Aquele que Juntava

39 Capítulo 39 - PEQUENO ADULTO


O anjo continuou a andar em direção à Magali. Seus olhos revelavam um ódio que nunca existira antes no guardião do Limoeiro. Ele falava com ódio e arrogância:

– Você acabou com os meus planos de enganar esse moleque para destruir esse mundinho repugnante! – Disse o Anjo, claramente dominado pelo mal. – Mas já é tarde demais! Se eu não posso ficar com o corpo do Assimilador, então fico com o corpo deste anjo!

Jean correu corajosamente contra o anjo e acertou-lhe um soco em suas costas. A pele angelical do ser, muito mais resistente que a de todos os outros, o protegeu de um soco que certamente machucaria um ser humano normal.

– Moleque insolente, hipócrita e mal-agradecido! – Disse o Anjo tornando sua atenção a Jean. – Eu lhe ensino a usar os poderes que tem, lhe ensino um meio de unificar o mundo e é assim que você me agradece?

– Você me usou! Mentiu pra mim! Não falou que catástrofes iriam ocorrer! – Jean acertou mais dois socos no estômago do inimigo, que riu. O garoto continuou com seus socos baseados em artes-marciais.

O Anjo pegou Jean pelo pescoço e o jogou ao alto. O garoto por pouco não bateu com a cabeça no teto, entretanto foi recebido com um forte chute no peito ao cair. O garoto ofegou, levando uma mão a massagear o peito que havia ficado vermelho.

– Pare com isso! – Magali se jogou em frente ao garoto, impedindo o Anjo de acertar o menino. – Ângelo! Tira essa coisa de você! O Jean conseguiu, então você também consegue! Mas, por favor, tira essa coisa de você!

– Mulher imprestável! Vocês mulheres são todas iguais: Idiotas, insensatas e fracas! Sempre precisam de um homem para salvá-las! – Magali mal reagiu às ofensas, o que irritou o Anjo. – Saía daí!

– Não – Magali encarava, enfurecida, o anjo. – Saía você, daí!

– Peste!

No momento em que Ângelo ergueu sua mão, Jean puxou Magali para trás evitando que a garota levasse um soco provavelmente fatal. A garota e o menino, ainda sentados, recuaram juntos até uma das paredes da caverna. Fim da linha. E o Anjo estava prestes a atacar novamente.

– Ângelo! Responda! – O inimigo ria.

Jean levantou-se novamente e investiu contra o Anjo, acertando-lhe um forte chute no peito. Os chutes altos do garoto faziam um barulho terrível ao acertar o peito do inimigo, que mal reagia.

– Garoto insolente! – Ângelo novamente pegou Jean pelo pescoço e ergueu-o ao alto, atirando seu corpo no chão da caverna logo em seguida. Por fim, uma espada surgiu nas mãos do Anjo. – Vou acabar com sua imortalidade aqui e agora!

Magali novamente se atirou na frente do menino, mas o Anjo não pareceu determinado a parar a espada, que continuou a descer. E descer. E descer. Até que parou.

Aconteceu muito rápido: O Anjo largou a espada e levou uma mão à cabeça. Logo em seguida, ele ergueu sua mão para um ponto aleatório da caverna e, de sua palma, saiu uma fumaça roxa e disforme. Por fim, o Anjo fez sua espada surgir novamente e apontou para a fumaça:

– Desapareça, criatura infernal!

Um feixe de luz saiu da ponta da espada e fez a fumaça desaparecer. Um grito horrendo foi solto por aquela criatura antes de desaparecer. O mal estava destruído.

– O que era aquilo? – Perguntou Magali, ainda abraçada com um semi-inconsciente.

– Era “Harumano”, um espírito ruim. O Harumano é um ser que se comunica com as pessoas, induzindo-as a fazer coisas erradas – Anjo se ajoelhou ao lado de Jean e constatou, com felicidade, que o menino ainda não estava muito machucado. – Ele ataca principalmente crianças. Crianças que não são protegidas por anjos da guarda. Provavelmente, foi ele que induziu o garoto a fazer tudo isso.

– Por que Jean não tinha um anjo?

– Preguiça por parte do anjo que lhe foi destinado – Ângelo coçou a nuca, envergonhado de falar sobre o assunto, mesmo não sendo sua culpa. – Lembra que eu tive que resolver algumas coisas antes de vir para cá sobre um anjo que não trabalhou direito? Então, era o anjo dele. Alguns anjos, ao ver que sua criança é problemática demais, acabam não realizando seu trabalho.

