Aquela Garota
8 Pai e Filha
Notas iniciais
7. Pai e Filha
— Odeio quando você tem que fazer isso. — Rosalie resmungou com uma cara feia. — Você se aproveita que vai passar o final de semana longe e faz papel de mimada. Argh! — ela deu mais uma puxada na mala marrom de Renée.
— Mimada não, Rouss. — fiz biquinho e ela revirou os olhos. Dei de ombros e uma piscadela para um garoto gracinha que passou por nós, no saguão do LAX.
Eram quase onze e meia e eu ainda precisava fazer meu check-inn para meu voo de onze e cinquenta. Eu sei que podia ter cancelado a caminhada e assim não me atrasava, mas eu precisava chegar em Charlie com uma animação normal, pois não queria matar o velho do coração se preocupando comigo, já que lá era só ele, não tinha Renée, Rouss ou Emmett. Mas o meu atraso também se levava ao fato de eu ter sido parada no meio da minha corrida por um babaca que queria concertar erros grandes, sendo que isso já era uma coisa quase que impossível. Se não fosse por isso, eu não precisaria jogar todas as minhas roupas na mala, sentar em cima enquanto Rosalie tentava fechar o zíper, e no final quebrar, e eu ter que recorrer para a mala marrom da mamãe. Que agora Rosalie carregava para mim, com todo o seu amor por mim e em forma de dizer que vai sentir saudades. E eu carregava meu bebê lindo.
— Mimada sim! — ela jogou minha mala no chão quando paramos na fila do check-inn. — Bella, está com a passagem nas mãos? — ergueu uma sobrancelha, olhando para minhas mãos limpas de passagens, passaporte e os documentos. Nela só tinha meu iPod azul royal legal que tinha ganhado do Emm.
— Er... Eu nem sei aonde está, Rouss. — mordi o lábio inferior.
— O QUE?! — ela berrou assustando algumas pessoas que estavam na fila e que passavam por perto. Mas Rosalie era Rosalie e nem se importou. — Sua cabeça de vento, como você não sabe aonde está os documentos?!
— Eu não sei, Rosalie. Com todo aquele alvoroço para colocar minhas roupas na mala, acabei que deixei em cima da cama e depois não vi mais.
— Ai, Bella... Bella... Bella... — ela colocou a mão na cabeça e balançou. — E agora? Será que ficou em casa?
— Não sei. — dei de ombros.
— Próximo!
Nós olhamos para frente vendo que era minha vez, e eu não estava com a passagem. Merda, eu ia perder meu voo por causa da minha cabeça esquecida.
— E agora? — perguntei para Rosalie.
Ela colocou a mão no queixo para pensar e eu olhei mais uma vez para a mocinha que ficava ali fazendo o check-inn, que nos encarava com uma sobrancelha erguida. Ela tinha o cabelo preso em um coque, a maquiagem dela estava muito... Eu não me aguentei e soltei uma risadinha, pois o que passava na minha cabeça era engraçado demais.
— O que foi? — Rosalie perguntou para mim.
— Próximo!
— Nada. Nada. — neguei rápido me segurando para não rir. — E então, achou uma solução?
— Eu ainda estou pensan...
— Próximo!
Rosalie lançou um olhar furioso para a mulher.
— Então pense logo pois as pessoas estão ficando impacientes. — olhei para a fila que estava atrás de nós, e nela todos os olhares eram raivosos. O do velho barrigudo atrás então nem se fala.
— Próximo!
— Droga, Bella, não me apresse. — a loira pediu olhando para as minhas malas.
— Próximo!
— Não sou eu, Rosalie, é ela. — apontei para a mocinha que estava ficando vermelha de raiva.
— Próximo!
— DA PRA ESPERAR AI, CARA DE CORINGA?! — Rosalie berrou para ela que arregalou os olhos. Eu comecei a gargalhar com o que Rosalie a chamou porque era exatamente isso que ela parecia com aquela maquiagem. — Não está vendo que estamos enfrentando uma crise de burrice aqui? Essa animal — apontou para mim que parei de rir na hora. — fez algo espetacular e eu estou tentando concertar, então cale a boca e espere.
Todos ali ficaram em silêncio, até mesmo eu que não consegui me defender do xingamento. Rosalie continuou pensando, até ela dar um sorriso de quem havia achado a solução.
— E então? — perguntei baixinho.
Rosalie pegou a mala no chão e minha mão me puxando até a mocinha que ainda estava de olhos arregalados. Ela jogou minha mala em cima do balcão e começou abri-la.
— O que você pensa que está fazendo? — a moça perguntou assustada.
— Rosalie, você está ficando louca? Não pode abrir essa mala, ela está uma bagunça!
Rouss me ignorou começando a tirar minhas roupas de dentro da mala e jogando nos meus braços. As pessoas na fila começaram a reclamar assim como também a moça, mas Rouss estava pouco se importando. Eu vi até minhas calcinhas saírem para fora da mala até Rosalie encontrar no meio da bagunça meu passaporte e a passagem. Nós duas sorrimos uma para a outra e começamos a guardar minhas coisas de volta na mala. Ainda bem que a da mamãe era grande e nem precisou subir em cima como a minha. Entregamos os documentos e a passagem para a moça, que pegou com muito desagrado enquanto ainda continuávamos sorrindo.
— Só você, Bella! — Rosalie resmungou pela décima vez.
Já estávamos na outra fila, aquela em que entrega a passagem para entrar no avião, depois de despachar minha mala. Eu estava de braços cruzados e com o bico maior do que eu poderia fazer porque estava ja me estressando com Rosalie nos meus ouvidos falando que eu deveria prestar mais atenção no que fazia pois eu passaria quatro horas e meia em um avião sem ninguém. Eu já sabia de tudo isso não precisava ouvir ainda mais.
— Eu sei, Rouss. — falei também pela décima vez, já cansada. — Prometo não fazer nada dessa vez.
Ela me olhou de canto de olho e eu coloquei minha melhor expressão inocente e angelical que eu podia fazer. Ela bufou e negou com a cabeça. Tinha pelo menos umas dez pessoas na nossa frente e a fila tinha parado porque um senhor estava embaçando lá com o cara que olhava as passagens. Eles discutiam sobre alguma coisa que incomodava as pessoas perto. Entediada e sabendo que esse voo ia sair muito atrasado eu abri minha bolsa e peguei um pirulito de morango que eu comprara no caminho para cá — sobre os protestos de Rosalie.
— Bella! — ela virou para mim. — Você não pode fazer isso agora.
— Estou entediada, Rosalie. Então eu vou fazer. — fiz birra.
A loira ia começar um discurso sobre o porque quando um choro alto a atrapalhou. Era uma criança que estava com sua mãe atrás de nós. Um menino de uns sete anos, de cabelos negros, pele amarela e olhos castanhos. Ele tinha uma careta horrível ao chorar e bater os pés. Olhei para aquela cena com uma careta também vendo a má educação que ele tinha. Seu choro era muito alto e fino, parecia mais uma menininha. Fora os gritos da mãe dele que assustavam qualquer um.
— Bella, pare de olhar. — Rosalie me fez virar para frente rápido e andar com a fila que finalmente desempacou. — A mãe dele já está constrangida demais com as pessoas olhando, não precisa mais de você e suas caretas.
Hoje Rosalie estava naqueles dias que mais me irritavam. Ela tinha dormido mais de oito horas e quando fazia isso parecia se transformar em uma mãe responsável, mandona e chata. Eu odiava quando isso acontecia porque ela ficava no meu pé falando o que eu devia ou não fazer, e não fazia coisas idiotas comigo. E além das mais de oito horas de sono, Rosalie também estava triste porque ia ficar o final de semana sem mim e isso era mais um motivo para deixa-la chata.
— Relaxa, gatinha. — falei sorrindo para ela.
Olhei novamente para trás e dei com o garotinho que tinha parado de chorar, mas estava mais vermelho que eu quando não passava protetor solar e saia no sol forte. Ele me encarava com os olhos castanhos enormes e quando viu que eu também o olhava me lançou um sorriso que fez meus pelinhos do braço arrepiarem. Gostei do garoto!
Sorri de volta.
— Mamãe, quero pirulito! — ele falou puxando o vestido dela e apontando para mim.
A mãe dele, que era uma mulher grande e com um olhar raivoso virou os olhos raivosos para mim e eu engoli em seco por ser pega no flagra olhando para a mãe e o filho escandalosos.
— Tem mais pirulito, Bella? — Rosalie perguntou em um sussurro.
Eu rapidamente abri a minha bolsa e peguei mais um pirulito oferecendo logo para o garoto que negou com a cabeça. O olhei confusa, sem entender.
— Toma, garotinho, o pirulito. — falei calmamente para ele, que continuou a negar.
— Aceita logo essa porra, moleque! — a mãe dele falou com a voz grossa e eu me segurei para não arregalar os olhos de medo.
— NÃO! — ele berrou fazendo eu dar um pulo para trás. — Eu quero esse pirulito. — apontou para minha boca. — Deve estar mais gostoso. — piscou um olho.
Rosalie soltou uma gargalhada estrondosa e levou as mãos a barriga enquanto eu ficava ali com cara de idiota e com a boca aberta. Que garoto pervertido!
Ele estendeu a mão para pegar meu pirulito, mas eu fui mais rápida e fechei a boca.
— Nos seus sonhos, pirralho! — falei lhe dando as costas e indo até o homem que pegava as passagens.
Rosalie se despediu de mim ainda rindo da cena que tive que passar, mudando de humor rapidamente. Ela falou que já estava com saudades de mim e mais uma vez que era para eu dormir no voo para não me meter em confusões. Tirou meu pirulito da minha boca para jogar fora também. Eu concordei com a cabeça, lhe dei um beijo babado na bochecha — que ela limpou com cara de nojo — e entrei logo no corredor que dava para o avião.
Eu esperava que conseguisse mesmo dormir nesse voo pois não imaginava o que mais podia acontecer comigo em um avião. Já tinha uma linha aérea que eu não podia mais voar, outra seria uma merda total.
Achei minha poltrona — que para minha felicidade era do lado do corredor e não da janela pois tinha medo de altura. Sentei e já coloquei o cinto, respirando fundo ao ver o avião começar a encher. Em pouco tempo vi o garotinho abusado e a mãe dele entrar. Os dois vinham na minha direção e eu me encolhi, cruzando os dedos para que passassem reto e fossem para um lugar bem longe de mim. Mas eu era uma pessoa muito azarada e a mãezona — ou vovózona como preferir pois era igual a ela — colocou o pirralho na poltrona ao meu lado, a da janela. Ela falou para ele calar a porra da boca dele e dormir, e foi lá para trás aonde deveria ser o lugar dela. Eu soltei um choramingo.
— Você vai chorar? — o garoto perguntou me cutucando no braço.
— Olha aqui, pirralho, vamos esclarecer as regras aqui, tudo bem? Primeiro: não me toque. — bati na mão dele, que riu. — Segundo: Não fale comigo, não olhe para mim, nem sequer pense em mim. — sorri docemente. — E terceiro: faz o que a vovózona mandou.
— Quem? — me encarou confuso.
— DORME! — berrei atraindo atenção do homem ao nosso lado.
O garoto riu alto e eu bufei, cruzando os braços.
Em alguns minutos a voz da aeromoça atraiu a atenção de todos, e ela fez todo aquele discurso de colocar os cintos, agradeceu por escolher essa linha aérea e nos desejou uma boa viagem. Quando o avião começou a decolar eu apertei minhas mãos nos braços da poltrona sentindo um frio na barriga. Era sempre assim, eu andava bastante de avião e ainda não tinha me acostumado.
No alto já, eu relaxei, sabendo que se eu escutasse um pouco de música e me distraísse até conseguiria fazer essa viagem sem nada dar errado para mim. Claro que se o pirralho ao meu lado seguisse as regras que eu passei e não fosse atentado o suficiente para perturbar minha vida. Ele ficava me cutucando e rindo.
— Da pra parar? — perguntei para ele com a voz entediada.
Ele soltou uma risadinha.
— Você é muito branca. — disse rindo. — E tem muitas pintinhas. — me cutucou novamente no braço.
Obrigado, Deus, por esse castigo!, pensei ironicamente. Nunca mais eu tento entrar na cabine dos comandantes, prometo. Soltei um suspiro e bati mais uma vez na mão do garoto que nem se abalou, só riu. O garoto passou pelo menos uns dez minutos me cutucando até eu não aguentar mais e pegar a mão dele e apertar seus dedos.
— Ai, moça! Ow! Ai. — ele começou a choramingar se contorcendo.
— Eu mandei você parar, não foi? — falei com raiva.
— Eu paro! Eu juro que paro. Ai. Ai... Ai.
Soltei a mão dele com força e o garoto choramingou mais um pouco antes de dar novamente aquela risadinha e voltar a me cutucar. Fechei os olhos e respirei fundo.
— Bom dia, senhor. — uma voz doce perto me fez abrir os olhos. Era a aeromoça, ela falava com o senhor ao meu lado. Ele pediu algo baixinho e ela assentiu, já saindo. Era a minha chance de me livrar do moleque. Cutuquei a aeromoça que se virou para mim com um sorriso. — Sim?
