A dor de cabeça foi a primeira coisa que percebi antes mesmo de abrir os olhos. Pulsava atrás das minhas têmporas num ritmo irritante, acompanhada por uma secura horrível na boca e uma sensação ainda pior no estômago. Permaneci imóvel por alguns segundos, enterrada entre os travesseiros, tentando lembrar em que momento da noite anterior eu havia decidido que misturar champanhe, vodca e alguma bebida azul que Alec jurava ser maravilhosa seria uma boa ideia. Não consegui. Minhas lembranças terminavam mais ou menos no instante em que saímos do segundo clube, cercados por gente demais, música alta demais e fotógrafos que pareciam surgir de todos os cantos sempre que Alec Volturi aparecia em algum lugar. Depois disso, havia apenas flashes confusos, uma garrafa chegando à mesa, Alice rindo de alguma coisa, Alec com a mão na minha cintura e eu discutindo com alguém porque queria continuar a festa quando todos decidiram ir embora. Soltei um gemido e virei o rosto contra o travesseiro quando uma faixa de luz atravessou a fresta das cortinas e atingiu meus olhos. Aquilo foi suficiente para piorar minha irritação. Eu não conseguia entender por que alguém naquela casa ainda não havia aprendido que minhas cortinas deveriam permanecer completamente fechadas quando eu saía à noite.

Procurei o celular sobre o criado-mudo sem levantar a cabeça. Minha mão encontrou primeiro um copo vazio, depois um brinco que eu não lembrava de ter tirado e finalmente o aparelho. A tela acendeu e precisei semicerrar os olhos para conseguir enxergar. Onze e vinte e sete. Havia mensagens de Alice, notificações das redes sociais, três chamadas perdidas de Alec e cinco da minha mãe feitas entre duas e quatro da manhã. Ignorei as dela. Bella tinha a mania irritante de ligar repetidas vezes quando eu demorava a chegar em casa, como se eu ainda tivesse dezesseis anos e precisasse informar onde estava. Joguei o telefone ao meu lado, estiquei o braço para o pequeno controle instalado junto à cabeceira e apertei o botão que chamava os funcionários. Não esperei nem dois minutos antes de ouvir duas batidas discretas na porta, mas, naquele estado, até aquilo me pareceu demorado.

– Senhorita Renesmee? – reconheci a voz de Marta do outro lado e fechei os olhos novamente, incomodada com a claridade.

– Pode entrar, Marta. E feche essa cortina antes que eu fique cega – ordenei, puxando o edredom sobre a cabeça enquanto ouvia a porta abrir. Os passos dela atravessaram o quarto e, alguns segundos depois, a claridade desapareceu. Tirei o edredom do rosto e encontrei Marta parada perto da janela, com as mãos unidas à frente do uniforme. – Quem abriu isso?

– A equipe da limpeza esteve aqui cedo, senhorita. Acredito que tenham aberto enquanto arrumavam o quarto – explicou ela, aproximando-se alguns passos da cama.

– Então diga à equipe da limpeza que, da próxima vez que eu sair à noite, ninguém abre as minhas cortinas. Não deveria ser tão difícil memorizar uma coisa tão simples.

– Claro, senhorita. Vou avisá-las.

– E meu café? – perguntei, olhando para o criado-mudo vazio antes de voltar os olhos para ela.

Marta hesitou por um instante. – Ainda não trouxemos porque não sabíamos a que horas a senhorita acordaria. Posso pedir para prepararem agora.

– Existe uma máquina de café que custou mais do que muita gente ganha em um ano naquela cozinha e quatro pessoas trabalhando lá. Vocês precisam realmente esperar eu acordar para começar a preparar alguma coisa? – questionei, apoiando-me nos cotovelos e sentindo imediatamente a cabeça latejar. Marta abaixou os olhos e eu passei a mão pela testa, já perdendo a pouca paciência que tinha. – Café com leite, pouco açúcar, ovos, torradas, frutas e suco de laranja. E traga alguma coisa para essa dor de cabeça.

– Sim, senhorita. Deseja que eu peça também...

– Marta, você trabalha aqui há quanto tempo? – interrompi, observando-a parar no meio da pergunta.

– Quase quatro anos.

– Então depois de quatro anos você já deveria saber o que eu como pela manhã sem precisar fazer uma entrevista. Apenas traga.

– Claro. Com licença.

Ela caminhou em direção à porta, mas antes que saísse meu celular começou a tocar sobre a cama. Alec. Minha irritação diminuiu imediatamente. Fiz um gesto para que Marta fosse embora e atendi enquanto voltava a me acomodar entre os travesseiros. – Se você estiver ligando para perguntar se eu estou bem, a resposta é não. Minha cabeça está explodindo e a culpa é inteiramente sua.

A risada dele atravessou o telefone. – Minha? Eu mandei você parar de beber depois da terceira dose, Renesmee. Você olhou para mim, pediu outra e ainda convenceu Alice a beber junto.

