Apenas um soldado
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Onde estão os corpos? Precisamos de todos eles.
— Senhor, alguns estão irreconhecíveis.
— Não me ouviu dizer? Podemos reaproveitar alguma coisa.
— Sim, senhor!_ o soldado partiu após fazer uma reverência.
Minha primeira memória era estar dentro de um tipo de tubo com água e alguns cabos ligados em meu corpo para me manter estável. Eu estava acordada, observando tudo calada. Vi alguns dos "experimentos" que faziam com os cadáveres dos soldados. As partes que consideravam boas, eram usadas para fazer um novo combatente. Algumas estratégias também eram discutidas naquele laboratório, onde argumentavam que essa nova descoberta poderia reduzir os custos com um exército. Não sei quanto tempo passei presa dentro daquele tubo. Regularmente, algum cientista confirmava como estavam os meus sinais vitais e anotava em um papel. Em um dia qualquer, simplesmente desligaram a energia do tubo, desconectaram os cabos e me tiraram de lá. Eu me observei, encontrei cicatrizes em meu corpo que não lembrava como foram parar lá. Outras marcas eram por conta do experimento. Olhei ao redor e encontrei várias pessoas de jaleco branco me observando com curiosidade, como se esperassem algo de mim.
— Senhores, apresento o nosso primeiro guerreiro feito a partir de uma nova inteligência. Seu nome é Zero.
— Zero..._ eu repeti baixo, para mim mesma.
— Soldado, lembra de alguma coisa?
— Eu me lembro... da minha mãe, minha esposa... e de estar sozinho no frio, com meu peito aberto depois de uma bomba explodir no alojamento.
— São memórias das partes que colocamos em você. Esqueça tudo. Um soldado não precisa de memórias.
— Eu... não preciso?
— Não. Um soldado não precisa pensar, ele deve apenas lutar pelo seu país. É isso que deve fazer, Zero.
— Eu lutarei... pelo meu país.
— Faça a reverência._ disse, colocando uma mão nas costas e a outra logo acima, na cabeça. Sua postura era firme e de respeito. Eu o imitei.
— Sim, senhor.
Os rostos curiosos pareciam felizes, seus olhos brilharam em minha direção. Eu mantive minha postura até ser dispensada. Me entregaram roupas e armas, fui treinada rigorosamente para exceder a força e velocidade de um combatente normal. Eu não sabia quantos dias haviam se passado, não precisava saber disso. Não precisava pensar nem sentir, apenas lutar. E isso era fácil. Mas em um momento, se tornou sufocante. Uma senhora me encontrou em um de meus treinamentos, se jogou em meus braços e soluçou sem parar. "Saori" ela dizia, enquanto pegava meu rosto com suas mãos pequenas e trêmulas. Meu corpo reagiu sozinho, lhe abraçando apertado. Ela devia ser importante para essa garota. A senhora logo se afastou para me olhar fixamente, aparentando estar em choque.
— Não é você... Não são seus olhos._ sussurrou enquanto dava alguns passos para trás, trombando no comandante.
— O que faz aqui? Essa área é restrita._ ele advertiu.
— Minha filha... O que fizeram com Saori?!
— Ela foi um soldado excepcional, mantivemos sua presença em nosso exército._ a senhora alternou seu olhar entre o comandante e eu.
— Quer dizer que ela... morreu?
— Sinto muito.
— Ela morreu... e vocês usaram o corpo dela? Vocês usaram o corpo dela! Estão desrespeitando a mim e a minha filha!_ ela gritou, batendo desesperadamente no comandante.
Não entendi, ela era fraca e pequena. Jamais conseguiria ganhar dele. Mesmo assim, ela o bateu até perder o fôlego e cair de joelhos no chão. Levou as mãos ao rosto e voltou a chorar, sussurrando "Saori". O comandante permaneceu imóvel enquanto olhava para a senhora. Quando parecia não haver mais o que chorar, a senhora se levantou e caminhou novamente até mim.