— Er... Oi. — falei meio constrangida. — Eu queria saber se... — olhei para o pirralho que estava olhando pela janela agora. Safado falso! — Se tem como me trocar de lugar? É que o meu... Colega de poltrona anda me tirando do sério.
O garoto virou para mim com uma falsa expressão de inocência e eu lhe mandei meu sorriso falso também.
— Hm... Creio que não seja possível, senhorita. — a aeromoça falou e eu me virei para ela de olhos arregalados. — Não podemos fazer isso.
— Mas esse pirralho é um capeta! — falei em forma desesperada, a assustando.
— Me desculpe. — ela me lançou um olhar de desculpas e saiu.
— Que porra! — sussurrei baixinho e ouvi a risadinha diabólica do garoto que voltou a me cutucar.
Me segurando para não fazer nada com o pirralho que era pior que o cabeça de balão do Rick eu peguei meus fones e coloquei, ignorando o amarelado para ver se ele parava.
Depois quase vinte minutos naquele inferno de ser cutucar e tirada pela cor o capeta decidiu fazer o que a vovózona mandou e dormiu. Eu suspirei aliviada e tirei meus fones, sentindo a paz reinar ali. Mas além da paz eu também me sentia entediada, e odiava ficar no tédio. Aquele garoto tinha gastado minhas energias de me concentrar em ficar quieta, e agora eu não conseguia parar. Era muito tédio para mim.
Yeah, eu lembro que foi assim com esse tédio que eu fui proibida de andar pela linha aérea, mas dessa vez eu só vou mesmo dar uma volta, nada de mais.
Só isso.
Decidi dar uma volta no avião já que a aeromoça não estava por perto. Soltei meu cinto e levantei, seguindo pelo corredor para o fundo. Como sempre existiam pessoas simpáticas que sorriam para mim quando passava, e eu retribuía para mostrar a educação que Renée me dera.
Percebi que esse avião era um pouco diferente dos outros que tinha andado, talvez por ser a primeira vez que eu andava nessa linha. Então decidi dar uma explorada para ver se esse tinha o cafezinho que o outro também tinha. Mas ao passar por uma senhora, essa pegou meu pulso e apertou com força. Olhei para ela, que me encarava de olhos arregalados.
— Algum problema? — perguntei para ela.
— Esse... Esse avião vai cair. — sussurrou de forma assombrada. — Vamos todos morrer...
Sua mão se apertou ainda mais em volta do meu pulso e eu fiz uma careta de dor. A velha era louca de pedra.
— O...k. — murmurei lentamente e tentei soltar a mão dela do meu pulso. — Você pode, er... Me soltar?
A velha não fez o que eu pedi.
— Esse avião vai cair. Me escuta! Eu vi! Vamos morrer! — seus olhos eram desesperadores. — Acredita em mim, loirinha! Vamos morrer! Vamos morrer!
O desespero daquela mulher era muito verdadeiro para alguém que poderia estar brincando ou sendo louca mesmo. E se ela fosse louca então porque aquela garota ao lado dela não mandava ela se acalmar? Pois pelo que eu saiba pessoas assim andam acompanhadas e tomam calmantes parar dormir o voo inteiro. E se ela estava sozinha e acordada — muito bem acordada — só significava uma coisa: ela não era doida. E esse fato com suas palavras significava outra coisa: ela estava falando a verdade.
— Nós vamos... O que? — perguntei em um sussurro.
A velhinha olhou para os lados com os olhos arregalados e depois para mim, me chamando para eu me aproximar. Fiz isso para assim poder ouvir o segredo que ela queria contar.
— Enquanto dormia eu recebi a mensagem de Deus de que nossa hora chegou. — apertou meu pulso mais uma vez. — Vai ter uma falha no sistema e nós vamos morrer... Todos.
Ela soltou meu pulso, que estava vermelho do aperto, e encostou no banco, apertando ainda mais o cinco e se segurando na poltrona. Eu fiquei ali parada sem saber o que fazer ou falar pois tinha acabado de saber que eu não veria mais Charlie pois não chegaria lá, e também nem Renée, Emmett, Rosalie pois não voltaria também. E pior, não me casaria mais com meu futuro marido Edward porque não viveria mais alguns anos para ele saber que me ama incondicionalmente e que não vive sem mim. Eu iria parar ali ao dezessete anos, sem chance de ter um futuro, de me casar, ter filhos, ficar velhinha igual a que recebeu a mensagem de Deus. Já era, não tinha mais como. Não haveriam mais chances de fugir. Até o pobrezinho do pirralho iria morrer sem nem conhecer mais da vida.
Isso era muito... Triste.
Olhei para as pessoas sentadas tão calmas ali, sem saber que o fim delas estava próximo. Algumas ouviam musica, liam revistas, outras dormiam, sem nem saber de nada. Pobres pessoas que se iludiam achando que pisariam em terra firme novamente.
Elas ficariam ignorantes a esse fato?
Não, elas não poderiam ficar na ilusão disso. Precisavam saber que iriam morrer para assim poderem se despedir de quem estivesse próximo. Para poderem dizer o ultimo "eu te amo", dar o ultimo beijo e o ultimo abraço. Eu não podia deixar elas só saberem quando fosse a hora, talvez não desse mais tempo, o pirralho não chegaria na mãe dele para essa amenizar um pouco o medo. Eu tinha que avisar para eles, pois se estivesse com alguém aqui eu iria querer me despedir dela com tempo suficiente. Mas eu tinha que tomar cuidado ao falar isso porque não queria assustar ninguém para não piorar. Tinha que escolher as melhores palavras e falar calmamente... Calmamente...
— O AVIÃO VAI CAIR, NÓS VAMOS MORRER! — berrei desesperada e todo mundo virou na minha direção.
— O que você disse? — um homem gorducho perguntou.
— Vamos todos morrer! — soltei novamente e as pessoas começaram a falarem juntas.
— Você sabe que isso é coisa muito idiota de se falar em um avião. — um garoto disse lentamente.
— Essa garota é louca, não a escutem! — a vovózona falou fazendo pouco caso.
— ACREDITEM EM MIM!, DEUS ENVIOU A MENSAGEM! O AVIÃO VAI CAIR! ESSA VELHINHA QUEM RECEBEU! — apontei para a velhinha que olhava para todos balançando a cabeça.
— Isso é loucura!
— Mandem ela calar a boca que eu quero dormir!
— Pessoas — uma mulher levantou. — se foi Deus quem disse, devemos acreditar. Aceitem isso, vamos morrer.
As pessoas começaram a falar juntas e ao mesmo tempo, umas acreditando e ja se desesperando, outras ainda incrédulas. O avião deu uma tremida e foi só preciso disso para todos acreditarem e começarem a berrar. Eu me segurei na poltrona vazia, tentando não entrar no desespero.
— O que você está fazendo, garota? — a aeromoça apareceu ao meu lado com cara de brava. — Porque está em pé? E que bagunça é essa? — ela se virou para as pessoas que falavam alto e choravam com medo.
— O AVIÃO VAI CAIR E VAMOS TODOS MORRER! ESSA GAROTA DISSE ISSO! — um homem, chorando, apontou para mim. — VAMOS MORRER!
A aeromoça se virou para mim com uma expressão assassina.
— Qual é o seu problema?!
— Foi Deus quem falou para ela! — apontei para a velhinha que começou a negar com a cabeça. — ELA DISSE QUE VAMOS MORRER!
— Eu não. Não falei nada! A loirinha é doida! A loirinha "ta" doida!
A encarei de boca aberta.
— O que está acontecendo? — uma mulher apareceu atrás de mim. — Vovó o que você fez?
— Eu não fiz nada!
O avião estava um caos com as pessoas berrando em desespero, crianças chorando, outras brigando. Eu não sabia mais o que estava acontecendo realmente, se o avião ia ou não cair.
— SUA MENTIROSA CRETINA! — apontei para a velha. — VOCÊ FALOU PARA MIM QUE O AVIÃO IA CAIR!
— E você acreditou? — a mulher me olhou indignada. — Essa velha louca fala para todo mundo que recebe mensagens de Deus e que vamos morrer todos os dias.
— O QUE?!
— CALEM TODOS A BOCA! — a aeromoça começou a berrar tentando ultrapassar a voz das pessoas. — O AVIÃO NÃO VAI CAIR, É MENTIRA! PAREM COM ISSO!
Eu estava sem reação não acreditando que eu tinha mesmo sido levada pela onda de uma velha. Fui percebendo que aos poucos as pessoas foram se acalmando, para o alivio da aeromoça. Essa, depois que conseguiu acalmar as pessoas, voltou até mim, que continuava encarando a velhinha com ódio.
— Volte para o seu lugar, garota. — ela me pegou pelo braço e começou a me puxar.
— Você também, vovó! — a mulher falava. — Não posso sair cinco minutos para ir no banheiro e você já começa com suas mentiras.
A velha deu de ombros e olhou para mim com um sorriso irônico.
— Tchau, loirinha. — piscou um olho.
— ARGH! — eu resmunguei dando as costas a ela e ultrapassando a aeromoça.
Sentei no meu lugar e cruzei os braços. O pirralho continuava da mesma forma que estava antes quando eu tinha saído: dormindo. Tinha achado um sono de pedra igual a mim. A aeromoça ficou parada lá na frente, de braços cruzados e me encarando, ela nem piscava. Eu sorri para ela e peguei meu iPod, colocando alguma música do 3OH!3. Comecei a repassar na cabeça a cena que tinha acontecido a poucos minutos, e ao lembrar da mulher falando que foi no banheiro também me deu uma vontade de ir. Comecei a me levantar, e meio segundo depois a aeromoça estava ao meu lado.
— Aonde você pensa que vai, mocinha?
— Ao banheiro? — ergui uma sobrancelha.
— Nada disso, pode ficando ai. Você já deu muito trabalho por um dia.
— Mas eu estou apertada!
A aeromoça me encarou por um minuto. Eu sustentei seu olhar.
— Como vou saber se você não está mentindo?
— E eu lá sei?! Mulher, eu estou apertada e é só isso que eu posso lhe falar. O que mais quer que eu fale?
Eu realmente queria ir no banheiro e era um absurdo essa mulher querer me impedir de ir porque por causa daquela velha eu tenha feito o avião virar uma loucura. A culpa era toda da velha com seu complexo de "vamos morrer" que conseguiu me convencer. A culpa também era da neta dela que decidiu ir no banheiro justo na hora que eu fui dar uma volta. Agora eu estava impedida de dar voltas no avião e obrigada a ficar sentada por muito tempo ao lado do pirralho. Que graças a Deus tinha capotado bonito. Só que mesmo assim isso não fazia diminuir o desconforto que eu me encontrava ali, parada, sem poder me movimentar.
A aeromoça, que era uma mulher de no máximo trinta anos com cabelos loiros palha, olhos azuis e pele bronzeada, ainda continuava me encarando. A uniforme azul dela era extremamente apertado, mas isso parecia não incomoda-la. Os cabelos antes estavam presos em um coque impecável agora encontrava com alguns fios soltos depois da confusão que eu fiz.
— Tudo bem. — ela suspirou. — Mas eu vou acompanha-la até lá e depois novamente para a sua poltrona.
Eu não queria uma cachorrinha atrás de mim, mas se eu precisava disso para poder movimentar minhas pernas, então que seja. Toda vez que ficasse entediada eu inventaria de ir ao banheiro, se ela quisesse me acompanhar problema era dela.
Eu assenti com a cabeça e me levantei já seguindo na direção do banheiro. Ao passar pela velha eu lhe lancei meu olhar mais raivoso e a filha da mãe sorriu para mim. Fiz o gesto "Estou de olho" com as mãos e ela deu de ombros. A aeromoça me deu uma empurrada para eu continuar meu caminho, e de má grado eu fui.
— Vai querer entrar no banheiro comigo também? — perguntei entrando. — Isso está pior que prisão que as carcereiras acompanham. Ou então creche. Se eu fosse homem até perguntaria se você queria segurar para mim. — pisquei um olho para a aeromoça que me olhava como se pudesse me queimar viva.
Fechei a porta na cara dela e olhei o banheiro, que era minúsculo como todos os banheiros de avião. Eu odiava esses lugares. Fiz o que queria e enquanto lavava minha mão eu pensava em formas de distrair a aeromoça para que eu pudesse explorar esse avião da nova linha aérea que eu iria andar de agora em diante.
— Hey, aeromoça! — ouvi alguém chamar e sorri comigo mesma.
Secando rápido as mãos eu fui até a porta e a abri um pouco constatando, para minha felicidade, que a aeromoça tinha ido fazer o trabalho dela. Coloquei a cabeça para fora e vi ela no segundo corredor falando com um homem. Aproveitei que ela estava de costas e sai, fechando a porta. Me abaixei quando ela virou para ver se eu ainda estava lá dentro com a porta fechada. Olhei por trás de uma poltrona e vi que ela voltava, então agindo rápido comecei a andar abaixada pelo outro corredor, sempre de olho nela.
