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14 Capítulo 14 - Talita ama Nicolas,que ama Julie,que
Chegando em casa, Julie foi pra edícula falar com Félix e Martin.
— Félix, Martin! – e os dois apareceram.
— Pronto! Já falei com ele. Ele disse que vem. Parece que gostou da ideia.
Mal acabou de falar, Daniel entrou.
— Então, vamos tocar??
— Demorou!
E ficaram lá a tarde toda ensaiando e se divertindo.
De vez em quando seus olhares se cruzavam. Uma química rolava no ar.
No final da tarde, Talita foi ao endereço que Demétrius lhe deu. Achou a casa horrorosa, parecia abandonada.
“Credo” – pensou.
Não achou a campainha, mas não foi preciso porque a porta se abriu sozinha. Demétrius estava vestido com uma capa preta, que só mostrava seu rosto.
Talita sentiu um arrepio forte. Não quis entrar. Resolveu falar de onde estava mesmo.
— Então Sr. Benício – assim ele disse se chamar – não consegui usar o sonífero. Na hora que eu ia colocar apareceu um cara do nada, super estranho e pegou o vidrinho.
Demétrius ficou contrariado.
— E como era esse cara?
— Ahh não reparei muito bem... alto, magro, com um cabelo preto arrepiado, olhos pintados, muito pálido, devia estar anêmico o coitado.
Ele trincou os dentes. “Muito pálido, cabelo arrepiado e olhos pintados” lhe lembrava alguém.
— Sei... Notei que esse rapaz, o Nicolas, vai muito ao banco. Aliás, ele vai muito a vários bancos. Pensei que ele fosse office boy, mas não.
— Interessante! Sei de alguns podres do Nicolas, mas nunca tive provas concretas.
— Quem sabe você não esteja precisando disso aqui.
Demétrius lhe estendeu a mão segurando um papel todo amassado. Era um extrato bancário que ele pegou no lixo da casa de Nicolas.
Talita olhou espantada. — Nossa! Mas o Nicolas nem trabalha! E como ele faz pra ter essa grana toda no banco? Será que...
— Sabe, eu fui atrás de você porque sei que é esperta. Por que você não dá um jeito desse extrato chegar nas mãos de “alguém”? – se referindo a Julie.
Talita assentiu com o olhar. Pegou o extrato, guardou na bolsa e saiu. Ela lembrou que Nicolas estava fazendo alguma coisa suspeita pela internet, na época em que namoravam. Mas até então achava que talvez ele estivesse apenas hackeando algumas redes sociais ou games, coisas que ela não deu muita importância. Mas parece que agora o jogo mudou. E tinha certeza de que isso bastaria pra sua querida desafeta acabar com aquele namoro de uma só vez.
O plano de Demétrius era levar Daniel embora da pior maneira possível. “Ele ama a garota... – deu uma gargalhada – mas ela está matando o pobrezinho de tristeza. E eu, como tenho um bom coração, vou ajudá-lo a ficar com ela e então: BOO!”
Sua intenção era prender Daniel no flagrante quando esse finalmente ficasse com Julie.
Nicolas tinha muitas qualidades. Era generoso, carinhoso e um dos alunos mais bonitos da escola. Mas um dos seus pontos fracos era ser ciumento. Filho único, passava a maior parte do tempo sozinho. Às vezes se reunia para jogar RPG ou ir numa festa. Em casa costumava ficar horas sozinho no quarto. Mal via seus pais pois viajavam muito a trabalho.
Aprendeu a jogar pôquer com o pai quando era menor. E acerca de dois anos, passou a jogar pela internet, no nível mais baixo. Até então tudo bem, ele jogava só por diversão. Valia dinheiro, mas era muito barato. Essas rodadas mais baixas começaram a ficar fáceis demais e ele resolveu arriscar e mudar de nível o que lhe traria mais dinheiro e fama. Foi ficando viciado, sem perceber. Chegou a ganhar muitas vezes, mas ultimamente andava descontrolado. Passava uma boa parte do dia (e da noite) jogando. Ninguém sabia disso. Pior: estava devendo uma grana alta pra um jogador antigo, um dos donos do site. Teve que fazer um acordo com eles de trabalhar de graça até sua dívida acabar. O problema é que essa dívida tinha o dom da multiplicação. Cada vez ele tinha que jogar mais pra conseguir pagar o que devia e ir mudando de nível.
Ele precisava sair dessa, mas como contar pra Julie? Ela nunca entenderia. E essa nem era a pior parte...
No dia seguinte, Julie acorda atrasada, se arruma rapidamente e sai correndo. Ao sair, Daniel atravessa a parede e vai atrás dela.
— Julie! Eu vou com você até a escola, posso?
— Tudo bem, Daniel. Mas eu estou super atrasada! Temos que ir bem rápido! Mudando totalmente de assunto, posso te fazer uma pergunta?
— Depende. Só se você deixar eu te fazer outra. E sorriu.
