Aprender a Amar
1 Capítulo 1: Primeiro beijo
Notas iniciais
Sophia vinha tendo aqueles sonhos há semanas. Não entendia bem o porquê, tinha apenas flashes dos últimos dias em sua vida: o trem para Burberry, a bela garota loira que bateu contra ela e a troca de palavras afiadas entre elas e o momento em que decidiu não entregá-la para a polícia. Nem ela se reconheceu naquela decisão, sempre fora pela justiça e tinha orgulho disso, mas algo a havia pego naquele momento, algo que não compreendia e não identificava, algo sobre os grandes olhos verdes.
O resto eram detalhes de Dakota: seus olhos, seu sorriso, a malandragem natural e os momentos de verdade em meio as mentiras. Ela sabia que Dakota não era confiável desde o momento em que parou em sua frente com um bilhete roubado, mas não era por esse motivo que dormia por ultimo e acordava primeiro todas as manhãs.
Sempre havia sido observadora e cuidadosa, mas com Dakota era porque havia descoberto um encanto quase mágico em observar o seu jeito de dormir, os lábios entreabertos e uma paz estampada no rosto. Não tinha certeza se seu coração aguentaria se um dia ela sumisse no ar como havia feito com… Porque não se lembrava? Ele era músico, mas não lembrava que se seu nome começava com P ou C, o que era estranho, nem um disléxico confundiria tais letras, mas ela ainda podia se lembrar do olhar de tristeza e abandono que carregava toda vez que olhava para Dakota e naquele momento em que escolheu por Sophia.
Sophia nunca havia sido escolhida antes, sequer que desejava ser escolhida até o momento em que aconteceu, não lembrava como ou porque, mas lembrava de olhar para a mulher em sua frente, a forma como se enchiam de lágrimas no momento em que prometia que iria tentar amá-la. A verdade é que depois de quase um mês, Sophia ainda não tinha certeza se podia amá-la da forma que queria. Sentia o carinho e o afeto que nomeava como amor e Dakota era paciente e tudo isso tornava sua vida mais clara e delineada, como se finalmente tivesse agência sobre suas decisões, mas também fora quando os começaram.
O começo era apenas a escuridão e o piar incessante de uma coruja ao longe. O som era como um lamento, que trazia angustia para o coração de Sophia. Com o tempo o sonho mudou e vultos de pessoas começaram a circular ao seu redor, ninguém ouvia a coruja além dela, ninguém parecia se perturbar, mas lhe fazia doer os ouvidos e cair de joelhos, ninguém ao redor parecia notar.
Foi quando Sophia percebeu que aquele som não era um lamento de angustia, mas um chamado. A coruja procurava por alguém e não por qualquer alguém, mas por Sophia e a cada noite ia fechando o cerco a sua volta.
— Eu quero aquilo que tiraram de mim. — dizia uma voz no fundo do lamento e agora podia enxergar com certa clareza nas sombras que se formavam no limite de sua visão periférica.
Sua cabeça era uma bagunça, não conseguia entender e isso a frustrava mais do que tudo: não entender algo.
Jogou os pés para fora da cama e caminhou em silêncio até o banheiro. A água gelada ajudou a colocar os pensamentos em alguma ordem, mas não formavam a imagem por inteiro e por mais que tentasse, não conseguia achar a parte que faltava.
O pior é que sabia que não era a primeira vez que se sentia dessa forma.
— Sophia! — a voz de Dakota chamou do outro lado da porta, uma batida tímida na madeira indicando que havia apoiado a cabeça.
Sophia quase podia vê-la com o ouvido colado na porta, buscando qualquer informação que pudesse tirar daquela situação. Sophia abriu a porta de repente, mas Dakota era rápida e em um salto já estava em pé com as mãos atrás das costas e os olhos a encarando por de trás das longas mechas loiras. Era difícil lidar com o salto estranho em seu peito quando ela fazia aquilo.
— Tudo bem?
— Outro sonho.
Dakota ergueu a mão e acariciou a bochecha de Sophia com um toque delicado e Sophia permitiu.
— Eles estão piorando?
— Muito! — respondeu, enroscando os dedos.
Com a mão livre, Dakota arrumou o colarinho da camiseta e se aproximou, os lábios em destaque em quanto se aproximavam de seu rosto e o coração palpitando de ansiedade.
— Eu tive uma ideia para você tirar isso da cabeça.
Aprender a amar
— Me espera aqui! — gritou a loira em meio a batida ensurdecedora da balada em que estavam.
Sabia que não era o local comum para Sophia, ela parecia perdida, até mesmo um pouco incomodada, mas era uma graça vê-la com os olhos menos certos e julgadores, a forma como seus dedos agarravam as mãos de Dakota como se perdê-la fosse perder tudo. A loira estava gostando da situação, não por maldade, mas por sentir que estava no controle pela primeira vez. Por se sentir a parte mais forte da relação. Por vezes tinha essa sensação de que era o elo mais fraco. Nada a impedia de ir embora, além da promessa que havia feito, mas ela não queria ir embora. Já havia pensado varias vezes nisso, mas seu corpo parecia se negar a deixar Sophia.
— Dakota! — ela ouviu a voz mesmo baixa, não era algo que chegou pelo ar, mas sim pelo toque firme dos dedos ao redor de sua mão.
— Eu só vou buscar uma bebida. — respondeu, levando os dedos da amiga aos lábios. Já fazia isso há um tempo e Sophia nunca havia reclamado.
Atravessou o mar de pessoas que dançavam em seu caminho e quando chegou ao bar pediu duas bebidas, deixando claro que uma deveria ter menos álcool, já que não sabia o quanto Sophia estava acostumada a beber.
Enquanto observava ao longe, Sophia com os braços em volta do corpo magro, encolhida e acuada em meio a multidão. Alguém parou ao seu lado e sussurrou algo em seu ouvido, um convite tentador, mas os olhos de Sophia a encararam lá do outro lado e ela apenas sorriu e negou.
Pegou os dois copos sobre o balcão em seguiu em direção a sua companhia.
— Para você! — disse, esticando o copinho na direção da mais alta. — Não sei o quanto está acostumada a beber, então peguei menos.
Mas a mulher nem pareceu se importar muito, apenas virou o copo para logo em seguida parecer se engasgar com a sensação cortante do álcool descendo pela sua garganta.
— Opa! — retrucou, segurando a cintura de Sophia para que ela não caísse quando a bebida a deixasse zonza. — Você tem que ir devagar, Soso!
Sophia apenas agarrou o tecido de suas mangas. Elas riram e se olharam nos olhos, mas Soso parecia muito concentrada em tocar os braços da companheira, subindo os dedos dos cotovelos para os triceps e então para os ombros, para o pescoço e, por fim, erguendo sua cabeça em direção a ela e Dakota perdeu o folego.
Tudo fora rápido demais, repentino quando seus lábios foram capturados pelos da mulher a sua frente. Era o primeiro beijo, a primeira vez que Sophia se sentia confortável o suficiente para isso, não bêbeda, com toda a certeza não bêbeda.
Depois de tanto tempo, não estava esperando que isso fosse acontecer agora e tudo o que conseguiu foi reagir por impulso, apertando a cintura dela em sua direção e retribuir, enquanto o mundo se afastava dela, não havia multidão, não havia música. Havia apenas Sophia, a suavidade de suas mãos enrolando nos fios loiros e a doçura de seu hálito quente em sua boca.
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