e o papa conversando. Ela segura minha mão, acariciando-a com o polegar. Vou sentir falta disso.

Quando o carro entra em movimento, encosto a cabeça no estofado, tentando focar em qualquer outra coisa que não fosse aquele maldito carro. Eu podia ouvir a música na minha cabeça... Ela tocava num loop eterno desde a morte de Amèlie. Apertei a mão da minha mãe, então ela me puxou para seu colo. Respirando fundo, deitei a cabeça no colo daquela mulher, deixando-a mexer em meus cabelos.

Depois de algumas horas — ou seriam minutos? -, chegamos no lugar. Instituto Psiquiátrico Étoile — ou como eu prefiro chamar, o manicômio estrelar. Era uma mansão de três andares, extremamente grande e com um amplo espaço com grama. E como de se esperar, tinha muros altos, cobertos por um tipo de trepadeira cujo nome eu esqueci. Minha irmã estacionou o carro, então saímos. Uma enfermeira sorridente surgiu do nada, logo nos cumprimentando. Ao me ver, ela abriu mais o sorriso... E como se não bastasse, serei assediado no manicômio pelas próprias enfermeiras. Sorri de volta para ela — talvez eu consiga contrair uma aids com elas, então vai ser mais fácil tentar suicídio depois.

Com um pouco de receio, abracei meus parentes, me despedindo — gastei um tempo a mais com a maman, ela chorava muito e eu não queria deixa-lá ainda pior. Assim que terminamos de nos despedir, eles entraram no carro e foram embora. Tentei não me apegar muito àquele pensamento... Seria melhor se eu os esquecesse. Talvez, se eu começasse a fingir que não me importava, eu pararia de me importar.

A enfermeira me arrastou pelo Instituto, me mostrando onde ficava cada lugar. O primeiro andar era apenas para refeições, atividades e exercícios — me lembrou vagamente um asilo. O segundo e o terceiro eram dedicados apenas aos quartos dos enfermos — esse nome soa tão estranho, sinto como se eu fosse um doente — e aos profissionais desse manicômio. No segundo andar também ficava um escritório e a área administrativa. E se não me engano, tem uma enfermaria em cada andar. Que exagero.

Ela também me explicou que os quartos eram separados por sessões — basicamente, os deprimidos, os suicidas, os que vomitam depois de comer ou que passam fome, os traumatizados e os psicopatas. Meu quarto é o 307. Ela disse que, quando eu trocar de roupa — olha que legal, é obrigatório usar branco aqui no manicômio -, posso descer e conhecer os outros internos. Eu sorri assentindo, então ela saiu do quarto e me deixou sozinho.

Ah, doce solidão.

—x—

Depois de ter uma overdose com Valium, eu tive que ficar no hospital durante uma semana. Então fui para casa, mas tive que fazer sessões duas vezes por semana com um psiquiatra. Ele me diagnosticou como um depressivo que está sofrendo de estresse pós-traumático. Ele só esqueceu de citar "assassino da própria irmã gêmea" na ficha. Então, depois de conversar com meus pais, eles decidiram que seria melhor pra mim se eu fosse internado numa clínica psiquiátrica. Gosto de encarar isso como uma vingança pelo que eu fiz com a minha irmã — "ele matou nossa filha, vamos jogá-lo para apodrecer num manicômio".

De qualquer forma, mereço isso. Se eu não tivesse saído com eles aquele dia... Nada disso teria acontecido. Amy estaria aqui, eu estaria no quarto período da faculdade e meus amigos estariam bem. Françoise me disse que Gilbert e Antonio foram me visitar quando eu estava no hospital — é, acho que eles queriam ver se o cara que fodeu com eles ia morrer lenta e dolorosamente. Pena que isso não aconteceu.

— Aceita um cigarro? — Eu ouvi alguém me chamar, então olhei para um lado. Um ruivo de olhos verdes estava lá, com os braços cruzados e apoiado na porta do banheiro. Parecia ter minha idade.

— Você não é um enfermeiro que resolveu me testar, espero. — Respondi, abrindo a torneira e jogando água no rosto. Tinha ido ao banheiro para trocar de roupa e arrumar minhas coisas, mas acabei me distraindo quando olhei no espelho.

— Eu tenho cara de alguém que tem paciência pra cuidar de um monte de gente maluca? — Ele levantou uma sobrancelha, então eu sorri. Alguém normal, finalmente — Entrei no quarto e senti cheiro de cigarro. A enfermeira que te trouxe provavelmente sentiu também.

— Olha só, temos um reparador aqui. — Eu ri, seco — Francis Bonnefoy. E, sim, quero um, vou guardar para quando eu for fumar antes de dormir.

— Scott Kirkland. — Ele estendeu a mão pra mim, e quando eu peguei o cigarro, percebi algumas marcas avermelhadas em seu braço. Cicatrizes. Ele percebeu meu olhar, então cruzou os braços — Vamos logo.

Então se virou, saindo de lá. Acho que não existe alguém normal aqui... E por perceber isso só agora, estou me sentindo um idiota. Eu tentei me matar, parece que meu parceiro de quarto fez a mesma coisa. E eu ainda fui pego olhando para suas cicatrizez. Boa forma de começar uma amizade. Pelo menos ele parece ser alguém legal.

