Apocalipse

3 Quando uma presença é desagradável.


No dia seguinte, acordou tão afoito que quase esquecia os materiais novamente. Estava hospedado no hotel que Hope indicou. Preenchia a ficha olhando para todos os lados, como se ela pudesse surgir num passe de mágica, mas não fora o que aconteceu. Desceu até a recepção e perguntou ao rapaz atrás do balcão por ela e o mesmo falou que ela tinha saído há alguns tantos minutos atrás. Calculou que não daria para alcançá-la, então resolveu que iria aproveitar que o hotel oferecia café da manhã e seguiu até uma saleta naquele mesmo andar. Mesmo sabendo que ela já havia ido, percorreu os olhos por todo o lugar, pensando que ela poderia ter esquecido algo e voltado pra pegar.

Resolveu ir sozinho. Foi até a lanchonete e ainda estava fechada, esperou cerca de cinco minutos e nem sinal de Kate. Sem dúvidas, tinha ficado deitada na cama com a preguiça do mundo inteiro concentrada nela. Mas a tarde estaria lá, teria que estar, ou seu pai cortaria seu salário. Caminhou até o colégio naquele mesmo longo percurso e percebeu que estava um pouco atrasado. Correu para a aula de Literatura e Hope não estava lá. A primeira aula se passou e ela não apareceu. Imaginou que ela estaria em outra aula, mas nem nos intervalo entre uma aula e outra, conseguiu encontrá-la.

A próxima aula era de Biologia. O que um anjo sabe sobre seres clorofilados e não clorofilados? Para ele, a professora parecia falar Grego, ou chinês, ele não conseguia entender absolutamente nada. Perdeu-se em devaneios e voltou a pensar em Hope. Tinha de ajudá-la primeiramente a controlar seus sentimentos, até porque ela não era o tipo de demônio mutante, como Azazel de X-men, ela não se teletransportava, nem mudava de tamanho quando como o Him de As Meninas Super Poderosas. Ela era o demônio que havia sido “enviado” para manipular as pessoas. Com o poder da mente, ela podia fazer coisas horríveis, como desejar que um ônibus passasse por cima de uma senhorinha que tivesse atravessando a pista com dificuldade, aliás, ela nunca tinha feito coisas tão absurdas como essas. Uma vez, na quarta série, numa aula de experiências com sapos, desejou que um deles pulasse em cima de Diane Philips e isso aconteceu realmente, ele pulou bem na cabeça dela que chorou o resto da aula inteira. Do contrário, não podia pensar que a fome acabasse ou algo assim, pois a divisão do bem e do mal no caso dela, não era como Yin e Yang, o mal preponderava. Todavia, sua essência, o bem que tinha herdado de seu pai tinha feito dela o que era, uma típica crente que acreditava que Deus tinha planos grandes para sua vida.

E tinha mesmo.

A pergunta que não quer calar é: por que logo Hope? De um trilhão e meio de casos, UM, era sobre demônios que se apaixonam por anjos. Então, os pais de Hope se apaixonaram e quando descobriram que a guerra iria começar, se esconderam. Viajavam pra lá e pra cá e ficaram um ano e três meses desaparecidos, dentro desse tempo, Hope nasceu, cheia de saúde, cheia de amor e foi deixada com sua avó, que por sua sorte, era um anjo! Literalmente. Fora quem a ajudou a diferenciar o bem do mal. A avó, Nancy, com tudo que sabia sobre os antecessores da neta, resolveu que jamais tocaria no assunto, e jamais o fez. Trabalhou apenas de regê-la, guardá-la, governá-la.

Amém.

— Sr. Sullivan? — chamava a professora. E parecia irritada, como se já estivesse chamando-o há uns trinta anos.

— Oi? — ele finalmente olhou-a deslocado.

— Como seres vivos clorofilados obtém energia? — ela quase berrou pausadamente.

Todos o olhavam, sem exceção. Estavam curiosos para saber o que ele responderia, 14% dos alunos naquela sala sabiam a resposta e esses eram os que estavam com expressão de “que pergunta fácil” “essa demora toda?”. Gabriel olhou novamente para a moça, ela o encarava, com as bochechas vermelhas. Ele lembrou então que tinha de responder aquela pergunta, ou já estaria na lista negra dela.

