Aquela Errada Paixão.
4 Fingindo sonhos.
Ele respirou fundo, ainda pensando no rosto rígido dela. Não queria levantar, não queria sentir, não queria nem ao menos respirar. Ele olhava para o nada, sua visão embaçada, enxergando nada além de pontos a sua frente. Ficou lá não se sabe ao certo quanto tempo, até seu tio sentar na cadeira antes ocupada pela menina e chamar sua atenção.
– Ei cabeção – Falou seu tio, achando graça de sua própria piada. Seu hálito fedia a cerveja.
– Que foi? – Respondeu olhando, focando novamente sua visão para a pessoa ao seu lado. Ele viu grandes olhos castanhos. Os olhos dela.
– Cadê minha filha?
– Foi pro banho já faz um tempo, deve estar já na cama.
– Vocês vão dividir a cama de casal não é mesmo? Olhe lá o que você vai fazer com minha menina em moleque, não quero ninguém grávida.
Ele encarou o homem seriamente, seu rosto endurecendo de constrangimento e raiva. Como pessoas bêbadas são nojentas, podem transformar a pessoa mais inteligente, bem... Naquilo.
– Pode deixar, eu não pretendo nada com ela. – Disse, levantando-se e imaginando porque um pequeno sinal de decepção instalara-se em seu peito.
...
Ela já estava vestida e deitada na cama, com os cobertores jogados no chão e ouvindo suas músicas. Quer dizer, apenas uma música. A mesma canção de momentos atrás ecoava em seu fone de ouvido, acelerando seus batimentos cardíacos e fazendo-a ficar com falta de ar. Ela realmente queria saber o porquê de tudo isso. O porquê de doer tanto mas ser tão bom. O porquê de ser logo ele.
Alguém bateu na porta, o que fez ela virar ao lado contrário e fingir que dormia. Não queria falar com ninguém. Ouviu a porta abrindo cuidadosamente e passos entrando, parando na frente da cama em que ela se encontrava. Ela respirou fundo, imitando um pequeno ronco que parecia mais um animalzinho morrendo de asma.
Ele se encontrava em pé, encarando o pequeno volume na cama que era o seu corpo. Lembrou que ela apenas dormia com o barulho de ventilador, o que o fez ligar o que havia naquele quarto. Também lembrou que de madrugada na chácara costumava esfriar bastante, então ele pegou os cobertores que se encontravam no chão e cobriu-a cuidadosamente, dando-lhe um beijo na bochecha. Sentou-se ao seu lado da cama e observou enquanto ela dormia, tranquilamente.
Mal ele sabia que ela estava muito longe de cair no sono. Enquanto ele a cobria, ela teve que se esforçar bastante para que cada músculo de seu corpo não se enrijecesse e denunciasse sua atuação. Esforço maior foi quando ele lhe deu um beijo na bochecha, em que ela estava à beira de levantar e dar para ele sem querer pensar nas consequências. Mas conseguiu manter a cena. Seu peito doía por causa da respiração controlada, e ela sentia sua alma sugada por estar sendo observada. Virou para o outro lado, como que sem querer nada, apenas para poder recuperar os movimentos faciais.
Ele reparou que estava bastante sujo, e levantou-se para tomar banho. Saiu do quarto no mesmo silêncio que entrara, apagando a luz enquanto fechava a porta. Sorte que ela estava dormindo. Andou em direção ao banheiro, pensando no quanto ela parecia inquieta ao dormir, mas nunca imaginando que ela estaria fingindo.
Assim que a luz se apagou, ela tirou as cobertas de cima de seu corpo e levantou-se da cama, dançando freneticamente. Não sabia porque estava fazendo aquilo, mas realmente não queria saber. Não estava ligando se alguém escutasse, não ligaria nem se ele entrasse no quarto naquele momento, ela estava feliz. Dançou por uns cinco minutos, esvaziando o balão de ar que crescera em seu peito e estava a levando pros ares. Escutou passos no corredor e imediatamente lembrou que deveria estar de dormindo, tentando deitar-se rapidamente. Assim que cobriu-se com os cobertores, ele entrou novamente, ligando a luz.
A toalha azul estava em sua cintura, mostrando seu tórax albino. Em sua casa, ele costumava dormir apenas de cuecas, mas em respeito a menina, dormiria de pijama. Terminou de se vestir, imaginando se ela estava sonhando. Lembrou do breve beijo, se assim poderiam chamar, e como os lábios delas deixaram um leve formigamento nos seus. Não queria que aquele momento tivesse acabado. Olhou-a profundamente, observando como seu rosto parecia sorrir ao sono.
Ela estava quase explodindo de tanto esforço para não rir. Quando ele entrara no quarto, a única coisa que conseguia imaginar era como ele era branco. A cena que se passou a seguir fora mais engraçada, com sua cueca estampada de ursinhos. Depois veio o pijama, que por sorte dela, era totalmente liso. Seus cabelos estavam bagunçados, e ele aparentava estar cansado. Quando reparou que estava sendo observada, a vontade de rir aumentara mais, a um ponto que doía respirar.
Ele realmente estava cansado. O dia havia sido cansativo e ele precisava urgentemente dormir. Apagou a luz e dirigiu-se a cama, deitando-se ao lado da menina. Sentiu o perfume fresco dela, e como ele sentia paz ao seu aroma. Num breve momento de confusão emocional, olhou o rosto tranquilo dela, e inclinou-se em sua direção, chegando perto de seu ouvido e sussurrando:
– Eu acho que te amo.
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