— Não é sua culpa._ ela sorriu, e de alguma forma eu fiquei... não sei. Meu corpo reagiu aquela expressão.
Antes de partir, a mesma olhou novamente para o comandante. Um olhar que parecia estar pronta para matá-lo quando pudesse. Mas ela não poderia, ela não conseguiria. O comandante caminhou até mim, eu o reverenciei. Ele me encarou e reforçou o que me dizia todos os dias.
— Qual seu objetivo, soldado?
— Lutar pelo meu país, senhor!
— Dispensado.
— Sim, senhor!_ eu decidi voltar para meu alojamento.
Um tempo se passou depois desse incidente. Estava preparada para entrar em batalha. Minhas armas estavam carregadas e eu estava pronta para sair, quando escutei a voz do comandante e um outro homem em uma das salas.
— Zero pode se tornar instável, precisamos monitorá-lo frequentemente. Não podemos esquecer que usamos mais de 7 corpos para criá-lo.
— Não acho que precisamos nos preocupar demais. Desde o começo se mostrou eficiente, os outros nem conseguiram manter o controle.
— Os primeiros testes sempre devem ser supervisionados.
— Só precisamos mantê-lo sem emoção. Afinal, um soldado não precisa de sentimentos.
— Eu luto pelo meu país._ continuei a caminhar, repetindo a frase como se fosse um mantra.
Parti para a batalha junto com outros soldados. A estratégia era invadir a base do inimigo o mais breve possível, para evitar que usassem suas bombas em nós. Concluímos que essas bombas eram feitas na hora, ou seja, era um armamento que causava bastante dano porém custava muito tempo, então corríamos contra ele. Discutimos então que eu atacaria a base, com o restante da tropa me dando cobertura. Impulsionei minhas pernas, me preparando para a corrida, quando passei meus olhos por um corpo jogado entre vários destroços. Minha força escapou de minhas pernas e perdi o impulso, eu conhecia aquele cadáver. Era uma mulher. Uma mulher bondosa e amável. Minha... esposa? Senti uma dor forte no meu peito e me ajoelhei, segurando a minha blusa com ambas as mãos. Minha respiração estava irregular e senti algo rolar dos meus olhos. Toquei levemente e parecia... água? Coloquei meu dedo na boca para confirmar, mas era salgada. Não sabia que líquido era aquele, mas saía dos meus olhos sem parar. Meus companheiros me puxaram de volta para a base e me sacudiram até eu voltar ao normal.
— Zero, você está bem?
— Eu... luto pelo meu país._ sussurrei. Todos me olharam tensos._ Desculpem, vamos seguir com a missão.
Tomei a posição em que estava antes, impulsionando novamente as minhas pernas e evitando contato visual com aquele cadáver. Sabia que se olhasse teria aquele mesmo desconforto no meu peito. Corri o mais rápido que pude, sendo acertada de raspão por alguns disparos. Invadi a base inimiga rapidamente, puxei uma faca do meu bolso e eliminei todos os inimigos. Quando estava prestes a partir, encontrei duas pessoas agachadas, com sangue por todo o corpo. Seus olhos estavam arregalados, pareciam assustados. Pelo estado deles, aquele sangue parecia ser de outra pessoa.
— Apresentem-se._ eu disse, apontando minha faca para os dois.
— P-por favor... nos salve..._ o garoto tremia. Já a garota ao seu lado não conseguia ao menos se pronunciar.
— Eu disse para se apresentarem._ aproximei minha faca.
— E-eu sou... Kouji, e-essa é minha irmã A-Akemi...
Eles não apresentavam ameaça. Olhei por todos os lados em busca de mais algum inimigo, só haviam aqueles dois.
— Vão embora, saiam daqui.
— O-obrigado! Vamos, Akemi. Vamos!_ ele puxou a garota e correram desajeitados pelo campo de batalha.
