Apenas uma Fic
6 The Problem
Notas iniciais
Anne's P.O.V.
A última coisa que ouvi antes de passar pelo portal foi alguém gritando, "não, espere!"
Abri os olhos. Parecia que eu tinha acordado depois de ter dormido uns cinco dias. Estava no quarto da minha mãe, em frente ao computador. Via o menu principal de The Witch's House e escutava Lost Chair. Estava com o cabelo solto e usava aquela roupa típica de fim de férias: um pijama lindo, maravilhoso e confortável que eu não tinha tirado desde que acordei naquele dia.
... mas, espera, já não se passou um mês?
Olhei em volta. Antes que pudesse fazer ou dizer qualquer outra coisa...
— Anne! — exclamou Viola, me abraçando.
— Espera aí, O QUÊ?! — gritei. — Viola, sua doida! O que você tá fazendo aqui?!
Ela também tinha os cabelos soltos e vestia as roupas iguais às minhas, mas com as cores trocadas.
— Eu entrei no portal junto com você, agora vamos ficar juntas pra sempre! — riu a loirinha, me abraçando ainda mais forte.
— Mas a Gwen disse que você não podia vir comigo, que tinha que ficar lá!
Elen tem razão. Viola é muito burra.
— Falando sozinha de novo? — riu Elen.
Eu não percebi, mas a chamada do Skype ainda estava ligada.
— Elen! — exclamei. — Nós temos um problema!
Peguei o mouse e tentei fechar o jogo, sem sucesso.
— Okay, dois problemas.
— Lá vem! Fala o menos pior.
— O menos pior? O jogo não quer fechar.
— Ah, vai no gerenciador de tarefas, simples assim. Qual é o outro?
— Tá preparada?
Elen respirou fundo.
— Pode mandar.
— A Viola veio comigo.
Elen ficou calada por alguns momentos.
— Você não tá falando sério — afirmou.
— Elen, eu nunca falei tão sério na minha vida. A. Menina. Tá. Aqui. Comigo.
— Oi, Elen! — exclamou Viola.
— O QUÊ?! — explodiu Elen. — Eu não acredito nisso! E agora, o que vai acontecer? A Gwen disse que ninguém além de nós duas poderia passar! Mas é muito burra mesmo, argh!
Viola olhava para todos os lados com curiosidade, totalmente desligada da conversa.
— Cara... o que a gente faz agora? O jogo não quer fechar nem pelo gerenciador de tarefas.
— Sério? O meu também não... Pronto, agora é a maldição do jogo que não fecha. Tudo culpa da Viola.
— Viola, você vai ter que voltar — eu disse.
Ao ouvir seu nome, ela olhou para mim.
— Quem, eu? — indagou.
— Claro que é você, sua anta! — retrucou Elen. —Você conhece outra Viola?
— Calma aí, Elen! — exclamei.
— Calma aí! Ha! Essa é boa! — riu Elen.
— Mas por que eu tenho que voltar? — quis saber Viola.
— Não interessa porquê, você vai voltar e ponto! — gritou Elen.
— Anne! — chamou minha mãe. — Anne, eu não vou chamar de novo! Cadê você?
— Espera aí só um segundinho, Elen.
Levantei da cadeira e desci as escadas, para encontrar com mamãe na cozinha.
— Que foi, mãe? — perguntei.
— Eu que pergunto, o que foi? — questionou ela. — Tô te chamando tem quase meia hora! Parece que você foi parar em outro mundo!
Pois é, né, mãe. Acontece.
— Tá, tá, eu tô aqui, agora — retruquei, impaciente. — Me chamou pra...?
— Vem almoçar — mandou minha mãe.
— Almoço! Eu tenho coisa mais importante pra resolver agora com a Elen!
— É alguma coisa de jogo?
— ... pode-se dizer que sim.
— Então fala pra ela esperar que você vai comer agora.
— Mas mãe! Você não entende! O mundo vai acabar se eu não for resolver isso!
— Vocês tão jogando Minecraft?
— Q-Quê?! Não, é sério! O mundo, o Universo vai acabar! Esse e todos os outros!
— Outros...?
— Eu tenho que ir!
