Aquele que Juntava
43 Capítulo 43– DIA CHUVOSO
Notas iniciais
não muda nada
A mudança dá
medo mesmo
Medo de ter medo
para ficar tudo igual
Ou se tem medo
só para mudar?
Quem tem o medo
Fica sem mudar
Para tudo ficar igual
o medo é mudar"
GUNTHER, Luiz Eduardo (Poesias do Brasil vol9, Pg.187)
Chovia. Ah, como chovia naquele dia! O céu parecia querer despencar sobre as cabeças dos transeuntes. A rua estava movimentada. Há poucos dias, um fato estranho havia ocorrido: As pessoas juravam ter parado por um segundo e depois voltado à ativa. Outro fato esquisito: As paredes de certo supermercado estavam caídas. Acontecera de um segundo para outro.
– Mas eu jurava que estava aqui! – Dizia uma mulher, em resposta ao entrevistador. – Eu estava olhando para a seção de ração pra cachorro e, de repente, me aparece esse buraco gigante na frente.
Uma figura solitária caminhava pela calçada. O guarda-chuva gigantesco resistia heroicamente o cair das gotas. Ela andava vestida totalmente de preto. Cabeça baixa, alguns olhavam para ela e diziam:
– Coitadinha da Magali. Parece que tá de luto.
Sua caminhada continuou até um lugar vasto. Uma construção majestosa, onde várias pessoas transitavam, por mais que este lugar fosse um símbolo paradoxal de alegria e tristeza. Magali entrou nesse lugar.
Ela encontrou seus pais sentados numa sala de espera. Eles haviam sido muito complacentes com seus desejos. Dona Lili olhou espantada para a filha:
– Cruz credo! Não havia nada melhor para vestir? – Perguntou dona Lili, com um característico ar de espanto.
– Estava com pressa e vesti a primeira coisa que vi – Magali guardou seu guarda-chuva num armário que o hospital dispunha.
Sim, a família estava no hospital.
Jean abriu os olhos aos poucos. Estava num lugar todo branco. Seu corpo estava leve como nunca e, talvez pela primeira vez na vida, ele se sentia bem. Apesar de uma leve dor no braço direito e no peito, ele não se incomodava com nada.
– Eu morri? – Perguntou a si mesmo.
Seus olhos se abriram mais e mais. Ele foi identificando as coisas. Estava num quarto, e a chuva batia na janela.
O garoto sentou-se na cama, assustado como se tivesse visto o demônio. Jurava ter morrido. Jurava ter visto a morte lhe dizendo: “Sinto muito, mas chegou sua hora”. Jurava tantas coisas que mal conseguia acreditar. Seu braço direito estava enfaixado. E tinha algo diferente em seu peito. Não conseguia ver o que era, pois a camisa branca e limpa o impedia de fazê-lo.
Ergueu um pouco a camisa. Havia ataduras enroladas no peito, na altura de seu coração. O garoto também percebeu duas outras coisas após isso: Sua testa também estava enrolada com faixas e seu cabelo estava cortado. Agora, eles caíam até a altura dos ombros.
Ouviu passos. Alguém se aproximava da porta de seu quarto no hospital. Os passos pararam na frente de sua porta e começaram uma conversa:
– Ele já recebeu alta. Vocês podem levá-lo para casa e administrar os remédios. São remédios fortes, então, ele vai acabar dormindo por uns dois dias, acordando apenas algumas vezes. Nessas algumas vezes, façam-no comer ou beber algo.
– E se ele reclamar de dor? – Perguntou uma voz feminina.
– Ele não reclamará, eu garanto. Só peço também que troquem as ataduras uma vez por dia.
– Eu posso entrar? – Disse uma terceira voz.
– Pode sim.
A porta do quarto se abriu e Magali entrou rapidamente. A garota fechou a porta com calma e olhou para cama. Jean olhava para ela com um ar inocente, aéreo e confuso. A jovem, entretanto era só sorrisos.
– Dorminhoco! Você dormiu por mais de dois dias, sabia? – Perguntou Magali sentando-se à beira da cama de Jean.
O garoto não respondeu. Continuou encarando, com dúvida, os olhos de Magali. Após alguns momentos ele conseguiu criar coragem o suficiente:
– Por que estou aqui?
– No hospital? Oras, por que você estava mal!
– Não é isso. Por que eu ainda estou vivo?
– Simples: Você precisava viver, coisa que nunca fez.
– Meu coração parou naquela hora! Como eu sobrevivi?
– Fala baixo! – Ordenou Magali com calma. Os dois ficaram quietos. Escutaram passos se afastando da porta. – Eles não acreditam em anjos. Não podem ouvir deles.
Voltemos há alguns dias atrás. Jean Nido havia acabado de enfartar. Seu coração fraco não resistira e finalmente parara. Após momentos de lágrimas, a turma pôde ver a sinistra silhueta da morte se aproximando. Ela exibia um olhar triste. Sua foice, apoiada habilmente sobre seu ombro, relutava em se mover.