Eu queria achar a suposta "cozinha" que teria o cafezinho. Essa era minha ultima chance de tomar porque quando estivesse com Charlie eu só comeria coisas sem gordura, açúcar ou cafeína.
As pessoas me olhavam como se eu fosse louca, isso até eu chegar ao meu alvo. Entrei no que eles chamavam de cozinha e até me impressionei em ver que ela era belezinha. Tinha um frigobar, armários e até um mini microondas. Eu sorri comigo mesma contando com a sorte que a aeromoça ia me esperar por um bom tempo lá no banheiro e comecei a procurar o café. Era muita cara de pau minha fazer isso, só que a outra linha me deixava porque eu conhecia a aeromoça de tantas vezes que voamos juntas. Essa teria que começar a se acostumar com isso também.
Ali havia um balcão e nele uma duas garrafas térmicas, uma preta e uma cinza, que eu conhecia muito bem da outra linha. Eu peguei um copo de plástico e abri a garrafa preta, colocando um pouco de café. Estava quentinho como eu gostava. Eu também estava com fome, e comecei a abrir os armários para ver se encontrava os amendoins que sempre davam. E então o avião começou a balançar numa turbulência daquelas. As coisas que estavam no armário caíram em cima de mim, e isso significava um saco de açúcar. Ele rasgou quando caiu, espalhando para tudo que é lado. O meu copo com café que eu deixei em cima do balcão caiu também, espalhando o liquido preto. Eu ainda tentava me segurar nas coisas, e segurar elas também porque estava caindo tudo, os pacotes de amendoim, as garrafas térmicas...
O avião parou de tremer e eu, de olhos arregalados, vi a bagunça que ficou. Eu estava ferrada! As portas dos armários eram feitas para não abrirem quando aconteciam turbulências, e as garrafas não quebrarem, mas eu tinha feito tudo dar errado deixando as portas abertas, e tendo um copo com café ali em cima do balcão.
— Mas que porra...?
Olhei para a entrada e a aeromoça estava ali olhando horrorizada para a bagunça que tinha se formado no chão. Ela levantou o olhar para mim.
— Oi. — sussurrei com um aceno.
— Você! — apontou para mim, vermelha de puro ódio. — EU VOU TE PEGAR, SUA GAROTA DO INFERNO!
A aeromoça avançou na minha direção, mas ela acabou escorregando na sujeira e caiu de bunda no chão. Eu não sabia se ajudava ela ou se corria. Ela me olhou e seu olhar só fez eu decidir o que faria: correr! Pulei por cima da aeromoça que tentou agarrar minha perna, mas a empurrei e corri para o meu lugar. As pessoas estavam me encarando por causa do meu estado, que era coberta de açúcar. Me encolhi na minha poltrona, querendo sumir. E sobre eu estar ferrada... Eu estava era muito mais do que ferrada!
A aeromoça não apareceu ali como eu imaginava que ela iria fazer, o que foi um grande alivio. Talvez quando chegássemos em Orlando ela não mandasse me prender, e eu não encontrasse Charlie em uma situação ruim. Talvez aquela aeromoça fosse muito boazinha e ia me dar créditos porque era a primeira vez que viajamos juntas. É, talvez...
Fiquei quietinha no meu lugar assistindo o pirralho continuar dormindo, até que então comecei a ficar sonolenta e com muito prazer me entreguei ao sono.
O sol quente de LA batia no meu rosto, e a brisa fresca balançava meus cabelos. Eu estava sentada na praia que ficava no final da ladeira perto de casa, aquela que eu sempre fazia caminhada — antes sozinha, agora com Edward. O lugar estava vazio tendo apenas os sons das ondas quebrando. Olhei para os lados e me surpreendi ao encontrar Edward sentado ao meu lado, sorrindo.
— Você está indo para Orlando. — falou com um biquinho fofo.
Eu já tinha visto essa cena e mais uma vez eu estava me perdendo nos lábios vermelhos e convidativos de Edward. Ele movendo-os em forma lenta e sedutora que me fazia morder os meus com vontade de beijar. Para uma pessoa como eu se distrair era muito fácil, ainda mais quando um cara lindo como ele ficava tão pertinho assim.
Yeah, ele estava se aproximando.
Eu também comecei a me aproximar mais dele, sem nem encostar e já sentindo a textura daqueles lábios vermelhos nos meus. Edward, com uma mão, colocou uma mecha do meu cabelo que caiu no meu rosto atrás da minha orelha, e passou o dedo na minha bochecha. E então o mais estranho aconteceu, ele lambeu o dedo e sorriu para mim.
— Hmmmmm, como você está doce, loirinha. — falou com uma voz infantil.
Espera... Aquela voz fina não era de Edward. Eu conhecia aquela voz... Ela me irritava por ser fina... OH NÃO!
Eu abri os olhos e dei de cara com o pirralho que tinha um dedo na boca e me encarava com uma cara de pura malicia. Aquele dedo... Eu passei a mão na minha bochecha sentindo uma linha molhada.... Ah merda, quero vomitar!
— Seu filho da puta, sai daqui! — empurrei o pirralho que voo para trás e bateu na poltrona dele, e ainda rindo. — Que nojo! Que nojo! Que nojo! — eu murmurava tentando, inutilmente, tirar aquela baba do meu rosto.
— Hmmm, que delicia! — ele falou chupando o dedo. — O que você fez, loira, pra ficar assim, docinha?
— Seu moleque nojento! — dei um tapa na cabeça dele que quase saiu do pescoço. — Porque você fez isso?!
Ele soltou uma risadinha, passou a mão nos cabelos ensebados e me encarou com o que ele julgava ser sedutor, mas que mais parecia um animal esquisito e não nomeado pelo ser humano.
— Eu acordei e dei de cara com seus fios de ouro na minha cara... — tentou tocar meu cabelo, mas lhe dei um tapa na mão. — Decidi aproveitar que você estava dormindo também e fui saber qual era seu perfume...
— Você... Me cheirou?! — coloquei a mão na boca para não vomitar.
— Sim. Todinha... — falou lentamente e mexeu as sobrancelhas. — E vi que você cheirava a doce. Então quis saber o gosto. Mas ai você acordou... — deu de ombros. — Você é gostosa, loirinha.
Olhar para aquele pirralho sabendo o que ele tinha feito estava me dando ânsia de vomito. O meu café-da-manhã queria sair todinho. Meu Deus, esse menino conseguia ser pior que Emmett em quesito de ser nojento.
— Fica longe de mim, pirralho.
— Porque? Eu acho que estou apaixonado por você, loirinha. — ele se aproximou de mim e com o dedo empurrei ele. Não queria tocar naquela criatura nojenta. — E eu sei que você também está apaixonada por mim.
— Você ta ficando louco, só pode! — coloquei a língua pra fora em sinal de nojo. — Você é estranho, sai daqui!
O pirralho gargalhou e grudou no meu braço. Eu tentei tira-lo, mas parecia cola ali. Deus, o que eu tinha feito para merecer uma criatura dessa?! Se ele não me perturbasse desde a fila eu acharia que a aeromoça tinha pagado ele para se vingar de tudo que eu fiz para ela. Eu consegui tirar ele, que gargalhava alto.
— Loirinha, não faz isso comigo, por favor. — ele murmurou triste e eu o encarei de olhos arregalados vendo que a alegria dele tinha passado. — Eu estou falando sério quando digo que me apaixonei por você. Desde aquele momento na fila quando eu vi você chupando o meu pirulito preferido... E eu me apaixonei pelos seus fios de ouro... — tentou tocar no meu cabelo novamente e eu empurrei a mão dele. — Por sua pele branquinha como leite e cheia de pintinhas... me lembrando sorvete de flocos... — ele foi pegar no meu braço e eu me afastei. Ele suspirou e me olhou. — Mas me apaixonei ainda mais pelo seu lindo jeito de falar. E por seus olhos verdes como bolinhas de gude. Você é perfeita, loirinha.
Oh Deus, tadinho, ele parecia mesmo apaixonado por mim. Então seria eu o seu primeiro amor? Esse pirralho era doido, primeiro por me achar linda e perfeita, e depois por se apaixonar por uma garota mais velha. Mas também ele era um fofo com essas palavras bonitinhas.
— Olha, pirralho... — eu comecei. — É muito legal da sua parte se declarar assim, mas... Eu já sou uma mulher comprometida com meu vizinho. Nós vamos nos casar. Ele ainda não sabe, mas vamos. — ri comigo mesma. O pirralho fez um biquinho feio de tristeza. — Eu queria poder corresponder o que você sente, mas você é muito novo. Me desculpa?
Ele assentiu ainda com o biquinho.
— Eu entendo. — murmurou. — Posso lhe pedir uma coisa então, antes que o avião pouse e nunca mais nos vemos?
— Já está perto de pousar? — perguntei e ele assentiu. — OK então, peça.
O pirralho se aproximou de mim e eu me segurei para não afastar, tentando controlar o nojo que eu ainda sentia dele. Qual é, ele tinha me lambido, isso era nojento!
— Me dá um beijo?
— O QUE?!
O garoto avançou em cima de mim com um bico maior do que era permitido para seus lábios. Eu me afastei dele rapidamente, o empurrando para longe, só que ele parecia muito decidido a roubar um beijo meu porque estava colocando todas as forças. Ele era bem escorregadio, e algumas tentativas quase conseguiu.
— Só um beijinho, loirinha! Vamos lá, eu prometo que sou melhor que seu vizinho. Sou gostoso!
— Sai daqui, sua criatura! Sai! Argh, que nojo!
— Loirinha, vou lhe dar um beijinhooooooooooo.
— SOCORRO!
— Eu lhe salvo, não se preocupe! Com meus beijos deliciosos!
— AH MEU DEUS, SEU NOJENTO!
Teve uma hora que eu empurrei o pirralho e ele caiu na poltrona dele, rindo. Eu estava em estado de choque. As pessoas perto de nós nos encarava e a aeromoça estava lá na frente, me olhando com medo. Droga, eu tinha colocado medo na pobrezinha...
Encarei o pirralho que ainda fazia biquinho e tive uma ideia.
— Tudo bem, você venceu. — falei e ele arregalou os olhos sorrindo. — Eu vou lhe dar um beijo que você nunca vai esquecer...
— EBAAAAAA!
— ... Mas eu tenho vergonha, então tem que ser sem ninguém ver. Você levanta agora e vai lá no banheiro que eu vou atrás para lhe encontrar, tudo bem?
O pirralho assentiu, soltou o cinto, pulou por cima de mim e correu para o banheiro. Eu soltei um suspiro e levantei, seguindo para lá também. Dessa vez eu ignorei a velha mentirosa, e dei um sorrisinho quando vi que a vovózona estava dormindo. Então ela não saberia que fui eu, e quando descobrisse eu já estaria longe. Cheguei no banheiro e a porta estava fechada, o que significava que o pirralho estava lá dentro me esperando. Pobrezinho, ia morrer de esperar pelos meus beijos.
Peguei o pirulito que estava no meu bolso e coloquei o cabo na fechadura da porta do banheiro de uma forma que quebrasse lá dentro. Foi prazeroso ouvir o clique que fez, e eu tentei abrir a porta e já não adiantava mais. Dei a gargalhada mais maldosa que eu tinha e assobiando voltei para o meu lugar.
A aeromoça anunciou que íamos pousar e eu apertei meu cinto, sorrindo abertamente. Quando o avião estava em terra firme eu peguei minha bolsa e levantei, vendo que a aeromoça estava na porta de saída agradecendo as pessoas por escolherem essa linha. Eu senti a culpa tomar conta de mim e decidi que precisava me desculpar com a aeromoça. Esperei todas as pessoas saírem.
— Hey, garota, cadê o moleque? — a vovózona apareceu ali do meu lado.
Mesmo com medo eu agi naturalmente.
— Eu não sei, quando o avião pousou ele se soltou do cinto e sumiu. — dei de ombros.
— Oh moleque do caralho! — ela murmurou seguindo para a saída também.
Ri do coitado que ia apanhar quando fosse encontrado. O avião ficou vazio, essa era a hora perfeita. Segui para a saída, e a aeromoça quando me viu grudou na porta com os olhos arregalados. Sorri para ela, que deu um passo para trás. Esse avião para descer tinha uma escada.
— Hey, moça, eu só queria pedir... — eu fui tocar no braço dela e a aeromoça se assustou, se soltou da porta e ficou na ponta da escada. Eu fui me aproximar mais, só que meu pé enroscou em algo, eu tropecei e bati a mão na aeromoça, que para minha surpresa caiu para trás rolando escada a baixo. Seus gritos foram altos, atraindo a atenção das pessoas que estavam lá em baixo. Eu levei uma mão a boca. Vi ela chegar lá em baixo. — Desculpa! — gritei.
Desci correndo as escadas e parei ao lado dela. A aeromoça encarava o céu e chorava. As pessoas começaram a se aproximar para ver se ela estava viva, e nisso apareceu a vovózona também.