– Então deveria ter sido mais convincente – respondi, fechando os olhos enquanto sorria. Alec era provavelmente a única pessoa capaz de falar comigo naquela manhã sem aumentar minha dor de cabeça. Ele fazia parte do mesmo mundo que eu desde que éramos adolescentes. Os Volturi tinham dinheiro antigo, propriedades espalhadas por vários países e um sobrenome que conseguia abrir praticamente as mesmas portas que Cullen. Alec não fazia perguntas sobre quanto custava alguma coisa, não reclamava quando eu decidia mudar uma viagem na última hora e nunca precisava fingir naturalidade em lugares onde uma garrafa de vinho custava o salário mensal de alguém. – E, para sua informação, eu não estava bêbada.

– Você tentou convencer o motorista de que sabia dirigir melhor do que ele.

– Provavelmente sei.

– Você mal conseguia entrar no carro.

– Detalhes.

– Você também disse que queria comprar o clube porque o DJ não tocou a música que pediu.

Abri os olhos e franzi a testa, tentando lembrar. – Ele realmente não tocou?

– Não.

– Então continuo achando uma boa justificativa.

Alec riu novamente e ouvi algum barulho do outro lado da ligação. – Vamos almoçar. Quero ver se você continua tão corajosa quando tiver que sair dessa cama.

– Onde?

– La Maison.

Fiz uma careta imediatamente. – Não.

– Você gostava de lá.

– Eu gostei duas vezes. Na terceira, o chef mudou o molho do meu prato sem perguntar e o maître levou quase dez minutos para conseguir nossa mesa.

– Foram quatro minutos.

– Foram dez.

– Está bem, princesa. Escolha você.

Pensei por alguns segundos enquanto mexia distraidamente no lençol. – Bellini.

– Uma da tarde.

– Uma e meia.

– Uma, Renesmee.

– Alec, eu acabei de acordar, ainda preciso tomar banho, escolher uma roupa e mandar alguém buscar meu vestido na lavanderia. Uma e meia.

– Você tem um closet maior que meu primeiro apartamento e está preocupada com um vestido?

– Seu primeiro apartamento tinha quatrocentos metros quadrados.

– Isso não vem ao caso.

– Uma e meia – repeti.

– Está bem. Uma e meia. E tente chegar antes das duas.

– Não prometo nada.

– Eu sei. Até mais tarde, mimada.

Sorri. – Só você tem permissão para me chamar assim.

– Esse privilégio está no contrato de namoro.

– Então talvez eu precise rever as cláusulas.

– Você não vive sem mim.

– Não exagere.

Desliguei ainda sorrindo e deixei o celular cair sobre a cama. Foi quando uma voz masculina surgiu perto da porta e fez meu sorriso desaparecer imediatamente.

– É bom saber que você consegue conversar normalmente com alguém depois do espetáculo que deu esta madrugada – meu pai falou, parado à entrada do quarto com os braços cruzados. Eu não tinha percebido quando ele chegara, mas pela expressão fechada em seu rosto, provavelmente ouvira pelo menos o final da conversa. Edward Cullen podia ser um homem extremamente paciente com praticamente todas as pessoas que conhecia. Comigo, ultimamente, essa paciência parecia ter prazo de validade cada vez menor.

– Bom dia para você também, pai – respondi, pegando o celular novamente e fingindo verificar alguma coisa na tela.

– Olhe para mim quando estou falando com você.

Soltei um suspiro antes de erguer os olhos. – Eu estou de ressaca. Podemos fazer isso depois?

– Não, Renesmee. Não podemos fazer isso depois porque toda vez que tento conversar com você existe alguma coisa mais importante. Uma festa, uma viagem, um almoço, uma dor de cabeça. Hoje você vai me ouvir.

– Eu tenho vinte e cinco anos, pai. Não precisa entrar no meu quarto para me dar sermão porque eu saí para beber.

– Você não saiu simplesmente para beber. Você chegou em casa depois das quatro da manhã sem conseguir andar sozinha. Um dos seguranças precisou praticamente carregá-la do carro até o elevador.

– Eu não fui carregada – retruquei, sentindo a irritação voltar.

– Eu estava lá, Renesmee.

– Então você viu errado.

Meu pai soltou uma risada sem qualquer humor e entrou definitivamente no quarto. – Eu vi minha filha chegando tão alcoolizada que deixou a bolsa dentro do carro, perdeu um dos sapatos na entrada e perguntou ao segurança quem ele era, embora o mesmo homem trabalhe para nossa família há três anos.

Tentei lembrar e não consegui, o que provavelmente significava que ele estava dizendo a verdade. Ainda assim, dei de ombros. – Então foi para isso que você contratou seguranças. Para garantir que eu chegue em casa bem.

– Eu os contratei para sua segurança, não para recolher você bêbada em clubes.

– Dá praticamente na mesma.

– Não, não dá.

– Pai, por favor. Eu saí, me diverti, bebi mais do que deveria e voltei para casa. Estou viva, ninguém se machucou e o mundo continua girando. Você está fazendo um drama completamente desnecessário.