— Você tem que entender que o mundo não é feito só de jogos.
— Mas esse é um problemão! Um problema enorme, maior que... isso aí é lasanha?
Olhei para a mesa, onde descansava um tabuleiro com uma lasanha que praticamente implorava, "me possua."
— Ah, agora você quer comer, né?
Sacudi a cabeça, tirando qualquer pensamento que envolvesse eu e aquela maravilhosa lasanha. Afinal, se o mundo acabasse, não ia poder comer mais nenhuma.
— Mãe, essa parada é séria...
— Anne, cadê você? — chamou Viola.
— Fica quieta aí, Viola! — mandei.
— Quê? Viola? Que Viola?
— Anne, eu tô indo aí — disse Viola.
— Viola, sossega aí!
Parece que ela ficou mais burra ainda.
— Chega dessa de Viola e vem almoçar, menina — mandou mamãe.
— Fui.
Subi as escadas correndo e voltei para o computador.
— Elen, eu preciso muito da sua ajuda! — pedi.
— Que é dessa vez? — perguntou Elen.
— A minha mãe tá me chamando pra almoçar e a Viola...
Ouvi o barulho de alguma coisa caindo.
— ... Elen? Tudo bem aí? — eu quis saber.
— Tudo... quê? Ellen?
— Espera, O QUÊ?!
— Calma, gente! — exclamou a voz de Ellen. — Eu vim ajudar!
— Anne, volta aqui agora! — mandou mamãe.
— Anne, o que é isso? — indagou Viola.
— Anne, me ajuda! — pediu Elen.
— Uma coisa de cada vez, por favor!
Respirei fundo. Pensei com todos os meus miolos para não surtar de vez, tentando bolar um plano.
— ... Anne? — chamou Ellen.
— Já sei! — exclamei. — Elen, você conseguiria manter a Viola aqui?
— O QUÊ?! Mas nem por um milhão de reais! — retrucou Elen.
— Era pra você me ajudar, sabia?
— Não é só porque eu não suporto essa idiota, mas ela vai querer ficar contigo! Mas pra quê isso?
— É que a minha mãe tá me chamando pra almoçar e eu tenho que ir logo antes que ela comece a gritar mais alto, e ela vai achar muito estranho eu chegar lá embaixo com uma garota aleatória. — expliquei.
— Verdade. Tranca ela no banheiro, sei lá.
— Elen!
— Ué, é uma opção!
— Se eu tiver que te chamar mais uma vez, você vai ficar sem o computador pro resto das férias! — berrou mamãe do andar de baixo.
Até que não seria uma grande perda. Hoje é o último dia.
— Você ouviu, né? — eu disse. — Eu vou lá. E seja o que Deus quiser!
— Boa sorte! — riu Elen. — Pra que você veio, mesmo, Ellen?
Não fiquei lá tempo suficiente para ouvir a resposta.
— Viola, vem comigo — mandei.
Peguei na mão dela e fui até o meu quarto. Abri uma porta do guarda-roupa, e, dentro de um porta-joias – que de joia não tinha nada –, peguei duas fitinhas azuis.
— Faz duas trancinhas nesse cabelo, por favor.
Desci as escadas mais uma vez com a loirinha atrás de mim, e encontrei minha mãe no corredor, carregando uma pilha de pratos e talheres e indo em direção à porta dos fundos.
— Você tem que parar com esses jogos, parece que você só vive neles! — reclamou.
— Tá, tá, cadê o almoço?
— Lá fora.
— Lá fora? Por quê?
— Para de questionar e ajuda sua mãe! Pega os refrigerantes na geladeira.
— Refri...?
Não estava entendendo nada. Lasanha, refrigerante...
Tem alguma visita aqui em casa que eu não tô sabendo.
E com certeza não é a Viola.
Fui até a geladeira e peguei lá dentro duas garrafas de Fanta.
— Tá bom assim, Anne?
Olhei para Viola, agora com suas costumeiras trancinhas amarradas com as fitinhas azuis que eu a dei.
Sorri.
E ela retribuiu com um sorriso ainda mais adorável.
— Um amorzinho — respondi. — Vem, vamos comer.
