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68 Capítulo 68 - Um encontro especial


Notas iniciais
Música (november rain - Guns'n'roses) a partir do ponto que está marcado

Daniel resolve não voltar pra edícula. Naquele momento tudo o que ele não precisava era se lembrar da Julie. E lá tudo o lembrava dela, deles. Essa noite ele queria ficar sozinho, procurando uma resposta pra tudo aquilo que estava acontecendo.

Ela ficou o resto do dia deitada, amuada, encolhida na cama e com olhar perdido. Ninguém sabia o que fazer e ela não falava o que tinha acontecido. A única coisa que ela dizia era “me deixe sozinha”, “não quero comer nada”. Ela fechava os olhos e as lágrimas desciam. Suas primas tiveram que contar tudo o que sabiam para o pai de Julie e os outros tios. Elas disseram que Julie tinha ficado assim depois que tinha ido numa outra praia com um amigo delas. Mas depois disso ele não voltou pra praia e não sabiam dizer onde ele estava.

Daniel ficou no meio da mata. Estava com vontade de ficar ali pra sempre. Ninguém nunca mais o veria. Em certo momento ele olhou pra sua mão e sentiu um nó na garganta. Procurou o anel no bolso e colocou-o no dedo. Começou a se lembrar quando tudo ainda era só um sonho e de cada momento que sonharam juntos.

Julie se sentia fraca. Não tinha comido nada o dia inteiro, nem sentia fome. Acabou apagando. Dormiu profundamente.

Daniel se encostou numa pedra, estava invisível. O silêncio daquele lugar era enlouquecedor. Só ouvia seu pensamento falando. Caiu no sono também.

..........

(Música: November Rain — Guns'n'Roses)

Ela se levantou e estava perto de uma mata. Olhou ao redor e viu uma trilha. Era o único caminho. Uma borboleta dourada surgiu voando ao redor de sua cabeça e pousou no seu nariz. Ela levou o dedo até o nariz e a borboleta não fugiu, pelo contrário, ela pousou no seu dedo. Depois ela ficou voando na frente de Julie, que deu um passo à frente.

A borboleta voou um pouco mais adiante e Julie deu outro passo. Ela percebeu que a borboleta estava tentando chamá-la para a trilha, e começou a segui-la. Foi caminhando pela mata, sem saber onde estava indo. Ela foi surpreendida por uma parede de neblina. Atravessou-a e do outro lado havia um riacho por onde passava uma pequena ponte de pedras. A água vinha de uma queda dágua não muito grande. E ao redor havia um campo de rosas vermelhas.

A borboleta voou para longe e pousou em um rapaz. De onde estava ela não podia reconhecê-lo. Mas era Daniel. Ele estava vestido com uma camisa xadrez, calça jeans e tênis, e não com a roupa preta e vermelha. O resto era do mesmo jeito. A pele muito branca e os olhos marcados de lápis preto.

Julie olhou como estava vestida. Não se lembrava dessa roupa, vestido quase branco longo, justo em cima e com a parte de baixo enviesada. Estava com o cabelo totalmente solto.

Ela foi chegando mais perto. Ele estava do outro lado da ponte, olhando para longe.

Só então ele percebeu uma jovem de cabelos longos se aproximando. A neblina não deixava que se enxergassem completamente. Foram caminhando para o centro da ponte. Pararam surpresos ao se reconhecerem. Daniel logo mudou sua expressão, ficando com ar de orgulhoso, ferido. Ele a olhava com rancor.

Julie tinha nos olhos um brilho apaixonado. Seu olhar tentava transmitir seus sentimentos. Mas ele virou o rosto e não quis encará-la. Nem mostrar seu amor que não podia disfarçar.

– Daniel!

– O que você veio fazer aqui? – ele perguntou.

– Preciso falar sobre nós.

– Não existe nós. Existe uma traidora e eu.

Ele se virou e foi andando até a extremidade da ponte, se afastando. De costas ela não poderia enxergar seus olhos cheios de lágrimas.

– Pare! Não vá embora, Daniel! – ele continuou de costas escutando.

– Meu amor, eu nunca faria nenhum mal a você. Eu te amo.

Ele olhou pra trás com desprezo.

– Não confio mais em você! – e então se vira de costas novamente.

Julie se desespera e começa a chorar, soluçando. Era melhor acabar com aquele sofrimento de uma vez. Subiu na lateral da ponte, se equilibrando antes de pular. Não era tão alto, mas ela bateria com força nas pedras e morreria ou se afogaria. Além disso ela não sabia nadar.

– Daniel!

Ele se virou pra trás. Mas dessa vez ficou apavorado.

– Não Julie! Não faça isso!

– Eu tentei Daniel. Eu tentei te explicar.

– Não faça isso! Fica calma! Eu vou te ouvir.