– Um drama? – ele repetiu, aproximando-se da cama. – Sua mãe passou metade da madrugada ligando para você. Eu precisei telefonar para o chefe da segurança para descobrir onde estava porque você não teve a consideração de atender uma única ligação.

– Eu não ouvi o celular.

– Você não ouviu ou não quis atender?

– Que diferença faz?

Vi o maxilar dele se contrair. – Cuidado com a maneira como fala comigo.

– Eu só não entendo por que vocês insistem em me tratar como uma adolescente. Alec estava comigo. Alice estava comigo. Eu não estava sozinha.

– Alec Volturi estava tão bêbado quanto você.

– Alec sabe cuidar de mim.

– Não é responsabilidade de Alec cuidar de você. É sua.

Revirei os olhos e imediatamente percebi que aquilo tinha sido um erro. Meu pai ficou ainda mais sério. – Não revire os olhos enquanto estou falando com você, Renesmee.

– Meu Deus, pai. Você entrou aqui disposto a brigar e agora vai controlar até para onde eu olho?

– Eu entrei aqui porque estou preocupado com você.

– Então pare. Eu estou ótima.

– Isso para você é estar ótima? – ele perguntou, indicando minha aparência com a mão. – Você passa as noites em festas, acorda perto do meio-dia, gasta dinheiro como se ele simplesmente aparecesse nas contas e trata qualquer pessoa que a contrarie como se estivesse abaixo de você. Não terminou nada que começou, não trabalha, não demonstra interesse pelos negócios da família e parece acreditar que a vida inteira será uma sequência de festas e viagens pagas por nós.

Aquela última parte me incomodou. – Lá vem você com os negócios de novo. Eu já disse que não tenho interesse em passar o dia inteiro sentada em um escritório olhando planilhas.

– Você não precisa fazer o que eu faço. Eu só gostaria de ver você assumir responsabilidade por alguma coisa.

– Eu tenho responsabilidades.

– Diga uma.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e arqueei uma sobrancelha. – Minha agenda é bastante ocupada.

Meu pai me encarou como se não acreditasse no que tinha acabado de ouvir. – Festas, compras, viagens e almoços não são responsabilidades.

– Para você.

– Para qualquer adulto funcional.

– Então talvez eu não queira ser o tipo de adulto que você considera funcional. Já pensou nisso?

– Renesmee, eu não estou pedindo que viva como eu. Estou pedindo que entenda que existe um mundo fora dessa mansão.

– Eu conheço o mundo.

– Não. Você conhece hotéis cinco estrelas, restaurantes caros e lojas onde as pessoas fecham as portas para você fazer compras sozinha. Isso não é conhecer o mundo.

– E de quem é a culpa? – perguntei, sentindo um sorriso provocador surgir em meus lábios. – Vocês me criaram assim.

Aquilo o atingiu. Percebi pela mudança imediata em sua expressão, mas naquele momento estava irritada demais para me importar.

– Talvez esse tenha sido meu maior erro – ele respondeu, mais baixo.

– Nossa. Agora chegamos à parte em que você se arrepende de ter dado uma vida boa para sua filha?

– Eu me arrependo de ter confundido dar uma vida boa com dar tudo o que você queria.

– Então corte meu cartão – provoquei. – Vamos ver quanto tempo dura.

– Talvez eu devesse.

Ri. – Você não faria isso.

– Por que não?

– Porque mamãe não deixaria.

– Sua mãe não determina todas as minhas decisões.

– Quando se trata de mim, determina bastante.

– Você realmente acredita que sua mãe vai protegê-la de todas as consequências pelo resto da vida?

– Até agora tem funcionado muito bem.

A frase saiu acompanhada de um sorriso e eu vi meu pai perder o pouco de paciência que ainda mantinha. – Chega, Renesmee. Eu não vou continuar ouvindo você falar dessa maneira dentro da minha casa.

– Nossa casa – corrigi.

– Minha casa e da sua mãe. Você mora nela.

– Que diferença gigantesca.

– A diferença é que tudo isso foi construído com trabalho. Você olha para esta casa e enxerga apenas uma coisa que sempre esteve aqui. Eu olho e sei quanto custou chegar até aqui, e não estou falando de dinheiro.

– E agora vem a história de quando você precisou trabalhar muito, fazer sacrifícios e todas essas coisas que eu já ouvi umas quinhentas vezes.

– Edward – a voz da minha mãe interrompeu antes que ele pudesse responder. Bella apareceu na porta usando uma calça clara e uma blusa simples, olhando primeiro para meu pai e depois para mim. Pela expressão dela, tinha escutado o suficiente para entender exatamente o que estava acontecendo. – Acho que já chega. Ela acabou de acordar e vocês dois estão irritados.

– Eu não comecei nada – respondi.

Minha mãe me lançou um olhar de advertência antes de aproximar-se de Edward e tocar seu braço. – Eu sei que você está preocupado, mas talvez vocês conversem depois.

– É justamente isso que fazemos, Bella. Deixamos para depois – meu pai respondeu, sem tirar os olhos de mim. – Depois conversamos sobre as festas. Depois conversamos sobre o dinheiro. Depois conversamos sobre a maneira como ela trata os funcionários. Depois conversamos sobre o futuro. E enquanto deixamos tudo para depois, nossa filha continua acreditando que não precisa responder por absolutamente nada.

