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51 Capítulo 51 - Preciso te contar uma coisa
Notas iniciais
– Daniel! O quê você está fazendo aí?
Ele continuava de costas. Usava um sobretudo preto, estava muito frio.
Julie deu alguns passos e chegou perto do parapeito onde ele estava parado. Ela chegou mais perto e olhou pra baixo. Levou um susto tão grande que quase caiu pra trás. Era um precipício e lá embaixo ela podia avistar pedras pontiagudas prontas para furar o que viesse pela frente.
– O quê é isso Daniel? – Um nevoeiro começa a se espalhar pelo ar e, de repente, não se via mais o precipício. Ao fundo havia uma lagoa prateada. Era um lugar muito triste. Julie parecia reconhecer aquele lugar. Tinha uma estranha impressão que já estivera ali.
– Julie, eu tenho que te falar uma coisa. E tem que ser aqui.
Ela olhou pra Daniel, que estava sério e pensativo.
– Eu não gosto desse lugar. Não sei por que. Tem que ser aqui?
– Não tem que ser exatamente aqui, mas talvez seja preciso voltar.
Julie ficou apreensiva.
– Eu prefiro que não seja. Me leva pra outro lugar, por favor.
Eles retornaram pro quarto. Mas era um lugar diferente, não tinha nada dentro. Nas quatro paredes havia muitos nomes gravados e com datas.
– Está vendo?
– Sim. O que são estes nomes?
– São os nomes dos desaparecidos. Estamos na Sala de Desintegração.
Ao ouvir isso ela ficou arrepiada.
– Pra quê serve? O que estamos fazendo aqui? Quero ir embora!
– Todas essas pessoas entraram aqui por vontade própria. Depois nunca mais foram vistas no mundo espectral.
– Ai...Daniel! Está me deixando aflita! O que é que estamos fazendo aqui?
– Nós não estamos aqui. Estamos sonhando apenas. Só te trouxe aqui pra te mostrar.
– Me leva embora daqui. Por favor.
Daniel pensou num lugar bonito que conhecia. Falou pra ela fechar os olhos e lhe dar as mãos.
Ela abriu os olhos, atravessaram uma ponte, mas à sua volta tudo estava de cabeça pra baixo.
– Vou te levar num lugar incrível! – ele disse.
– Dá vertigem! A água está correndo pra cima ao invés de cair!
– Julie, a ponte está de cabeça pra baixo! – Daniel explicou.
Seguiram até umas pedras que davam saída para uma área aberta.
Julie parou e contemplou boquiaberta.
Lá do alto descia um relógio que balançava como um pêndulo. Seu movimento marcava os segundos e o relógio o tempo eterno. Algumas pessoas de preto caíam como chuva.
– Isso... é...in-crí-vel!
E não era só isso. Havia uma faixa de areia onde camas estavam colocadas em intervalos regulares a se perderem de vista. Ela viu um homem parado perto de uma das camas vestindo uma roupa cheia de lâmpadas. Ele segurava uma lanterna que emitia um forte feixe de luz que batia num prisma e espalhava luzes de todas as cores pelo lugar.
– Você está reconhecendo este lugar Julie?
– Algumas coisas sim. Qual o nome desse lugar?
– Retiro Dali.
Um balão em forma de porco flutuava no céu. Também havia uma vaca malhada pastando. Num canto do jardim ela viu dois gatos de porcelana embaixo de um guarda-chuva. Também viu dois homens de terno conversando calmamente, sendo que um deles estava em chamas. E um olho imenso vigiando tudo.
– Estou reconhecendo algumas capas do Pink Floyd.
Eles foram em direção à duas árvores em formato de cogumelos gigantes, de onde pendiam 2 balanços de cipó, onde se sentaram. Isso a fez lembrar do 1° quase-beijo deles, no parquinho. Mas desta vez Daniel tinha uma coisa muito séria pra conversarem. O balanço de Julie começou a se mover, quase em câmera lenta, o que foi meio estranho pra ela! Tinha o tempo todo a sensação de que iria cair.
Ela pediu pra Daniel parar o balanço e imediatamente ele parou sozinho. Foi então que ela olhou para sua mão e viu o anel, e entendeu que estava acordada em um sonho.