— Cadê meu filho, sua aeromoça irresponsável?! — ela perguntou com raiva.
— Tira... Essa... Garota... Daqui... — a aeromoça apontou para mim e todos me encaravam.
— PORQUE?! — berrei assustada. Nisso apareceram dois seguranças que me pegaram pelos braços e começaram a me puxar para longe. — Hey, me soltem! Eu sei andar sozinha! — eles nem ligaram para mim. Olhei novamente para a aeromoça e a vovózona ainda berrava. — VOVÓZONA, OLHA NO BANHEIRO QUE O MOLEQUE DEVE ESTÁ LÁ!
Ela me encarou e subiu as escadas novamente. Bem, pelo menos eu fui boazinha o suficiente para falar aonde ele estava.
(...)
— Senhor, essa é a sua filha? — ouvi a voz do gordinho soar da porta e torci a boca. Que não fosse com Charlie que ele falava e sim com algum maluco que falaria que sim e me tiraria dali.
— Estou torcendo que não. — ouvi a voz de trovão que fez meus pelinhos se eriçarem.
A porta cinza foi aberta e por ela passou o segurança mínima e um homem alto de postura reta como a de um militar. Seus ombros eram largos, sua pele clara e seus cabelos castanhos escuros. O tom verde dos olhos eram familiares, assim como a bondade que emanava deles, e junto a autoridade maior, que faziam qualquer um abaixar a cabeça. Eu reconhecia aquela pessoa, assim como reconheceria até as linhas de expressões de tanto sorrir. O sorriso jovial que fez Renée se apaixonar loucamente.
— Ah, Bella! — Charlie soltou em um choramingo quando se decepcionou vendo que era mesmo eu ali.
— Hey, Charlie! — dei meu maior sorriso e acenei animadamente, fazendo ele revirar os olhos.
— É, deu para ver que é mesmo sua filha. — o segurança mínima falou me lançando seu olhar que ele mais achava ser cruel, mas que me passava diversão.
— Sim, é ela mesma, em pessoa. Vamos lá, garota, levanta daí.
— É pra já. — levantei em um pulo e peguei minha mala, levando até Charlie e entregando para ele.
Charlie se despediu do segurança do aeroporto agradecendo por me liberarem sem muitos problemas, pois ele sabia a peça que chamava de filha e sabia que eu podia dar trabalho. O gordinho apenas deixou avisado que se eu voltasse para meu destino, não era para mim ir pela mesma companhia aérea, pois eles não queriam me ver nem pintada de ouro. Principalmente a aeromoça que agora estava na sala especial tomando chá e calmantes. Que povo exagerado, cruzes!
— Tome mais cuidado, mocinha. — o gordinho falou para mim quando passei por ele.
— Pode deixar, Segurança Mínima. — pisquei um olho para ele que me encarava de boca aberta, não acreditando que eu tinha diminuído ele.
Charlie me chamou lá da frente do corredor, e eu corri para acompanha-lo. Atravessamos o saguão do aeroporto em silencio, o que foi desconfortável para minha pessoa. Fomos para o estacionamento, aonde estava estacionado o Pajero dele, preto e reluzente. Era uma das coisas que eu mais adorava em Charlie, que ele não ficava andando com o carro da policia por Orlando, ele havia comprado o seu carro, e um dos que eu mais adorava.
Guardamos a mala no porta-malas e ele abriu a porta do passageiro para mim, me lançando um sorriso quando o encarei. Como sempre, papai era um cavalheiro, mais uma coisa que atraiu Renée. Era engraçado que todas as vezes que eu vinha visita-lo e passar o final de semana com ele — mesmo nas férias -, eu me preocupava em notar as coisas que fez Renée e até tia Cármen se apaixonarem por ele, pois isso fazia eu me sentir bem, ao invés de guardar rancor pelo idiotice que ele cometeu e que resultou na separação dos dois e ele indo morar longe.
No carro o silencio foi incomodo, mais até do que quando estávamos passando pelo saguão. Eu comecei a batucar os dedos no apoio que havia na porta, olhando para a vista perfeita e ensolarada de Orlando. Eu simplesmente adorava esse lugar, ele passava uma sensação boa, uma animação que eu já havia dentro de mim. Seus grandes parques — incluindo a Disneylândia -, as ruas com as pessoas animadas, era incomparável com qualquer outro lugar, para mim. Uma vez, talvez pelos meus onze anos, eu decidi morar com Charlie porque queria ficar aqui e ir todo dia nos parques, mas Renée não deixou, ela disse que eu era sem futuro aqui, pois Charlie não saberia cuidar de mim. Claro que também tinha o fato que eu queria trazer Rosalie, Emmett e Alec comigo.
Acho que se eu estivesse sozinha teria dado certo!
Mas agora eu percebia que essa ideia era absurda, e que eu não teria mesmo um futuro com isso. E não digo isso porque Charlie não sabe cuidar de mim, ele até sabe, mas eu com certeza faltaria a muitas aulas na escola para ir me divertir, isso era tão óbvio. Desde criança eu já sou assim, e já pensava isso, imagina agora?! Dava para saber de onde Emmett tirara seu super dom de preve as coisas, de Renée.
— Bella, eu sei que é uma coisa inevitável, mas você bem que podia parar um pouquinho de batucar esses dedos. — Charlie falou com a voz baixa, como se temesse que eu brigasse.
Rá, um marmanjo daquele tamanho, meu pai, com medo de mim. Isso é ironia, meu povo, isso é pura ironia!
— Claro, Pai. — balancei a cabeça e ele deu um pequeno sorriso. Parei de batucar os dedos e fingi me concentrar nas ruas, mas na verdade me concentrava em não voltar a bater os dedos.
Voltamos aquele silêncio, o que começava a me irritar profundamente. Qual é, as coisas não eram assim antes, eu sempre era bem recebida por Charlie com perguntas que eu respondia animada, ou qualquer coisa que não fosse aquele silencio estranho como se não víssemos a anos. Só foram três semanas! Será que ele estava muito chateado comigo por todas aquelas coisas que Emmett contou? Shit! Eu não gostei nem um pouco disso.
— Você quer escutar musica? — ele perguntou, me tirando da minha distração.
— Hã? — fiz, debilmente. — Porque pergunta isso?
— Você voltou a bater os dedos, Bella. — ele deu um sorriso divertido e eu ri.
— Demorou para você colocar uma música. — falei, apertando o botão para ligar o som. Logo começou a tocar Oasis. — Ainda preso nisso, papai?
— Bella, cale a boca, por favor. Sabe que Oasis é marcante, e que não da pra cansar de escutar. — ele bufou e revirou os olhos.
— É, verdade. — assenti com a cabeça.
Comecei a acompanhar o vocalista na música que eu mais gostava, Wonderwall, e sem querer, bater os dedos na porta. Charlie negou com a cabeça e se concentrou em dirigir e me ignorar completamente. Agora eram duas coisas no ouvido dele: a música alta, e meus lindos e magrelos dedos batendo. Passaram alguns minutos novamente em silêncio, até que eu decidi que não dava mais e comecei logo com aquilo. Abaixei o som, soltei o cinto de segurança e me virei para Charlie.
— Coloque o cinto, Bells. — ele mandou, revirando os olhos.
Eu ainda não sabia como papai não tinha ficado vesgo de tanto que ele revirava os olhos perto de mim.
— Não quero. — ergui uma sobrancelha. — Vamos lá, pai, está faltando alguma coisa aqui! Me diga como anda as coisas por aqui, em!
Ele deu uma risada gostosa, antes de começar a narrar o que havia acontecido nas três que eu semanas que eu fui uma filha muito má e sumi. Ele contou sobre a policial Markie, que ficava dando em cima dele. Ela nunca desistia, não importa o que acontecesse. E eu lhe digo que já aconteceu muitas, e muitas coisas com ela, eu presenciei tudo, se é que vocês me entendem... Nem Charlie falando alto e claro que não queria nada, ela ainda insistia. Markie era legal... Quando não estava dando em cima de Charlie. E como ela fazia isso quase toda hora, significava que ela era legal poucas vezes. Ele contou também o que Stev aprontou, me fazendo gargalhar alto já que em todas Charlie sempre acabava destruído no sofá e o lindão o encarando com seus olhos negros.
Em um momento, já perto de casa, Charlie decidiu parar em uma lanchonete pois eram cinco horas da tarde e eu só estava com os malditos amendoins que a companhia aérea me deu. A lanchonete era pequena, mas confortável, com suas paredes pintadas em cor pastel, as mesas de madeira marrom escura e as garçonetes sorridentes. Eu e Charlie sentamos em uma parte que havia uma janela grande de vidro, assim o vento quente de Orlando entrava, batendo e fazendo meu cabelo voar levemente. Eu já disse que adorava aquele lugar? Se não: Eu adoro esse lugar! Adoro a brisa quente, adoro o sol da tarde, adoro tudo!
Uma garçonete veio nos atender, e eu pedi logo algo reforçado pois sabia que agora minha próxima refeição seria um pouco tarde, já que Charlie já havia me falado sobre os planos do final de semana — que eram os mesmo da ultima vez que vim aqui. Pedi um hambúrguer grande, um copo de refrigerante Coca-Cola também grande, batata da grande, e de sobremesa um pedaço de torta de morango. Enquanto eu pedia, Charlie ficou me encarando, e eu sabia o que ele pensava.
— Não é porque está longe de Renée pode comer o que quiser. — ele e eu falamos juntos. Eu com uma voz grossa para imita-lo.
— Só isso? — a garçonete perguntou se segurando para não rir.
— Tire tudo isso, por favor. — Charlie falou para a garçonete e eu arregalei os olhos.
— PAI!
— Bella! — me lançou um olhar de repreensão. — Você não quer que eu repita o sermão, quer?
— Não. — murmurei com um bico maior que meus lábios finos podiam fazer. — Só não custa nada.
— Essa é a sua frase, não é? "Não custa nada" Custa muita coisa, e não estou falando em dinheiro.
— Puff! — bufei. — Vamos logo com isso, vai.
Deixei Charlie pedir os lanches naturais chatos que ele deixava e comi com muito mal gosto. Admito que comi duas vezes, mas isso porque eu estava com muita fome, já que as coisas que passei naquele avião gastaram muito das minhas energias, e gastar energia dava fome.
Depois que terminamos, seguimos para casa. Charlie deixou minhas malas no meu quarto, e sai, para eu poder me instalar ali. Não desfiz a mala porque amanhã a noite já estaria voltando para casa, então...
- Vamos, Bella? — Charlie me chamou do andar de baixo.
- Espera só mais um pouco! — gritei da porta e voltei correndo para o quarto.
Peguei um boné na minha mala e os óculos escuros, me preparando para a guerra que era ir para o trabalho de Charlie. Não era a primeira vez que eu fazia isso, e eu adorava pois ver meu pai em serviço era legal. Ser policial de uma das cidades de Orlando era o emprego perfeito para Charlie, pois era um lugar calmo e o que mais fazíamos eram rondas pegando alguns moleques fazendo coisas erradas nas ruas.
Desci as escadas correndo e Charlie teve que me parar para eu não dar de cara com a porta. Seguimos para o carro patrulha e então finalmente fomos para o trabalho. Charlie primeiro iria passar na delegacia para marcar o ponto de hoje e então nós começaríamos. Eu gostava de fazer com Charlie como via naqueles filmes policiais de comédia, que sempre tem aqueles que param para comer rosquinha açucarada ou com cobertura e granulado. Mas eu tinha que chorar muito para Charlie parar em uma loja e comprar, porque por ter muito açúcar ele gostava de controlar.
E era isso que eu fazia no momento, eu implorava para Charlie parar e comprar rosquinha para mim.
- Agora não, Bella, você acabou de comer! — ele falou sem nem olhar para mim.
- Mas pai, eu ainda estou com fome. — fiz bico. — E não custa nada.
- Custa sim, e muito. — me lançou um olhar cheio de intenções sobre o que custava e eu bufei.
- Prometo que me controlo, ok? Por favor, Charlieeeeeee. — choraminguei e ele negou com a cabeça.
- Bella, mais tarde eu compro para você uma caixa grande, mas agora não! — ele resmungou algo inaudível.
Eu cruzei os braços e me encostei no banco, bufando como uma verdadeira criança mimada. Como o carro não tinha som para ouvir musica pois isso atrapalhava caso alguém chamasse pelo radio da patrulha, eu peguei meu iPod e liguei no máximo que podia ao som de Katy Perry por causa de Emmett. Eu tinha a estranha mania de que quando me afastava de todos, me aproximava mais das coisas que eles gostavam. Como Katy era sua ídolo, eu acabava por ouvir também, assim como ouvia bastante Sum 41 por causa de Rosalie e Beatles por causa de Renée. Caramba, isso fazia eu me lembrar que não sabia o que Edward mais escutava... Será que era rock? Ou seria clássica? Talvez Rap. Não, não, Edward não tinha cara de quem escutava rap. Mas cara não define personalidade nem estilo musical, pois olhando bem para Emmett quem vai achar que ele escuta Katy Perry? Então Edward podia muito bem escutar rap no estilo 50Cent se possível, e...