– Eu estou aqui. Vocês podem parar de falar de mim como se eu não estivesse no quarto.

– Então se comporte como uma mulher adulta e participe da conversa como uma – Edward rebateu.

– Eu participaria se isso fosse uma conversa. Você está apenas falando e esperando que eu concorde.

– Não preciso que concorde comigo. Preciso que aprenda a respeitar limites.

– E eu preciso que você entenda que não tenho quinze anos.

– Aos quinze você me escutava mais.

– Talvez porque eu não tivesse escolha.

Minha mãe respirou fundo. – Nessie, chega.

– Por quê? Só ele pode falar?

– Porque seu pai ficou acordado até você chegar – Bella explicou, sentando-se na lateral da cama. – Nós dois ficamos preocupados. Custava mandar uma mensagem dizendo que estava bem?

– Eu esqueci.

– É exatamente disso que estou falando – Edward respondeu. – Você esquece porque nunca precisa pensar em ninguém além de si mesma.

– Que exagero.

– Não é exagero. Você vive como se todas as pessoas ao seu redor existissem para atender suas vontades.

– Eu não pedi para ninguém viver em função de mim.

– Não precisa pedir. Você exige.

– Edward, por favor – Bella tentou novamente.

Meu pai passou a mão pelo rosto e caminhou até a porta. Por alguns segundos pensei que finalmente fosse embora sem continuar aquela discussão, mas ele parou antes de sair e se virou para mim. A raiva em seu rosto havia diminuído. Em seu lugar surgiu uma expressão estranha que me deixou desconfortável, porque parecia muito mais próxima de tristeza do que de irritação.

– Você acha que tudo isso vai durar para sempre, Renesmee. A casa, os carros, o dinheiro, as pessoas correndo quando você estala os dedos. Principalmente sua mãe e eu. Você olha para nós como se fôssemos parte da mobília desta casa e estivéssemos garantidos aqui pelo resto da sua vida.

– Pai, pelo amor de Deus...

– Um dia você vai sentir minha falta – ele continuou, ignorando minha interrupção. – E talvez nesse dia finalmente entenda que algumas das coisas que eu digo não são para controlar você. São porque eu sei que não vou poder protegê-la para sempre.

Aquilo me pareceu tão dramático que soltei um suspiro. – Você tem cinquenta anos, pai, não noventa. Pare de falar como se estivesse prestes a morrer.

– Renesmee! – minha mãe exclamou, levantando-se imediatamente.

Meu pai, no entanto, não gritou. Apenas me olhou. Houve alguns segundos de silêncio e, pela primeira vez naquela manhã, senti uma pontada de desconforto. Poderia ter pedido desculpas. Bastava uma palavra. Mas eu estava irritada, cansada e orgulhosa demais para dar a ele aquela satisfação.

– Espero que você tenha razão – ele disse por fim. – E espero também que tenha muito tempo para aprender que dinheiro não torna ninguém melhor do que os outros.

– Já terminou?

Minha mãe virou-se para mim completamente indignada, mas Edward apenas assentiu lentamente. – Terminei.

Ele saiu sem olhar para trás. Bella permaneceu no quarto e eu alcancei o celular, fingindo interesse na tela para evitar o olhar dela. Sabia exatamente o que viria.

– Você precisava fazer isso? – ela perguntou.

– Fazer o quê?

– Falar com seu pai dessa maneira.

– Ele entrou aqui me atacando.

– Ele entrou aqui preocupado.

– Vocês chamam tudo de preocupação quando querem controlar alguma coisa.

– Ninguém quer controlar você, Nessie. Nós só queremos que você comece a perceber que suas escolhas têm consequências.

– Eu saí para uma festa, mãe. Não assaltei um banco.

– Não estou falando apenas de ontem.

– Então eu realmente não quero conversar sobre isso agora.

Minha mãe me observou durante alguns segundos. – Seu pai ama você mais do que qualquer coisa. Não espere perder alguma coisa para descobrir o valor que ela tinha enquanto estava ao seu lado.

Soltei um suspiro e deixei o telefone cair sobre o colchão. – Vocês combinaram essas frases antes de entrar aqui?

Bella balançou a cabeça, decepcionada. – Às vezes eu não reconheço a menina que criei.

– Talvez porque eu não seja mais uma menina.

– Não. Não é por isso.

Ela se inclinou, beijou minha testa e saiu sem dizer mais nada. Observei a porta se fechar e permaneci alguns segundos olhando para ela, ainda incomodada com toda aquela conversa. Eles faziam parecer que eu era algum tipo de monstro simplesmente porque gostava da vida que tinha. Meu pai trabalhara para construir aquele patrimônio, minha mãe desfrutava dele e eu era filha deles. Qual era exatamente o crime em aproveitar o que um dia seria meu de qualquer maneira?

