ROMANCES MENSAIS

LIVRO II – APOSTAS DE FEVEREIRO

CAPÍTULO XIX SENSAÇÕES

Três meses se passaram desde que a aposta começou. Depois do episódio incomodo de meu encontro com o treinador Nicholson, eu havia decidido não sair com ninguém além de Mon-El, assim como ele tem feito até o momento. Felizmente, meu relacionamento com o meu colega de trabalho não mudou. Liam parecia ter aceitado bem a minha resposta e, sem as pessoas da Hawkins saberem de nosso encontro, tudo havia voltado a ser como era antes.

Era incrível como pouco tempo havia se passado, mas ainda assim muita coisa havia mudado. Após o susto que Holly havia nos dado com a febre emocional, Mon-El e eu temos preferido ter encontros em lugares onde a menina pudesse ir conosco. Mesmo eu tentando ao máximo não me apegar a doce Solzinho — como El a chama -, era difícil não me encantar pelo seu jeito amável e a inteligência acima da média.

Eu não sabia dizer em que momento ou como isso aconteceu, mas de uma hora para outra, ser a "mamãe Kara" se tornou algo natural, sair sem Holly parecia errado e era incrível como os sobrinhos de Mon-El se tornaram minha família também. E isso é muito, muito ruim. Estar tão apegada a essas crianças significa que será ainda maior o sofrimento quando os seis meses acabarem.

Até o momento, nenhum dos dois se declarou e eu não estou disposta a aceitar a minha derrota. Ao mesmo tempo, é impossível não começar a temer o futuro, ainda que tenhamos combinado de apenas aproveitar o presente, sem nos preocuparmos com o que pode acontecer. Mon-El e eu conseguiremos manter a amizade depois que isso acabar? Como será viver sem o meu papel como a "mamãe Kara"? O que irei fazer se não puder mais vê-las? Apesar de saber que Mon-El jamais me proibiria de visitá-las, não será a mesma coisa.

— Mamãe Kara, papai Mike, vem pular com a gente! — Pede Holly, sorrindo daquele jeito fofo que só ela tem, acenando enquanto pulava de mãos dadas com seu melhor amigo, Anthony Smoak. Ela vestia uma fantasia de gatinha com orelhas, rabinho e ainda bigodes feitos de canetinha, enquanto seu melhor amigo usava somente as orelhas pretas para agradar a exigente aniversariante. — Tony e eu estamos voando!

Hoje nós estamos comemorando seu aniversário de quatro anos e ela não poderia estar mais animada. Combinando com a alegria da criança, Mon-El e eu decidimos que faríamos uma festa fora do tradicional, algo que realmente parece combinar com essa família. Assim, reunimos amigos e alguns coleguinhas da escola de Holly para festejar em um trampolim park, que nada mais é que um parque de camas elásticas.

— Tome cuidado para vocês não se machucarem, Holly. — Advirto e Mon-El ri. — O quê?

— Com tanta espuma e cama elástica por aqui, acho difícil essas crianças se machucarem, então as deixe brincar. — Afirma Mon-El, sorrindo despreocupado, terminando de colocar os piscas-piscas na parede com a ajuda de Mike, que assente, concordando com o tio.

— Como se não conhecesse essas crianças. Eu poderia passar o dia listando formas deles se machucarem em brinquedos que aparentemente são inofensivos. — Resmungo, colocando as lembrancinhas do aniversário sobre a mesa.

— Kara tem razão, Mon-El. Essas crianças são terríveis. Se tirarmos os olhos delas por um segundo, elas sempre dão um jeito de se envolver em problemas. — Concorda Felicity. A mãe do melhor amigo de Holly decidiu vir mais cedo para nos ajudar com a decoração da festa e eu não poderia estar mais agradecida.

Para a minha alegria e desespero de Mon-El, Holly escolheu "gatinhos" como tema de sua festa. Não havia sido fácil de encontrar decoração e o tio da criança tentou de todas as formas convencer a pequena a escolher outro tema e tudo que ele recebeu como resposta foi um enorme "não". Assim, Eleven e eu tivemos que nos virar para fazer toda a decoração nós mesmas. Não havia sido nada fácil, mas olhando agora a mesa temática com balões em tons pastéis e muitos gatinhos espalhado pelo lugar valeu a pena todas as noites sem dormir e os cortes de papel nas mãos.

— Você parece uma mãe de verdade, professora Kara. — Comenta Dustin, surpreso.

— E existe mãe de mentira? — Provoca Mike, descendo das escadas com o tio.

— Você entendeu o que eu quis dizer. — Retruca o garoto, encarando o amigo com impaciência.