Eu corri um pouco distante deles, com uma bandeira branca indicando que estava tudo OK. Assim, meus companheiros não atirariam naqueles dois. Ao chegarmos na nossa base, todos começaram a festejar. Eu encarei aqueles dois, que foram aprisionados pelo comandante assim que chegamos. Eles estavam amarrados com correntes, nos pulsos e nos tornozelos. Fui até eles, que continuaram me agradecendo.
— Vocês estão presos, por que estão felizes?
— Porque estamos vivos._ o garoto sorriu. Eu não entendia._ Como é seu nome?
— Zero.
— Mas Zero é um número.
— Assim está bom. Devo lutar pelo meu país e nada mais.
— Você não tem vontade de nada?
— Eu sou um soldado.
— Você é uma garota!_ a menina falou alto, me surpreendendo. Era a primeira vez que se pronunciava.
— Akemi, não fale assim. Ela nos salvou!_ o garoto sussurrou alto, dando um sermão.
— Você é uma garota e a partir de agora seu nome é Shiro!
— Shiro?_ perguntei, sem entender.
— Sim, porque seu cabelo é branco._ ela sorriu, em vitória.
— Há, que bela explicação para um nome._ ele riu, sendo seguido por ela.
Aquela sensação, os sorrisos deles, me despertou alguma coisa. Eu sentia meu corpo... quente e leve. A partir desse momento, passei a visitá-los frequentemente em sua cela, levava comida e ficávamos conversando. Eu me sentia bem.
— Shiro-nee, quando você vai arrumar um namorado?_ a garota perguntou sorrindo, enquanto comia seu pão.
— E o que é isso?
— A-Akemi, pare de deixá-la desconfortável!
— Mas você gosta dela, Kouji-nii.
— Akemi!_ ele gritou, desesperadamente tampando a boca dela com outro pão.
— Esse pão não era seu? Não vai ficar com fome?
— Está tudo bem, ela é mais nova. Precisa de comida._ assenti. Depois de alguns minutos, ele me perguntou curioso._ Quantos anos você tem, Shiro?
— Eu não sei._ ele encarou o chão assim que me ouviu, parecia tenso._ Acho que devo ter a idade de vocês, não somos tão diferentes.
— Eu tenho 16 e a Akemi tem 12._ a garota assentiu, confirmando o que o irmão disse._ Nossos pais... morreram na guerra. Estamos sozinhos desde então, tentando sobreviver.
— E você, Shiro-nee?_ a garota perguntou.
— Não tenho pais, fui criada a partir de soldados mortos na guerra._ eles pareciam chocados. O garoto agarrou minhas mãos de repente.
— Assim que essa guerra acabar, vamos viver juntos, nós três. Seremos uma família._ ele disse bem sério, me olhando nos olhos.
Aquilo fez meu coração bater mais forte e mais rápido. Eu não entendia. Precisava ir para o laboratório verificar, eu poderia estar doente. Me levantei bruscamente, assustando os dois.
— Eu preciso ir para o laboratório._ eu saí da cela logo depois.
Chegando lá, um dos cientistas me examinou e disse tranquilamente.
— Não tem nada de errado com seu corpo ou sua condição física e mental, está tudo funcionando perfeitamente.
— Isso é estranho...
— Algo te preocupa?
— Meu coração... parecia estar acelerado agora pouco. Não estou doente?_ o cientista deu uma leve risada e antes que pudesse responder, o comandante o interrompeu.
— Você não precisa pensar, soldado. Diga qual seu objetivo._ eu o reverenciei.
— Sim, senhor! Lutar pelo meu país!
— Isso mesmo. Já que está ciente, dispensado.
— Sim, senhor!_ eu saí do laboratório, me encostando na parede. Pude ouvir o que conversaram a seguir.
— Eu disse, não disse? Precisamos mantê-lo sob vigilância.
— Besteira. Ele é um soldado, sem sentimentos ou qualquer coisa inútil.