– Sinto muito, mas chegou sua hora! – Gritou a morte, enquanto erguia sua foice. – Após ceifar teu corpo, tua alma deixará esta carcaça e me acompanhará até o outro lado!
Ninguém podia fazer nada contra a morte. Nada mesmo. Afinal, ela só estava fazendo seu trabalho. Por mais que os outros quisessem se jogar em frente à sua foice, não conseguiam.
– PARE! – Gritou uma voz vinda do céu.
Logo, Ângelo desceu dos céus com uma velocidade tremenda. Parou em frente à morte, evitando que ela prosseguisse seu cruel trabalho.
– Saí da frente, querubim! Tenho uma alminha a levar!
– Não precisa, Dona Morte. Estou usando da regra 83764718 – Ângelo retirou sua auréola e colocou-a sobre o corpo caído do menino. Todos olhavam espantados. – Explique para eles a regra, Dona Morte.
Dona Morte estalou os dedos. Todos voltaram a conseguir se mexer. Nenhum deles ousou atacar a morte, ou sequer contra-argumentar com ela. Ela explicou:
– Regra 83764718: Todo Anjo têm o poder de carregar sua auréola com um poder mágico específico. Tal poder seria a capacidade de reviver ao menos um de seus protegidos. Após o uso do poder, o anjo retorna sua auréola a cabeça e volta às atividades normais.
– Eu estava guardando isso para vocês – Comentou o anjo enquanto ajeitava a auréola para o processo. – Nunca imaginei que eu teria que usar isso num protegido novo, em todos os sentidos que a palavra “novo” pode exercer.
Magali terminou seu relato. Foi breve e esquisito, mas Jean entendeu tudo com perfeição. Seu coração havia voltado a bater após a auréola entrar em seu corpo e regenerá-lo até certo ponto. Após isso, o garoto foi transportado até o hospital.
– Não está feliz por estar vivo? – Perguntou Magali abraçando Jean.
O garoto não respondeu. Parecia triste. Magali deixou de abraça-lo e perguntou:
– Algo doeu durante o abraço? – Ela ajeitou os cabelos do menino e o beijou na face. – Você parece triste.
– Estou vivo – Retrucou o menino.
E aí, finalmente, Jean caiu em pranto novamente. As lágrimas escorriam violentas de sua face. Chorava por um motivo que Magali bem conhecia: Estava vivo. Estava vivo, e odiava viver. Seu coraçãozinho já não encontrava mais esperanças no mundo.
– Não chora, vai – Magali abraçou o menino novamente. O rapazinho não conseguia conter suas lágrimas. – Tanta coisa boa ainda vai acontecer, maninho.
O garoto parou de chorar aos poucos. Seus olhos molhados encararam Magali. Seu futuro era incerto, assim como o de todos no mundo. Ah, mas quem dera se todos os necessitados ouvissem palavras belas em momentos de desespero! Palavras e ações!
– Você não precisa se preocupar mais com o coração, pois a cirurgia foi feita e os remédios já estão comprados – Magali coçou a nuca. Continha-se para não estragar a surpresa antes da hora. – Seu quarto ainda não tem tantas coisas, mas logo vai ser arrumado com jeitinho.
O menino assistia o discurso insensato de Magali com dúvida nos olhinhos.
– Sabe, é que antes era um quarto para visitas. Mas, aí, conseguimos arrumar de um jeito que você deve gostar – Magali sorria. – Creio que compraremos um videogame para você que rode DVD’s. O que foi?
– Do que está falando?
– Estou falando que, agora, você é meu maninho.
– Ainda... Ainda não consigo entender – A cabeça do garoto estava confusa. Ele tinha medo de pensar errado e criar falsas esperanças.
– Poxa! Você é meu maninho! Meu irmãozinho! – Magali sorria ao ver a expressão do garoto mudar. Era um misto de emoção contida. Ele ainda não acreditava. – Papai e mamãe economizavam para minha faculdade. O dinheiro foi bem gasto.
Magali tocou no peito de Jean. Mais precisamente, tocou na área onde estava o coração. O menino compreendeu. E, novamente, sorriu. Sorriu como nunca sorrira antes. Estava feliz, não havia mais medo. Não havia mais solidão. Só haveria felicidade. Felicidade. Ele abraçou Magali e os dois choraram.
– Bem-vindo à família – Disse Magali.
– Ele chorou bastante? Tadinho! – Riu Mônica.
Mônica e Magali andavam pelo Shopping. Compras básicas de uma terça-feira sem aulas. Afinal, a cidade ainda estava em polvorosa por causa das chuvas e do acidente no supermercado.
– Mamãe ficou bastante feliz, aliás – Disse Magali observando a estante dos DVD’s. – Quando eu contei a história do Jean pra ela, ela mesma se ofereceu para adotá-lo. Eu mal precisei pedir.
– Sua mãe é uma pessoa muito boa, assim como você.
– Sabe o que eu penso? E se o plano de Jean houvesse dado certo?