Daniel foi se aproximando com cuidado e tentava fazê-la desistir daquela loucura.

– Você me ama Julie? – disse distraindo-a.

– É claro que amo!

– Então me espere! Eu vou te dar a mão. Você não quer fazer isso. Você quer que eu te perdoe e eu vou te ouvir!

Ela desistiu de pular. Agora tinha vontade de pular, mas era nos braços dele e nunca mais ir embora.

Daniel percebeu que não adiantava ignorá-la. Era impossível esquecê-la e estava sendo orgulhoso demais.

Ele dá a mão pra ela e quando desce ficam muito próximos. Eles se olham apaixonados e se beijam avidamente. Suas mãos se agarram nos cabelos um do outro, aproximando-os ainda mais. Daniel a abraça com força, ainda assustado com a atitude dela. Se ela caísse dali, nunca se perdoaria.

Eles se dão as mãos e entrelaçam seus dedos. Ao olharem pras mãos percebem que estão usando os anéis. E sorriem com isso. Estavam vivendo aquele sonho de verdade.

Daniel diz: — Venha comigo. Vamos nos sentar em algum lugar. Nós precisamos conversar.

Ela sentiu um frio na barriga. Ficou com medo dele não aceitar suas explicações.

– Nem que eu tenha que morrer, o que eu vou te falar é verdade.

Daniel a abraçou novamente. Ainda tinha medo que ela fizesse alguma loucura.

Os dois vão caminhando para saírem da ponte e se sentam à beira do lago formado pela água da cachoeira.

Eles se sentam um de frente pro outro. Daniel acaricia o rosto dela.

– Me explica agora o que foi que aconteceu.

Ela respirou fundo e começou:

–Bom, tudo começou quando retornei uma ligação perdida e uma mulher me atendeu. Eu pedi que ela anotasse o meu endereço daqui.

– Sei. E ela anotou.

– Então eu ouvi ela te chamando de “meu amor”. – ela olhou feio pra cara dele.

– Não sei porque aquela louca disse isso. Ela é namorada do Martin.

Julie ficou espantada com isso. E continuou...

– E ela disse que vocês dois tinham ido no cinema.

– Não foi bem assim! Nós fomos, os cinco:O Félix, a Bia, a Laila, o Martin e eu. Inclusive descobri que ela também é fantasma.

Julie achou muito estranho, ninguém tinha percebido isso até hoje.

– Bom, mais tarde quando voltei do show, consegui dar o recado pra Bia, pra ela te falar que eu queria te encontrar na praia do Centro, às 10 horas.

Daniel sabia que ela tinha mesmo ido no show.

–Até aí tudo bem. O Félix me deu esse recado lá na edícula.

– Continuando, eu fui dormir e deixei meu celular na mesinha perto da cama. No quarto onde eu dormia estavam todas as minhas primas.

Julie percebeu um vulto indo pra trás de uma árvore, mas não deu tempo de ver o que era.

– Eu tenho a sensação de que estou sendo vigiada, Daniel.

– Por que?

– Você não viu porque está de costas, mas tinha um vulto ali atrás de você.

Ele olhou pra trás e não viu nada.

– Deve ser um macaco. Mas continue. Ainda não entendi como você foi parar aos beijos com aquele – fechou a cara – idiota!

– Onde eu parei? ... – Ah! Lembrei. Então, quando acordei meu celular tinha sumido. Procuramos no quarto e nada. Aí meu primo encontrou meu celular. Estava dentro do vaso sanitário. Como foi parar lá? Logo pensei na minha priminha de 4 anos, a Sofia. Mas ela disse pra mim que viu uma moça pegando. Agora você não sabe da maior. A Sofia é vidente.

– Eu não acredito nessa coisa de vidente. Deve ter sido ela mesma.

– Fui pra praia mais cedo e fiquei lá assistindo o jogo de vôlei. Foi aí que conheci o Rafael.

– É aquele idiota?

– Depois chegou uma loira dizendo que era sua amiga.

– Não sei que amiga. Eu não tenho amiga.

– Mas foi o que ela disse, A-M-I-G-A. Ela disse que você mandou um recado pra mim, que iria me esperar em outra praia. Naquela onde eu estava quando você me viu...

– ...beijando outro! Fala!... Eu nunca disse pra ninguém te falar nada! Isso é mentira. Eu fui te encontrar na praia que você combinou com a Bia. Cheguei lá e você não estava.

– Mas eu falei pras minhas primas que se o Pedrinho perguntasse onde eu estava, era pra elas contarem que eu estava lá na praia, que eu fui lá te encontrar!

Daniel esfregou os olhos, colocou a mão na boca e ficou olhando pro nada, tentando pensar.

– Julie, você ainda não explicou o quê esse tal de Rafael estava fazendo lá com você.

