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17 Capítulo 17 - Reencontros e Descobertas
Notas iniciais
Daniel aproveitou que precisava sair para espairecer e resolveu ir ao mundo espectral. Quem sabe, visitar Clarisse. Nem sabia se queria mesmo ir lá, mas na falta de uma ideia melhor, decidiu aproveitar pra descobrir alguma coisa sobre Demétrius. Porém Daniel nem imaginava quanta emoção viveria ali.
Ao chegar lá, foi até o setor de reabilitação. Na entrada disse que estava procurando uma amiga.
— Ela se chama Clarisse, está aqui por causa de uma overdose.
O porteiro falou pra ele:
— Assim fica muito vago. Como ela é?
E Daniel teve que forçar a lembrança e veio aquela imagem na sua mente:
— Ela é linda! Quero dizer, ela é alta. Tem um cabelo liso ruivo, bem comprido. E tem uns olhos muito verdes.
— Ahhh eu já sei de quem você está falando. Ela está aqui faz bastante tempo e até hoje nenhuma melhora. Ela fica vagando aí pelos jardins. Se der sorte ela vai falar que você é o Daniel.
— Ela está com amnésia? É isso?
— A única coisa que ela fala é sobre um tal de Daniel. Deve ter sido algum namorado que morreu antes dela. Já vi muitos casos assim. Quando um morre o outro enlouquece e vem parar aqui.
Daniel ouviu aquilo e se sentiu ligeiramente culpado.
Foi em direção ao jardim. Tinha muitas árvores, flores, um lago pequeno, com peixinhos coloridos. Havia muitas pessoas ali nesse jardim. Os mais agressivos e os loucos ficavam presos numa ala separada. Ao lado havia outra área onde as pessoas já reabilitadas esperavam para terem alta.
Daniel avançou pelo jardim. Entre os internos, muitos conversavam sozinhos; uns só tinham movimentos repetitivos enquanto outros gesticulavam e falavam coisas incompreensíveis.
“Se a gente imaginasse isso aqui antes... de que adianta um lugar bonito assim, quando se vive no labirinto da loucura?”.
Olhava na direção de uma roseira e percebeu que havia uma uma moça de feições delicadas, quase transparente de tão branca. Ela parecia estar conversando com alguém. Chegou mais perto e viu que ela estava sozinha e que saiu dançando no meio do gramado, girando até ficar tonta e cair deitada. Ela continuou rindo alto.
— hahahahaha! Daniel, pare com isso! – ela delirava. — Não aguento mais ficar girando com você! Me dá aí um gole desse troço.
Daniel arregalou os olhos.
“Que cena triste. Deve ter usado droga muito pesada mesmo pra ficar nesse estado por tantos anos.”
Quando ele ia se virar, esbarrou no arbusto e chamou a atenção da moça.
Ela deu um pulo do chão. Esfregou os olhos e parecia estar meio tonta.
— Daniel! É você, Daniel?
Ele tentou sair despercebido, mas a moça deu a volta no arbusto e o olhou de cima embaixo.
— Daniel, meu amor! Você está aqui! Você veio me buscar!
Ela começou a chorar, o abraçando apertado.
— Oi Clarisse! Você se lembrou de mim. – ele disse emocionado.
— Eu nunca te esqueci, meu amor.
Ela continuou delirando.
— Lembra quando a gente se casou? A festa foi aqui, lembra? Ah... eu queria estar lá quando tudo aconteceu. Seu casamento foi bonito? Eu não me lembro de você com essa roupa. A gente não se casou com você desse jeito. Por onde você andou hein? Saiu ontem daqui sem falar nada...
Nada disso tinha acontecido além de sua imaginação. Daniel queria se livrar logo daquela situação constrangedora, mas ela continuava falando.
— Daniel, eu não aguentei quando soube que você tinha... — e se abraçou a ele. — Eu não agüentei, eu nunca imaginei... não tive escolha...
Ele reparou que seus braços tinham muitas marcas de agulha. Balançou a cabeça, segurou seu rosto e disse:
— Clarisse, está tudo bem! Você está aqui, vai ficar melhor. Não se agite.
Ela começou a passar mal, teve um acesso nervoso e foi levada por 3 enfermeiros. Saiu gritando:
— Daniel, a gente vai ser muito feliz! Eu juro!
Aquela cena tinha deixado ele muito triste.
“Tem certas coisas na vida que a gente nunca vai compreender, antes era eu que corria atrás dela igual um cachorrinho.” “Será que a minha presença vai fazê-la piorar?” – se perguntou já meio arrependido de ter ido ali.
Só faltava uma coisa agora. Ele tinha que ir atrás de informações sobre Demétrius.