Na minha casa, nós temos uma casinha dos fundos que nós usamos de escritório, e ao lado tem um espaço que nós usamos como uma segunda cozinha, e lá tem uma mesa maior que a que temos dentro de casa. Nós usamos este espaço de vez em quando quando está muito calor ou quando tem muitas pessoas. E é lá que nós fazemos os churrascos e todas as etecéteras relacionadas a comida e eventos.
E quando cheguei lá, só faltou gritar, "era só o que me faltava!"
A visita, na verdade, eram três: tias da minha mãe, irmãs da minha avó. As três estavam sentadas à mesa, pondo a conversa em dia.
Eu nunca tive paciência pra tentar decorar o nome de todas as tias, e não é hoje que eu vou ter.
Cheguei lá e coloquei as garrafas em cima da mesa. As tias olharam para mim e começaram a falar coisas como, "nossa, Anne, como você tá bonita!" e, "e como tá grande!"
Sinceramente, eu tenho coisa muito mais importante para me preocupar do que comentários de tia avó de como eu estou mais alta que minha prima de 3° grau.
E ignoraram completamente a menina de outro mundo logo atrás de mim.
Também estavam lá minha avó e meu irmão de 9 anos, Dan.
Minha mãe, que tinha entrado em casa de novo para buscar a lasanha, já estava de volta com o tabuleiro.
— Já falou com as tias, Anne? — questionou.
— Oi, oi, oi — eu disse, acenando.
— Fala direito!
— Eu não sei falar esquerdo.
Ba-dum-tss.
Muito engraçada, você, Anne.
O mundo acabando e você aí fazendo piada mais velha que a sua existência.
E minha mãe, que obviamente não gostou, me lançou aquele olhar mortífero de, "mais tarde a gente conversa."
Ela deixou o tabuleiro no centro da mesa e sentou-se em uma das cadeiras.
Foi aí que eu percebi que só tinha mais um lugar pra sentar.
— Mãe... vamos precisar de mais uma cadeira — avisei.
— Não tem mais nenhuma, já pegamos todas. — explicou mamãe. — Mas pra que mais uma?
— Cadê o resto dessas brancas e vermelhas? Tinha um monte!
— Aquela que você surrupiou pra usar na mesa do computador? Pra quê você quer mais cadeira?
— Pra mim! — exclamou Viola.
Ninguém pareceu escutar.
— Pra quê? — repetiu mamãe.
— Pra apoiar meu pé que não é, né? — retruquei. — Pra Viola, mãe!
— Chega dessa história de Viola, menina!
Chega dessa história de Viola, Anne. Divide a cadeira com ela.
E foi exatamente o que eu fiz.
— Quem é essa aí, Anne? — perguntou Dan.
— Essa? É a Viola — repliquei. — Espera, você tá vendo ela?
— Tá doida? Claro que eu tô!
— Vendo quem? — indagou uma das tias.
— A Viola! — retruquei.
— Anne, chega disso... — pediu mamãe.
— Mas mãe...!
— Ah, é daquele jogo? — questionou Dan.
— Isso! — exclamei.
— E como que ela tá aqui?
— É uma longa história, cara.
— Anne, fica direito nessa cadeira — mandou mamãe.
— Não dá.
— É, mãe, não dá, aquela menina tá ali — explicou Dan.
— Que menina? — quis saber minha avó.
Levei uma das mãos ao rosto, sem paciência.
Mas que agonia! Eu aqui sabendo que o mundo tá acabando e tendo que explicar pro pessoal cadê a Viola!
— Vocês não conseguem me ver? — perguntou Viola.
Ninguém respondeu. Ela sacudiu os braços levantados, mas ninguém viu. Dan deu uma risada.
— Sossega aí, Viola. Ninguém tá te vendo.
— Que nem meu pai não te via?
— Exatamente. Só que, agora, todo mundo tá achando que eu pirei de vez.
Eu nem consegui aproveitar a comida direito, de tão preocupada que estava.
— Mãe, a Viola... uh, quer dizer, eu quero mais.
— Tudo bem.
Minha mãe pôs mais lasanha no meu prato, mas quem comeu foi Viola.
— Isso é muito bom — comentou ela, de boca cheia.