Se eu fosse um ser clorofilado como eu obteria energia? , pensava. Era a pergunta mais tola a fazer a si mesmo, ele sabia disso e teve vontade de rir do próprio pensamento, mas não tinha tempo.

— Através da energia do Sol. — falou com um sorriso de meia boca.

Fora o chute mais bem formulado de toda a história dos chutes. Era ridículo, claro. Mas ele acertou, nem ele soube como, mas acertou. E riu, teve até de tirar seu rosto de vista, escondendo-o por entre os braços.

O sino finalmente tocou e ele já estava saindo da sala quando avistou Hope cruzando os corredores apressadamente, nem o viu. Ele correu atrás dela, indo a caminho da capela. Ela ajoelhou-se na primeira fileira que já estava cheia de gente. Ele fez o mesmo, um pouco mais para trás e pediu mais uma vez perdão por ter pensado tanto em Hope naquele dia e foi embora.

Pensou na possibilidade de ela estar fugindo dele. O dia inteiro tinha saído as pressas e ele não sabia o porquê. Foi andando para a lanchonete entristecido, a cabeça perturbada cheia de pensamentos.

— Boa tarde. — bocejou Kate, dando um sorriso de lado em seguida.

— Por que sorriu pra mim? — indagou olhando-a.

Ela fez uma careta e deu-lhe uma tapa na testa.

— Já para o trabalho. Ali — apontou —, sorvete.

Ele acenou para a garotinha e limpou a sujeira que ela tinha feito. Assim que terminou de limpar, ainda no chão, viu um copo de suco entornando. Olhou para a mesa de onde tinha vindo o copo e tinha sido uma das meninas que o encaravam no primeiro dia de aula, quando estava no seu armário. Ela era linda, parecia a Barbie e tinha peitos fartos que por sinal, adorava mostrar.

— Me desculpe. — ela miou. Sim, miou.

— Não foi nada.

Ele foi percebendo que à medida que adquiria respeito das meninas, conseguia também com que os meninos sentissem raiva dele (inveja em outras palavras). Na mesa, com a Barbie, estava Mike.

Mike era o dito cujo “mais bonito do colégio”. Que havia perdido o cargo para Gabriel, que nem disso sabia. Era um monstro, tratava as garotas como se fossem lixos ambulantes e vivia dizendo que tinham saco de minhocas ao invés de cérebro. Gabriel era educado, amigável e era bonito, não achava que tinha motivos para rebaixar alguém, não havia aprendido que devia ser melhor que os outros.

— Sai daqui, empregado. — grunhiu Mike dando um chute de leve no rodo que estava nas mãos de Gabriel.

Ouviu atrás dele o sino tilintar e a voz de Hope soou como melodia. Ele sorriu involuntariamente, olhando para ela.

— Olá Gabriel. — disse sucintamente. Virou-se para Kate e começou a falar algo. Kate ainda olhava para ele, como quem queria tirar sarro da cara patética que ele estava fazendo. — Vocês tem algo pra fazer hoje?

Ela olhou novamente para ele.

— Eu? — tartamudeou. Ela assentiu. — Não, não tenho.

— Eu tenho que ficar aqui. — mentiu Kate.

— Ah, que pena. Quer ir comigo ao Teatro?

— Onde fica?

— Está hospedado no hotel que trabalho, não se preocupe. — disse indo embora.

Briathos encostou o braço no balcão e ficou perdido. Olhando para o assoalho, com um sorriso bobo nos lábios. Kate riu.

— O que vê nela?

— O que vejo nela? — ele assustou-se.

— É.

— Ela é legal.

— Tem que ter um motivo maior.

— Não tem. — suspirou.

Kate antecipou o salário dele e disse-lhe para que comprasse uma camisa de mangas longas. Ele o fez. Estava tão ansioso que começou a se arrumar ás 19h30. Por alguns minutos, pôde até esquecer que tudo aquilo fazia parte da sua missão. Sentou-se de frente a tevê ligada, sem se importar com o que estava passando e começou a contar o dinheiro. O que tinha, dava para pagar o aluguel de um apartamento com um quarto, uma sala embutida na cozinha e um WC, alguns aperitivos para não morrer de fome e uma torrada na Kate’s Café. Colocou o dinheiro dentro do bolso e ficou mais uma hora e meia esperando por Hope.

