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34 Capítulo 34 - O Show - parte I
Notas iniciais
Julie abriu as janelas que levavam à uma sacada com vista para um vale coberto por denso nevoeiro. O vento soprava bagunçando seus cabelos. Deu alguns passos até o parapeito, onde se debruçou e ficou olhando para longe, pro vazio... Nisso, alguém apareceu por trás e lhe tapou os olhos. Sorriu ao por suas mãos sobre as dele.
— Daniel? – soltou as mãos e se virou.
— Oi, amor! – ele disse, puxando-a suavemente para perto.
— Que bom que você não demorou. Estava me sentindo triste.
— Agora estou aqui, não precisa ficar assim. – Ele a abraçou mais forte — Vem comigo, eu quero te levar num lugar especial.
— Aonde vamos?
— Num show aí.
— Show? Gostei! De quem?
— Jim Morrison, baby.
Julie riu alto. — Como? Você tá zoando né. Ele já morreu faz décadas!
— Ainda não percebeu? Preste atenção onde a gente está. Como se sente? Mais leve?
— É mesmo!... Parece que estou flutuando... como num sonho.
Foi como se uma nuvem de fumaça se dissipasse.
— Exato! – ele sorriu. — É normal demorar um pouco a perceber, mas você vai se acostumar. Vamos nessa?
— Sim! – disse, eufórica e ainda meio confusa.
Nos sonhos, os cenários às vezes mudam de repente. Mas Daniel, que não tinha corpo físico, podia se deslocar no tempo e espaço facilmente, sem se perder.
[ouça o início de Who Wants to Live Forever – Sarah Brightman]
Julie se deu conta de que estavam num pátio, de frente para um grande portal. Eles seguiram de mãos dadas naquela direção. De cada lado, no topo do portal, havia duas ampulhetas esculpidas.
— É aqui. Chegamos! – ele disse.
— O show vai ser aqui? Mas isso é um cemitério! Não tem ninguém!
— Só começa mais tarde. Vem! Você vai adorar!
— Você é louco, Daniel! Eu não vou adorar esse lugar.
— Você não pode perder, vai ser incrível! É tão raro isso acontecer. O cara é arredio, só gosta de ficar vagando alucinado por aí. Quase nunca faz show.
Ela ergueu as sobrancelhas tentando entender aquela situação bizarra.
— Enquanto isso, podemos namorar, passear, só nós dois... — ele beijou sua bochecha – ... sem pressa.
Ela concordou. Que mal faria, estavam sonhando mesmo...
Passaram pelo portal. Julie ficou impressionada com o tamanho do lugar. Parecia uma floresta e uma cidade ao mesmo tempo. Na entrada havia ruas, calçadas com árvores seculares, mausoléus que pareciam casas... um labirinto de ruas com “casas” dos lados.
— Isso parece uma cidade!
— É praticamente um museu a céu aberto. Vou te mostrar por que esse é considerado o cemitério mais bonito do mundo! – disse gesticulando muito. — Repara na poesia, na arte, na música que está no ar.
— Falando assim até me faz esquecer o lado sinistro. – ela disse, com os olhos arregalados. — Então, agora me mostra um lugar assim “bonito” como você disse. – o desafiou.
Ele segurou sua mão. Enquanto passeavam pelas ruas de pedra, começou a cantar e imitar os trejeitos de seu ídolo.
“She lives on Love Street,
lingers long on Love Street.
She has a house and garden,
I would like to see what happens…”
Ele tentou fazê-la dançar também. Pegou-a no colo, girou-a e a pôs no chão rapidamente. Ela ainda estava tonta quando ele lhe roubou um beijo.
— Rua do Amor? – ela perguntou, segurando-se nele com força pra não cair.
— Yeah... the Love Street. – disse, cantarolando. — Hoje eu vou estar com as duas pessoas que eu mais amo: você e o Jim... nessa ordem. – acrescentou.
— Olha Daniel! – ela apontou para um túmulo.
— É do Oscar Wilde! É lá que ele mora.
— “Posso resistir a tudo, menos à tentação.” – ela disse, lembrando-se da aula de literatura.
Aquele túmulo era considerado uma das mais belas esculturas do cemitério. Curiosamente, era todo marcado de beijos de batom vermelho e escritas de amor. Ela chegou mais perto e tentou tocar o túmulo. Era muito diferente de todos que já tinha visto.
Daniel acabou se distraindo, olhando pra ela.
— Estou começando a mudar de ideia. Até que não é tão assustador assim. – parou de falar quando percebeu que ele a encarava de um jeito desconcertante.
— Ah! Desculpa, me distraí com sua beleza... – ele disse, brincando.
Julie lhe respondeu com um sorriso que marcava duas covinhas.
Ele continuou: — Sabe quem mais mora aqui? “Heloísa e Abelardo”... já ouviu falar?
— Não me lembro direito. Mas me leva lá.
Andaram alguns metros acima.
— É aqui – ele disse. — Estão juntos agora, um do lado do outro... É assim que ficarão pra sempre... – disse pensativo. — Não é uma ironia do destino? Em vida sofreram até o fim e não conseguiram ficar juntos.
— Coitados. Isso não vai acontecer com a gente, né? Não quero ficar longe de você. – o abraçou forte. — Ainda bem que enxerguei a tempo que eu te amo.
— Eu também amo você... – enfatizou com o olhar — e aconteça o que acontecer, eu sempre vou estar te esperando.
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