— É mesmo — concordou Dan.
— É mesmo o quê? — questionou mamãe.
— Isso é muito bom.
— Mas quem disse isso?
— Ela.
Dan apontou pra Viola.
— Anne?
— Não, ela, a loirinha!
— Mas não tem ninguém ali!
— Eu tô aqui! — exclamou Viola.
— Argh, posso ir? — resmunguei.
— Aonde?
— Falar com a Elen, ué!
— Não. Você vai ficar aqui com as visitas. E ainda tem a sobremesa.
Revirei os olhos.
— Vem aqui, Viola — eu disse. — Vai lá no quarto e fala com a Elen que eu vou demorar mais do que eu esperava.
— Okay!
Ela levantou da cadeira e entrou em casa. Voltou um tempinho depois, quando minha mãe estava colocando o sorvete nas tigelas:
— Acho que ela não acreditou muito em mim. Olha, o que é isso?
— Sorvete — repliquei. — Quer provar?
— M-hm!
Viola sentou-se na cadeira de novo e eu dei uma colherada para ela. Seus olhos brilharam e parecia que estava prestes a vomitar arco-íris.
E ela era a coisinha mais fofinha do mundo.
— Isso é tão perfeito! — comentou.
Todos me olhavam como se dividir o sorvete com alguém fosse uma coisa de outro mundo.
— Com quem você tá falando, filha? — perguntou mamãe.
— Nem respondo mais.
— É com a Viola?
— É.
— A Viola não existe, Anne...
— Claro que existe! Se ela não existe, como estou dividindo o sorvete com ela agora? Como eu a vejo e a sinto?
— Eu não a vejo.
— Mas a sente!
Peguei a mão de Viola e encostei-a no braço de mamãe.
Minha mãe quase gritou e tirou o braço como se tivesse sido queimada.
— O-O que foi isso...? — indagou.
— Viu? A Viola existe! Só porque não consegue vê-la não quer dizer que ela não está aqui.
Minha mãe sacudiu a cabeça.
— Esses jogos estão fazendo você imaginar coisas. E você tá passando isso pra mim.
— Mas... m-m-mas o Dan consegue ver! Não consegue?
Dan fez que sim.
— Viu?!
— Mais tarde nós conversamos, Anne.
Minha mãe não pode vê-la, assim como o pai de Viola não podia me ver. Parecia haver um tipo de magia, ou feitiço, que apenas as crianças podiam ver, sentir e ouvir as pessoas que vinham de lá para cá ou vice-versa.
Depois do sorvete, todo mundo foi pra sala e eu tive que ir junto, pra "dar atenção pras visitas".
Mãe.
Olha só.
Se eu não for falar com a Elen agora, nós não vamos ter mais visita nenhuma.
Portanto, eu realmente tenho que ir.
Depois de uns cinco minutos agonizantes de Viola tentando socializar com gente que não a enxerga e conversa fútil, saí de fininho da sala e fui falar com a minha mãe na cozinha:
— Já posso ir falar com a Elen?
— Você pode pelo menos me explicar o que aconteceu de tão desastroso pro mundo acabar?
— Posso explicar depois?
— Tá. Mas a gente conversa mais tarde.
— Yes! Vem comigo, Viola!
Subimos as escadas correndo e fomos direto para o computador.
— Elen? — chamei.
— Que demora foi essa? Putz, tava quase desligando.
— Eu falei que ela ia demorar! — exclamou Viola.
— Ninguém mandou não acreditar na Viola — eu ri.
— Mas por que demorou tanto? — perguntou Ellen. — A gente tava até pesquisando como salvar o mundo aqui no... Boogle.
— Google — corrigiu Elen.
— Umas tias da minha mãe brotaram aqui em casa do nada nessa meia hora que durou um mês.
— Tias? Que elas foram fazer aí?
— Visitar, ué. Esqueceu que hoje é domingo? Foi por pouco que eu consegui subir.
— Tá, tá, mas o que a gente faz agora?
— E eu sei lá!
Pensei um pouco.
— Sinceramente, por que você veio, bruxinha? — inquiri.
— Gwen disse que eu poderia ajudar vocês — replicou Ellen. — Já que não dá pra piorar a catástrofe que já começou...