Ela bateu na porta e ele a abriu. Arregalou os olhos ao ver como estava linda. Com um vestido azul escuro e uma sapatilha preta, segurava em mãos uma bolsinha e seus cabelos tinham cachos falsos feitos com babyliss.

— Está pronto?

— Estou. — fez uma pausa entre as frases, ainda embasbacado. — você está linda!

Não só a bochecha como os olhos tomaram um tom vermelho. Ela fechou os olhos como se eles ardessem e colocou as duas mãos sobre as maçãs.

— Obrigada. Você... também...

Eles foram a pé. Afinal, nenhum dos dois tinha um carro, ela tinha uma bicicleta, mas não achou necessário, pois o Teatro era há duas quadras.

— Iremos assistir o que? — ele perguntou.

— Quebra nozes. — ela riu baixinho. Não imaginava que ele teria aceitado se ela dissesse que iam assistir “garotinhas saltitando”. Para sua surpresa, ele apenas sorriu para ela. — Não acha insano?

— Era pra achar?

— A maioria dos garotos... Acha.

— Prefere que eu ache?

— Não! Obrigada por não achar.

Ela ficava sorrindo bobamente enquanto olhava-o parado na fila da bilheteria, observando a movimentação. Não sabia o que tinha dentro do Teatro, se as pessoas sentavam, se ficavam em pé, ou agachados; se riam, se faziam silêncio; se usavam trajes finos, ou simplórios; se no final, aplaudiam, ou gritavam, ou cantavam parabéns, ou “Aleluia”, ou... Enfim, ele pensava em tudo. E estava com um pouquinho de medo, pois se fizesse algo errado, Hope o acharia um tremendo babaca e desencantaria.

— Nomes? — perguntou a mulher dentro da cabine.

— Gabriel Sullivan e Florence Sangreal.

Ela o entregou dois bilhetes amarelados e ele foi até Flo que estava sentada na escadaria.

— Vamos? Faltam cinco minutos. — ele falou ajudando-a a ficar de pé.

Quando ela virou-se colidiu com um garoto, o garoto qual Briathos não se sentiu a vontade na presença. Tinha cabelos escuros, a pele parda e os olhos tão negros quanto a escuridão. Sim, eram penetrantes e malignos.

— Me desculpe! — ela pediu apanhando o bilhete que ele deixara cair.

— Não foi nada, eu que peço desculpas.

Ela o olhou preocupada. Teve vontade de prolongar aquele assunto, mas sabia que se atrasariam.

— Faltam dois minutos. — relembrou Briathos nervoso.

— Então... Vamos.

— Divirtam-se! — exclamou o rapaz. — Ah, como se chamam?

— Florence, ou Flo. E Gabriel. E você?

— Nicholas, pode chamar de Nick. — ele mostrou os dentes. Pareciam garras olhando do “ângulo Briathos”. Mas Hope achou lindo.

Eles foram até a porta da entrada, onde estavam recolhendo os bilhetes e Briathos parou.

— Espera, acho que deixei cair o meu. — mentiu.

— Volta rápido.

Ele correu de volta até a escadaria e o rapaz estava lá. Com um maço na boca, soltando fumaça até pelas narinas.

— Sabia que ia voltar. — ele riu. Uma risada terrível de se ouvir.

— Quem é você?

— Pensou que só o Céu teria a brilhante ideia de mandar alguém pra Terra? — ele aproximou de Briathos. — Se enganaram, Briathos.

— Como sabe meu nome?

— Sei de tudo. — ele pausou. — Flo e eu combinamos muito mais.

Briathos respirou todo o ar do mundo, encheu os pulmões e se controlou para não surtar. Se o fizesse, Hope facilmente estaria ao lado daquele cara em menos tempo do que o tal pretendia.

— Prazer, Typhon. — o anjo estremeceu ao ouvir aquele nome. — Boa sorte, anjinho. — disse por fim.

Gabriel assentiu com a cabeça e não lhe disse mais nada. Voltou ás pressas para a fila onde Hope estava e sorriu pra ela, tentando não parecer mal.

— Ele parece bem legal, não é? — indagou ela, sorrindo.

Notas finais
Hello sweet people! Espero que tenham gostado desse capítulo. Estou pedindo encarecidamente e talvez um pouco desesperadamente para que vocês comentem. Isso motiva a gente e é bem estranho escrever pra fantasmas hehe. Beijos da Run/Claretxe. (sem beijos para as vadias da FESO u.u)