Havia um setor com o cadastro de todos que entravam no mundo espectral e lá tinha o registro de fatos de suas vidas no plano terrestre.
Daniel foi até lá, e pediu para ver o registro da vida de Clarisse.
A senhora disse: — Me acompanhe, por favor!
“Hummm, aquele arquivo era enorme e só tinha uma senhora atendendo ali. Não devia ser muito procurado.” – concluiu.
Então ele teve uma ideia.
— Senhora, eu também preciso achar um registro de uma tia... Zulmira Lameiras. – inventou na hora.
A mulher foi calmamente até o final do enorme corredor, até se perder de vista.
Daniel aproveitou a oportunidade e pra ir até aos arquivos da letra D. Chegou em uma gaveta só de DEMÉTRIOS.
“Hum... isso vai ficar um pouco complicado” – pensou.
Mas observando as pastas, viu uma de cor diferente, feita de um material bem melhor. Foi primeiro nela. De cara achou o que queria. Correu os olhos pelas informações da pasta. Tinha muita bajulação, afinal Demétrius tinha um cargo poderoso ali. Seus olhos, de repente, pararam numa informação.
“Em vida, Demétrius foi condenado injustamente como mandante de um crime do qual não era culpado. Onde a vítima, o Sr. Amâncio, foi queimada viva em sua própria casa.”
Daniel sente que aquela informação ali merecia ser checada. “Demétrius é ruim aqui, imagina lá embaixo” – pensou.
Memorizou o local onde o tal de Amâncio tinha sido assassinado. Depois guardou tudo como estava antes. Voltou pro local onde estava a ficha de Clarisse. Pegou-a e deu uma olhada:
– presa por desacato à autoridade;
– direção sem habilitação e visivelmente embriagada;
– tentativa de suicídio;
– overdose de heroína, causando a morte.
Ele sentiu pena da garota. Por hora não podia ajudá-la.
A senhora finalmente voltou com uma pasta. — Zulmira Lameiras?
— Hummm não, desculpe. É Zulmira Calheiros. Mas a Sra. não precisa ter esse trabalho todo de novo. Eu volto aqui pra ver a ficha da minha tia outro dia. Muito obrigada.
Saiu de lá e passou pelo setor de reabilitação, para chegar até a portaria. No meio do caminho alguém o chama.
— Daniel!
— Ele para imediatamente. Aquela voz. Sentiu um aperto no peito. Olhou pra trás.
— Daniel, é você mesmo! Não posso acreditar. Como você cresceu!
A senhora passou sua mão no rosto dele, depois nos cabelos de anjo.
Ele levou um choque. Com a voz trêmula, perguntou:
— É-é você m-mesmo... mãe? – disse.
Já estava completamente tomado pela emoção. Há quanto tempo não via sua mãezinha! Ficou espantado ao se dar conta de quanto tempo havia passado desde que a viu pela última vez. Tinha até esquecido o que era isso, aquele colo onde sempre se sentia seguro.
Eles se abraçaram. As lágrimas desciam pelo rosto, sem que ele soubesse se eram de tristeza ou alegria. Desde seus 13 anos, Daniel não via sua mãe, que foi quando a levaram para uma clínica mental.
Nunca mais teve alguém que cuidasse dele. Pelo contrário, aprendeu a se defender sozinho muito cedo e a transgredir regras. Achava que a vida era muito curta para seguir regras idiotas.
Ele tinha planos de se tornar um cantor famoso, construir uma boa casa pra dar uma vida melhor pra sua mãe, depois que a tirasse de lá. Não teve tempo.
— Eu estou muito bem agora, Daniel, meu amor. Como você vê, falta pouco para eu sair daqui. – sorriu.
— Estou vendo e fico muito feliz de te encontrar assim. Parece que tudo que nos separou esse tempo todo, acabou de ser apagado da memória.
Daniel a abraçou apertado.
— Eu nunca te esqueci, filho. Não tive como sair de lá. Sinto muito por ter te deixado ao seu próprio destino. Aqui, vamos poder evoluir. Na verdade aqui não somos mais mãe e filho. Mas os laços que ficaram nos uniram pra sempre.
Ambos se olharam com carinho. Daniel deu-lhe um beijo de despedida. E, enfim, foi embora surpreso com o reencontro.
“Foi bom vir até aqui hoje. fez-me esquecer um pouco do ódio que eu estava sentindo.” – pensou.
Mas quando retornou à edícula, a mágoa que sentia por Juliana voltou. Juntava-se agora à culpa que sentia por ver o estado que Clarisse ficou por causa dele. Estava pensativo, deitado no sofá vermelho, lembrando-se do encontro com sua mãe e de toda saudade que já sentiu dela.
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