Aprendiz De Feiticeiro
3 No reflexo da água
Arthur empurrou o seu adversário para trás com um chute e avançou com a espada. O cavaleiro caiu no chão, mas foi capaz de girar seu corpo e se levantar, surpreendendo o príncipe, que foi puxado pelo braço e quase golpeado se não tivesse tido o rápido reflexo de agachar-se e, com o auxílio do impulso das próprias pernas, avançou com a cabeça no peito do cavaleiro, que cambaleou para trás, dando tempo para Arthur rodar sua espada e, em posição de ataque, avançar a lâmina no pescoço do homem. Mas, parou no meio do caminho.
Sir Lion tirou o capacete, vencido. Os outros cavaleiros aplaudiram.
—O seu avanço é surpreendente, meu senhor! —disse Lion com alegria no olhar e um sorriso que só um professor orgulhoso é capaz de dar.
—Só porque me ensinou bem, Sir Lion.
O rapaz desfrutava de um dos únicos momentos em que conseguia deixar de estar preocupado. Nos treinos ele conseguia se desligar completamente da magia. E jamais a usou em seu benefício naquelas ocasiões.
Bern seguiu o príncipe pelo pátio de treino até a tenda, onde começou a ajudá-lo a despir sua armadura:
—Senhor, durante a sua luta eu me distanciei por um instante, pois percebi um diferente movimento.
—Que movimento?
—Nas janelas do palácio, vi Gaius.
—Gaius andando pelo palácio? Será que alguém está mal?
—Ou... —sugeriu, com uma expressão marota.
—Merlin! Você o viu? Ele está no reino?
Fazia quase duas semanas desde o seu encontro na floresta. Já começava a perder as esperanças de que o mago viria por ele.
—Eu não tenho certeza, senhor.
—Então vamos procurá-lo! —disse animado.
Ambos saíram da tenda apressados e foram para o local onde Bern imaginou ter visto Gaius. A partir dali, começaram a perambular, esperando encontrar qualquer pista.
Já quase desistiam quando Arthur teve uma estranha sensação. Logo, num corredor mal iluminado pela ausência de janelas, ouviram passos se aproximando à sua frente. O príncipe puxou Bern para trás de uma coluna e os dois viram Merlin passar.
—Mas, você não queria falar com ele? —perguntou o servo, como que querendo explicações.
—Shiu! Quero ver aonde ele vai! —disse, puxando-o para que seguissem o mago em silêncio.
Eles o seguiram. Passaram por vários corredores e, quando ultrapassavam algum em que havia guardas, procuravam agir com naturalidade. Depois de um tempo, começaram a estranhar: Merlin não ia para nenhum dos locais mais públicos do palácio. Ele se dirigia para as alcovas e aposentos reais. Viram-no parar diante de uma porta, ele abriu a porta e logo se deu conta, como de costume, esquecera-se de bater na porta:
—Ah, desculpe Gwen, eu esqueci de...
—Bater na porta? —perguntou ela rindo, e indo na direção dele. Ela terminou de abrir a porta e deu um abraço nele ali mesmo no corredor. —Que bom te ver Merlin. Vamos, entre.
O mago entrou e fechou a porta. Bern olhou para o príncipe com expressão de escândalo público.
—Não me olhe com essa cara de imbecil! Vamos! —repreendeu-o aos cochichos, dando-lhe um irritado tapa na cabeça.
—Vamos aonde? —murmurou gemendo.
Arthur não respondeu, fez a curva para entrar no corredor onde ficava a porta da alcova da sua mãe. Fitou o tricô e seus olhos tomaram uma coloração alaranjada: o trinco abriu-se silenciosamente e a porta entreabriu-se bem pouco, apenas o suficiente para que ouvissem com clareza o que os dois conversavam.
—Merlin, obrigada por ter trazido Arthur de volta. Percival me contou que foi você quem os encontrou na floresta. E se você apareceu por Arthur é porque algo sério aconteceu... O que foi?
—Ele foi raptado por druidas da facção.
Gwen soltou um gemido de preocupação.
—Não se preocupe Gwen, já está tudo bem. Isso não vai acontecer de novo.
—Obrigada, Merlin. Eu não sei o que faria se algo acontecesse com o meu Arthur.
Merlin riu.
—O que foi?
—Nada.
—Vamos, somos amigos desde a nossa juventude, me diga!
—É que eu fui meio estúpido... Eu o assisti crescer de longe e o reconheceria em qualquer lugar. Mas, quando eu o vi, tão de perto, ele parecia o Arthur. O pai dele.
