Aposto Que Você Não Sabia
1 Haymitch é um semideus
Haymitch é um semideus, filho de Dionísio, apesar de vinho não ser sua bebida favorita. Vocês devem ter suspeitado disso. [Narração por: Haymitch]
Eu e minha mãe sempre vivemos meio afastados das pessoas. Ela dizia que era porque tinha medo de que as pessoas no Prego fizessem coisas ruins comigo... Como se eu acreditasse! Eu sempre me senti diferente, via coisas diferentes, e me sentia observado todo tempo. Minha mãe dizia que isso era normal, e era efeito colateral permanente por eu ter dislexia.
Eu fingia acreditar, porque eu amava minha mãe e ela nunca mentia pra mim, então para ela estar mentindo deveria ser algo muito sério. Um dia voltando da escola ela me disse que queria conversar comigo. Eu tinha 12 anos, a idade inicial para participar da colheita, sentei-me na cama e lhe perguntei o que era. Minha mãe pegou um pote de água, e pegou uma moeda grande e grossa e jogou falando:
- Ó Íris, deusa do arco-íris, mostre-me o deus Dionísio agora. – Já tinha visto um celular ultramoderno que fazia exatamente isso na casa do prefeito, mas com absoluta certeza minha mãe não deveria ter dinheiro para pagar por um, então fiquei me perguntando que diabos estava acontecendo. Um homem com roupas neon de leopardo apareceu então na névoa e sorriu.
- O que está acontecendo, mamãe? – Eu estava com vontade de chorar, mas eu era o homem da casa, já que meu pai não morava conosco e tinha nos abandonado.
- Olá, Haymitch. – Me perguntei como ele sabia meu nome – eu sou Dionísio, deus do vinho, você já deve ter ouvido falar de mim. – Ele deu um sorriso convencido.
- Para falar a verdade não. O que são deuses?
- Esqueci que no distrito 12 vocês só aprendem sobre carvão, carvão e carvão na escola! Para que se precisa de carvão, afinal? – Ele parecia irritado com a possibilidade de não ter sido reconhecido.
- Dionísio, vá com calma, lembre-se o porquê de eu lhe ter trazido aqui: a colheita! — A minha mãe disse apreensivamente.
- Sim, sim. – Dionísio respondeu-lhe – Olhe, Haymitch, eu sou um deus grego, um deles na verdade, e nós deuses gregos temos cada um uma “especialidade”. A minha é o vinho e os festejos. Além disso, nós descemos algumas vezes do Olimpo e vamos a terra, onde podemos nos apaixonar por mortais e dar-lhes filhos chamados semideuses.
- Ah, sim, os deuses gregos, sim, já ouvi falar deles, um grupo da capital vem todo ano aqui e fala sobre a história antiga, incluindo os deuses gregos. Disseram-me que antes, quando Panem era Estados Unidos os deuses eram estudados nas escolas, mas isso me parece impossível... Existia um estado só para os deuses?
- Não, Haymitch, a organização dos Estados Unidos era muito diferente da de Panem. Mas voltando ao assunto, ótimo que você sabe – ele não conseguiu evitar que o sorriso convencido lhe estampasse a cara novamente – Bom, em uma descida minha a terra eu conheci sua mãe, e dela nasceu você.
- Quer dizer que...
- Você é um semideus, filho. – Soltou minha mãe com um sorriso. – Isso explica sua dislexia, que é um reflexo de batalha.
- E o que isso tem a ver com a colheita? – Perguntei
- Bom, eu pedi ao seu pai que lhe abençoasse se um dia viesse a ir aos Jogos.
- E porque eu precisaria da ajuda dele agora? Minha vida toda ele não me ajudou em nenhum momento, e agora... Agora ele quer bancar o bom pai e ajudar? Desista, eu não quero nenhuma ajuda senhor Dioso.
- É DioNÍSIO não Dioso!
- Tanto faz! Você pode sair da NOSSA casa agora? Você não pertence à esse ambiente familiar.
Dionísio suspirou.
- Cuidado menino, eu lhe posso ser muito útil. Muitas das pessoas mais importantes são semideusas, e elas aceitam isso e aproveitam como podem essa dádiva! Você deve conhecer alguns...
- Tipo?
- Da atualidade?
- Alguém aqui em Panem!
- Snow, o tal presidente.
- E de quem ele é filho?
- Nêmesis. Deusa da vingança. Enfim, vai querer minha ajuda? Ou não?
- Não, obrigado.
- Bom, a escolha é inteiramente sua. – E de repente ele desapareceu.
Aquele dia foi realmente horrível, pois minha mãe ficou me encarando, e sacudindo a cabeça em discordância como se me desaprovasse totalmente.
Desde então, sempre que pude neguei ter um pai, e comecei a realmente odiar Dionísio. Ás vezes ele falava comigo por sonhos, me mandava cartas por Hermes tudo sobre “como ser um semideus”. Ele me falou que existiam monstros que farejavam os semideuses e os tentavam matar quando eles saiam em missões, mas que ele estava trabalhando no meu cheiro para que eu tivesse um odor de vinho e para que pudesse me disfarçar como semideus, o que aparentemente deu certo fazendo com que eu só fosse encontrado umas 3 vezes. Falou que também existia um tal de “acampamento meio sangue” que habitava os Estados Unidos antes de viram Panem, e que agora o Olimpo e o Acampamento haviam se mudado para o Chile, na América do Sul.
Anos passaram, e na 50ª edição dos Jogos Vorazes eu fui “sorteado”, era uma edição especial na verdade, era o massacre quaternário. Eu ainda assim não rezei para meu pai. Deixei minha mãe e lhe prometi sair de lá.
Bom, acho que mesmo sem rezar para ele, meu pai fez algumas coisas por mim na arena, e eu consegui sair de lá vivo. Não achei que deveria lhe retribuir alguma coisa já que ele me ajudou por livre e espontânea vontade.
Consegui sair da arena, mas de um jeito um pouco “inusitado” já que eu utilizei um meio que não era esperado e portanto Snow me castigou tirando tudo que eu mais amava.
Bebo desde então, e durmo com uma faca (um costume dos jogos). Bebo na maioria das vezes aguardente, mas como filho de Dionísio nem sempre consigo resistir à um bom vinho.
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