Sai do quarto, me apressando para não me perder de Scott. Ele estava descendo as escadas e eu o segui. Após alguns minutos andando, chegamos à parte de trás do manicômio, onde vários internos estavam interagindo. Era o único lugar que eu não tinha visto. De acordo com a enfermeira que me levou até o quarto, eu teria tempo para conhecer a parte de recreações melhor. Será que usar branco realmente é tão importante assim? Pra que eu trouxe minhas roupas então?

— Tente ignorar — Scott falou, inclinando um pouco a cabeça e olhando pra mim — Não são todas as pessoas que tem coragem de mostrar suas cicatrizes. — Ah... Isso.

— Uh, desculpe. Só... — Ele levantou uma mão, me interrompendo.

— Não precisa se desculpar. Só ignore e tente não olhar ou perguntar sobre isso. Deixe que eles peguem confiança... Ok? — Assenti, então ele sorriu — Vamos, os outros querem conhecer você.

Então eu sou assunto aqui. Imagino. Quando o acidente aconteceu, lembro de ter visto uma ou duas coisas sobre isso num jornal — "Filha de magnata morre em um acidente". Fiquei sem ver televisão e ler jornal durante um bom tempo. Agora imagino o que estão colocando no jornal... Coitado do meu pai, a fama da Napoleon Enterprises deve estar horrível. O futuro herdeiro da empresa é um deprimido fodido que matou a própria irmã gêmea e tentou se matar depois. E minha mãe... Eu espero não ter acabado com a carreira médica dela com o que fiz — a doutora Bonnefoy consegue salvar a vida de estranhos, mas não consegue salvar seus próprios filhos.

Só fui distraído dos meus pensamentos quando eu e Scott chegamos à mesa. Nela estavam quatro pessoas. Me cumprimentaram e eu tentei ser educado, sorrindo e as cumprimentando de volta. Então Scott as apresentou.

O primeiro que ele me apresentou se chamava Lovino — mas que nome estranho -, ele tinha olhos verdes, cabelos castanhos — me deu vontade de beber uísque, era da mesma cor — e era sério, até emburrado. Do seu lado, um loiro de olhos azuis, quase puxados para o violeta. Seus cabelos lembravam os meus — bem, na época que eu me importava de arrumá-los — e ele usava óculos. Seu nome era Matthew Williams. O outro também tinha olhos verdes — isso por acaso é mal de quem tem olhos claros? -, mas seus cabelos eram castanho-escuro, iam até o ombro e ele tinha um sorriso fraco no rosto — Toris. E, por fim, uma garota de cabelos curtos e loiros — quase platinados -, com peitos exageradamente grandes — isso não dói? -, bochechas vermelhas e um sorriso no rosto, ela se chamava Katya.

Porque eu tenho a impressão que tudo isso aqui é falso? Eles sorriem mas, merde, todos estamos aqui por um motivo digno de pena. Sorrir só torna tudo mais ridículo. Não precisamos fingir que estamos felizes aqui... Mas como sou um bom hipócrita fingido, sorri de volta, me sentando na mesa.

— Sou o Francis. — Falei, cruzando os braços e colocando-os em cima da mesa.

— De onde você vem, Francis? — A garota me perguntou. Seus peitos balançaram consideravelmente quando ela se sentou direito no banco.

— De Paris... Minha família é daqui, mas eu e minha irmã somos da França... — Amèlie. Lembrar dela fez com que uma pontada atingisse meu peito.

— Ah, sua irmã? Ela mora com vocês? — Ela perguntou, claramente tentando me fazer sentir em casa. Falhou miseravelmente.

— Ela morreu. — Respondi, olhando pra baixo — Eu a matei.

Todos da mesa ficaram em silêncio. Provavelmente sabiam que eu estava dirigindo o carro durante o acidente. E por um momento, eu realmente estava arrependido de ter aberto a boca... Acabei com o clima daquele lugar.

— Xeque-mate. — Eu ouvi uma voz baixa falar, então vi o tal de Matthew sorrindo para Toris. Não tinha percebido que estavam jogando xadrez — Quer jogar? — Ele me olhou, perguntando. Um sorriso sincero pairava em seu rosto. Um desafio não me faria mal.

—x—

Eu perdi cinco vezes. Não acredito nisso. Não entendo como ele conseguia cercar o meu rei com tanta facilidade... Ou eu sou muito ruim ou ele é muito bom. Mas pra falar a verdade, eu até me diverti um pouco. No começo, eu perdi por pura besteira minha — pensei que seria fácil demais, então abri bem a guarda. Ele me venceu sem nem piscar.

Esses jogos fizeram com que o clima da mesa voltasse a ficar ameno. Eu estava me sentindo um pouco mais a vontade, até o momento em que percebi algo que me tirou do sério — ele me lembrava Amy. O jeito que ficar brincando com os dedos enquanto pensava, o jeito dos olhos se estreitarem ao ficar curioso... Até a mania dela de levantar a sobrancelha quando vencia algum jogo. Era como se ela estivesse na minha frente. Aquilo certamente me incomodou muito. Eu teria jogado mais com Matthew se não tivesse percebido isso — aconteceu quando o jogo tinha terminado, então me despedi rápido e sai.

— Eles gostaram de você — Scott falou, entrando no quarto — Achou o isqueiro?

Oui. Espero que o cheiro não te incomode. — Falei, tragando novamente o cigarro.

Ah, Amy... O que foi que você preparou pra mim aqui?

Notas finais
Um capítulo mais light, focado mais na apresentação dos outros personagens. Acho que, a partir do próximo, eu começo a desenvolver o enredo mesmo.
Reviews, oui? ~