— Errado. Seu corpo é de uma garota de 18 anos, com uma mãe idosa e doente. Seus olhos são de um homem de 35 anos, que viu seu filho morrer na guerra. Seu coração é de um homem de 25 anos, com uma esposa grávida. Quer que eu continue?
— Tsc._ o comandante trincou os dentes.
— Eles tinham sentimentos, senhor. E com todo respeito, se usamos os corpos deles para gerar Zero, então ele também terá sentimentos.
— Faça algo sobre isso. Use a inteligência para apagar qualquer vestígio de emoção, isso é desnecessário._ o cientista o encarou, parecia discordar._ Ele luta pelo seu país, só isso.
Percebi que o comandante estava prestes a sair da sala, então me apressei e fui para meu alojamento. Não sabia o que estava acontecendo com meu corpo. Depois de ouvir tudo aquilo, me sentia estranha. Meu corpo estava pesado e... quente. Mas não era a mesma sensação de quando eu estava com os irmãos. Era ruim. Minhas mãos estavam fechadas com tanta força que ficaram com marcas das minhas unhas. O que era aquilo? Senti uma súbita vontade de socar a parede, e fiz. Logo vi que abri um buraco pequeno nela e meu punho estava sangrando. Doía, mas não tanto quanto meu peito. Eu estava doente, e nem os cientistas do laboratório conseguiam resolver. Me levantei e fui até a cela dos irmãos. Ao chegar lá, os encontrei dormindo. Meu peito parou de doer assim que os vi.
— Por quê?_ sussurrei. Foi o suficiente para acordar a garota.
— Shiro...nee?_ ela perguntou sonolenta, passando a mão pelos olhos.
— Volte a dormir.
— Seu sorriso... é bonito. Sorria mais._ ela sorriu.
Meu sorriso? Toquei no meu rosto e percebi que meus lábios estavam levemente curvados. Então isso era sorrir?
— Akemi.
— O quê?
— Por que as pessoas sorriem?
— Elas fazem isso quando estão felizes.
— Felizes?
Fazia sentido. Kouji estava sorrindo quando estava preso mais cedo, mas era porque estava vivo. Ele estava feliz por estar vivo. Mas e eu? Pelo que eu estava feliz?
— Eu não entendo porque sorri.
— Você estava feliz. Você gosta de ficar com a gente?
— É agradável.
— Então é por isso que você sorriu. Eu também gosto de passar tempo com você e o Kouji-nii.
— Então... eu não estou doente?_ ela riu.
— Por que estaria? Ter emoções é doença agora?
— Mas... eu não preciso disso. Eu sou um soldado.
— Não. Você é uma garota linda, chamada Shiro. É a Shiro-nee._ ela sorriu.
Depois de ouvir aquilo, eu sorri. Sorri tanto que meus dentes ficaram à mostra. Era bom, era bom sorrir. Era bom se sentir feliz. Eu gostava daquilo.
— Você deveria ir dormir, Shiro-nee. Se o Kouji-nii ver seu sorriso agora, é capaz de achar que está sonhando.
— Por quê?
— Ele é apaixonado por você.
— O que é isso?
— Um sentimento de amor. Bom, é um pouco diferente do que ele sente por mim. Romanticamente falando.
— Romanticamente?
— Ele quer te beijar.
— Beijar?
— Sim. Na boca._ ela disse, apontando para os próprios lábios.
Não entendi qual a diferença, então me aproximei da porta e a olhei antes de sair.
— Obrigada por me ajudar.
— Eu vou te ajudar sempre que precisar, Shiro-nee._ ela sorriu e eu retribui.