— Mas ajudar como? — perguntei.
— Que que você acha da gente se encontrar, já que a gente mora perto? — sugeriu Elen. — Fica mais fácil resolver isso pessoalmente.
— Pode ser — concordei. — Vocês vêm aqui ou nós vamos aí?
— Nós vamos aí. Daqui a uns quinze minutos a gente deve estar chegando.
— Okay, vou avisar minha mãe.
— A gente se vê.
— Tchau.
Desliguei a chamada do Skype e desci as escadas novamente.
— Mãe, só pra avisar — eu disse. — A Elen vai passar aqui.
— O quê? Agora? Sem marcar nada antes?
— É urgente, mãe. Não dá tempo de marcar nada antes.
— Mas o que é que vocês estão fazendo de tão importante, meu Deus?
— Tentando salvar o Universo, mãe.
Elen's P.O.V.
Cara...
Eu sabia que Viola era burra, mas não sabia que chegava a tanto!
Eu sei, eu sei, ela só queria ficar com Anne, mas mesmo assim. Ela fez uma besteira tão grande que vai acabar com o Universo e elas nem vão poder ficar juntas.
Aliás, nem sei o que vai acontecer. A gente pode explodir do nada ou, sei lá, o mundo vai acabar aos poucos?
Mas o que importa é que o mundo vai acabar e a culpa É DA VIOLA.
Sinceramente, Viola ultrapassou todos os limites da burrice.
— Pra que você veio, mesmo, Ellen? — perguntei.
— Eu vim pra ajudar! — replicou a bruxa.
— Ajudar como? Fez um contrato com a Gwen?
— Não, isso é sério! Gwen me explicou umas coisas, mais ou menos o que a gente tem que fazer, mas ela tava com tanta pressa que praticamente me empurrou pra dentro do portal sem falar quase nada.
— E o que ela disse?
— Disse alguma coisa sobre esperar a hora certa. Que a gente tinha que ir até a casa da Anne, e esperar lá.
— E essa "hora certa" vai demorar muito?
— Eu disse, ela não explicou muita coisa.
— Só espero que acabe logo...
Ficamos fazendo pesquisas aleatórias no Google, como, "como salvar o mundo" e, "como abrir um portal pro limbo," até que Anne voltasse.
E aparentemente a única forma de salvar o mundo era reciclando.
— Elen? — chamou Anne.
— Que demora foi essa, hein? Putz, tava quase desligando.
Decidimos, então, nos encontrar na casa dela.
— A gente vai morrer — eu disse, assim que Anne desligou a chamada.
— A gente não vai morrer, Elen — afirmou a bruxinha, tentando me incentivar.
— Como você tem tanta certeza?
— Eu não tenho. Só estou tentando ser otimista.
Ellen sorriu.
— Tudo bem, senhorita otimista. Vamos até a casa da Anne antes que seja tarde demais.
Saímos da saleta do computador.
— A casa dela fica muito longe? — quis saber Ellen.
— Nem. Uns dez minutos de bike e a gente tá lá.
— A gente vai de bicicleta?
— Claro, você acha que eu tenho cara de quem dirige?
— Na verdade tem sim.
— Okay, eu dirijo sim, mas que carro?
— O do seus pais?
— Meu pai saiu.
Fomos até a cozinha, onde minha mãe secava os últimos pratos.
— Mãe! — chamei.
— Finalmente saiu do computador, né? — resmungou ela.
— A gente tem que ir à casa da Anne agora.
— O quê? Agora? Sem marcar nada antes?
— Não dá pra ser depois, não dá tempo de marcar nada.
— Por quê?
— É uma longa história — disse Ellen.
Minha mãe ignorou a garota completamente e ficou esperando que eu respondesse.
— Por quê, Elen? — repetiu.
— Não dá tempo de explicar!
E, mesmo que eu explicasse, ela e meu pai iam me internar num hospício.
— Você não vai até lá sem um bom motivo. O que tem de tão urgente assim?
— Eu explico tudo no caminho. Mas vamos logo!
— Por que você tá com o braço assim, esticado? Parece que tá segurando a mão de alguém...
— Ah, essa é a Ellen, minha amiga.
