Apocalipse

2 O desejar dos anjos.


Notas iniciais
Desculpem pela demora, estamos muito atarefadas e sem tempo para postar. Enfim, aí está mais um capítulo pra vocês, desculpem a demora novamente. Nos vemos nas notas finais. Boa leitura a todos. :)

Um silêncio absoluto pairou na sala e só o que se ouvia era o barulho da ponta da caneta à tinta raspando o quadro branco. Cada dupla era escrita com rapidez, com pausas entre uma e outra para a formulação básica de escolha: os mais fáceis de aprender com os mais difíceis no aprendizado. Ele correu os olhos pela sala rústica, parando na mesa onde Hope estava sentada. Ela o estava encarando, também, e rapidamente virou os olhos para o quadro, tapando o rosto com as mangas do cardigã mais longo que ela que vestia. Virou os olhos para o quadro:

“Dupla 7 – Mesa 12,

Fileira 2: Sullivan, Gabriel.; Sangreal, Florence.”

Sem alardes. Não acontecera nada que ele não soubesse, aliás, ele já sabia que isto aconteceria, afinal, quando os anjos desejam algo, não há dúvida de que irá acontecer. Porém, a dona dos cabelos de fogo não partilhava da mesma linha de raciocínio, e estava mais boquiaberta impossível. Ouvia-se murmúrios de toda a sala, do tipo “Por quê ela?” “Na dupla, ela deve ser a burra” e muitos outros que Hope preferia ignorar. Dar atenção era apenas mais um passo pro fracasso, pra ser pisada por eles; aprendera isso com a sua tão sábia avó, além de muitos outros aprendizados que levaria para toda a vida.

Assim que os murmúrios da sala se cessaram por conta de um pedido de silêncio vindo do professor, Hope esgueirou-se – tentando fazer nenhum barulho – para a carteira ao lado de Briathos, na mesa 12, e ajustou a lente do microscópio a seu gosto. Hope não era alta, pelo contrário, tinha uma altura abaixo da média, o que aumentava ainda mais os murmúrios desde quando chegou aqui. Ela era extremamente estranha aos olhos de todos, porém extremamente perfeita aos olhos do anjo, que mesmo evitando encará-la, admirava secretamente em sua mente. “Acho que ela não vai falar comigo”, pensou, vacilante. E errou. Um pigarro saiu da garganta da pequena moça ao lado e ela o saudou, reunindo toda a coragem para espantar a timidez, encarando-o nos olhos.

— Ahn... como é o nome mesmo? – uma tentativa de sorriso. Um sorriso de volta.

À medida que a timidez voltava, os olhos se tornavam um azulado, da cor dos céus, o que o fazia se sentir em casa. Ela o fazia bem, de algum modo. E sentiam que se conheciam há tempos, mesmo só se olhando algumas vezes. Percebeu que já havia demorado tempo demais para respondê-la, e talvez ela estivesse pensando que ele não queria falar com ela.

— Gabriel. – Sorriu.

Ele sabia que ela tinha visto seu nome escrito no quadro e que só perguntara para puxar a conversa. Achou nobre da parte dela. Reviu os conceitos que tinha sobre ela bem no início, de uma garota mesquinha e que provavelmente penderia mais pro

lado mau do que pro bom. Hope tinha um bom coração, um bem grande, que, ao contrário do que falavam sobre ela, tinha a capacidade de ignorar e ainda perdoar por cada má palavra que a proferiam em cada oração que fazia, toda noite antes de dormir. Hope era adorável, e sua tentativa de manter uma conversa normal estava estampada em seus olhos, ainda azulados.

— É um lindo nome. Lembra-me do arcanjo Gabriel, que foi enviado a uma missão na Terra por Deus. – ela deu uma risadinha baixa. Briathos se congelou na cadeira. – Te ofendi? Você não acredita em religião não é? – ela realmente parecia preocupada, temia que tivesse estragado tudo bem na primeira conversa. “Maldita mania de comparação!”, pensava ela. Acontece que o que ela não sabia era que na verdade, ela sabia de tudo. Estava tudo premeditado e escrito pelos mais sábios escritores do mundo. – Por favor, me perdoe se lhe ofendi! – Briathos deu um sorriso terno, buscando acalmar o coração da moça, que se afligiu e tornou os olhos duas pedras lilases.

— Não, pelo contrário. A história de Gabriel é minha passagem preferida da Bíblia. Um arcanjo notável, com um coração puro, mas que também tinha suas fraquezas. Eu o admiro. – disse, a moça sorriu.

— É minha passagem preferida também. – disse, colocando os olhos acerca dos oculares do microscópio e analisando a amostra. – Me parece reação de peróxido de hidrogênio em carne fresca. – chutou. O anjo a olhou como se não entendesse a língua que ela falava. – Falo das amostras, veja você. – disse, empurrando o microscópio de mesa para o parceiro e o estimulando a fitar através do ocular.

— Sim, me parece também. – disse, por fim.

