Aqueles Que Ficam

1 Aqueles que ficam


Notas iniciais
A parte em itálico é o flashback. A fic é muito, muito, muito dramática (só podia ser minha mesmo). Ignora o fato de que Erza estava na Ilha Tenrou e muitas coisas que realmente aconteceram, mas afinal, é uma fanfic. Nela, Gerard está na prisão e pensa no dia do seu julgamento... O que acontece nele? Não darei esse spoiler. Leiam!

Ele encarou sua própria mão pálida.

Seus dedos, a essa altura, se pareciam mais com gravetos que com dedos. Finos, a pele repuxada, caindo desleixadamente no espaço não preenchido que deveria ter de carne entre a pele e o osso. A mão em si, estava pálida, como se não visse a luz do sol há dias.

O que era a verdade.

Ele olhou novamente para sua mão, então a estendeu e olhou a parede. Uma grossa parede de pedra, impenetrável, forte, que era absoluta no mundo dele. Ela impedia a luz e a esperança de entrar. Era seu quarto na prisão.

Não havia um único raio de sol que pudesse entrar por lá.

Mas de qualquer forma, ele não desejava ver o sol.

Não depois do que tinha acontecido.

Ele fora condenado à morte. Decisão quase unânime do conselho. Nada mais natural; afinal o conselho fora um dos que ele traiu. Sua execução fora marcada para duas semanas depois de sua prisão, para lhe dar tempo para "pensar no que fizera".

Do fundo do seu coração, ele só queria morrer logo. Queria pagar; por ter matado seus amigos e os enganado, por ter traído Erza, por ser fraco. Por ter cedido à Zeref, por ter estragado a própria vida, por ter se tornado um monstro. Ele simplesmente queria morrer, deixar o mundo livre dos magos das trevas, como sempre fora o seu sonho, e se quisesse realmente realizá-lo seria um dos que iria embora.

Mas aparentemente, o conselho o odiava o bastante para lhe dar mais duas semanas de vida miserável.

Então ele esperou, por mais duas semanas. Preso naquele quarto estúpido, comendo, dormindo e vendo o tempo enquanto este passava. Até que, finalmente, 14 dias depois, a porta de sua cela foi aberta. A luz que adentrou através da porta chegou a cegá-lo. Era a luz, sua tão desejada luz, para ser vista uma última vez. Apesar de ser branca e pálida, apenas passando por uma janela, era mais que o bastante. Ele deixou a sensação reconfortante de estar debaixo dos raios dominá-lo por um tempo, melhorando a sensação de torpor em seu corpo dormente. Mas logo depois o guarda o algemou e começou a arrastá-lo, e ele, cabisbaixo, começou a caminhar em direção à morte.

E como ele podia evitar sorrir com esse pensamento?

Mais alguns passos e o barulho irritante das correntes voltando a arrastar-se lentamente pelo chão. Seus pés estavam espremidos e machucados, mas ele não pensava nisso.

Seu olhar estava fixo no círculo mágico que se encontrava no chão, que ele sabia que o prenderia ali para sempre.

E no qual foi jogado apenas alguns instantes depois.

O círculo mágico brilhou e ele soube que agora paredes sólidas, mas invisíveis, o cercavam em seu interior. Ele tentou atravessar a mão além do círculo. Dito e feito, era impossível. Ótimo, ele pensou. O círculo mágico era uma magia especialmente feita pra isso. Qualquer um pode entrar, mas ninguém pode sair, a menos que o usuário que o criou desfaça o efeito.

Um dos membros do conselho, o que mais o odiava e que manteve um sorriso de triunfo invariavelmente durante todo o julgamento, começou a falar.

– Estamos aqui para executar o julgamento de Gerard Fernandes, acusado de traição, homicídios múltiplos e contato com magia das trevas.

O sorriso voltou a se abrir em sua face, durante a pausa de um eterno segundo antes de ele continuar, lentamente, palavra por palavra, como se estivesse tentando apreciar tudo, completamente, em cada detalhe.

– O Conselho Mágico decidiu que a sua pena será a de morte.

Mais uma pausa eterna. Até quando ele iria enrolar? Gerard só queria ir embora, de preferência para sempre. Por que ele precisava apreciar tão demoradamente, sorrindo e com uma cara de quem está a ponto de lamber os lábios, antes de finalmente...

– Que comece a execução — ele ordenou, sem se mexer, continuando a sorrir e assistir a tudo de cima.

Ele voltou a olhar sua mão, muito mais pálida do que naquele episódio. Quando foi que tudo dera tão errado?

Ele mantinha os olhos fechados para não chorar. Por algum motivo sentia que, se os lacrasse com as pálpebras, poderia controlar a ardência que sentia por trás de seu olho, insistindo em escapar na forma de lágrimas geladas, sinceras e que imploravam perdão.

Mas é claro que ele não teria seu perdão.

Ou pelo menos era o que pensava.

Ele ouviu uma explosão, e o barulho de algo caindo atrás dele. Mas não se importou. Sentiu também um estranho cheiro preencher suas narinas, o que o deu vontade de tossir. Mas nada, nada, nenhuma dessas coisas foi tão impressionante quanto o que ele sentiu logo depois.

Braços conhecidos. Eram fortes, mas ao mesmo tempo delicados. Pareciam uma fortaleza, porém confortável. Ele conhecia aquilo, se lembrava perfeitamente, daquele toque inebriante que o esquentava até o interior e fazia se sentir...

Em casa...

– Não... — ele pensou, uma lágrima teimosa conseguindo escapar agora rolando por sua face.