Fui até o alojamento e me deitei, fechei os olhos enquanto sorria. Era muito bom finalmente entender e poder demonstrar. Naquela noite, eu sonhei. Sonhei que não havia guerras nem imposição de poder, apenas as pessoas reunidas em um grande campo florido e repleto por árvores. Nós três estávamos lá, embaixo de uma árvore, conversando e rindo. Era bom. Eu estava feliz. De repente, explosões começaram a derrubar as árvores. As pessoas que estavam reunidas antes, agora corriam desesperadas enquanto alguns tiros matavam algumas delas. Eu olhei para os irmãos, que olhavam assustados para mim.
— Shiro-nee..._ a garota sussurrou.
Eu me sentei bruscamente na cama, suando, ofegante. Olhei ao redor do alojamento, sentia o cômodo quente. Muito quente. Me levantei e saí para o corredor. Estava em chamas. Na hora, tudo que veio na minha mente foi a imagem dos dois irmãos assustados. Corri até a cela deles e abri a porta em um pontapé, a mesma caiu no chão. A fumaça estava muito forte, mesmo assim passei por ela. Precisava ver como eles estavam. Mas assim que cheguei, minhas pernas perderam a força e me ajoelhei no chão. Aquele líquido salgado voltou a derramar dos meus olhos e meu peito doeu.
— Shi...ro...nee..._ eu ouvi um leve sussurro da garota.
— Akemi. Akemi!_ eu a segurei. Seu corpo estava totalmente queimado, ela só conseguia sussurrar, com muita dificuldade.
— Meu...ir...mão...A...ju...de...
Eu olhei para o garoto, que nem ao menos se mexia. Coloquei meu dedo em seu pescoço, tentando sentir o pulso. Mas ele não estava mais respirando. Tinham muitos escombros em cima de seu corpo, que havia sido perfurado por alguns objetos que estavam na cela. Fechei os olhos, sentindo-os mais molhados.
— Não...cho...re...Shi...ro...nee..._ ela tossiu, sorrindo logo depois.
— Me desculpe! Me desculpe, Akemi!_ eu a abracei.
— Sin...to...mui...to..._ seu corpo ficou mole e então ela parou de respirar.
Toquei no pescoço de Akemi, que não tinha mais pulso. Eu estava triste, era por isso que estava chorando. Meu peito ardia, não sabia se era pela fumaça ou pela raiva que estava sentindo. Me levantei e carreguei os corpos dos irmãos para fora da cela. Assim que passei pela porta, vi alguns soldados apagando as chamas nos corredores e outros passaram por mim para dissipar a fumaça dentro daquele cômodo. Continuei caminhando enquanto encarava o chão, até ver os pés do comandante na minha frente. Eu olhei para cima e vi seu olhar firme na minha direção.
— O que está fazendo, soldado?
— Levando os corpos para enterrar, senhor._ meus olhos ainda estavam úmidos, e minha raiva estava tão forte quanto aquelas chamas.
— Deixe-os aí, são só cadáveres.
— Com todo respeito, senhor, não são só cadáveres.
— Está me desobedecendo, Zero?
— Não acho que enterrar dois corpos fará diferença na batalha, senhor. Se me der licença.
Eu estava prestes a passar pelo comandante, quando ele segurou firme meu braço e derrubou o corpo de Kouji no chão. Ele pisou em cima e me olhou nos olhos.
— Você está criando emoções, soldado?_ meus dentes trincaram instintivamente, segurando a ira que estava lutando para escapar.
— Senhor, por favor, tire o pé.
— Qual seu objetivo?
— Tire o pé, por favor.
— Seu. Objetivo._ cruzou os braços, forçando ainda mais o pé.
— Por. Favor.
— Diga.
Foi como uma explosão, me senti libertada. Quando dei por mim, estava em cima do comandante, com o punho em seu nariz e a minha outra mão agarrando a gola de sua blusa. Eu quebrei o nariz do comandante, além de dois de seus dentes da frente. Eu estava em uma situação ruim, mas isso não me preocupava. Ele tirou o pé de cima do corpo de Kouji, isso era o mais importante. Olhei para o cientista que me encarava boquiaberto, e enquanto eu era arrastada para fora por um tenente, eu lhe disse.