- Hey, Bella, acorda! — Charlie me deu uma sacudida me fazendo sair dos pensamentos. — Caramba, garota, entrando no seu mundo de novo? — brincou e eu lhe lancei um sorriso falso com uma careta.
- Não enche, pai. — revirei os olhos enquanto ele gargalhava. — O que foi que me fez sair do meu mundo?
Ele riu novamente.
- Eu estava perguntando para você como anda as coisas em Los Angeles?
- Ah... Vão muito bem, por assim dizer. Mas você sabe, o de sempre. Emmett e eu aprontando e deixando Renée louca. Rosalie sempre invadindo nossa casa para comer e torrar minhas paciências. — rimos.
Emmett algumas vezes vinha comigo para Orlando passar uns dias com papai, mas vinha mais nas férias. Eles dois mesmo sendo amigos e tudo, não tinham tanta afinidade quanto eu. Não sabia se Emmett guardava algum rancor de Charlie, mágoa ou o culpava por alguma coisa, pois nunca me falou nada — e olha que ele me contava muita coisa. Só que dessa vez ele não veio porque iria trabalhar. Então suas viagens para cá diminuiriam à apenas serem nas férias.
- E Alec, como vai? Voltou a falar?
Suspirei.
- Quem dera, pai. Alec continua na mesma, e ninguém faz nenhuma ideia de quando ele vai parar ou como fazermos ele parar. Ele está bem decidido. — puxei o ar já sentindo a raiva tomar conta de mim porque sempre que tocava nesse assunto era assim que eu ficava. — Só Deus sabe como eu odeio aquela garota, pai. Só ele!
Charlie tirou a mão da marcha e colocou no meu ombro em forma de consolo.
- Não sinta tanta raiva assim, Bells, isso não faz bem. Ela ainda vai ter o que merece, você vai ver.
- Ela merece muito, e eu espero que seja logo. — torci a boca em desgosto.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até Charlie voltar a fazer interrogatório sobre LA.
- Renée me falou que vocês ganharam novos vizinhos, é verdade?
O mal humor que eu estava sentindo por causa do assunto do Alec sumiu na mesma hora só de lembrar dos novos vizinhos.
- É verdade, pai, e eles são tão legais! Quero dizer, por falar eu só conheci os dois irmãos, que mais parecem gêmeos, mas a garota é mais nova. O nome dela é Renesmee e ela é uma patricinha assumida, só que mesmo com isso e mesmo eu tendo apatia com esse tipo de garota, até que essa nova iorquina é bem legal. E o irmão dela então nem se fala. — olhei para Charlie que me encarava, e mexi as sobrancelhas em forma sugestiva, fazendo na mesma hora ele fechar a expressão. — O que?
- Já está se engraçando pro novo vizinho, Isabella? Quantos anos ele tem, mocinha?
Eu gargalhei com o ciúmes eminente do papai. Ele, que tinha parado em um farol, acelerou o carro.
- Eu não estou me engraçando para ninguém, Charlie. Fique relaxado, ok? E Edward tem a mesma idade que eu, o que é bem legal, afinal, ele é um gatinho e tanto. — fingi um suspiro, o que fez Charlie bufar. — Qual é, pai, estou apenas sendo bem sincera com o senhor.
- Então guarde essa sinceridade para você, pois não quero imaginar a minha Bella de assunto e gracinhas com um moleque.
- PAI! — arregalei os olhos. — Eu já sou bem grande, pare com isso.
- Não é grande o suficiente para namorar ainda. E também, Bella, nós sabemos muito bem como acontece, não é? Espere mais um pouco para então você pensar nisso.
Eu havia entendido o que Charlie queria dizer. Ele não se referia a minha idade para poder ou não namorar, mas sim aos meus sentimentos e o tempo que Edward tinha aparecido, que era uma semana. Aquela coisa toda com Jacob não foi só mamãe e Emmett que tentaram me ajudar, Charlie também, ele me fez vir passar uns dias com ele para ver se longe de um lugar que me trazia tantas lembranças eu pudesse melhorar, mas não adiantou muita coisa. Só o suficiente para eu não parar em um cômodo e chorar. Charlie se preocupava demais comigo, até uma preocupação exagerada, então ele sempre queria evitar que eu acabasse sofrendo outras desilusões, e com certeza achava que eu já estava iludida com Edward.
Mas papai estava enganado pois eu havia colocado na minha cabeça que as coisas com Edward seriam apenas amizade e nada mais, pois o ruivo tinha cara de ser um bom amigo. E mesmo eu fazendo brincadeiras maliciosas e com segundas intenções, até chamando ele de futuro marido, não significava que eu estava já me amarrando. Era só porque Edward era bonito demais para a minha sanidade, e acho que não sou a única garota que iria querer se casar com ele. Porra, o gato tem umas costas definida, furinhos e pintinhas, fora que tem um sorriso encantador. Como eu podia ficar quietinha no meu canto com uma beldade dessas pagando simpatia comigo? Impossível, não é? Principalmente porque sou Isabella Swan.
- Relaxa, pai. Edward pode ser lindo, e eu posso ficar paquerando ele vinte cinco horas por dia, mas as coisas entre nós vão ser apenas amizade, nada mais.
Charlie deu uma rápida olhada em mim e depois voltou sua atenção para a estrada, assentindo com a cabeça. O que ele estava pensando? Não faço a menor ideia, pois diferente de mim, Charlie era muito difícil de ser "lido". Seus pensamentos nunca podiam ser adivinhados, você só sabia se ele contasse.
- Tudo bem, Bella, eu vou acreditar no que você está dizendo. — falou por fim. — Mas se eu souber alguma coisa...
- Não vai ficar sabendo de nada, pai, porque não vai ter. — sorri para ele. — Mas me diga sobre o senhor, as coisas em Orlando, as namoradas... — o cutuquei e Charlie pigarreou. — Conta para mim qual é a atual?
Charlie ficou quieto por alguns minutos e para qualquer um isso significaria que ele não iria responder. Mas não para mim, sua filha. Eu sabia que ele estava apenas pensando em como contar tudo de forma rápida e que não deixasse partes mais detalhadas em que eu pudesse me apegar para depois perguntar.
- Eu vou muito bem, Bella. O trabalho de policial aqui em Orlando anda a mesma coisa desde a última vez em que você veio, não tem nada de novo. Fazer a patrulha mudando o horário entre noturno e diurno, prender alguns infratores. Mas ultimamente ando tendo mais trabalho, o que diz já de cara que não tenho muito tempo para poder sair, beber e ter alguém, como você sabe.
- Hm. — murmurei com um bico por não ter nada de novo. — Eu acho que vou ter que procurar uma companhia para você antes de ir embora.
Charlie bufou e resmungou algo como "lá vem ela com essa história novamente" pois não era a primeira e nem seria a ultima vez que eu falaria enquanto não o visse com alguém e feliz. Ele sempre fugia do assunto com uma única pergunta:
— E como vai Renée? Ainda batendo bem da cabeça? Apesar que ela nunca bateu...
— Charlie! — o repreendi. — Eu odeio quando você muda de assunto sim. E Renée vai bem, ainda bate só um pouco pelo que você lembra.
— Isso é algo impressionante pois pelo que ela me conta você e Emmett não andam sendo muito fáceis ultimamente.
— Pois é. — suspirei. — Mas é que as coisas que não estão mais sendo fáceis. Sabe como é, estamos ficando velhos.
— Eu não acho que seja isso, Bella. — ele riu. — Eu acho que seu anjo da guarda anda meio cansado das coisas que vocês aprontam e está de férias por muito tempo, se é que você me entende.
O olhei de boca aberta. Desde quando eu era criança Charlie e eu brincávamos de que eu tinha um anjo da guarda porque sempre me saia muito bem nas coisas que aprontava. Isso era apenas uma coisa que dava um animo para uma parte de mim que me deixava triste. Foi uma brincadeira que ele inventou e que até hoje dura.
— Meu anjo da guarda não está nem um pouco cansado, escutou, Sr. Swan? Ele anda é muito bem.
— Tem certeza?
— Sim.
— Desde quando ele não funciona?
Eu olhei pela janela tentando me lembrar.
— Desde o dia em que conheci Edward, que eu estava na piscina e a família dele chegou com as mudanças. Yeah, desde esse dia tudo começou a dar errado.
Charlie não falou nada por um tempo, até depois sorrir.
— Acho que esse seu vizinho espantou seu anjo da guarda. — riu. — Isso é uma forma de dizer pra você se afastar dele.
Rá, só Charlie para dizer uma coisas dessas.
— Está muito enganado, Charlie. — falei com minhas engrenagens funcionado. — Só em uma coisa talvez você tenha razão, que é que meu anjo da guarda está cansado. E Edward não o espantou. Na verdade, eu acho que foi outra coisa.
— Tipo o que?
— Acho que ganhei outro anjo da guarda, Charlie. — murmurei me lembrando de como Edward me defendera de Jacob. — Talvez meu anjo da guarda tenha passado de apenas uma imaginação para a realidade.
Charlie não falou nada e eu muito menos por alguns minutos.
— Como pode dizer isso se começou a dar errado?
— Não foi que começou a dar errado, pai, apenas que era inicio, como quando antes do senhor falar que eu tinha um, dava errado. Ele ainda está aprendendo.
— Ele vai saber? — perguntou. Olhei para as minhas mãos e soltei um suspiro. — Bella, nem todos são como aquele idiota.
— Eu sei, pai. Mas eu ainda tenho medo, me entende? Eu estou confusa em falar agora e ele não aceitar e se afastar porque não temos nenhum laço, ou criar laço, contar e ele se afastar e ser pior.
Charlie colocou uma mão no meu joelho.
— Querida, eu ainda não conheço esse menino e não posso lhe ajudar. Mas eu confio em você e confio que agora o seu detector de idiotas está mais evoluído e você vai saber se deve ou não falar para ele. — o encarei e ele sorriu para mim.
— Obrigada, papai.
Charlie assentiu e voltou sua atenção para a estrada. Ficamos alguns minutos em silêncio.
— E os namorados de Renée?
Eu me virei rápido para Charlie que continuava com a mesma expressão de concentração. Nenhuma mudança ao fazer tal pergunta profunda. Nada de nada;
— O que tem eles? — perguntei fechando os olhos em fendas.
— Nada, garota. — Charlie soltou uma risada que soou nervosa aos meus ouvidos. — Estou apenas tentando puxar algum assunto.
— Hm, sei. — murmurei. — Eu sei porque você está perguntando isso, Charlie.
— Não tem motivos além desse, Bella. — me encarou rápido. — Você está ficando paranoica.
— Não estou não. Eu sei muito bem o porque, Charlie. Não adianta tentar esconder.
— Você é louca. — disse, rindo.
— Eu não sou louca, sou é muito bem inteligente, você sabe disso. Você perguntou porque...
Charlie e Renée eram duas pessoas incompreensíveis ao meu ver, porque tinham coisas que eles adoravam complicar sendo que podiam ser as mais descomplicadas do mundo. Ficavam perguntando para mim e para Emmett se o outro estava em um relacionamento. As vezes eu não os entedia por serem tão estúpidos com algo tão simples de ser resolvido. Apenas diminuir algumas milhas de distancia entre aonde moram e no coração.
— Eu sei que não tem mais motivos, mas eu quero ouvir o porque. Vamos lá, garota, manda.
— Vou falar a verdade, se você não quer ouvir é melhor não.
— Deixa de enrolar.
— Tudo bem. — dei de ombros. — Charlie, você acha que eu não percebo que nessas perguntas inocentes que você ainda é apaixonado... NÃO! — berrei assustando ele. — Você ainda ama loucamente a mamãe.
O carro entrou em um silêncio tenso que nem o vento fazia barulho ao passar pelas janelas. Foram exatos trinta segundos até Charlie explodir em uma gargalhada estrondosa que me assustou pois nunca vi ele rir daquela forma. Ele passou do branco para o vermelho e do vermelho para o branco novamente com o tempo.
— Você é hilária, Bella. — disse enxugando uma lágrima. — Você é muito hilária.
— Eu não vi graça. — falei séria.
— Bella, querida... — ele soltou outra risada. — Entenda, o que Renée e eu tínhamos já passou. Eu a amava, mas a sete anos atrás. Os tempos mudaram e os sentimentos também.
— Impossível isso acontecer, Charlie. O amor adolescente de vocês não podem simplesmente ter acabado assim. Sei que você a ama e ela te ama também. O motivo da separação de vocês não foi uma briga que começou tempos atrás até desgastar o amor, foi apenas um susto — um grande susto diga-se de passagem pelo tamanho do Emmett — que não deu para levar antes. Mas agora...
— Bella, isso é um absurdo de se dizer. Achei que já tinha superado a separação.
— Superei, mas vocês não superaram. — apontei para ele. — Vocês se amam, não negue.
— Cale a boca, Bella. Chega dessa besteira.
A expressão divertida de Charlie sumiu.