– Calma, eu vou te explicar. Foi o seguinte: eu estava assistindo o jogo e, sem querer, ele me acertou uma bolada.

– Hum...

– Ele foi e me pediu desculpa. Depois, do nada, veio um cara e ficou dançando na minha frente. Eu e minhas primas começamos a rir dele, era muito ridículo. Aí ele me deu um beijo nojento!

– Então foram dois beijos!

– Você não entendeu? Ele me beijou à força. E o Rafael chegou junto e expulsou ele de lá. Então ele veio ficar perto de nós.

– Quando vamos chegar na parte da praia?

– Olha aqui, Daniel. Eu estou falando exatamente o que aconteceu! O Rafael se ofereceu para me levar até à praia, porque eu não sabia onde era.

– Você ficou doida? Acredita numa estranha e pega carona com um cara que acabou de conhecer?

– Eu errei, sei disso. Mas fiquei com medo de não te encontrar, afinal estava dando tudo errado. E agora vem a pior parte.

– Não! Ainda tem parte pior?

– Deixa eu falar, Daniel. Depois você me julga.

– Estou ouvindo – agora ele a encarava sem desviar o olhar. E ela ficou um pouco desconcertada com isso.

– O Rafael me levou até a praia. Eu insisti pra ele me deixar sozinha. Mas ele disse que não. Que ia me esperar porque ali era muito deserto. E ficou nas pedras. Eu estava sentada e não percebi quando chegou uma pessoa por trás de mim. Sabe aquele cara que eu te falei que me deu um beijo nojento. Então, era ele.

Daniel balançou a cabeça negativamente.

– Eu gritei por socorro. O cara veio pra cima de mim e me jogou no chão. Ele se deitou por cima de mim e ia me estuprar. Eu só senti ele sendo arrancado de cima de mim e vi o Rafael. Ele espancou o cara.

Daniel estava espantado com o rumo que aquela história estava tomando.

– Meu Deus, Julie. Você já pensou na loucura que você fez?

– O Rafael é lutador de jiu jitsu. Ele ameaçou quebrar o cara todo se ele não dissesse como foi que ele sabia que eu estava lá. Agora se prepara!

– Tem mais?

– Tem. O cara tava muito machucado. Então ele resolveu contar a verdade. Uma mulher loira e de branco ofereceu jóias caras pra ele ir atrás de mim. Ele descreveu a mesma mulher que me disse que era sua amiga! O Rafael deu mais umas pancadas nele e mandou ele sumir. Ele foi se arrastando.

Daniel se lembrou de ter visto um homem muito machucado, cheio de areia e gritando de dor passar por ele na trilha.

– Eu ia atrás dela, mas ela entrou no banheiro e desapareceu. Por quê essa mulher quer me prejudicar? Eu nem a conheço! A impressão que eu tenho é que ela quer nos separar. Acho que ela é uma fantasma.

– E por que você beijou o Rafael? Hein?

– Eu não o beijei. Eu estava atordoada. Ele que me beijou. Fui pega de surpresa e quando vi, você estava na minha frente. Eu queria te explicar, mas você não deixou.

– Eu devia ter chegado lá mais cedo. Eu ia matar esse cara que foi lá e te agrediu. Você machucou?

– Só me arranhei um pouco.

– Nunca mais faça isso, Julie. Você não tem idéia dos casos que aparecem no mundo espectral. E eu ia te perder! – finalmente ele admitiu que tinha medo de perde-la.

De repente, ele se lembrou que viu uma mulher muito parecida com a Clarisse, mas foi só num relance. Mas não tinha certeza de que era ela.

– Julie, eu quero confiar em você. Você jura que está falando a verdade?

– Sim, eu juro!

– Me desculpa não ter te escutado primeiro.

– Mas agora que você já sabe, eu só quero você de volta pra mim, meu amor.

Os dois se beijam e se deitam no chão. Daniel se deita por cima dela. Finalmente seu olhar apaixonado estava de volta. Ele procurou seus lábios e a beijou lentamente sentindo suas línguas se tocarem e o desejo aumentar. Ele passou a mão sobre o seu colo e começou a desabotoar seu vestido.

Foi quando ela começou a tossir e sufocar. Ela sentiu que alguém estava estrangulando ela. Mas não conseguiu ver quem era. Foi dando um desespero e então ela acordou. Colocou a mão no pescoço e seu coração estava acelerado. Respirou fundo e se lembrou que era um sonho. Ficou ainda um tempão atordoada, só então se deu conta de que tudo fora apenas um sonho. Que tudo continuava do mesmo jeito e talvez nunca mais visse o Daniel.

Sua tristeza voltou com toda força. Ela se deitou e começou a chorar.

Notas finais
O que vocês acharam?