As batidas na porta interromperam meus pensamentos e Marta entrou carregando uma bandeja grande. Ela se aproximou cuidadosamente da cama e a colocou diante de mim. Havia ovos, torradas, frutas cortadas, suco de laranja, café com leite e um pequeno copo de água ao lado de dois comprimidos. Olhei automaticamente para o relógio e franzi a testa.

– Você demorou quase vinte minutos.

– Desculpe, senhorita. A cozinheira precisou preparar os ovos novamente porque os primeiros...

– Eu não perguntei o motivo. Eu disse que você demorou.

– Sim, senhorita.

Peguei a xícara e dei um gole no café. O gosto me desagradou imediatamente. Fiz uma careta e cuspi de volta dentro da própria xícara, colocando-a sobre o pires com força.

– Isso está horrível.

Marta se assustou. – Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu que isso não parece café. Quem fez?

– A dona Célia, como todas as manhãs.

– Então diga à dona Célia que desaprendeu.

– Posso pedir para ela preparar outro.

– Eu pedi meu café há vinte minutos, Marta. Não quero esperar mais vinte por outro.

– Ela consegue fazer rapidamente.

– Você não está entendendo. Eu não quero mais.

Marta ficou parada ao lado da cama e olhou para a bandeja. – Posso deixar as outras coisas. Talvez a senhorita queira comer alguma coisa antes de tomar o remédio.

– Eu sei como tomar um comprimido.

– Claro. Eu só pensei...

– Esse é o problema. Você não precisa pensar no que eu quero. Quando eu quiser alguma coisa, eu peço.

Ela ficou em silêncio por um momento. – Sim, senhorita.

– Agora tire essa bandeja daqui.

– Toda a bandeja?

Olhei para ela incrédula. – Marta, eu estou falando outra língua?

– Não, senhorita.

– Então por que eu preciso repetir tudo duas vezes?

– Desculpe.

– E pare de pedir desculpas. Isso está começando a me irritar mais do que o café.

Ela pegou a bandeja novamente. Quando se virou para sair, percebi que seus olhos estavam úmidos, mas não me importei o suficiente para perguntar o motivo. Provavelmente estava cansada, tinha algum problema em casa ou simplesmente era sensível demais. Não era problema meu.

– Marta – chamei antes que ela chegasse à porta, e ela se virou imediatamente. – Diga ao motorista para deixar o carro pronto à uma. Vou almoçar com Alec.

– Sim, senhorita.

– E ligue para a lavanderia. Quero meu vestido branco aqui antes do meio-dia.

– Vou ligar.

– Se disserem que não conseguem, peça para alguém buscar.

– Certo.

– E não deixe ninguém entrar no meu quarto até eu chamar. Principalmente meu pai.

Ela hesitou. – Senhorita, se o senhor Cullen quiser...

– Eu disse ninguém.

– Sim, senhorita.

– Pode sair.

Marta fechou a porta atrás de si e finalmente fiquei sozinha. Afundei novamente nos travesseiros e puxei o edredom até a cintura, ainda irritada por terem conseguido estragar minha manhã. Peguei o celular e encontrei uma nova mensagem de Alec dizendo que havia reservado nossa mesa para uma e meia e que esperava que, pela primeira vez na vida, eu fosse pontual. Sorri e respondi que ele não deveria esperar milagres. Depois abri as redes sociais, passei alguns minutos olhando fotografias da festa da noite anterior e encontrei uma em que Alec me abraçava pela cintura enquanto eu ria para a câmera com uma taça na mão. Parecíamos perfeitos. Minha roupa era perfeita, meu cabelo estava perfeito e, mesmo bêbada, eu continuava melhor do que metade das mulheres que apareciam ao fundo da fotografia.

Compartilhei a imagem e deixei o celular sobre o criado-mudo.

Meu pai ficaria irritado durante algumas horas e à noite provavelmente já estaria falando comigo novamente. Minha mãe faria o que fazia desde que eu era criança, ficaria no meio de nós até Edward desistir da discussão. Marta traria outro café se eu decidisse pedir. Meu vestido chegaria da lavanderia. O motorista estaria esperando na porta. Alec estaria no Bellini. Depois do almoço talvez fizéssemos compras, talvez fôssemos para algum hotel, talvez decidíssemos viajar no fim de semana. Eu não precisava saber.

Fechei os olhos e me acomodei novamente na cama, deixando a dor de cabeça diminuir aos poucos enquanto o silêncio retornava ao quarto.

Naquela manhã, meu pai tinha me dito que um dia eu sentiria falta dele.

Eu achei ridículo.

Porque algumas coisas pareciam tão certas que a possibilidade de perdê-las sequer passava pela minha cabeça.