— Por favor, enterre esses dois corpos. Eles merecem ao menos isso._ ele assentiu, dando um leve sorriso.
Eu suspirei aliviada enquanto me levavam para o tubo onde fiquei trancada por tanto tempo. Conectaram cabos em meu corpo e encheram o tubo de água. Adormeci não muito tempo depois. Não sei quanto tempo passou desde então, quando comecei a ouvir vozes e abri meus olhos aos poucos. Era o cientista e o comandante, com o nariz enfaixado.
— Tem que ter algum problema! Ele estava em plena forma, sem nenhum defeito!
— Senhor, peço desculpas mas preciso lembrá-lo que o experimento ainda é humano. Foi feito a partir de humanos, sentimentos são inerentes aos humanos._ o comandante rosnou e partiu para cima do cientista, que foi prensado contra a parede.
— Eu não quero desculpas, quero soluções. Se não consertar Zero, eu desmonto você._ o comandante disse essa parte de forma baixa e ameaçadora, soltando o cientista logo depois.
Assim que o comandante se foi, tentei falar. Mas tudo o que saiu foram bolhas. O cientista percebeu e veio até mim, sorrindo.
— Os dois cadáveres que você tanto protegeu foram enterrados._ eu sorri e acenei com a cabeça, agradecendo._ Eu sinto muito pelo que está passando. Sei que deve ser confuso e difícil, ainda mais porque o comandante não entende sua situação. Ele quer um soldado perfeito que apenas luta.
Coloquei minha mão em cima da mão do cientista, sendo separada apenas pelo vidro do tubo. Eu sorri até mostrar meus dentes. Estava tudo bem. As duas pessoas mais preciosas para mim estavam seguras agora.
— Outra coisa que preciso te contar. Parece que antes de virem para cá, aqueles garotos estavam com um tipo de rastreador. As chamas daquela noite foram obra do inimigo, eles nos atacaram com bombas de surpresa.
Eu me remexi, inquieta. Eles foram usados para que os inimigos chegassem até nossa base principal. As vidas deles valiam isso? Sem conseguir me controlar, soquei o vidro do tubo em que estava. A água logo escapou pela rachadura e então o alarme de alerta soou. O cientista, um pouco apavorado, me libertou do tubo e me segurou, me sentando na maca.
— Você está bem?
— Senhor, muito obrigada por me ajudar e me contar o que aconteceu._ ele sorriu.
— Não me agradeça. Eu sou um dos responsáveis pelo seu sofrimento.
— Não, a guerra é a responsável. Se ela não existisse, aquela senhora ainda teria sua filha. O filho do dono dos meus olhos, estaria feliz com seu pai. E o dono do meu coração, estaria com a sua esposa e seu bebê. A guerra é a culpada.
Sim, era a guerra. Com esse pensamento em mente, me levantei da maca agradecendo mais uma vez ao cientista. Fui até a sala de comando, encontrando o comandante conversando com um tenente. Precisava saber onde era a base principal inimiga.
— Soldado Zero, o que faz aqui?
— Senhor, peço permissão para falar._ o comandante semicerrou os olhos, assentindo.
— Prossiga.
— Senhor, peço permissão para invadir a base principal inimiga.
— Está louco?! O que espera conseguir lá? Morte?
— Sim, a de meus inimigos. Senhor, penso que precisamos agir e acabar logo com essa luta._ eu disse, focando minha atenção vez ou outra no mapa com as coordenadas.
— Pensa? Você pensa? Você é um soldado, só precisa lutar pelo país e nada mais! Nós cuidamos da estratégia, você apenas obedece.
— Com todo o respeito...
— Não!_ o comandante me interrompeu._ Permissão negada. Eu fui claro?_ cerrei os punhos enquanto trincava meus dentes.
— Sim, senhor._ eu o reverenciei.
— Dispensado.