— E eu também sou um dos motivos pra senhora nos levar até a casa da Anne — explicou Ellen.
De novo, minha mãe ignorou a menina.
— Você não acha que já é meio grandinha pra ter uma amiga imaginária, não?
— Imaginária! Ela é de verdade, mãe! A senhora não tá vendo ela?
Minha mãe fez que não.
— Mas enfim, isso não vem ao caso! — exclamei, impaciente. — A gente tem que ir à casa da Anne agora ou então todo mundo morre!
Nesse momento, ouvimos o barulho de um trovão, avisando que um temporal estava prestes a cair.
— Você não vai até lá mesmo, muito menos agora. Olha o tempo!
— Argh, não tem jeito!
Saí da casa, peguei minha bicicleta e abri o portão.
— Aonde você pensa que vai com essa bicicleta, mocinha? — indagou minha mãe.
— Salvar o mundo! — exclamei. — Vem, Ellen!
A bruxinha veio correndo e subiu na bicicleta.
— Volte aqui agora, Elen!
Ignorei.
— Você vai ficar sem o computador!
Já estávamos na rua. Subi na bicicleta também e comecei a pedalar.
Minha mãe, ao invés de ir correndo atrás de mim, entrou novamente em casa. Com certeza iria ligar para o meu pai pra falar que eu tinha fugido de casa e que era pra ele vir atrás de mim.
Pobre iludida não sabe que ele está preso num engarrafamento e não vai chegar em casa tão cedo.
Fui pedalando, tentando lembrar o caminho e rezando para que chegássemos lá antes da chuva.
— Me sinto até mal fazendo isso — comentou Ellen.
— O quê? Fugindo de casa? — perguntei.
— É.
— Você não já fez coisa muito pior?
— Já, sim. Mas eu fugi de casa porque ela estava pegando fogo e meus pais foram mortos.
— Como seus pais morreram?
— Eu os matei.
— O QUÊ?!
— Você nunca leu meu diário?
— Tenho preguiça de ler.
Finalmente, chegamos na casa da Anne. A menina estava andando impacientemente pelo quintal.
— Anne! — chamou Ellen.
— Ah, finalmente!
Ela correu na direção do portão e abriu-o.
— Sua mãe ligou — disse. — Perguntou se estava aqui. Parecia preocupada.
— É que a gente meio que fugiu de casa — replicou Ellen.
— Ela não queria nos deixar sair, de jeito nenhum — completei.
Entramos no quintal.
— Elen, fugindo de casa? — riu Anne.
— Era isso, ou o mundo acabava. O que você queria? — retruquei.
— Aquelas tias da sua mãe ainda estão aí? — quis saber Ellen.
— Estão, e eu acho que elas não vão embora tão cedo — respondeu Anne.
Anne trancou o portão novamente e nós entramos na casa. Deixei a bicicleta na varanda e olhei para dentro. Sentadas no sofá, estavam a mãe e a avó de Anne e outras três mulheres que eu não reconheci – talvez as tais tias –, todas olhando para a enorme TV de 50 polegadas. Na mesinha debaixo da TV, estava Bisnaga, a cachorra de estimação da família.
— Oi, gente — cumprimentei. — Eu nem falei que eu não vinha sozinha, né?
Ellen acenou para o pessoal.
— Mas... só tem vocês duas aí — disse a mãe de Anne.
Anne me puxou para perto e disse:
— Elas não conseguem ver a menina.
— Também? — indaguei.
— Depois eu te explico.
As mulheres pareceram ignorar o assunto.
— O que houve, Elen? — perguntou a mãe de Anne.
— Bom, talvez a Anne já tenha falado com a senhora, mas nós temos um problema muito importante para resolver — expliquei.
— Então... vou ligar pra sua mãe, pra dizer que você está aqui e que está bem, okay?
— Okay.
Percebi que Viola não estava na sala.
— Hey, Anne, cadê a Viola? — inquiri.
— Você também com essa de Viola, Elen? — disse a mãe de Anne.
— É, tia, ela é o problema.
— Ela tá lá em cima jogando com o meu irmão — respondeu Anne. — Minecraft.
— E ela sabe?