Quando saí da mansão, já passava da uma e vinte. O motorista estava esperando havia quase meia hora, embora eu tivesse mandado Marta avisá-lo para deixar o carro pronto à uma. Não vi problema algum nisso. Era justamente para esperar que ele recebia salário. Entrei no banco traseiro ainda respondendo uma mensagem de Alec e apenas disse o nome do restaurante antes de voltar minha atenção para o celular. Meu vestido branco havia chegado da lavanderia a tempo, depois de uma discussão que Marta precisou resolver por telefone, e eu combinara a peça com uma bolsa pequena, óculos escuros e sandálias que havia comprado em Milão poucos meses antes. Minha dor de cabeça continuava ali, mas já estava suportável depois de um banho demorado, dois comprimidos e quase quarenta minutos diante do espelho. Eu tinha acordado parecendo uma sobrevivente de guerra e saía de casa como se nada tivesse acontecido. Para mim, isso era uma habilidade.

Alec estava sentado à mesa quando cheguei ao Bellini às duas e sete. Reconheci imediatamente o relógio novo em seu pulso antes mesmo de chegar perto dele e sorri ao perceber que finalmente havia comprado o modelo que namorávamos havia algumas semanas. Ele ergueu os olhos quando me aproximei e consultou o relógio de propósito, fazendo questão de mostrar a hora. – Trinta e sete minutos, Renesmee. Estou começando a acreditar que você considera pontualidade uma ofensa pessoal – reclamou, levantando-se para beijar meu rosto. Tirei os óculos e entreguei minha bolsa ao funcionário que puxou a cadeira para mim antes de me sentar.

– Se você já sabe que vou me atrasar, deveria fazer a reserva meia hora depois e parar de reclamar – respondi, pegando o cardápio enquanto Alec voltava ao lugar. – E não venha me dizer que ficou aqui sofrendo. Você provavelmente chegou dez minutos antes de mim.

– Cheguei uma e vinte e oito.

– Isso é praticamente dez minutos.

– Sua matemática é fascinante.

– Minha matemática funciona perfeitamente quando envolve coisas importantes.

Alec apoiou o braço sobre a mesa e sorriu. – Como o limite do seu cartão?

– Meu cartão não tem limite.

– Exatamente por isso sua matemática nunca precisou ser muito boa.

Mostrei o dedo do meio discretamente, fazendo-o rir, e voltei a olhar o cardápio. Não demorou para o garçom se aproximar, mas bastou ele mencionar o prato especial do dia para que eu fizesse uma careta. – Não quero nada com cogumelos. Da última vez colocaram tantos que eu passei metade do almoço tirando do prato. Quero o filé, mas sem aquele molho escuro. Peça para fazerem o molho de vinho que serviram no mês passado e quero os legumes separados. Não misturados.

O rapaz anotou rapidamente. – Claro, senhora.

– Senhorita – corrigi imediatamente.

– Desculpe, senhorita.

– E água com gás. Bem gelada.

– Para mim o mesmo filé, mas pode vir como está no cardápio – Alec pediu, entregando o menu ao garçom antes de me olhar. – Eu não sei como você consegue transformar um pedido de almoço em uma negociação diplomática.

– Porque eu sei o que gosto. Não vou pagar uma fortuna para comer alguma coisa do jeito que o chef decidiu que devo gostar.

– Você não vai pagar. Eu vou.

– Então posso reclamar ainda mais.

Ele riu e pegou minha mão sobre a mesa, observando minhas unhas. – Você quebrou uma.

Olhei imediatamente. – Onde?

– Aqui.

Quando vi uma pequena lasca no esmalte do indicador, minha expressão mudou. – Eu fiz ontem.

– Uma tragédia.

– Você está rindo porque não é sua mão.

– Realmente. Não sei como você vai sobreviver.

– Vou mandar a Camila me encaixar amanhã.

– E cancelar o quê?

– Pilates.

– Você não foi ao Pilates nenhuma vez este mês.

– Então não fará diferença cancelar.

Alec balançou a cabeça, ainda rindo. Éramos parecidos em coisas que eu considerava importantes. Nenhum dos dois precisava fingir preocupação com dinheiro, nenhum tinha paciência para lugares ruins e ambos gostávamos de coisas caras sem aquela necessidade insuportável que algumas pessoas tinham de justificar cada gasto. Alec podia entrar numa loja, gostar de um relógio e comprar. Eu podia decidir numa quarta-feira que queria passar o fim de semana em Paris e, se não houvesse nenhum compromisso importante, simplesmente ir. Era assim que a vida deveria funcionar quando se tinha condições para isso. Nunca entendi por que algumas pessoas ricas insistiam em agir como se dinheiro fosse algo vergonhoso.

Enquanto esperávamos o almoço, contei a Alec sobre a discussão com meu pai. Naturalmente, omiti algumas partes e contei outras do jeito que me favorecia. – Ele entrou no meu quarto enquanto eu estava praticamente morrendo e começou a falar sobre responsabilidade, trabalho e dinheiro. Depois ameaçou cortar meu cartão – falei, bebendo um pouco da água que o garçom acabara de servir.

Alec ergueu as sobrancelhas. – Edward ameaçou cortar seu cartão?

– Ameaçou.

– Isso eu pagaria para ver.

– Ele não vai fazer.

– Como sabe?

– Porque é meu pai.

– Argumento irrefutável.

– Minha mãe também não deixaria.

– Bella ainda salva você de tudo?

– É para isso que servem as mães.