Inesperadamente, ele sentiu outra se juntar a esta, correndo sem rumo em suas bochechas. Ele abriu os olhos, e encarou o vermelho-sangue que agora cercava seu redor, macio e brilhante.

– Erza... — ele disse, tentando se recuperar — mas o que você está fazendo aqui?

Atrás deles, havia um enorme buraco na parede, provavelmente causado por uma de suas espadas.

– Ora, ora... — disse o juiz — parece que a intrusa caiu diretamente onde não poderia, não? — ele disse com escárnio.

Era verdade. Ela estava bem no centro do círculo mágico, junto com ele.

– GERARD É INOCENTE! — ela gritou com toda a força de seus pulmões, o olho direito sangrando lágrimas. — ELE NÃO FEZ NADA, A CULPA É DE ZEREF!

Só porque ele não queria mais voltar a fazê-la chorar...

– Zeref está morto. Gerard é quem tentou ressuscitá-lo.

– ELE NÃO ESTAVA! GERARD FOI POSSUÍDO! POR FAVOR ENTENDAM ISSO!

– Titânia, o conselho tem muito respeito por você e seu poder, mas não podemos deixar que interfira.

– Eu não vou deixar que matem um inocente! Nem que eu tenha que ir junto com ele! Vou lutar pela sua vida!

Não... Tudo menos isso...

– Erza, você não pode fazer isso! — Gerard finalmente falou, mas sua voz saiu fraca e o próprio juiz o ignorou.

– Lutar com a grande Titânia não é do feitio do Conselho — ele disse, suspirando como que derrotado — sendo assim, parece que teremos que mudar a pena.

Gerard e Erza suspiraram de alívio em harmonia. Ela, por achar que ele seria solto. Ele, por achar que eles levariam Erza embora, adiando a pena, e o matariam depois, como ele merecia.

Mas o que ele realmente fez matou o alívio contido nos suspiros de ambos.

Um raio saiu de sua mão em uma velocidade inacreditável e estonteante. Correu por uma fração de segundo, até atingir o alvo, que não teve tempo de fazer nada além de arregalar os olhos, assustado.

O raio atingiu Erza em cheio, bem no meio da cabeça, e esta caiu com um baque no chão, os olhos arregalados e estáticos, um filete de sangue escorrendo, em uma posição esquisita.

– ERZA! — ele gritou desesperando, olhando pra baixo — O QUE VOCÊ FEZ?

– Ela pretendia ajudar um preso a fugir sob falsos argumentos. Isso é traição. A traição, por si só, merece pena de morte, especialmente se tratando de um criminoso como você. Mas nós, do conselho, costumamos respeitar o último desejo dos presos, por isso você continuará vivo... Na sua cela de prisão, é claro, pois não podemos arriscar a vida da população e deixá-lo solto.

O círculo ao seu redor sumiu enquanto ele pronunciava aquelas palavras, e ao fim delas ele caiu no chão, ajoelhado, sem nem tentar segurar as lágrimas abundantes que exploravam suas bochechas, gelando-as como se quisessem reproduzir na pele o que ele sentia em seu coração.

Não, não, não, não...

Mais lágrimas, mais gelo, a visão ficou turva como a confusão em sua cabeça. Por que ele viveria? Não, por que Erza morrera? Não era justo, o conselho o odiava tanto a ponto de deixá-lo viver apenas para sentir a culpa e a dor de ver aquela mulher... S... S... Sem... Vida...

Ele não conseguia completar a frase nem mesmo em seus pensamentos, muito menos conseguiria deixá-la escapar dos lábios.

O segurança voltou a segurá-lo pelo braço, e pela primeira vez desde que fora preso, ele resistiu contra ele. Não queria voltar. Queria voltar a ver Erza, seu rosto, seus olhos, ou pelo menos fechá-los, pois não aguentava vê-los daquele jeito, paralisados como em transe, um transe eterno e infinito que se estenderia...

A dor continuava, assim como as lágrimas. Assim como os puxões de seu carcereiro que o empurrava com toda a sua força, de volta para a cela que ele já havia aprendido a reconhecer como "lar".

Só essas lembranças, tão dolorosas, amargas, faziam a amargura voltar aos seus olhos e lágrimas presas começarem a inundar seu corpo por dentro, fazendo-o tremer e tentar resistir ao momento em que elas sairiam. Mas ele continuou firme, encarando o chão, sentado. Ao seu lado, havia um prato de comida, completamente intocado. Ele havia decidido que não havia nada, absolutamente NADA, mais injusto no mundo do que ele ficar e ela ir. Mas o único jeito de pensara em morrer era aquele... De fome.

O mais miserável possível, assim como sua vida fora.

Ia sofrer, ia se machucar, ia passar vontade e enfraquecer até a morte. Nada mais justo. Nada mais merecido. Ele chutou o seu prato de comida para longe, tentando evitar cair na tentação. Sim, ele tinha tentação de comê-lo. Sua mente e seu corpo batalhavam sem dó, tentando decidir o que fazer.

Mas ele sabia que não ia comer... Não podia... Não merecia...

Sua visão ficou turva e ele sentiu, apenas levemente, o toque do chão em seu rosto, esmagando-o e apoiando-o ao mesmo tempo.

Está na hora, ele pensou, e a partir desse momento, não pensou mais nada.


Não chore por aqueles que se vão;

Pois a dor maior é daqueles que ficam.

Notas finais
Por favor, deixem um review, deu o maior trabalho pra fazer essa fic (LEVOU UMA HORA!) e eu realmente me sinto desmotivada por ter todo esse trabalho e nenhum review.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!