— Você ama Renée, lálálálálá. Você ama Renée, lálálálá.
— Cala a boca, Isabella!
— Vocês se amaaaaaaaaaaaaaaaaam, lálálálála. — soltei o cinto e me aproximei dele. — Você ama a Renée e a Renée te ama... — sussurrei no ouvido dele. — UHUUUUUUUUUUUUU!
— BELLA, PARA COM ISSO! — ele berrou no susto quando gritei.
— CHARLIE AMA RENÉE E RENÉE AMA CHARLIE, OWNNNNNNNNN!
— Coloque esse cinto agora, Bella, e pare com essa idiotice!
— Mamãe ama papai e papai quer mamãe de vooooooooooolta. — cantarolei desafinada.
— CALA A BOCA E VAMOS COMPRAR LOGO AS PORRAS DAS ROSQUINHAS!
— AEEEEEEEEEEE!
Eu voltei para o meu lugar e coloquei o cinto, sorrindo triunfante por ter conseguido o que queria: fazer Charlie me levar para comer rosquinhas açucaradas. Charlie bufou e não falou mais nada, apenas virou o carro na esquina próxima e seguiu para o melhor lugar de rosquinhas Dyner's Bagels. Eu já sentia minha boca se encher de água ao imaginar eu dando uma mordida em uma.
— Quero uma caixa cheia. — murmurei quando ele entrou no driver thru.
— Só se eu não quiser que você durma. — resmungou.
Charlie parou o carro na janela que ficava a menina que pegava os pedidos, abriu a janela.
— Boa tarde! — ela falou amigavelmente. — O que vocês vão pedir?
— Hm... Meia dúzia de rosquinhas divididas nos sabores. — Charlie me encarou.
— Só se for pra você! — o olhei ofendida. Soltei meu cinto e me estiquei até a janela dele. — Moça eu quero meia dúzia de açucarada, meia om cobertura de chocolate, outra de morango, e...
— Nada disso, mocinha! — Charlie me fez voltar para meu lugar. — Você não vai comer tanto açúcar assim.
— Claro que vou! É pecado para mim vir aqui e só comer meia dúzia de rosquinhas dividida nos sabores... — imitei ele com uma expressão de deboche. — Me poupe, pai. Eu quero todas as dezoito rosquinhas que pedi.
Charlie me encarou por alguns segundos e vendo que eu estava relutante, suspirou.
— Tudo bem. — murmurou. — Mas é a ultima vez hoje que você come açúcar!
— OK. — sorri abertamente.
— E Renée não pode saber.
— Nunca.
Fizemos o pedido e fomos mais para a frente para pegar. Quando a minha caixa grande, cinza e pesada estava nas minhas mãos, Charlie estacionou o carro em uma vaga ali e nós paramos para comer. Ele me mandava olhares de reprovação ao ver o tanto de açucar que eu estava ingerindo, mas não falou mais nada.
— Nossa, pai, você não sabe como eu senti falta disso. — murmurei com a boca cheia, fechando os olhos em deleite.
— Não mesmo. — ele murmurou divertido vendo minhas reações. — Não falo para você vir mais vezes porque isso seria um perigo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu assenti com a cabeça, concordando completamente com ele. Sabia o meu limite e tinha que ir de acordo com ele ou então mais coisas seriam destruídas.
Continuamos a comer em silêncio, o que era uma coisa comum que acontecia entre nós as vezes. Charlie não era um homem de falar muito por ser fechado e tímido — mesmo tendo aquela idade e sendo um puto de gostoso que arrasa corações -, mesmo comigo e com Emmett que éramos seus filhos. Claro que nossa convivência era divertida, muito pai e filho, só que sempre tinha um pouco de silêncio. E era uma coisa que eu tinha aprendido a lidar, mesmo com meu jeito.
Charlie pigarreou, chamando minha atenção. O encarei e ele gargalhou alto.
— O que foi? — perguntei.
Ele me olhou atentamente e negou com a cabeça, uma expressão um pouco maldosa.
— Nada, querida. — disse. — Eu estou entalado com a massa, vou lá buscar um café. Quer um suco de maracujá?
— Quer um suco de maracujá? — o imitei e ele bufou irritado. — Eu odeio esse suco!
— Esquece, Bella. — falou ao sair do carro, batendo a porta.
A mania de Charlie de sempre dizer o que vou comer me irritava profundamente porque a maioria das coisas que ele falava eu odiava. Eu até tentava as vezes ir no embalo dele, mas outras eu não conseguia, como agora.
Decidi relaxar e continuar aproveitando as minhas rosquinhas que estavam deliciosas. Era uma coisa divina elas, e se eu tivesse muito dinheiro iria enriquecer ainda mais o dono da Dyner's Baguels comendo sempre. E também, se eu pudesse, claro. Quando estava em LA e lembrava delas minha boca sempre enchia de água e minha vontade era de pegar um avião e vir para cá porque só tinha elas no estado de Orlando. O dono ainda não havia expandido suas fábricas e lojas de rosquinha para outros estados. Ainda. Porque um dia eu iria dar essa ideia para ele só para ter delas ainda mais perto de mim.
Em uma inquietude de ficar parada só comendo eu decidi mexer no carro. Abaixei o protetor do sol para me olhar nos espelho. Gargalhei com meu reflexo. Eu estava horrível com a parte da boca coberta de açúcar e granulado. Agora entendia porque Charlie riu quando olhou para mim. Deus, eu estava uns caos com aquele boné e suja.
— Carro 679... Aqui é da central... Está acontecendo um assalto na Dyner's Baguels... Carro 679...
Eu encarei o rádio raciocinando comigo as palavras da Markie. Dyner's Baguel... Será que era essa a que nós estávamos? Não podia ser, senão eu ouviria alguma bagunça lá dentro. E Charlie estava lá. OH MEU DEUS, CHARLIE ESTAVA LÁ!
Eu joguei a caixa de rosquinhas para o lado e sai do carro, ao mesmo tempo que um cara com roupas pretas e meia na cara saiu pelas portas duplas da Dyner's. Ele correu na minha direção, passando por mim como uma bala, carregando nas mãos um saco vazio. Ouvi o barulho das portas sendo aberta novamente e dela saía Charlie com uma arma na mão. Entendi então que aquele era o suposto ladrão da Dyner's, e ele estava fugindo pois Charlie não podia atirar por ter pessoas no estacionamento.
Me virei na direção que o ladrão tinha ido e sai correndo atrás dele para impedir sua fuga. Ele era rápido, mas eu também por anos de corrida que fazia na escola. Correr para mim não era nada, ainda mais com açúcar no sangue. Logo eu estava bem próxima dele.
— BELLA, NÃO! — ouvi Charlie gritar, mas já era tarde, eu pulei em cima do assaltante, fazendo ele cair de cara no chão.
— RÁ, TE PEGUEI! — falei no ouvido dele, sentando bem em cima de suas costas e prendendo suas mãos.
O ladrão tentou levantar, mas eu consegui o prender de uma forma que era quase impossível. Logo pessoas começaram a se aproximar, junto Charlie, com a arma apontada. Ele me pegou pelo braço e me levantou, me fazendo cambalear, ofegante. Falou para o cara não se mexer porque ele não teria piedade em atirar, o que foi até engraçado de ouvir pois Charlie não era cruel, só tinha pose de durão. Só mesmo quando ele estava em algo sério que ele era alguém do mal. Mas do mal para conter o mal, não que fazia mal. Entende?
Em minutos o ladrão estava algemado e no banco traseiro do carro patrulha. As pessoas me elogiaram pela minha coragem e eu sorri para todas me sentido a poderosa por ter feito algo bom. Charlie disse que agora que estava tudo sob controle podiam voltar para o que estavam fazendo e me fez entrar no carro, com a cara emburrada. Ele deu volta e entrou, batendo a porta com força. Acionou o rádio avisando para a central que tinha pegado o ladrão e quando desligou não falou nada, apenas resmungos ilegíveis de quem estava com muita raiva.
— Não fique assim, Charlie, está tudo bem agora. — falei calmamente, tocando seu braço.
— Não ficar assim, Isabella?! Não ficar assim?! Como você não quer que eu fique assim se minha filha correu atrás de um assaltante que podia muito bem estar armado e lhe fazer mal?! — o velho explodiu, me assustando.
O carro entrou em um silêncio mórbido.
— Eu não faria mal a garota. — o ladrão falou com um sotaque que indicava que ele não era americano.
O encarei, dando com um cara branco de olhos azuis e cabelos negros e lisos. Charlie havia tirado a sua máscara e agora dava para ver seu rosto. Ele vendo que eu o encarava deu um sorriso aberto e um tanto sedutor.
— Oi. — murmurei encantada com ele.
— Ciao.
— Isabella, não fale com o presidiário! — Charlie rosnou me fazendo virar para a frente.
Ficamos todos em silêncio no carro, apenas com o barulho do vento pela janela. Eu comecei a batucar meus dedos, nervosa com o que estava acontecendo. Charlie estava muito nervoso comigo, e eu não sabia o que falar ou fazer. Eu o tinha ajudado, era arriscado, eu sei, mas foi por impulso.
— Pai... — comecei.
— Isabella, agora não. — disse me cortando. — Eu preciso me acalmar primeiro e tirar da cabeça o que poderia ter acontecido com você.
— Mas não aconteceu nada!
— Mas poderia!
— Eu não faria nada a garota ragazza.
— Cala a boca! — Charlie virou para o ladrão muito nervoso. — Você não pode falar nada!
— Charlie, se acalme, por favor. — pedi.
— Eu sei, Bella, que o que você fez foi por impulso, ok? Só que as vezes você tem que se controlar porque tem coisas que são muito arriscadas. Você pode não pensar assim, mas tem porque hora ou outra o pior... — ele não terminou a frase, tremendo de leve.
Eu suspirei.
— Desculpa, pai. — disse com sinceridade. — Vou tentar me controlar mais a partir de agora. Mas tenta se acalmar, por favor. O moço aqui já disse que não ia me machucar.
— Não o chame de moço. — resmungou carrancudo. — É um presidiário, não se deve falar com ele.
— Eu sei e só falei oi pra ele, não foi? — me virei para o assaltante que assentiu repetidas vezes. — Viu? E ele muito educado me respondeu. Aliás, de onde você é?
— Itália.
— Bella, não converse com ele!
— Wow... — murmurei animada. — Eu adoro aquele lugar! Mamãe me ensinou muita coisa sobre Itália mesmo não gostando do meu nome. Isabella é italiano, certo? — ele assentiu. — Foi vovó quem escolheu, e mamãe teve que aceitar. Ela prefere me chamar de Bella, o que vovó odeia...
— Bella, pare!
— Isabella — o homem disse com um sotaque sedutor que me fez arrepiar. — é um nome bonito. Mas Bella combina mais com sua beleza, caro.
— Ah, obrigada. — murmurei muito constrangida.
— Isabella!
— Moço, não liga para o meu pai carrancudo. — pedi fazendo careta para Charlie. — Ele só está assim porque falei para ele a verdade, de que ele ainda ama a mamãe.
— Se sua mãe for tão bonita quanto você, ele não deveria se envergonhar de ama-la.
— Dá para vocês dois pararem de conversar?!
— Mamãe é linda e ele não tem vergonha de ama-la, é que eles não estão mais juntos a um bom tempo e... — e então eu desatei a contar para o moço italiano o que aconteceu entre Charlie e Renée e o que também aconteceu durantes esses anos até quando eu consegui convencer Charlie a comprar rosquinhas para mim.
O italiano que eu descobri se chamar Pietro ficou interessado na história, até mesmo quando falei de Edward para ele, o que me fez ficar ainda mais animada em contar. Charlie me mandava calar a boca, mas eu não o obedecia porque finalmente alguém ali concordava comigo. Pietro comentava o que achava, falando que eles deveriam voltar já que se amavam. To falando que o cara é dos meus e me entende! Isso só deixou Charlie ainda mais nervoso, falando que um assaltante não deveria se intrometer em sua vida, mas não adiantou de nada. O italiano era mesmo dos meus e nem se importou, como eu. Conversamos muito até Charlie parar o carro em frente a delegacia. Pietro então assumiu uma expressão triste parando de rir comigo.
— Finalmente. — Charlie falou.
Me virei para o Pietro.
— Caramba, que chato. Isso significa que não podemos mais conversar... — murmurei, triste também. — Aliás, porque você fez aquilo, Pietro? Você não carregava arma e não parece uma pessoa ruim.
— Eu precisava muito de dinheiro para poder juntar e comprar uma casa.
— Uma casa? — arregalei os olhos.
— Sim, ragazza. — ele suspirou. — Na Itália eu queria muito vir morar em américa, e juntei dinheiro para isso, mas só o dinheiro da passagem e do visto de um ano. Estudei muito para aprender a falar inglês e tudo sobre a cultura daqui. Mas esqueci que precisava de casa para morar...
— Nossa... — murmurei triste.
— E para isso você iria assaltar quantas casas, hein, estrangeiro? — Charlie finalmente falou. — Não importa o motivo, roubar é crime e você vai preso.