Alec riu e recostou-se na cadeira. – Você tem consciência de que é completamente mimada?

– Tenho. Não vejo por que isso deveria me incomodar.

– Pelo menos é sincera.

– E você é diferente?

– Claro. Sou um homem extremamente humilde.

Olhei para o relógio em seu pulso. – Quanto custou?

Ele cobriu o relógio com a outra mão. – Isso é irrelevante.

– Foi o que pensei.

Nós dois rimos e o assunto terminou ali. Não contei a Alec a frase que meu pai dissera antes de sair do quarto. Nem pensei nela durante o almoço. Edward tinha o hábito de dramatizar quando estava irritado e eu já tinha ouvido discursos suficientes sobre responsabilidade para saber que, em algumas horas, tudo voltaria ao normal.

Depois do almoço, Alec sugeriu que fôssemos embora, mas eu queria passar em uma loja para ver uma bolsa que havia chegado naquela semana. Uma loja virou duas. Duas viraram cinco. Quando percebi, estávamos caminhando por um dos corredores do shopping com dois funcionários carregando sacolas atrás de nós, enquanto Alec reclamava que eu já havia comprado três pares de sapatos praticamente iguais.

– Eles não são iguais – respondi, parando diante da vitrine de uma joalheria.

– Dois são pretos.

– Um é preto.

– Os dois são pretos.

– Um é ônix.

Alec ficou me olhando por alguns segundos. – Renesmee, ônix é preto.

– Não daquele jeito.

– Eu retiro o que disse no restaurante. Seu pai deveria cortar seu cartão por uma semana. Seria educativo.

Virei lentamente para ele. – Quer terminar nosso namoro?

– Por causa de um sapato?

– Por me desejar pobreza.

Alec começou a rir. – Uma semana sem cartão agora é pobreza?

– Para mim, sim.

– Você é inacreditável.

– E mesmo assim continua comigo.

– Tenho péssimo gosto.

– Seu relógio prova isso.

Ele segurou minha cintura e me puxou para perto antes que eu pudesse me afastar. – Você gostou do relógio.

– Gostei porque fui eu que escolhi.

– Então admita que tenho bom gosto porque escolhi você.

– Essa foi horrível.

– Funcionou?

– Não.

– Vai me beijar mesmo assim?

– Talvez.

Beijei Alec no meio do corredor e me afastei quando ouvi alguém assobiar. Não me preocupei em descobrir quem havia sido. Entrei na joalheria e, menos de vinte minutos depois, saí de lá com um par de brincos que eu não precisava e que provavelmente usaria duas vezes antes de esquecer dentro de alguma gaveta.

Passamos o restante da tarde assim. Compramos roupas, sapatos, perfumes e algumas coisas que eu nem tinha planejado comprar. Alec comprou uma jaqueta depois que eu disse que a antiga estava começando a parecer roupa de universitário pobre, e ele passou os vinte minutos seguintes ameaçando me fazer pagar por ela. No fim, pagou com o próprio cartão e ainda comprou uma para mim porque eu tinha gostado do modelo feminino. Paramos para tomar café no final da tarde e ficamos quase uma hora decidindo o que faríamos no fim de semana.

– Mônaco – sugeri, mexendo distraidamente na espuma do café.

– Fomos há dois meses.

– E daí?

– Quero alguma coisa diferente. Aspen?

– Frio demais.

– Você ama frio.

– Quando estou dentro de um hotel.

– Então fique dentro do hotel.

– Para isso posso ficar em casa.

Alec apoiou o queixo na mão. – Você é difícil.

– Você descobriu isso depois de quanto tempo?

– No primeiro encontro.

– E voltou para o segundo.

– Eu era jovem.

– Foi há oito meses.

– Exatamente. Jovem e inconsequente.

Chutei a perna dele por baixo da mesa e Alec riu. Acabamos não decidindo nada. Havia tempo. Na nossa vida, quase tudo podia ser decidido na última hora. Se quiséssemos viajar, alguém compraria as passagens, faria as reservas e organizaria o restante. Eu não precisava me preocupar com detalhes.

Já passava das sete quando Alec me deixou em casa. O motorista dele estacionou diante da entrada principal da mansão e um dos funcionários veio imediatamente abrir minha porta. Alec saiu pelo outro lado e contornou o carro enquanto os empregados começavam a retirar as sacolas do porta-malas.

– Tem certeza de que não quer jantar comigo? – ele perguntou, segurando minha cintura.

– Eu estou cansada.

– Você dormiu até quase meio-dia.

– Fazer compras cansa.

– Você apontou para coisas e entregou um cartão.

– Exatamente. Exaustivo.

Alec riu e me beijou. – Amanhã eu te ligo.

– Depois das dez.

– Meio-dia.

– Melhor ainda.

– Boa noite, princesa.

– Boa noite.

Esperei o carro partir antes de entrar. Assim que atravessei a porta, tirei os sapatos e os deixei perto da entrada, entregando minha bolsa para uma das funcionárias que se aproximou.