— O que você não entendeu é que ela se tornou a mãe da Holly. — Explica Max com um sorriso adorável. A ruiva me encara por um tempo e volta a se concentrar em amarrar alguns balões no arco desconstruído com Eleven, Lucas, Dustin, Suzie e Will. — Para Holly, a professora Kara é a mãe dela e sabemos como essa irmãzinha de Mike pode ser bastante convincente quando quer.

— Isso é verdade. — Concorda Mon-El, abraçando-me por trás. Sorrio timidamente, diante dos olhares maliciosos dos adolescentes e adultos que estavam ao nosso redor. — E ela é uma excelente mãe. Vocês têm noção de que ela consegue fazer aquela pirralha agitada ficar quieta?

— Você não pode falar muita coisa, pai do ano. — Afirma Joyce, sorrindo divertida. — Essa garotinha é apaixonada por você. Ela sempre acaba fazendo tudo o que você manda sem nem pensar duas vezes. Queria eu que meus filhos fossem assim.

— Eu estou ouvindo isso, mãe! — Resmunga Will e Joyce o encara com ironia.

— E espero que ouça mesmo. — Responde a mãe do garoto, fazendo seus amigos rirem.

— Não fique assim, Will. Minha mãe faz a mesma coisa comigo até hoje e eu já sou casado há dois anos. — Winn tenta consolar o garoto que estava vermelho de vergonha. — Acho que mãe só muda de endereço mesmo.

— Espero que isso seja um comentário positivo. — Brinca Felicity, lançando um olhar desafiador. Winn para de arrumar o rosto do gatinho no painel atrás da mesa do bolo e levanta as mãos em sinal de rendição.

— Com certeza é. Mães são os seres mais incríveis desse mundo. — Responde meu melhor amigo, arrancando risadas de todos por sua reação exagerada.

— Medroso! — Acusa Mon-El e meu melhor amigo finge estar ofendido com aquele comentário.

E em meio a risadas e conversas bobas, nós vamos arrumando o espaço reservado para a comemoração do quarto aniversário de Holly. Momentos assim são tão divertidos e relaxantes que às vezes penso estar vivendo um sonho, onde todas as pessoas que amo estão vivendo suas vidas da melhor maneira que podem, com sorrisos nos rostos e muita felicidades em seus corações.

— Eu estou louca para ir brincar com eles. Pular naquelas espumas parece ser tão divertido. — Comenta Eleven, encarando o enorme parque.

— Eu também não vejo a hora de ir. — Afirma Max,

— Bom, nós já estamos terminando aqui. Acho que não tem problema vocês irem se divertir. Os adultos podem dar conta do que falta. — Responde Felicity, terminando de colocar a última lembrancinha de gatinho.

— Sério? — Pergunta Mike, encarando-me com ansiedade.

— Sim. Podem ir. — Respondo e os adolescentes comemoram animados, antes de correrem para o andar inferior, onde ficam as camas elásticas, as piscinas de espuma e todas áreas de diversão.

— Apesar de que eu também estou ansiosa para me jogar naquela área de basquete e na piscina de espumas. — Comenta Lena com os olhos brilhando como os de uma criança.

Ainda que eu tivesse ficado receosa de marcar uma festa infantil em um lugar como aquele por ter medo dos adultos e adolescentes não concordarem em brincar nas camas elásticas, todos ficaram bastante animados com a ideia de passarem o dia em um parque com mais de 500 metros quadrados de trampolins interconectados. Pular na piscina de espuma, equilibrar-se nos slacklines, praticar enterradas na quadra de basquete e se enfrentar num jogo de queimada em cima de trampolins.

Mais uma vez, Mon-El havia acertado com a escolha de um lugar cheio de adrenalina e ainda assim muito divertido. Com a ajuda de Lena, Winn, Hopper, Joyce e Felicity, Mon-El e eu conseguimos terminamos a decoração do aniversário. Não demorou para que os convidados começassem a chegar.

Diferente do que imaginei, até os pais dos amigos de Holly se animaram em brincar nos trampolins espalhados pelo parque. Mon-El e Holly me fizeram entrar na onda e quando eu menos percebi, estava rindo e me jogando contra as espumas com aqueles dois seres de energia além do normal. Os colegas de trabalho de Mon-El na Hawkeye chegam por último e trazem consigo a animação tão característica da casa burlesca com suas fantasias divertidas. Ally, uma das dançarinas da Hawkeye vestia uma fantasia de gatinha e isso é o suficiente para que Holly tornasse Ally a sua melhor amiga.

