Aqueles Dias

1 Solidão


Notas iniciais
Essa história é baseada em uma música pouco conhecida chamada Done With Those Days e você pode ouvir se quiser entrar mais no clima da história.

Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=flJwnaknAqE

A fumaça densa e cinza ainda enchia a casa, se impregnava nas paredes e se enroscavam no pulmão já debilitado. Acordara com uma crise de tosse a tempo de ouvir o som vindo da porta do quarto.

— A tempestade está se formando no horizonte, é melhor irmos logo.

A porta se fechou, ninguém esteve lá dentro enquanto se retorcia sobre o abdômen dolorido de tanto tossir. Se levantou, os pés nus roçando o chão congelante de azulejo. Não tinha sapatos e as poucas meias que lhe restavam estavam puídas, furadas e tão finas que não fariam diferença. Os pés, pequenos demais, não faziam barulho ao andar pela casa até a pequena cozinha perto da porta dos fundos.

Lá fora havia uma fogueira ardendo apenas nas brasas mal apagadas da noite anterior quando haviam queimado alguém, a vovó talvez. Papai dizia que não podiam ficar empilhando corpos. Lá dentro, a luz era difusa pela concentração de fumaça e cinzas e davam um ar apocalíptico aos eletrodomésticos já meio enferrujados, com a gordura formando crostas negras sobre o alumínio opaco.

Na ponta dos pés, com a ponta dos dedos, conseguia alcançar a ponta dos mantimentos na prateleira mais baixa dos armários aéreos. Se afastou e trepou sobre a mesa de madeira carcomida pelos cupins, aquela mesa que tremia mesmo sob o peso quase nulo. Não arriscou ficar de pé, mas conseguia ver uma quantidade de miojos ali.

Difícil a comida chegaria ao fim do mês, mas isso não preocupação para alguém que mal chegaria ao fim da semana.

Escorregou para fora da mesa, torcendo para que não quebrasse. Uma tosse seca percorreu seu corpo, jogando-o no chão. As lágrimas escorrendo pelo rosto. A garganta ardendo como fogo. A respiração faltando. Os olhos se fechando.

Inspira! 5, 4, 3, 2, 1. Expira! 5, 4, 3, 2, 1. Mais fundo. Inspira! 5, 4, 3, 2, 1. Expira! 5, 4, 3, 2, 1.

Conseguiu se levantar, as pernas tremendo, os pés arrastando.

Realmente uma tempestade se formava no horizonte, iria cair em breve, apagando para sempre o resto do fogo, tudo o que restara de vovó. Com um pedaço de madeira qualquer que encontrara atirado no chão, cutucava as brasas, tentando fazê-las voltar a vida. Talvez assim tivesse alguma companhia em seu padecimento solitário, mas de nada adiantou. Sua avó também já havia partido, no fim das contas.

Ficou assim, de pernas cruzadas na grama verde e úmida, talvez a coisa mais viva zombando dos mortos e dos vivos moribundos, até que as primeiras gotas grossas começaram a cair sobre seu rosto, rolando pela ponte do nariz, desenhando a cava dos olhos em seu caminho para a liberdade.

Se levantou e caminhou até a porta, talvez pudesse fazer um miojo e dormir até acordar ou até nunca mais. Nesses momentos em que o fim parecia tão próximo, se perguntava se alguém queimaria seu corpo, ou se assombraria para sempre aquela pequena casa afastada da cidade.

— Ei! Criança! — era uma voz feminina, rouca, quase encoberta pelo barulho das gotas contra a grama.

Uma voz feminina que pertencia a uma mulher de cabelos negros, tão longos e que pingavam as gotas grosas de chuva. Em seus braços havia duas crianças, tão magras e pequenas, quase um espelho de si.

— Podemos entrar? — os olhos das crianças pareciam injetados e cheios de olheiras, elas tremiam sob a água — Temos comida e podemos dividir.

Deu um espaço na porta para que a mulher entrasse. Ela ajeitou as duas crianças no chão, sobre uma manta fina, tão ensopada quando eles mesmos e então foi para a cozinha e começou a cozinhar.

As crianças não acordaram para comer, não tinha forças. Ela lhes dava a comida na boca, erguendo os corpos para que não se engasgassem.

— Coma um pouco. — disse a mulher apontando a panela com a cabeça e quando já via a criança acomodada sobre as pernas, comendo uma refeição de verdade, perguntou — Onde estão seus pais?

Não houve uma resposta imediata, apenas encarava o fundo do prato, pensando para onde teriam ido, quão longe chegaram em um dia? Não houve mais perguntas depois daquilo. A mulher ajeitou as crianças em seu colo, as cabeças ardendo de febre. Também podia se sentir ardendo de febre quando se enrolou no canto da sala, podia ter ido para o quarto, mas sentia mais falta de companhia.

— Eu tenho febre? — foi a primeira coisa que sentiu suas cordas vocais cansadas e doloridas disserem, não mais que um resmungo.

— Consegue vir até aqui? — a mulher perguntou, estendendo um dos braços enquanto a criança se arrastava pelo chão.

Apoiou a mão sobre a testa, primeiro as costas, depois a palma. Escorregou a mão para o pescoço e então para a barriga, a febre queimando suas mãos e então ela compreendeu tudo. Compreendeu por que aquela criança estava sozinha ali.

— Nós podemos ficar — a mulher murmurou, ajeitando a criança entre seus filhos, acariciando a testa quente — Nós podemos cuidar um do outro.

Isso foi tudo que ouviu antes de adormecer. Podia morrer amanhã ou talvez em alguns dias, talvez antes dos filhos da mulher, talvez depois. Mas ao menos não estaria mais sozinha.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!