– Oras, o Astronauta não avisou que o mundo explodiria? – Mônica pareceu lembrar-se de algo.
– Sim. Mas, o que eu quero dizer é: O que aconteceria se o mundo não explodisse e o Assimilador tomasse conta de tudo? Será que seria ruim?
– Às vezes eu também penso nisso – Disse Mônica pegando seu celular e conferindo as horas. – As pessoas querem ser livres, Magali. O Assimilador faria com que tudo fosse “Perfeito” nas ordens dele. Eu acho que as pessoas se revoltariam, e tudo só iria ficar pior. O mundo melhorará, Magali. O mundo pode ser melhor, mas isso depende das pessoas, e não de uma só pessoa.
– É verdade.
– Precisamos de mais Magalis no mundo – Brincou Mônica.
As duas riram. Magali coletou o sétimo DVD do Bruce Liu da estante e levou-os debaixo do braço até o balcão.
– Eu não vi o Astronauta partir. Você viu? – Perguntou Magali.
– Franja viu. O Astronauta partiu felicíssimo daqui – Mônica ajudou Magali à reunir dinheiro para pagar os DVD’s. A garota tentou recusar a ajuda da amiga, mas Mônica insistiu. Queria dar alguns de presente para Jean. – Segundo Franja, Astronauta estava feliz por saber que a união das dimensões era uma teoria inviável. Ele também disse que, obviamente, o conselho intergaláctico não puniria o Assimilador pelo seu “Crime”.
– Acho bom. Os meninos ainda não chegaram. Como demoram para comprar uns doces!
Quarta-feira. Hoje eu acordei. Tive alguns pesadelos na segunda e na terça, mas me senti aliviado ao saber que foram só pesadelos. Meu quarto não é muito grande, mas já foi pintado da cor azul. Foi pintado antes de eu vir pra cá. Não precisava, mas até que ficou legal.
Disse para Dona Lili que gostaria de ir para a escola logo no mês que vem, quando eu sair do estado de repouso da cirurgia. Ela não gostou muito. Disse que eu precisava descansar por pelo menos um ano. Eu disse que não. Que não queria ficar fazendo nada enquanto todos trabalham, cuidam de casa, estudam...
Ganhei um vídeo... Videogame. É um aparelho esquisito, um brinquedo moderno. Parece ser legal, mas eu ainda não tive coragem de ligá-lo. Para minha sorte, Dudu apareceu por aqui. Ele me trouxe um presente: Uma revista quadrinhos japonesa e esquisita, onde tem que se ler tudo de trás pra frente. Não lembro o nome agora, mas vou tentar ler outra hora.
Fiz muitas coisas hoje. Quer dizer, dizem que não fiz nada, mas eu acho que fiz muita coisa. Eu ganhei algumas roupas. Vi um filme com Dudu. Magali me levou ao Shopping e me apresentou a umas amigas e amigos. Enquanto ela e as amigas foram fazer alguma coisa em algum lugar, eu, Dudu e o tal de Cebola e Cascão fomos ao salão de jogos do Shopping. Foi divertido.
Esse é a última página do meu diário. E, talvez nem eu acredite em uma única página do que escrevi. Minha vida mudou para melhor, graças a algumas poucas pessoas, e eu sei que, lá no fundo, qualquer um pode passar pelo que eu passei (Apesar de não querer que isso ocorra) e ainda ter uma chance. Pois, apesar de tudo, apesar de todo o azar que tive, eu posso dizer com toda a convicção: SOU FELIZ.
AQUELE QUE JUNTAVA
FIM
Notas finais
Agradeço direto à todos os leitores desse extenso trabalho. Extenso mesmo, começamos à quase um ano atrás e só terminamos agora!
Foi muito bom estar com cada um de vocês, leitores-amigos-pessoas. Bem, eu havia prometido um capítulo extra explicando algumas coisas, mas infelizmente ele não surgirá. Mas, temo que algumas coisas devem ser colocadas em pauta:
Quis fazer este trabalho como uma prova. Uma prova simples e concreta que DÁ pra fazer histórias da TMJ sem falar apenas dos "Problemas adolescentes da galerinha". Creio que TMJ poderia abordar mais os problemas da sociedade também, sem deixar obviamente de ter toda aquela alegria nas histórias e nem deixar de perder o estilo. Sei que há roteiristas bons por aí, e sei que eles fariam este tipo de trabalho.
Quanto à inspiração, eu digo para todos aqueles que querem se inspirar à escutar música SEM PRECONCEITOS. A ideia da história do Assimilador começou quando eu ouvi essa música:
http://www.youtube.com/watch?v=4MRo2AqQp5I
Procurem a tradução e descobrirão grande parte da minha inspiração.
Por último, quanto ao código 83764718, joguem no Google e descobrirão o porquê dele. huahuahuahuha.
Enfim, muito obrigado MESMO. Eu amo vocês! Na dúvida, leiam EDEL (Também postado aqui no Nyah).
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