– Onde estão meus pais? – perguntei, olhando rapidamente em direção à sala. Normalmente minha mãe estaria em casa naquele horário e meu pai, se não estivesse trabalhando, provavelmente estaria no escritório.

– Eles ainda não chegaram, senhorita Renesmee – respondeu a empregada.

Franzi a testa. – Não chegaram de onde?

– O senhor e a senhora Cullen saíram durante a tarde.

– Eu sei que saíram. Estou perguntando por que ainda não voltaram.

A mulher pareceu ficar desconfortável com meu tom. – Eu não sei, senhorita. Apenas nos informaram que sairiam e retornariam mais tarde.

– Então por que você respondeu como se soubesse?

– Desculpe.

Revirei os olhos e indiquei as sacolas que os funcionários traziam da entrada. – Mandem levar tudo para o meu quarto. E cuidado com as sacolas menores. Tem coisas frágeis ali. Se quebrarem alguma coisa, eu vou saber.

– Sim, senhorita.

– E não amassem as caixas dos sapatos.

– Claro.

Entrei na sala sem esperar resposta e me joguei no sofá, esticando as pernas sobre uma das almofadas. Meu corpo realmente estava cansado, embora eu jamais admitisse isso para Alec. Peguei o celular e abri as redes sociais enquanto ouvia os funcionários passando pelo corredor com minhas compras. Havia várias mensagens no grupo com Alice e algumas fotos que Alec tinha enviado durante a tarde. Escolhi uma em que aparecíamos diante de uma vitrine, aumentei para verificar se estava boa e comecei a mexer na iluminação antes de postar.

Estava tão concentrada no celular que só percebi que alguém havia entrado na sala quando ouvi passos.

Levantei os olhos.

Emmett estava parado próximo à entrada.

Meu primeiro impulso foi sorrir. Apesar de ser primo do meu pai, eu o chamava de tio desde criança. Ele fazia parte da família havia tanto tempo que nunca me preocupara com o parentesco exato. Mas o sorriso desapareceu antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.

Havia algo errado.

Emmett não entrou fazendo alguma piada sobre minhas compras. Não perguntou se eu havia assaltado o shopping. Não reclamou dos sapatos abandonados perto da entrada nem pediu alguma coisa para beber como costumava fazer quando aparecia sem avisar.

Ele apenas ficou parado.

E me olhou.

Baixei lentamente o celular.

– Tio Emmett?

Ele não respondeu de imediato. Seus olhos passaram rapidamente pelos funcionários no corredor e voltaram para mim.

– Nessie.

Franzi a testa. – O que foi?

Emmett caminhou alguns passos para dentro da sala, mas parou novamente. Eu nunca tinha visto aquele homem daquele jeito. Emmett era grande, barulhento, inconveniente e provavelmente uma das pessoas mais difíceis de deixar desconfortável. Naquele momento, porém, parecia não saber o que fazer com as próprias mãos.

– Meus pais ainda não chegaram– falei começando a achar aquela situação irritante. – Eu perguntei para Marta e ninguém sabe me dizer onde eles estão. Se meu pai mandou você vir aqui por causa daquela discussão ridícula desta manhã, pode avisar que eu não estou com disposição para outro sermão.

– Não é isso.

O jeito como ele falou me fez ficar em silêncio.

Emmett se aproximou mais.

– Nessie, eu preciso conversar com você.

– Então conversa.

Ele fechou os olhos por um instante e respirou fundo.

Meu estômago se contraiu.

– Por que você está com essa cara?

– Sente-se direito.

– Eu já estou sentada.

– Renesmee...

– Tio Emmett, você está me assustando.

Foi a primeira frase que consegui dizer sem arrogância desde que entrara naquela casa.

Ele me olhou em silêncio.

Meu celular continuava na minha mão. A tela ainda mostrava a fotografia minha e de Alec no shopping. Eu a bloqueei sem saber por quê e deixei o aparelho sobre a perna.

– Aconteceu alguma coisa com meu pai? – perguntei.

Emmett engoliu em seco.

Levantei-me imediatamente.

– Onde está minha mãe?

– Nessie...

– Onde estão os meus pais?

Ele deu mais um passo na minha direção e estendeu a mão, mas recuei antes que pudesse me tocar.

– Não. Fala primeiro. O que aconteceu?

– Houve um acidente.

Fiquei olhando para ele.

– Que acidente?

Emmett respirou fundo novamente. Pela primeira vez, vi os olhos dele brilharem.

– O helicóptero em que seus pais estavam caiu.

Não compreendi.

As palavras chegaram até mim, mas não formaram uma frase que fizesse sentido.

Olhei para Emmett esperando que continuasse.

Esperando que explicasse.

Esperando que dissesse que meu pai estava em algum hospital reclamando dos médicos, que minha mãe estava nervosa, que alguém tinha quebrado um braço, uma perna, qualquer coisa.

Mas Emmett não disse mais nada.

E eu fiquei parada no meio da sala, com dezenas de sacolas caras sendo levadas para o andar de cima, enquanto tentava entender como uma frase podia destruir uma vida inteira.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.