— Não.
Anne riu. Subimos as escadas. No mesmo instante em que coloquei o pé no último degrau da escada, uma chuva tão forte que mais parecia uma cachoeira caiu, e todas as luzes se apagaram.
— Hey, o que houve? — perguntou a voz de Viola. — Anne, cadê você?
— Tô aqui, Viola — respondeu Anne.
Fui tateando tudo até chegar ao quarto dela, segurando a mão de Ellen. Ainda conseguia ver um pouco, mas mesmo assim, Ellen conjurou umas três velas, que ficaram flutuando à nossa volta. Dan passou por nós e desceu as escadas.
— Eu estou com medo, Anne! — exclamou Viola, abraçando Anne.
— Ah, cala boca, Viola! — mandei.
— Não fale assim com ela, Elen! — disse Anne.
— Não falar assim com ela? Haha, pelo o que ela fez, eu deveria matá-la, isso sim! Lembre-se de que estamos nessa situação por causa dela, Anne!
— Mas ela só queria ficar comigo...
— Mas se não fosse por ela, estaríamos muito bem, não tentando salvar o Universo, sendo que não fazemos nem ideia de como vamos fazer isso! E É TUDO CULPA DELA!
Viola abaixou o rosto, colocando suas mãos nele. Parecia estar chorando.
— Olha só! — exclamou Anne, abraçando-a. — Você fez ela chorar!
— Ela não estaria chorando se estivesse lá, quieta no mundo de TWH!
— Estaria sim, sentindo a minha falta! Lembre-se que um minuto aqui é um dia lá, Elen, seria muito mais tempo que você pensa! Imagina, você pensa em uma pessoa por um minuto, não é muita coisa, não é? Agora imagine ficar pensando em uma só pessoa dia após dia, sabendo que nunca mais vai vê-la!
— Isso que está acontecendo, é tudo minha culpa, não é? — soluçou Viola. — Me desculpe, Elen, não queria que isso acontecesse!
— Mas Gwen avisou o que poderia acontecer se fizesse isso, sua burra!
— Pelo amor de Deus, para de falar dela assim, por cinco minutos!
Ninguém falou mais nada durante esses cinco minutos. Apenas escutava o barulho do temporal, Viola choramingando e Anne tentando acalmá-la.
— Tenso — comentou Ellen, quebrando o silêncio.
Suspirei, olhei para baixo e disse:
— Me desculpe, Viola.
— Hm... o quê?
— Você não vai me ouvir falar isso de novo.
Viola sorriu.
— Tudo bem, Elen.
— Okay, agora, o que nós podemos fazer? — perguntou Anne.
— Esperar — replicou Ellen.
— Esperar — repetiu Anne. — Esperar o quê?
— A hora certa.
— E quando é essa hora certa? Vai demorar muito? A gente vai morrer antes?
— Calma! A Gwen também não me explicou muita coisa!
De repente, uma luz acendeu no quarto ao lado. Me levantei da cama para ver o que era.
— Anne... por acaso você tem um gerador especial só pro computador? — perguntei.
— Vou nem responder.
— Então vem cá.
Anne levantou-se do chão e olhou pela porta. O computador estava ligado, tocando Lost Chair.
— Que louco! — exclamou Anne. — Vamos até lá ou...?
— Claro!
Fomos nós quatro para a mesa do computador. Ellen e eu sentamos nas duas cadeiras que haviam lá e Anne e Viola ficaram de pé, atrás de nós.
O PC não parecia querer abrir mais nada, somente o jogo. Não era possível começar um novo jogo, apenas continuar escolhendo um dos saves. Escolhi o único que havia lá e comecei a jogar. Eu não era Viola, nem Ellen, nem o gato.
Eu era Gwen.
Estava no mundo dela. Naquele lugar não tinha nada além de um monte de grama seca e umas árvores, e não tinha outros mapas. Fui ver meus itens e eu vi que tinha uma coisa chamada portal generator. A descrição era "o único jeito de as coisas voltarem ao normal." Bom, vou usar, né?
Selecionei o item e apareceu a pergunta, "você tem certeza? Só pode ser usado uma vez. Se for usado de maneira incorreta, não há mais volta."
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