“I annouce adhesiveness,

Eu anuncio fidelidade,

I say it shall be limitless,

Eu digo que ela há de ser sem limites,

Unloosen’d

Firme

I say tou shall yet find the

Eu digo que você ainda há de encontrar

Friend you werw looking for”

O amigo que você estava procurando

(Walt Whitman: So Long!)



A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como um “deserto de almas”. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre vasos de sakê, trocaram, então, ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial também reconhece de imediato a outra – talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como “especial”, “diferente” ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece, porém, que não tinham preparo algum para dar nome às emoções nem mesmo para tentar entende-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Shiroyama Yuu, conhecido por Aoi, tinha um ano a mais que trinta; Takashima Kouyou, conhecido por Uruha, um a menos. Mas diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Aoi vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Uruha, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Yuu ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Shiroyama Yuu, prazer, Takashima Kouyou, depois como é mesmo o seu nome? Sorrindo divertidos com a coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem, ou, no máximo, as sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o principio alguma coisa – fados, astros, sinais, quem saberá? Conspirava contra (ou a favor, por que não?) daqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma hora para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Aoi (ou teria sido Kouyou?) chamaria, meses depois, exatamente de um “deserto de almas”, para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los – ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, emfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Yuu tinha vindo do norte, Uruha tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste – e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade – de certa forma, também em nenhuma outra –, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Yuu tinha um telefone alugado, um rádio e um sabiá na gaiola, chamado Miya.

Uruha tinha uma televisão colorida com imagem fantasma, caderno de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro de reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Kouyou tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia. Moreno com o cabelo levemente caindo sobre a nuca azulando o rosto e destacando os olhos tão negros em contraste com a pele pálida, Shiroyama era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo. Tinham o mesmo porte praticamente, mas Takashima era um pouco mais alto, mais frágil porém, talvez pelos cabelos claros, caindo sobre os ombros, olhos assustadiços, cor de chocolate contrastando com a pele de porcelana. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos, mas cordiais junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez enquando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Uruha chegou atrasado e, respondendo a um vago que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, Aoi deteve os dedos sobre o teclado da maquina e perguntou: que filme? Infâmia, Kouyou contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Yuu olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Kouyou para um café e, no que restava daquela manhã quente de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperanças e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, encontrariam-se para um café. Assim foi, e encontraram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, baladas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre se enfiavam pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite Aoi pegou o violão e cantou Calm Envy. Nessa mesma festa, Uruha bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Yuu falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Kouyou contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados que estavam, ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Takashima não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Yuu vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, estranhamente gelados, cantando baixinho Calm Envy, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarro a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Aoi deu a Uruha o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, agente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Kouyou telefonou só pra saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comida que a empregada deixara pronta. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Uruha deu-se bem com Miya, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Aoi: Last Bouquet, Sumire e, a pedido de Uruha, outra vez, duas vezes, Calm Envy. Takashima gostava principalmente daquele pedacinho assim nós carregamos esses limites que eu não posso deixar desaparecer. Jogaram algumas partidas de mahjong e, por volta das nove, Kouyou se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Uruha, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco pras duas e o relógio de ponto era implacável. Saiam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Uruha, Aoi entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno da jaqueta. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Gentle Lie, Aoi viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Kouyou conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? Perguntou. Uruha sorriu forte: agente acostuma.

Aos domingos, agora, Takashima sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Yuu cantava – vezenquando Hana Kotoba, vezenquando Wakaremichi –, Aoi fazia carinhos lentos na cabecinha de Miya, pousado no seu dedo indicador. As vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Uruha acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos a repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles, os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava o outono, Takashima fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Yuu deu a ele a gaiola com Miya. No começo da primavera, foi a vez de Aoi fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Kouyou deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu uma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Shiroyama morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Uruha vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. À noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava a cabeça de Miya. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Yuu, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Aoi voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Uruha que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Kouyou foi. Yuu tinha deixado a barba crescer levemente. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Shiroyama falou longamente da mãe – eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Uruha estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Kouyou estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Aoi. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: O de Aoi, canela, conservada, o de Uruha, frescor, muito suave. Durou muito tempo. A mão de Takashima tocava a barba de Yuu, que passeava os dedos pelos finos fios loiros que caiam sobre o ombro do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Uruha levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Aoi disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Kouyou outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes – ninguém, mundo, sempre – e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Uruha despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou a cabeça de Miya até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Aoi, mas era muito tarde.

Depois chegou o Natal, o Ano Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas da repartição. Yuu deu a Kouyou uma reprodução do Nascimento da Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh.

Uruha deu a Aoi um CD. O que mais ouviram foi Love In The Ice, prestando atenção no pedacinho que dizia tristeza e solidão que todos tem procurando pelo lugar para recuperar.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Aoi, que Uruha ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando de roupa no banheiro, muito bêbado, Kouyou falou que ia dormir nu. Yuu olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Kouyou, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Uruha foi embora sem se despedir para que Aoi não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias – e tinham planejado juntos, quem sabe Tókio – ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe da seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito frio. Foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”, sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Takashima baixou os olhos cor de chocolate, mas Shiroyama colocou-se de pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevidamente no ar, não conseguiu ainda dizer a palavra que jazia na língua, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de inverno não era capaz de aquecer o metal gélido das mesas. Aoi guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Uruha, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Calm Envy, escrita a mão por Yuu numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele grande prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos da janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Aoi abrindo a porta para que Uruha entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes geladas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia um vagalume no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

Notas finais
fim.
espero que tenham gostado.
é a primeira one que eu posto aqui no Nuyah!
kissus ;*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!