– Daniel, isso aqui é muito louco! – Olhou bem pra ele e viu que ele não estava com sua roupa usual. Ele estava vestido com uma calça jeans clara e uma camisa azul.
– Está me vendo? Olha como estou! Eu era assim antes de... morrer. Passei 30 anos do mesmo jeito! Mas o tempo aqui não passa Julie. Olha pro relógio. Desde que eu vim pra cá, ele marca a mesma hora.
Julie ouve o desabafo.
– Eu tenho uma coisa muito importante pra te falar.
– Pode falar, Daniel.
– O Demétrius me fez uma proposta. Ele disse que eu poderia voltar a viver se o deixasse em paz. O Félix, o Martin e eu, todos podemos voltar. Nós morremos muito cedo, Julie. Não temos uma história, nada pra contar.
Julie fica muito espantada com o que ele acabara de falar.
– Não é verdade, Daniel! Não acredite no Demétrius. Ele está querendo te enganar. Alguma coisa me diz isso.
– Ele está desesperado. Eu posso fazer o que quiser, ele está nas minhas mãos!
– Então faça! Mas não aceite essa proposta dele. Ninguém pode trazer você de volta pro mundo, do jeito que era antes. – Julie teve que dizer isso pra ele, mesmo que o fizesse se sentir pior.
– Julie, em troca do nosso corpo de volta, ele ficará livre de nós, para sempre. Porque a gente se esqueceria de tudo do mundo espectral. Por que ele iria mentir? Ele não tem saída.
– Olha só, você é um cara inteligente, esperto. Mas o Demétrius é uma cobra venenosa. Você não deve confiar nele. Por favor, não faça isso! Por nós dois. Eu não suportaria se você sumisse igual àquelas pessoas que deixaram seus nomes escritos naquela sala.
Daniel suspirou, ela tinha uma certa razão. E se aquilo fosse uma armadilha do Demétrius. Ele tinha que investigar.
– Por onde a gente sai desse lugar? – Julie perguntou.
Ele apontou para uma árvore estranha que tinha o busto e a cabeça de uma mulher. A passagem ficava aos pés dela.
Atravessaram e neste outro plano só havia um barco cujas velas eram borboletas. Era delicado, colorido e alegre. E aquele olho no horizonte. “Isso me lembra um pouco aquela história do Olho de Sauron, só que do Bem”.
– Quer subir naquele barco? Você nunca vai ver um barco assim no seu mundo. – diz Daniel.
– Quero, me leva lá. – ela se sentiu flutuando até lá.
Tinham uma visão incrível do barco. Aquele mar azul turquesa, devia ser uma delícia nadar nele. Ela não sabia nadar, mas como era um sonho! Mas logo desistiu da idéia. Precisava ter certeza de que ele não ia aceitar essa proposta do Demétrius. Puxou conversa novamente.
– Dani, como é que aquelas pessoas somem? Aquelas da sala de desintegração.
– Dizem que elas pulam daquela sacada. O resto ninguém sabe.
– Mas pra quê essas pessoas todas fariam isso?
– Essa é a questão Julie. Dizem que pulando dali elas entram num portal que as levam de volta pro mundo dos vivos. Se é verdade? Sei lá! Tem muito mistério que a gente não consegue entender. Quando se está vivo, não sabemos o que vamos encontrar aqui. E quando estamos aqui... não sabemos o que vamos encontrar do lado de lá!
– E o que aconteceria se eu pulasse dessa sacada?
Nisso Daniel não tinha pensado. Mas ficou com medo.
– Julie. Não faça nenhuma bobagem como essas viu. Você não brinque com o que você não conhece.
– E você conhece? Você também está querendo pular de lá!!
– Vamos fazer um trato. Eu não vou fazer nada sem conversar com você antes e chegarmos num acordo. Mas você sabe que se eu pular, e se eu voltar, vou poder ficar com você, ter uma vida normal com você! Não entende? – olhou dentro de seus olhos.
Os dois ficaram pensativos... seria bom? Seria uma armadilha? Seria a solução?
Sem resposta.
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