— Tudo bem. Eu fiquei curiosa com uma coisa. Por que eu não vi outros nomes no seu túmulo? Desculpa perguntar isso, mas é que eu pensei que fosse da sua família. Eles são vivos?
— Ei! Você disse uma pergunta e a resposta é não. Mas não gosto de ficar falando sobre isso. Prefiro esquecer. – disse, olhando pro lado.
— Isso não é resposta! Tente! Por favor! – ela ficou esperando a resposta com aquele olhar desconcertante que só ela sabia dar.
Daniel ficou com uma expressão triste e olhando para o chão enquanto caminhava.
— Eu não tinha irmãos. Meu pai bebia e fumava e quando eu tinha 8 anos, ele saiu de casa e nunca mais voltou. Vivíamos só eu e minha mãe. Ela dava um duro danado e mesmo assim às vezes passávamos dificuldades.
Julie ouvia sensibilizada.
— Quando eu tinha uns 13 anos minha mãe surtou e foi levada pra uma clínica de doenças mentais e por lá ficou internada. Daí fui morar com a minha avó paterna. Eu mal a conhecia.
— Nossa, Daniel! Imagino como deve ter sido difícil. – e pôs a mão no ombro dele.
— Minha avó tinha muita grana, mas ela era fria. Eu podia fazer a pior coisa, ela não ligava. Aliás ela não ligava pra nada que eu fazia. Eu passava a maior parte do tempo na rua, ou tentando tocar violão. Ia pra escola arrastado. Fiquei amigo de um grupo de punks. Depois conheci o Martim e o Félix. Eles estudavam na minha turma.
— E logo ficou amigo deles também?
— Não! Eu era meio antissocial.
— Meio? – ela o interrompeu com um sorriso.
— Mas quando descobri que eles queriam montar uma banda, logo disse: “Essa vaga é minha!”. Eles não acreditaram que eu estava falando isso! Acabei conseguindo e fui morar com eles.
E continuou:
— Mas você já deve ter percebido que eu nunca desisto do que quero! – virou-se pra ela olhando fixamente. — Sabe, quando eu morri, foi minha avó que bancou o enterro naquele cemitério. E nunca mais voltou. Fiquei sabendo muito tempo depois que ela tinha morrido e foi enterrada num cemitério “de primeira classe” – disse sarcástico.
De repente eles ouvem um grito:
— Julie, Julie, peraí!
Era Valtinho. Veio correndo para alcançá-la.
— Oi Valtinho! – Julie olha pra Daniel, revirando os olhos e pensando “que saco”.
— E o Nicolas, já te pediu em casamento?
Daniel não acreditou no que estava ouvindo.
— Que ideia! Claro que não, né!
— Ele está caidinho por você!
— Valtinho, essa não é a melhor hora pra gente falar sobre isso!
— Por que não? Estamos só nós dois.
Então Daniel não se conteve. Meteu o pé na frente de Valtinho, que quase caiu.
Julie olhou pra Daniel espantada.
— Machucou, Valtinho?
— Não!
— Devia ter quebrado a perna! – disse Daniel.
Julie sabia que Daniel estava irritado e após aquela conversa ficou com pena dele.
— Valtinho, vai andando na frente que eu preciso ligar pra casa, senão você vai chegar atrasado.
— Não, imagina. Eu espero você!
Por sorte, Bia apareceu e viu os três. Chegou perto e cumprimentou:
— E aí! Vamos na frente? Preciso falar com você. – falou com Valtinho. — Até logo, Julie! – piscou pra amiga.
Quando ficaram a sós, Daniel falou:
— Julie, depois te faço a minha pergunta.
Ela o abraçou enquanto falava:
— Daniel, eu sinto muito pelo que te aconteceu. Nem sei o que dizer.
Ele deu um beijo na testa de Julie.
— Não precisa dizer nada. Até mais!
Nicolas estava parado atrás de uma árvore, observando tudo. Quando ela voltou a andar, foi correndo atrás. Colocou a mão em seu ombro.
Ela se virou, surpresa. — Nicolas!
— Com quem você estava falando? Era com o Daniel, não era?
— Era sim. O que isso tem demais?
— Eu não quero ver você sozinha com ele!
— Não tem nada a ver ficar com ciúmes dele. É só um fantasma!
— Então por quê você nunca me apresentou a sua banda?
— Eu já disse! Eles são fantasmas! Ninguém pode ver! Só aparecem pra quem querem e quando querem.
— Eu não conheço os outros, mas não gosto desse Daniel. Tenho meus motivos para não gostar dele, não acha?
— Nicolas, vamos colocar um ponto final naquela história! A gente já conversou. Eu e o Daniel somos apenas grandes amigos!
Nicolas não se convenceu. Estava com ciúmes dela.
— Fica tranquilo – ela disse. — Vou conversar com ele e isso não vai mais acontecer.
— Julie, eu gosto muito de você. Já te provei isso. Joguei tudo pro alto pra te mostrar.
Então Nicolas a beijou e foram juntos pra escola.
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