—Eu sei. Ele também me lembra Arthur e eu me orgulho muito dele... Um dia será um Rei tão grande quanto o pai dele foi! Ele é uma benção para mim. Eu pensei que havia perdido tudo quando Arthur se foi... E então, meu pequeno Arthur mostrou-se em meu ventre. Eu não podia ter pedido por mais.
Ambos ficaram em silêncio e o rapaz tentou ver o que se passava espiando pela fresta: parecia que os dois apenas ficaram parados, Gwen sentada em uma cadeira e Merlin em pé, um pouco distante, recostado numa das janelas.
—Bem, não foi só por isso que eu vim. A facção está ganhando poder aos poucos. O que eu temia aconteceu: estão conseguindo se organizar em grupos maiores e fortes. É um risco muito grande permitir que eles tentem se aliar à um dos reinos.
—Isso não vai acontecer. Nos últimos anos firmamos todos os tratados necessários.
—Eu sei, mas é bom chamar a atenção dos cavaleiros que lideram a guarda nas fronteiras. Se algum reino decidir trocar de lado e usar o auxílio da facção como arma contra Camelot...
—Se você diz isso, é porque tem um motivo para acreditar que vai acontecer...
De dentro do casaco surrado, Merlin tirou um documento enrolado e o entregou à Rainha.
—Eu anotei todas as localizações de acampamentos que permaneceram fixos por mais de três meses. Esses acampamentos também aumentaram de tamanho.
—Estão espalhados pelos cinco reinos.
—Sim.
—Merlin, como você conseguiu cobrir uma área tão grande assim em apenas três meses?
Ele lançou um sorrisinho maroto para ela.
—Ah, entendo. —respondeu com um sorriso tranquilo.
—A guerra ainda continua. "Silenciosa", mas presente.
—Não sei, às vezes tenho a impressão que as coisas eram mais fáceis antigamente...
—Os inimigos eram mais evidentes. Apenas isso — e se desencostou da janela.
—Você deve estar cansado. Veio direto para cá de quando chegou?
—Sim, mas isso não é problema Gwen.
—Então vá descansar. Depois quero conselhos sobre a visita que a Rainha Mithia nos fará na próxima semana. Creio que as intenções dela são de alterações em alguns dos nossos tratados.
—Também não acho que deve ser diferente.
Gwen se levantou e deu outro abraço em Merlin para despedir-se. Eles e afastaram e ela deu uma boa olhada nele:
—Você não muda, Merlin.
—Você também continua a mesma pessoa gentil e sábia, minha amiga. E a mesma Rainha forte de sempre, minha senhora.
Ela sorriu pelo elogio, mesmo que não fosse àquilo que ela se referisse.
Quando se afastaram Arthur rapidamente encostou e aporta e girou o trinco com sua magia. Correu com Bern para o final do corredor e escaparam sem ser vistos.
.o.
—Senhor...
—Estou pensando, Bern.
O servo arrumava o armário de Arthur, nos seus aposentos, e se incomodava com o silêncio. Mesmo assim, calou-se. Quando já terminava, o príncipe perguntou:
—Bern, quando você não está no palácio. Conversa com muita gente por aí, não?
—Não muito. Às vezes vou à taverna.
—E você já ouvir falar em algum lugar dessa guerra?
—Não...
Arthur se levantou da cadeira e foi até a janela:
—Camelot sempre esteve em paz. Porque eles falaram como se sempre houvesse guerra? Bern, antes de você vir para Camelot, nunca ouviu ou viu nada de estranho?
—Bem, quando nos conhecemos eu não estava em uma situação realmente segura—lembrou-se com um sorriso nervoso. —Mas, você sabe que não havia relação como nada desse tipo. Isso à parte, no meu vilarejo todos sempre viviam com medo. Mas, não, eu não me lembro de ter ouvido nada sobre guerra.
—Todos com medo no seu vilarejo... E eles diziam de que?
—Não. Minha mãe costumava falar muito mal de mágica.
As sobrancelhas de Arthur se elevaram em surpresa.
—Desculpe por isso, senhor.
—Não tem problema, continue...
—Mas, eu não me lembro de ouvir falar sobre guerra.
—Uma guerra "silenciosa"... O que será que isso significa?
Bern deu de ombros. Arthur se afastou da janela saindo do quarto:
—É hora de sairmos daqui!
Bern o seguiu. Não tivera coragem de comentar sobre a conversa entre o mago e a Rainha para o príncipe que, por sua vez, também não mencionara nada até então.
—Pode falar, Bern.
—O que, senhor? —perguntou enquanto andavam pelos corredores.
—Eu sei que ficou raciocinando sobre a conversa entre a Rainha e Merlin. Pode falar o que acha a respeito.
—Senhor, eu não acho que seria apropriado...
—O que?
