Aprendiz da Morte
1 Capítulo Único
Toda noite, quando a lua alcança o céu estrelado, a Morte e sua aprendiz rondam os corredores de Maest Fort, hospital de uma pequena cidade, em busca de almas puras. Com sua foice negra a Morte acompanha a sua aprendiz de quarto em quarto, vendo os enfermos um por um, analisando-os com cuidado, cada detalhe, cada fio de cabelo. Se encontrava pureza, lá estava, uma jovem de cabelos ruivos enrolados até os ombros, de olhos verdes como esmeraldas e uma pele tão branca como a neve, lá estava ela com sua tesoura negra prestes a adicionar mais uma boa alma a coleção.
A vítima da vez era uma garotinha loira de olhos cor de mel, com um sorriso inocente no rosto e muitos sonhos, ela simplesmente tocou seus lábios e puxou, puxou um fio cintilante, alisou a tesoura por parte do mesmo e cortou, quando viu o pedaço de fio se desfazendo nos lábios da menina chorou, lágrimas de sangue que escorriam por seu rosto até caírem no chão, onde viravam pó. A dona Morte ria enquanto iam embora. A primeira noite já havia terminado, mas a próxima estava por vir.
A segunda foi mais complicada, dona morte encontrou duas gêmeas disputando um coração, uma delas tinha uma bondade esplêndida, já a outra tinha a alma podre, repleta de ódio e desesperança. Dona Morte, nada burra, escolheu a de mais descrença, uma alma cheia de desprezo valia o dobro de uma cheia de amor, sua aprendiz discordou, suplicou até que foi decidido levar a de boa alma, porém isso teria um preço, ao invés de uma alma por noite, dona Morte aumentou para duas. Retrucando a dona Morte, a pequena aprendiz nada mais ganhou do que uma corrente amarrada ao pescoço, uma corrente grossa e pesada que lhe apertava.
- Castigo por não aceitar as minhas ordens em silêncio. – disse dona Morte com a voz rouca e pouco entendível – Se continuar a discutir continuará a receber castigos, então pequena, abaixe a cabeça e aceite de bom grato.
Depois de dito isso a pequena aprendiz se levantou, olhou para a dona Morte e a viu despedaçar-se. Sua pele derretia, caia ao chão como vidro e se quebrava em pedacinhos. Virou para um espelho e viu seu próprio reflexo, seus olhos, de verdes ficaram prateados e seus cabelos, de ruivos à negros. E sua alma, de pura, foi para sangrenta, uma alma sem conserto, sem volta, sem recomeços, uma alma perdida que vagará por ai no lugar de sua mestra.
Andando pelo hospital, desta vez sorrindo, levando as crianças no colo como se fosse brincadeira, levando-as como se fossem bonecas, bonecas de porcelana levadas com tanto cuidado para não se quebrarem. Envoltas de seu manto negro, a aprendiz as abraçava, fazia-as sorrirem para que não sentisse a culpa de estar tirando delas um sonho.
Nesta noite, o céu mortal recebeu uma nova rainha, que de aprendiz virou morte.
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