Charlie deu a volta no carro e abriu a porta de trás aonde ele pegou o Pietro pelo braço. Eu ainda estava parada me sentindo triste por ele ser tão ingênuo achando que seria fácil vir para américa. Não queria que papai o prendesse, mas como ele disse, roubar era crime. Talvez Pietro não ficasse muito tempo lá... Ou talvez... Ele fosse deportado.
Eu abri a porta do carro.
- Espera! — falei para Charlie, que parou e se virou para mim junto de Pietro. — Você disse que tem o visto para um ano, certo? — ele assentiu. — E que quer morar aqui, certo? — concordou novamente. — Como você faria depois desse um ano?
Pietro deu um sorriso de canto sedutor.
- Estava esperando encontrar o grande amor da minha vida aqui, ragazza.
Eu assenti com a cabeça e sorri de volta para ele, acenando. Charlie o levou para dentro da delegacia. Entrei no carro novamente sentindo uma onda de sentimentalismo me tomar, e suspirei apaixonada pelo italiano. Tinha que ensinar mais isso para Edward, assim ele seria mais do que perfeito, porque ele já era perfeito. E sim, eu sabia disso o conhecendo apenas em uma semana. Afinal, ele era meu futuro marido que me daria filhos lindos.
Charlie voltou depois de quase uma hora e para minha felicidade, tirou o resto do dia para ficar comigo. Ele não falou mais nada no caminho, então eu sabia que ainda estava um pouco bravo comigo, e eu quem devia começar a deixar o clima leve.
— O que vão fazer com Pietro? — perguntei, curiosa, e querendo dar mais quilômetros a minha linha de raciocínio sobre o italiano.
— Eu não sei, Bella. Apenas deixei tudo para o delegado.
— Acha que vão deporta-lo de volta para a Itália?
— Talvez. Ou talvez não porque ele tentou roubar, não obteve sucesso por ser muito atrapalhado. E não estava armado ou machucou alguém. O italiano só fez uma burrada de impulso. — seus olhos vieram rápidos para mim.
— Sempre faço. — dei de ombros. — Já que Pietro apenas foi uma pessoa inocente acho que seria uma injustiça manda-lo de volta e o impedindo de viver seu grande sonho americano e encontrar seu grande amor. Porque esse era o plano dele, certo? Conseguir casar e se tornar oficialmente um americano.
— Sim, isso mesmo. — Charlie assentiu. — Mas eu não sei, Bella. Depende se ele já arranjou mais algum problema.
— Hm. — fiz.
Não creio que Pietro tenha feito outro assalto ou machucado alguém para ser considerado um perigo aqui e mandado de volta. Ele era atrapalhado, aquele com certeza era seu primeiro e ultimo assalto.
Finalmente entramos na rua que Charlie morava, que estava em seu estado normal com algumas pessoas fora de casa. A Sr. Stronger, uma tiazinha de setenta anos, estava colocando o lixo para fora, e quando viu a viatura deu aceno, sorrindo, mas esse sorriso morreu assim que seus olhos caíram sob mim. De olhos meigos passaram para assustados, e rapidamente ela correu para dentro de casa.
Suspirei.
— Eu amo essa velha. — murmurei para mim mesma, ironicamente.
— E eu tenho certeza que ela te ama também. — Charlie falou divertido me fazendo revirar os olhos.
— Claro, claro. Oh! — exclamei, arregalando os olhos. — Charlie, isso me lembra uma coisa.
— O... Que? — papai perguntou relutante, o medo em seus olhos.
Qual é?!
— Emmett descobriu uma coisa que vai nos render muito dinheiro! Vamos enriquecer! Ele descobriu que é vidente e pior, inventou uma bebida mágica. — balancei os dedos na frente do rosto dele, que tinha parado o carro na garagem ao lado do Pajero. — E nós vamos vender!
— FICARAM LOUCOS?! — berrou, me assustando. — Vocês não podem vender nada! Lembra o que aconteceu a ultima vez que tentaram vender alguma coisa? — assenti. — Até hoje a Sr. Stronger também lembra, não deu certo, e pior, era só limonada e vocês só eram crianças!
Eu soltei uma risadinha, me lembrando perfeitamente de quando Emmett e eu, na base dos onze anos, decidimos que queríamos ser vendedores. Estávamos aqui em Orlando, passando as férias com papai, e ele quem nos deu a ideia de vendermos limonada. Foi uma grande tragédia, que rendeu um trauma para a velha e bronca para nós.
— Não, Emm, essa madeira não vai ai! — falei para o burro que martelava a madeira de forma errada. — Ela tem que ficar aqui em cima!
— Cala a boca, Bella, que eu quem sou o carpinteiro e você é menina!
Bufei para o machismo dele e o deixei continuar com a burrice, enquanto pintava com a tinta verde do papai uma placa escrito "Barraca da Limonada do Skate", outra ideia idiota de Emmett para entrar no livro de ideias idiotamente ridículas que ele tinha. Ainda não conseguia entender o que tinha na minha cabeça para aceitar essas coisas, eu deveria era fazer minha própria barraca...
— Ah, merda! — ele exclamou chamando minha atenção. — Preguei errado!
— Eu disse. — murmurei e levantei do chão, seguindo para dentro de casa.
— Bella, termina essa placa logo! Já perdi a conta de quantas vezes você a largou de lado.
Eu abaixei minha cabeça e suspirei, voltando para a placa. Ele tinha razão, e eu odiava isso. Fiz o meu máximo para terminar a placa logo enquanto ouvia Emmett reclamar de bater no próprio dedo. Duas horas depois nossa barraquinha estava pronta e de pé, na calçada em frente a casa de Charlie. Ela tinha um balcão e duas madeira seguravam em cima a placa que fiz. Colocamos no balcão a jarra com a limonada feita por mim, os copos de vidro mais bonitos de Charlie e um pote de vidro para colocarem o dinheiro. Pegamos dois banquinhos para sentarmos e ali ficamos, esperando pelos clientes. Eu mexia no meu boné, rodando ele toda hora porque estava muito chato ficar ali parada e sentada.
— Se fosse em LA já teríamos ficado ricos. — Emmett resmungou pela décima vez entre os dez minutos que estávamos ali e ninguém aparecia.
— Cala a boca, moleque. Não aguento mais você reclamar. — revirei os olhos.
— E eu não aguento mais ouvir você falar demais. — fiz beicinho. — Deve ser essa sua cara feia que está assustando as pessoas!
— Oh! — minha boca se escancarou. — Olha quem está falando isso, o Sr. Da Beleza, não é?
— Isso mesmo!
— Se liga, Emmett, você é ridículo!
— Você também!
— Não sou não! Mamãe diz que sou linda e especial!
— Ah, claro. Isso porque a tia é cega, pois você é muito, muito, mais muito feia. E insuportável e chata também.
Eu lhe dei um tapa na cabeça e ele me encarou de olhos arregalados. Ergui um pouco o queixo em forma de provocação e em troca disso recebi um beliscão no braço.
— Ai!
— Bem feito!
— Eu vou te bater, Emmett!
Eu avancei para cima dele, querendo lhe dar um soco bem no meio das fuças para ele nunca mais discordar da mamãe e ainda chama-la de cega. Nós entramos numa briga ali entre tapas, socos e puxões de cabelo. Meu boné voou para algum lugar naquilo tudo. Nós só paramos quando ouvimos um pigarro. Olhamos para a frente e ali, depois da nossa barraquinha, estava a Sr. Stronger com seu sorriso gentil. Na mesma hora eu soltei a gola da camisa de Emmett e ele soltou meus cabelos, nós nos ajeitamos, sorrindo.
— Boa tarde, Sra. Stronger! — falamos juntos.
— Boa tarde, queridos. — como sempre, ela foi amável. — Vejo que vocês estão em discórdia novamente.
— Não! Que isso! Não estávamos fazendo isso ai não! Era apenas carinho! — falávamos juntos com sorrisos falsos.
— Claro. — ela riu. — Essa barraquinha linda é mesmo o que eu estou pensando?
— É sim! — respondi antes de Emmett. — Nós estamos vendendo limonada, nesse calor, para refrescar um pouco. A senhora aceita, Sra. Stronger?
— Oh, mas é claro! — ela pegou a bolsinha dentro da blusa, sabe... Dentro do sutiã. Eu e Emmett nos encaramos com uma careta, depois sorrimos de volta para ela. — Eu quero o copo maior que vocês tiverem pois estou com muito calor.
Também, com aquela roupa esquisita de lã quem não estaria..., pensei.
Ela colocou duas notas de um dólar dentro do pote de vidro, ainda sorrindo para nós.
— A senhora não vai se arrepender. — Emmett disse.
— Não mesmo, porque fui eu quem fiz. — sorri abertamente.
Fui pegar a jarra para poder colocar a limonada no copo, mas a mão de Emmett pegou na mesma hora a outra alça da jarra. Lancei um olhar significativo para ele deixar eu servir o primeiro cliente, só que meu belo irmão também queria fazer aquilo.
— Emmett... — sussurrei para ele.
— Sai, Bella. — ele sussurrou de volta.
— Me deixa!
— Não!
Emmett pegou um lado da jarra e eu o outro e nós começamos a puxar, querendo servir a Sra. Stronger. Os cubos de gelo que tinham lá dentro batiam no vidro, fazendo um tilintar. Respingos do suco voavam, alguns caindo na minha mão e roupa.
— Emmett, paaaaara coooom issoooooo! — pedi, puxando a jarra.
— Para você, Bella!
— Crianças, parem de brigar!
— Eu quem vou servir a Sra. Stronger!
— Não, vai ser eu!
— Vocês dois podem me servir, eu bebo mais um!
— Sai, Bella!
— Aaaaaaah, eu te odeio! — gritei, soltando a jarra e empurrando Emmett em direção a barraquinha.
Foi então que a coisa toda virou uma grande merda porque a barraquinha não era pregada no chão, qualquer ventinho que desse derrubava ela, então imaginem um garoto "grande" como Emmett. Vi, com meus lindos olhos verdes arregalados, Emmett cair por cima da barraquinha, que caiu por cima da Sra. Stronger. A placa que eu havia pintado, e que nem tinha secado ainda, caiu bem na cara dela.
— MEU DEUS, MATAMOS A VELHA! — Emmett berrou ficando de pé na hora.
— Estamos ferrados. — sussurrei, agarrando o braço do Emmett. — Vamos ser presos!
— Calma, Bella. Não vamos ser presos porque nós vamos fugir, ok? — ele me pegou pelos braços me fazendo encara-lo. — Eu estou com você e não vou te abandonar nunca.
Assenti com a cabeça, o abraçando logo em seguida. Emmett então pegou meu boné no chão, colocou na minha cabeça e me puxou para a rua, mas um gemido nos paralisou. A Sra. Stronger soltou outro gemido e se mexeu, empurrando a barraquinha para o lado. A pele dela agora estava verde.
— AH MERDA, ELA AGORA É ZUMBI E QUER VINGANÇA! — berrei desesperada.
Tirei meu tênis do pé a ataquei na cabeça da velha, fazendo-a morrer de novo. Olhei para Emmett, que me encarava.
— Bella...
— Ela estava virando zumbi, Emm. Era preciso... — murmurei.
— O QUE VOCÊS DOIS FIZERAM?!
Olhamos para trás vendo Charlie sair de casa super furioso e vir na nossa direção. Yeah, o plano de fugir foi por limonada a baixo. Meu pai, que era policial, iria nos prender. Tadinho, seu coração ia sofrer tanto com isso...
— Pai... A culpa não foi nossa, a barraca caiu em cima dela! — Emmett e eu falamos ao mesmo tempo.
Charlie empurrou nós ao passar e levantou a barraquinha. Eu grudei novamente no braço de Emmett, com medo de papai ser atacado pela velha zumbi verde, mas com mais medo ainda de falar algo pela revolta que ele se encontrava. Charlie tocou na Sra. Zumbi e essa soltou um gemido e abriu os olhos.
— Sra. Stronger, a senhora está bem? — ele perguntou. — Quer que eu chame uma ambulância?
A velha soltou outro gemido e depois levantou, com uma mão na cabeça — bem aonde eu tinha acertado o tênis. Ela olhou de mim para Emmett e arregalou os olhos, levantando o mais rápido que podia.
— SEUS FILHOS SÃO UNS CAPETAS! EXORCISE ESSAS CRIATURAS! — ela berrou apontando para nós e depois saiu, como o que se podia chamar pelo ritmo dela, correndo.
Charlie ficou encarando a velha ir para a casa, e assim que ela entrou, ele virou furioso para nós.
— QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS DOIS?!
Emmett e eu nos encaramos e falamos ao mesmo tempo:
— É tudo culpa dele!
— É tudo culpa dela!
Charlie respirou fundo e voltou para dentro, nos levando junto dele.
Lá dentro Charlie nos deu uma bronca e depois me disse que ela não tinha virado zumbi e que estava verde por causa da placa que eu havia pintado.