—Eu tomar essa liberdade.
—Pois eu acho que devia aproveitar, não é sempre que eu permito.
—Mas, se eu disser o que eu penso, o senhor irá me bater!
Arthur interrompeu o seu passo e sentiu uma vontade tremenda de estapear o seu servo ali mesmo, mas se conteve:
—Estou te dando permissão para ser um completo idiota sem sofrer nenhuma consequência!
—Sério? —perguntou, maravilhado.
—Sim. Fale logo.
—Eu acho que o tão Merlin e a sua mãe são muito próximos.
Arthur voltou a andar, só para conter a ânsia de cometer qualquer violência:
—Você ouviu, eles foram amigos quando jovens. Devem ter mantido a amizade.
—Mas, se Merlin era só um servo, a Rainha manteria com serviços tão importantes por tanto tempo?
—Porque não? Se ele foi servo do meu pai, ela deve ver nele qualidades boas.
—Senão todas as qualidades?
—Você acha que a minha mãe sabe que Merlin tem magia?
—Bem, explicaria porque o teria enviado para recolher informações de guerra. Senão iria algum cavaleiro no lugar.
—Não, não pode ser. Bern, a Rainha mantém a lei contra magia no reino. Ela jamais deixaria de cumpri-las!
Bern calou-se. Percebeu que praticamente acusara a Rainha de traição. Sentiu-se mais calmo quando viu que Arthur falara sério quando a não repreendê-lo.
—Para onde estamos indo, senhor?
—Vamos dar um pulo no seu vilarejo.
—O que?!
—Não faça essa cara de tragédia! Estaremos de volta no final do dia. Ninguém terá tempo de dar pela nossa falta.
—E o que faremos lá? Não tem nada lá para o senhor!
Arthur montou no cavalo:
—Vamos ver se as pessoas realmente não sabem nada dessa tal guerra. Não faça essa cara, não seja tão covarde! Não tem o que dar errado!
.o.
Em Camelot, a tarde se iniciava com uma garoa fina. Merlin saíra da casa de Gaius, deixando de lado o cansaço da viagem para procurar por Arthur.
Caminhava pelo pátio de treinamento dos cavaleiros. O som das gotas finas que caíam se chocando contra uma armadura esquecida sobre a grama o fez se lembrar dos tempos em que era servo do rei. Naquela época, qualquer chuva não era desculpa para deixarem de treinar... Ou talvez o mago que se atrasara, ponderou sobre isso.
Apanhou a armadura esquecida. Ao menos a tiraria do meio do caminho. Deu passos curtos se afastando, mas percebeu que a grama que deveria haver, mesmo que amassada, abaixo da armadura, não estava mais lá e a terra parecia levemente afundada.
A água da chuva preencheu formando um pequeno espelho d'água. Límpido, o líquido mágico não se misturou com a terra e a garoa cessou. Merlin olhou fixo para aquela poça. A armadura escapou de suas mãos quando não viu o seu reflexo, mas a imagem submersa de uma pessoa tão querida, que não via há muitos anos...
—Freya... —balbuciou numa mesma fragilidade e carinho de anos atrás, como se o homem de mais de trinta anos voltasse a ser o garoto de dezessete.
—Merlin, — disse ela, com o seu olhar de saudades e o mesmo rosto imutável pela sua partida: — preciso dizer rápido, não sei por quanto tempo poderei sustentar essa magia! Algo terrível está para acontecer e uma mensagem nunca consegue ser entregue a você: uma profecia que precisa ser quebrada.
Ele engoliu seco. Sabia que nunca conseguira quebrar uma profecia:
—Que profecia?
—Eu também não sei. O poder das videntes tem sido bloqueado por causa de uma alteração na magia no seu mundo. Isso trouxe consequências para o lado de cá. Mas, isso não é importante agora. O importante é que você reestabeleça o equilíbrio no seu mundo. Senão a visão nunca ocorrerá e a mensagem nunca será entregue a você!
—Freya, — começou ele, com preocupação após notar: a morte trás um estado de imutabilidade da alma, mas a expressão dela... —Você está sofrendo... O que aconteceu do seu lado?
Mesmo sem conseguir esconder sua tristeza, ela sorriu:
—Eu tenho sorte, Merlin. Sorte por poder te ver mais uma vez...
Ele nunca soube se ela partiu, ou se a magia se quebrou para que ela desaparecesse. Não teve a chance de dizer adeus, apenas tocou a superfície da água como se quisesse alcançá-la. Como se pudesse trazê-la de volta. Não podia... O toque do seu dedo fez pequenas ondulações na superfície da água e quando elas cessaram, ele viu apenas o seu próprio reflexo.
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