Não sabia o que era aquela reação, porém confiava no julgamento de Hope. Para ele, pouco importava aquilo agora, ele só queria que o tempo passasse rápido e ele pudesse tratar com ela sobre o que realmente o trouxe para a Terra, porém ao mesmo tempo, temia pelo que aconteceria. Tão logo a aula começou quanto terminou. O sino que marcava a hora da saída começou a soar da capela que ficava no canto norte da escola às doze horas em ponto, indicando que todos deveriam se dirigir à mesma para que se realizassem as rezas que mediaria o dia. Tudo naquela escola lembrava a Briathos o lugar de onde ele veio. Os sinos, as orações ao Pai e os olhos de Hope. Porém, àquela hora, para ele, era só um acervo de paz onde todos se reuniam para recuperar a fé e as esperanças enquanto se preparavam para um apocalipse que aconteceria a qualquer momento. Levantou-se da carteira dirigindo-se à porta da sala, porém ouviu Hope gritando por seu nome e só aí se dera conta de que havia esquecido o material escolar em cima da mesa. “Cabeça de vento” pensou. Aquela menina o distraía muito.

Decidira que queria caminhar junto a ela até a capela, e que também sentaria ao seu lado e que pediria a sua ajuda para tentar se estabelecer na cidade. Talvez estivesse infligindo a lei de não se aproximar demais, porém ao mesmo tempo estava cumprindo a de se tornar amigo dela e de adquirir a confiança. Pediria perdão ao Pai por errar, e também acrescentaria que para ganhar, é preciso sacrificar, e a escolhida fora talvez a mais importante lei de todo aquele show que ele estava arquitetando. Chegaram à capela, escolheram a mais distinta fileira de bancos e se ajoelharam, com terços envoltos às mãos e com a testa recostada aos terços. Rezavam por sua vida, pela estadia na Terra, pela ajuda nas dificuldades, pela família, pela ordem, pelo amor não correspondido, mas Hope não. Hope não tinha pai, nem mãe. Nem chegou a conhecê-los, afinal. E talvez fosse melhor assim. Só o que ela pedia é que sua avó melhorasse seu estado de saúde e que, quando ela chegasse em casa com alguns novos remédios prescritos no dia anterior pelo doutor da família, a avó ainda a pudesse receber com um abraço e bolinhos recém retirados do forno, feitos apenas para ela. Também intercedia por um mundo melhor, onde as crianças do Orfanato Bridget pudessem ter o que comer todos os dias e que não sofressem tanto com a crise que o governo estava passando no momento e que dificultava a verba para instituições de caridade. Intercedia pelos moradores de rua e também pelo aquecimento global, e pedia que continuasse invisível pela maioria de tempo possível. Briathos apenas se perdoou por tudo que ele tenha feito de errado em todo o começo do dia, e pediu a benção ao Pai, para que o resto do dia corresse bem e que nada frustrasse os planos divinos. Assim que Hope acabou sua prece, levantou-se e ajustou a bolsa nos ombros, dando um tímido tchau e caminhando até a saída. Briathos a pediu que o esperasse, porque era novo na cidade e queria alguém para ajudá-lo a se situar um pouco. Hope sorriu e assentiu.

— Você está morando em algum lugar? – perguntou curiosa.

— Não. Estou à procura de um hotel para me hospedar enquanto não arranjo nada fixo. Não sei por quanto tempo, mas preciso de algo temporário e certo. – ele disse, e Hope sorriu.

— Parece que você tem sorte mesmo. – estendeu um cartão de um hotel para ele, que o pegou em dúvida, e logo leu. – É onde eu trabalho. – disse como se respondesse a alguma pergunta que ele houvesse pensado. – É um bom lugar. É calmo e os funcionários são bem agradáveis e receptivos, você vai gostar. – disse, e sorriu.

— Obrigado, mesmo. – agradeceu, guardando o cartão no bolso do casaco e continuando a caminhada.

— Você já conseguiu um emprego também? – perguntou.

— Sim. Numa lanchonete. A Kate me ajudou nisso. – ela sorriu forçado. Kate, a garota que sempre estava cansada demais para tudo, e que estava sempre de mau humor também. – Ela é uma boa garota. – disse, e Hope se perguntou se ele poderia ler seus pensamentos. Por um segundo achou que estava sendo lida entrelinhas somente por respirar, mas na verdade, ela mal sabia que seu olhar denunciava tudo. E o que sentia agora era ciúmes, e a cor dos seus olhos não era agradável a esse sentimento. – Bom, eu tenho que ir. Qualquer coisa, você pode me ligar lá na lanchonete, o número é esse. – anotou o número num papel e a entregou. Era uma sorte ele ter gravado de primeira, era péssimos com numerações. Porém, sua memória ainda era boa. – Muito obrigado novamente. – agradeceu, andando pelo mesmo caminho que fizera da escola, para tomar o rumo da lanchonete em que começaria a trabalhar. “Trabalhar não deve ser difícil. Não mais que arrumar as papeladas que o Claude joga pra cima de mim quando ele quer fazer algo que não envolva arrumar a própria bagunça” pensou. E, como na manhã, encontrou Kate abrindo a porta, agora dos fundos, com seus comentários irônicos e suas bufadas irritadas.

Não via a hora de ver Hope novamente.

E fez uma pequena prece, com um amém muito espiritual. E como sempre, os que os anjos desejam, se realizam.

Notas finais
Enfim, capítulo dedicado as minhas meninas lindas da FESO, e escrito pela Macchi. Desculpem por qualquer erro, qualquer falta de concordância ou qualquer erro técnico que possa ter. Desculpem também pela minha falta de tempo, estou viajando e bem longe de casa. :)