Jean finalmente despertou. Seus olhos passaram pelas duas pessoas ao seu redor. Assustado, o menino levantou-se rapidamente e se afastou o pouco que pôde.

– O que foi? – Perguntaram Magali e Ângelo em uníssono.

– Está tudo bem com vocês dois? – Perguntou Jean. Ao perceber que nenhum deles era inimigo, o garoto acabou se sentando. De cabeça baixa, falou: – Obvio que não está tudo bem com vocês dois. E a culpa é minha.

– A culpa não é sua – Consolou Magali, sentando-se ao lado do menino. – Nós vimos a causa disso tudo, e ela foi destruída. Agora, é só você fazer o mundo voltar ao normal.

– Exato – Disse Ângelo com um sorriso. – Eu destruirei as rochas que bloqueiam nosso caminho e você faz tudo voltar ao nor... mal.

Escorriam lágrimas dos olhos de Magali. O menino se levantou e se afastou dos dois, sentando em outro canto. Tinha vergonha. Jean falou:

– As pessoas precisam ter raiva de mim, pois só posso fazer tudo voltar ao normal com um mínimo de poder – O garoto suspirou. – Estou sem nada. Se você abrir caminho e eu aparecer assim como estou, ninguém terá raiva de mim. Eu não deveria ter feito isso.

Ângelo se aproximou de Magali, que já se levantara novamente.

– Sei que ele é um rapaz triste, mas qual é o problema dele? – Perguntou Ângelo com certa impaciência. – Deveria ser um pouco mais alegre.
– Mas ele não pode e nem consegue – Respondeu Magali. A garota respirou fundo. – É uma longa história.

Ângelo olhou para a garota. Ouvidos atentos, Magali começou a contar os pontos principais que tinha lido no diário.

– Ele tem uma doença que o acompanha desde o nascimento: Seu coração é fraco, e fica mais fraco a cada ano. O único modo de evitar que aconteça algo ruim com ele é fazendo uma cirurgia e comprando uma série bem grande de remédios. O preço disso tudo será algo em torno de dez mil reais.

“Os pais dele, por este motivo, nunca gostaram dele. O pai queria um filho esportista, mas não conseguiu, pois ele fica cansado muito rápido. A mãe mal o queria, afinal preferia meninas”.

“E aí está o motivo pelo qual Dudu chamava o pai e a mãe de Jean de doentes: Os dois abandonaram Jean numa cidade distante da que moravam aos oito anos de idade. Essa cidade é a nossa”.

O Anjo ouviu essa última informação com os olhos brilhando. A história já havia o entristecido desde o início. O resto não era tão chocante, mas era resto.

– Ele passou por alguns abrigos, mas a maioria o via como um fardo. Afinal, o abrigo submetia as crianças a testes de saúde, e o de Jean sempre dizia da necessidade da cirurgia. Assim, ele acabava fugindo do lugar onde estava por ninguém suportá-lo. Por fim, ele começou a trabalhar numa fazenda não muito distante á do Chico Bento. Por isso ele conhecia o caminho e a presença de Rosa.

– Ele é um pequeno adulto – Observou Ângelo. – Só que até adultos se divertem. Ele não.

– As únicas diversões que ele tem são escrever num diário que ele encontrou na rua e treinar “Arte-marcial” que uma vez ele viu em exibição também na rua. Ele copiou alguns golpes e começou a treiná-los diariamente – Magali sorriu. – Quem diria que ele se tornou tão bom nisso?

– Não sou bom nisso – Disse Jean, que escutava sua própria história silenciosamente. – Algumas vezes eu digo que não queria ter nascido.

Ângelo e Magali se entreolharam, penalizados com a situação. Magali se aproximou do menino e o abraçou pelas costas.

– Nunca mais diga isso – Disse Magali.

– Você não me entende.

– Entendo. Eu quero que você nunca mais diga isso, pois você nunca quererá mais dizer isso quando sairmos dessa, tá bom?

O garoto encarou Magali. Por um momento, a jovem viu um brilho de esperança nos olhos de Jean. O menino sorriu timidamente e disse, mesmo tendo o negativo pensamento que jamais seria feliz:

– Tá.