Seguimos para dentro da casa. Como sempre, depois de ajudar Charlie em mais um dia de trabalho, eu subi para meu quarto para tomar outro banho. Com uma toalha enrolada nos cabelos e vestida com um pijama leve porque o tempo em Orlando estava quente e gostoso as sete horas da noite, eu verifiquei se a porta estava mesmo trancada e fui até minha mala. Peguei um maço de cigarro e o isqueiro com detalhes de flor roxas, encostei na janela aberta e acendi, sentindo logo a nicotina no meu sistema com a primeira tragada. O dia tinha sido longo, divertido, nervoso e cansativo, eu precisava desestressar um pouco.
Charlie odiava que eu fumasse, e isso foi motivo de muitas brigas entre ele e Renée. Minha mãe até sabia, e também odiava, muitas vezes tentou me impedir, me deixou de castigo e brigou comigo, mas vendo que era uma coisa que até me acalmava um pouco — mesmo eu não podendo — ela e eu entramos em um acordo que eu podia, mas só quando estivesse mesmo nervosa. Se eu transformasse aquilo em um vicio, ela iria fazer eu deixar de viciar na base da porrada e de tratamento, nem que tivesse que comprar cigarro elétrico. Claro que ela não iria me bater pois nenhum dos meus pais tiveram a coragem de algum dia levantar a mão para bater nos filhos, só que ela gostava de colocar um pouco de disciplina nas palavras como a Rochelle, de Every Bodes Hates Chris fazia. Renée era louca por essa série.
Não fazia muito tempo que eu tinha começado a fumar, e não era uma louca que fumava todos os dias. Ficava dias sem, dependendo do meu humor. Tinha consciência de tudo, e sempre evitava fazer isso perto dos meus pais, porque mesmo eles sabendo, era estranho fazer e eles verem. Aliás, eles me dariam sermões. No acordo de Renée também estava imposto que eu só podia fazer longe dos olhos dela, porque se ela visse... Ela nem terminou a frase.
E eu sei que minha mãe não é como uma normal, não precisa nem pensar em me dizer. Ela nunca foi e nunca seria. E era isso que fazia eu a amar ainda mais do que era estabelecido entre mãe e filha. Assim como era com Charlie também, que as vezes mostrava suas estranhezas iguais as minhas e de Emmett.
Terminei e joguei o filtro na privada, dando descarga. Escovei os dentes e passei um pouco de perfume para tirar o cheio que ficava impregnado na pele e na roupa. Depois sequei meu cabelo, o prendi em um coque e desci para a sala, aonde papai estava sentado assistindo ao CNN. Parei na escada ao ser atingida por um cheiro que para alguns era ótimo, mas para mim...
— Está fazendo o que para o jantar hoje, Charlie? — perguntei indo me sentar ao lado dele.
— Você sabe. — ele disse dando um tapa na minha perna, levantando e seguindo para a cozinha.
Eu bufei e segui ele para a cozinha. Vi Charlie, com muita coordenação e habilidade fazer o jantar. Quando ele terminou eu o ajudei e por a mesa, fazendo careta para as coisas que ele havia feito. Era tudo muito... Controlador da parte de Charlie. Sentei de frente para ele com uma expressão nada agradável, que ele fingiu não perceber. Charlie se serviu e perguntou se eu queria que ele colocasse para mim, mas eu neguei. Enchi meu copo com suco de morango, que era a única coisa que realmente me agradava ali por ser minha fruta preferida e também que era uma coisa que não podia chamar de controladora pois morango não estava na lista dos alimentos que eu podia comer. Meu estomago deu um ronco leve indicando que eu estava com fome, e como eu odiava ficar assim, fiz meu prato. Salmão e salada de legumes, uma coisa que eu odiava mesmo. Cortei um pedaço do peixe e levei a boca, torcendo em desgosto por não sentir nenhum tempero. Aquilo parecia comida de velho ou de doente. Levantei e fui até o armário pegando o saleiro e voltando para meu lugar. Pelo menos salgar um pouco seria bom. Charlie me olhava atentamente, seus olhos atentos aos meus diversos movimentos.
— Você exagerou hoje. — decidi falar, tomando um gole do meu suco.
— Você quem exagerou hoje, Bella. — ele falou sem olhar para mim. — Se perceber está falando rápido demais e não parou um segundo sequer de se mexer depois que entrou nessa cozinha. Se não mexe as mãos, mexe o pé, fala, anda... Como agora que está batucando os dedos. — eu parei na mesma hora de fazer isso. Era inconsciente da minha parte. — Você trouxe os remédios?
— Estou me sentindo bem.
— Diminua o tom, Bella.
Eu puxei o ar com força, soltando-o logo em seguida, audivelmente. Passei a mão no rosto, tentando me controlar. Charlie tirou os olhos do prato dele e me encarou.
— Você está fazendo de forma errada, Charlie. — falei.
— Na verdade, Bella, eu estou é tentando não fazer as coisas saírem fora do controle.
Eu olhei para o lado, torcendo a boca.
— Pois está fazendo de forma errada.
— Ah, é? E como é a forma certa, então? Deixar você se entupir de açúcar e cafeína? Não me sentir mal vendo você fazer coisas por impulso e correr perigo? Bella, sua mãe pode deixar você fazer isso, mas eu não. Só quero o seu bem.
— Me poupe disso, Charlie! — eu levantei rápido, fazendo a cadeira cair. Ignorei. — Não estou pedindo para você deixar eu fazer qualquer uma dessas coisas ou não se preocupar comigo. A única coisa que eu quero é que você me trate normalmente como as pessoas que convivem comigo e sabem. Eu não gosto de ser assim, e ainda mais é que não gosto de pensar que por isso mereço uma atenção especial. Você deveria muito bem saber disso, ok? — segui para fora da cozinha, mas parei na soleira, me voltando para ele. — E quando eu quis dizer que estava fazendo de forma errada era que você estava se esforçando demais quando não precisava. Eu tenho dezessete anos e já aprendi a lidar comigo mesma. Posso ainda ultrapassar limites, e claro que você pode impedir isso, mas de forma discreta como Renée faz. É isso que significa ela deixar eu viver a minha vida, não que ela não se importe comigo. E se você fosse mais presente, Charlie, saberia. Eu tenho hiperatividade, e tenho todo dia que tentar me controlar para não acabar destruindo coisas, falar rápido demais, agir por impulso. Não faça disso como se eu fosse doente, pois não quero isso. Só quero que você me trate como se eu fosse normal.
Eu dei as costas para ele e subi as escadas correndo, entrando logo no meu quarto e batendo a porta. Odiava quando essas coisas aconteciam comigo e com Charlie, porque eu perdia o controle e acabava falando coisas que o magoam. Enxugando as lágrimas que sem querer escaparam, eu peguei os medicamentos e segui para o banheiro. Eu sempre deixava um copo lá, o enchi de água e tomei os dois comprimidos.
Sempre que ficava mais ativa que o normal eu tinha que tomar metilfenidato e tioridazina, isso ajudava eu me acalmar e controlar a agressividade além de poder me concentrar mais nas coisas e poder aumentar minha capacidade.
Meus pais descobriram que eu era hiperativa quando criança e não conseguia me socializar com as outras. Tentavam, tentavam e nada. Meu rendimento na escola não era bom por não conseguir prestar atenção, o que fazia eu me sentir mal e as outras crianças me acharem chata.
Por tantas pessoas se afastarem de mim por causa do meu jeito diferente, eu acabei me tornado sensível sobre essa parte de mim. Renée, Emmett, Rosalie e Alec por conviverem comigo aprenderam a lidar de forma discreta e que não me ofendesse, sempre conseguindo me controlar, as vezes sem eu nem perceber. Mas Charlie passou sete anos longe, me vendo apenas em alguns fins de semanas, acabou não me acompanhando na passagem de criança pra pré-adolescente e depois adolescente, então perdendo de certa forma as mudanças que aconteceram comigo e como eu levei tudo. Ele até tentava, mas se sentia meio sem jeito e dava essas mancadas sendo controlador demais.
E eu admitia que eu estava mesmo "atacada" e isso tornou as coisas piores. Eu talvez teria me controlado mais lá em baixo e sido mais sensata. Talvez. Ou talvez as coisas iam ser mesmo desse jeito, porque era eu.
- Bella? — Charlie deu três leves batidas na porta.
Eu sentei na minha cama, suspirando, e mandei ele entrar. Charlie apenas colocou a cabeça, seus olhos um tanto aflitos e preocupados. Aos poucos ele entrou e se caminhou até minha cama, sentando ao meu lado.
- Desculpa pelas coisas que falei lá em baixo, pai. — pedi, com os olhos nas minhas mãos, que eu torcia em nervosismo.
- Está tudo bem, Bella. Você só falou o que acha e o que é certo. Eu sei que fui muito controlador, mas o susto que você me deu hoje indo atrás daquele assaltante... Me desculpe, querida. Vou tentar me controlar mais. — deu um sorriso triste, e eu assenti. Ele me puxou em um abraço de lado e deu um beijo na minha têmpora. — Eu pensei em fazer macarrão com queijo, que eu sei que você gosta...
Eu soltei uma risada, sendo acompanhada por ele.
- Uma comida descente! — disse já ficando em pé e saindo do quarto.
- Não ache que fazendo drama você vai conseguir o que quiser, hein, mocinha... — ele foi falando enquanto me seguia.
- Claro, claro! — revirei os olhos sabendo que eu só precisava fazer biquinho e Charlie já se derretia. — Sem drama.
O domingo com Charlie se passou mais divertido e infelizmente rápido demais também. Nós corremos de manhã para eu gastar energia, tomamos café da manhã natural em uma lanchonete, sem cafeína e açúcar pois eu ainda estava mais agitada que o normal pela quantidade do dia anterior. A tarde almoçamos comida italiana que Charlie pediu por telefone, pedindo para eles diminuírem nos temperos e no molho, o que eu achei um absurdo da parte dele, mas dessa vez não falei nada. Quando o sol estava começando a se pôr, nós paramos finalmente para assistir jogos, e adivinha rodeados com o que? Salgadinhos e cerveja. Claro que a minha era sem álcool porque papai odiava saber que seus filhos podiam virar alcóolicos — um exagero da parte dele. Jogos, não importa se era de basquete, futebol americano ou beisebol era algo que eu realmente gostava de assistir, e um programa de TV que Charlie arranjou para ficarmos mais próximos e eu poder falar o quanto quisesse sem atrapalhar por ser inquieta. Gritamos, xingamos os juízes, rimos como sempre fazíamos todo domingo.
Eu até queria ficar mais do que dois dias, mas eu agora era uma pessoa com emprego, tinha uma responsabilidade, e Charlie me mandava obedecer elas. Implorei para ele me deixar ficar, só que o velho fez minha mala e me arrastou para o aeroporto, se certificando de que eu não fosse pelas duas linhas aéreas que eu era banida. Ele me fez tomar calmantes para poder dormir no avião e ter uma volta calma. Com um abraço apertando e pedindo desculpas por se muito idiota, eu me despedi de papai e fui para o avião. Viajar a noite tinha seu lado bom, e ainda mais depois que eu gastei bastante energia. Estava cansada demais para querer andar, e com sono.
Assim que o avião pegou voo e eu me vi indo de volta para LA, senti a saudade de passar tempo com Charlie, mas também me senti realizada de que mesmo longe ainda podia ter toda a coisa de pai e filha que tínhamos. Charlie era um ótimo pai, não importa a distancia que tínhamos, ele conseguia fazer de tudo para ocupar seu lugar e não deixar nada faltando — e não digo em dinheiro. É claro que eu sentia falta de tê-lo sempre por perto, mas nos finais de semana ele compensava, e eu já tinha passado sete anos da minha vida me acostumando com a separação. Charlie era o melhor pai que eu poderia ter, e eu o amava incondicionalmente com toda a sua rotina que planejava para nós, sua preocupação exagerada, e seu jeito marrento bobão que eu fazia ele perder a linha.
Sempre que eu ia embora de Orlando, batia a vontade de voltar. Mas eu tinha que me conformar com as duas semanas que se passariam até eu estar aqui de volta. Agora eu iria me preocupar em lembrar de perguntar para Edward se ele era fã de 50Cent.
Com esse pensamento eu consegui, por um milagre, adormecer no avião sem aprontar nada.
(...)
Notas finais
Agora as coisas vão começar a andar em relação a esse lado del a, e nosso Edward logo logo vai estar fazendo parte disso tudo. E próximo capitulo é um POV só dele pra felicidade de vocês kkkkkk
Queria pedir desculpas a vocês por ter sumido por aqui mas é que RN está quase no final e isso até me deixa um pouco triste, pois odeio finais de histórias. Isso acaba me tomando toda, e eu então decidi me focar nela, terminar e então vir para AG e SR. Espero que vocês entendam e me desculpem :/
Bem, é isso minhas gatinhas lindas que estou morrendo de saudades. Espero que tenham gostado, comentem e se quiser recomendem mesmo eu nao merecendo, eu sei :'''( kkkkk
Beijooos :*
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