Saí da sala em passos furiosos. Sabia que não conseguiria permissão. Quando estava bem longe, soquei a parede e fiz um enorme buraco nela. Meu peito doía novamente. Acho que era raiva e o que chamam de frustração. Fui para o laboratório e encontrei o cientista ocupado. Dei uma leve batida na porta, alertando sobre a minha chegada. Ele sorriu e me indicou um lugar para sentar.
— Você está bem? Parece com raiva.
— É raiva? Eu estava certa._ sorri.
— He, você é peculiar mesmo.
— Não é todo dia que se vê uma pessoa que é feita de mais de 7 corpos._ dei de ombros.
— Quando aprendeu a usar ironia?_ ele me olhou surpreso.
— Foi com a Akemi... ela me ajudou muito._ sorri com a lembrança agridoce.
— Entendo... bem, posso te ajudar em alguma coisa?
— Eu vou fugir._ ele tossiu desesperado, como se tivesse se engasgado com o ar.
— Você está falando sério?
— Muito sério. Preciso que me dê cobertura.
— Hm... o comandante ainda não viu a rachadura do tubo. Posso inventar que você escapou.
— Sério?_ meus olhos brilharam.
— É o mínimo que posso fazer._ ele sorriu, mostrando os dentes.
Minha felicidade foi tanta que não consegui segurar e lhe dei um abraço apertado. Surpreso, o cientista me abraçou de volta dando leves tapinhas nas minhas costas. Eu o olhei com um sorriso no rosto e uma sensação quentinha e aconchegante no peito.
— Muito obrigada. Por tudo._ ele sorriu de volta.
— Não há o que agradecer. Agora vá. Boa sorte.
Eu me despedi, lhe dando um último sorriso antes de sair do laboratório. Reuni todas as minhas armas em uma mochila e parti. Já sabia que não voltaria, não tinha a intenção de voltar. Com as coordenadas gravadas em minha cabeça, segui firme para a base inimiga. Fui lentamente, observando o terreno. A base não tinha muitas armadilhas, aparentemente. Os soldados poderiam estar escondidos, talvez já até tivessem descoberto a minha chegada. Eu não me importava, meu objetivo era acabar com aquela guerra, e para isso precisava destruir aquela base. Rapidamente montei uma bomba e joguei no alojamento. Ouvi gritos desesperados e vários soldados foram para fora. Acertei os tiros em seus pontos vitais, dando uma morte rápida e sem sofrimento. Muitos deles apenas obedeciam ordens, mas não podia deixá-los vivos. Sabia que não eram os principais culpados, por isso uma morte rápida era o que poderia lhes dar. De repente, tiros vieram em minha direção. Haviam me descoberto. Saí do esconderijo, acertando os atiradores em cheio. Corri até a base principal e encontrei um exército inteiro lá dentro, junto com o comandante, que tinha um sorriso perverso no rosto.
— Você deve ser o soldado Zero. Cuidou muito bem das minhas armadilhas, agradeço profundamente.
— Armadilhas?
— Aqueles irmãos remelentos. Bom, eu não esperava que funcionasse. Por ser uma nova inteligência, achei que seria mais esperta e deixaria de lado o sentimentalismo barato.
— Sentimentalismo, hã?_ cerrei os punhos com força, lembrando de todas as conversas que tive com os irmãos.
— Bem, é fato que vai morrer aqui. Alguma última palavra, soldado Zero?_ eu encarava o chão, movendo lentamente os pinos que estavam nas minhas costas, embaixo do colete.
— Meu nome... é Shiro._ eu sorri, tirando totalmente todos os pinos das bombas.
Tudo que ouvi depois foi uma explosão e então, silêncio. Eu não sentia meu corpo, não sentia nada. Meus olhos ainda enxergavam, e tudo o que encontrei foi destruição. A base estava acabada, a guerra estava acabada. Me sentia satisfeita e com um sorriso no rosto, fechei meus olhos. Eu estava morta.
Fale com o autor