Apesar da maior parte das pessoas presente no trampolim park serem da festa de aniversário, ainda havia muitos jovens e outras crianças que vieram apenas para se divertir no parque. E é claro que a pequena Holly não perdeu tempo em chamar todos para brincar e fazer parte da sua glamourosa festa de aniversário de gatinho, como a própria garotinha fazia questão de falar.

E enquanto nós aproveitávamos os últimos minutos antes de cantar parabéns para Holly, vejo a pessoa que eu menos esperava encontrar naquele lugar entrando de mãos dadas com uma bela mulher de cabelos negros curtos. Paro de pular no trampolim no mesmo instante e os observo, incrédula demais para acreditar que James Olsen estava em um parque de camas elásticas com a sua secretária.

— Aquele é... — Mon-El começa a falar, tão incrédulo quanto eu pela presença do mesmo homem que dizia que lugares como esse são perda de tempo.

— Sim. James Olsen, o babaca do meu ex-namorado. — Complemento a fala de Mon-El.

— O que esse cara está fazendo aqui? — Questiona o tio da aniversariante do dia, encarando meu ex-namorado com raiva.

Vejo Lena e Winn me encararem preocupados. Eu não via James desde nosso término nada agradável a três meses atrás. Desde então, as únicas notícias que recebo sobre o diretor de arte da CatCo Worldwide Media são algumas banalidades que Winn comentava às vezes conosco. No entanto, quando o rapaz descobriu sobre as coisas que seu melhor amigo tinha dito, eles tiveram uma briga nada legal e não estão mais se falando direito.

Sussurro que estou bem e eles assentem, ainda desconfiados de que eu estivesse mentindo. Sinto a mão de Mon-El apertar a minha e me sinto mais confiante do que antes. Sorrio e decido ignorar a presença de minha antiga perda de tempo. E era estranho perceber que eu realmente não me importo mais com a presença de James. É como se ele tivesse se tornando alguém que um dia fez parte de uma história importante minha e agora não se passa de um completo desconhecido.

Continuo a me divertir com meus amigos, Mon-El e Holly, aproveitando aquele momento. Quando já estava exausta, decido ir ao banheiro e beber um pouco de água. Eu precisava me recompor para sair nas fotos na hora de cantar parabéns. Nesse ponto, eu já nem mesmo me lembrava de ter visto James e Evelyn entrando no parque. No entanto, assim que deixo o banheiro, a primeira pessoa que eu encontro é o idiota de meu ex-namorado.

Suspiro e tento sair sem precisar falar com ele, mas James faz questão de se colocar na minha frente. Ficamos naquela dança por um tempo até que eu o encaro, irritada. O que aquele idiota estava querendo comigo? Será que ele não tinha senso comum?

— O que você quer, James? — Pergunto de uma vez, incomodada.

— Eu quero conversar com você. — Responde o homem, encarando-me com seriedade.

— Não temos nada para conversar, James. Nós já terminamos. Tudo o que tinha que se resolver já foi resolvido. Não temos porquê de ficar inventando desculpas para interagirmos. Apenas finja que não nos conhecemos e tenho certeza de que ficaremos bem. Você segue pelo seu caminho e eu sigo o meu, assim como tenho feito nos últimos três meses. — Digo, sem paciência para ficar ouvindo desculpas esfarrapadas de meu ex-namorado.

— Por favor, Kara...

— Qual a parte de que ela não quer conversar você ainda não entendeu? — Pergunta Mon-El, aparecendo de repente.

James e eu encaramos o motociclista com seu rosto perigosamente sério. Eu nunca tinha visto Mon-El daquele jeito. Nem mesmo quando seu sobrinho quase levou advertência do diretor Coleman sem ter feito nada de errado. Vejo meu ex-namorado encarar o rapaz, completamente confuso. Relembro então que James provavelmente não lembraria de Mon-El, então para ele, aquele bonito homem com o rosto sério era apenas um desconhecido se intrometendo em uma briga qualquer.

— E quem é você mesmo? — James tenta menosprezar Mon-El e o homem abre um largo sorriso confiante, aproximando-se de nós.

— Por que você não tenta descobrir? — Sugere Mon-El, puxando-me para perto de si pelo pulso.

Ele me beija de maneira intensa na frente de James e tudo o que eu consigo fazer é corresponder. E eu me sinto orgulhosa. É claro que eu não deveria estar me aproveitando de Mon-El, mas naquele momento em me sentia poderosa. Além de mostrar para James que eu havia seguido em frente, ainda tinha a prova de que tinha encontrado alguém melhor do que ele. Bem melhor.

Notas finais
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