Só me dei conta do quanto estava ofegante quando cheguei em casa, minha respiração tava acelerada e eu não entendi o porquê já que eu ia falar com a Bruna, logo com a Bruna, eu não devia estar assim. Me dei conta que todo o meu nervosismo era por causa de como eu iria contar que eu fiquei sim com a Camila, eu sei bem que eu poderia não contar nada, mas eu me sentiria muito pior do que já estava e afinal, eu nunca consegui esconder nada dela.

Depois de tomar um copo d\'água, fui tomar banho, eu estava tonta, e provavelmente vinha do fato de eu não ter comido nada ainda. Assim que terminei de tomar banho, fui almoçar, de minuto em minuto eu olhava pro relógio. \"Ela falou que viria 13:30, já são 13h... \" eu calculava cada minuto como um torcedor em final de campeonato.

Eu consegui formular frases como: \"Bruna, eu preciso te contar uma coisa\" ou \"Eu fiquei com a Camila\", mas simplesmente tudo, e quando eu digo tudo, eu digo no sentido literal, sumiu quando a campanhia tocou. Eu por um momento esqueci como se abria uma porta.

Quando eu abri a porta, eu me deparei com uma pessoa cansada, com as olheiras saltando, com a aparência de quem não viu uma cama pela frente. Mas ao mesmo tempo, era um semblante triste.

- Não tem problema, eu espero aqui! — ela disse quebrando o silêncio, e dando um sorriso muito mal \"executado\".

- Entra! — eu disse abrindo mais ainda a porta e deixando-a entrar. — Quer alguma coisa pra beber? — eu perguntei fechando a porta atrás de mim

- Não, obrigada.

- Senta. — eu a convidei me sentando também. Por algum motivo ela sentou o mais distante que o sofá permitia, encostando as costas nele. — Você parece cansada. — eu confessei

- Eu me sinto cansada. — ela disse fazendo uma careta de dor.

Ao dizer isso a minha vontade foi abraçá-la e fazer o melhor para vê-la se sentir bem, mas eu sentia que não devia fazer isso. Eu apenas a olhava sem dizer nada, e ela parecia fazer o mesmo, eu não tinha coragem de falar nada, na verdade, eu não sabia o que falar e ela percebeu que eu não me pronunciaria, então ela mesma tomou a iniciativa:

- Eu não consegui dormir direito pensando no que aconteceu ontem. Eu fui embora por sentir que não tínhamos mais o que falar, mas é como se tivesse ficado um assunto pendente e eu não gosto de ficar nessa dúvida. — ela falava com toda calma e gesticulava com as mãos.

- Eu também não dormi bem, acho que as olheiras falam por mim! — eu completei

- Daniela, você quer mesmo terminar? — quando ela perguntou isso a minha agonia foi maior, foi como se alguém tivesse me chutado na barriga, então de certa forma ela ainda estava considerando o nosso namoro, ou seja, pra ela com certeza eu traí. Eu engoli seco e não sabia o que falar.

- Bruna... — eu tentava fazer as palavras saírem, mas parecia cada vez mais difícil, eu tive que respirar fundo e coninuar. — Eu preciso contar uma coisa pra você.

- Amor, como eu disse, eu pensei muito em ontem e percebi que meu ciúmes estava sim atrapalhando a gente. Eu estou disposta a mudar, não digo que não vou sentir ciúmes, porque isso pra mim é praticamente impossível, mas prometo me controlar e ser consciente nas coisas que falo. — as palavras dela me cortavam aos poucos e sem dó, eu me sentia a pior pessoa do mundo.

- Por favor, não fala mais nada. — eu disse cortando-a — Você não merece isso, você não merece esse sofrimento.

- Do que você tá falando, Dani? — ela disse levantando e sentando na minha frente e pegando nas minhas mãos

- Bruna, antes de qualquer coisa, eu quero que você saiba que durante todo esse tempo em que namoramos, você me fez a pessoa mais feliz desse mundo. Mesmo com todas as nossas brigas, mesmo com todo o seu ciúmes, eu sei que jamais seria feliz assim com alguém que não fosse você. Eu te amei e te amo a cada palavra sua, a cada gesto, a cada toque, porque pra mim, por simplesmente já ter você comigo, já é ter tudo. — eu era sincera e sei que ela podia ver isso, no final eu já estava com as lágrimas formadas e ela também.

- Você tá me assustando, Daniela. Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou apertando minha mão carinhosamente

- Eu fiquei com a Camila. — Ao contrário do que eu imaginava, ela não gritou, ela não jogou na minha cara e se manteve calma, ela apenas parecia refletir nas minhas palavras.

- Quando? — ela perguntou soltando as minhas mãos e me encarando com um olhar vazio

- Hoje. Eu não traí você, eu jamais... — antes que eu pudesse completar ela se levantou e caminhou até a porta — ESPERA! — eu disse correndo atrás dela e segurando sua mão

- Daniela, você não podia ter feito isso comigo! Não podia. — eu via o esforço que ela fazia pra se manter aparentemente calma e falando baixo.

- Eu sinto muito, você não faz idéia do quanto. Se eu pudesse, eu não teria feito nada disso.

- Ela te obrigou, te agarrou ou algo do tipo? — ela perguntou virando pra me encarar

- Não. — eu respondi. — Mas eu já conversei com ela e já disse que não vai acontecer de novo.

- Nossa, que alívio, posso começar a cantar agora ou guardo pra depois do jantar que nós vamos fazer em comemoração? — ela perguntou fria, eu sabia que suas palavras vinham acompanhadas de mágoas.

- Bruna, me desculpa, eu não sei o que dizer, eu cometi um erro, um erro que eu não posso mudar, mas eu sei que eu não quero terminar, até mesmo ontem quando eu disse aquilo, eu estava morrendo por dentro, porque no fundo eu sei que você não pode sair da minha vida assim e eu sei o quanto eu te amo! — eu dizia deixando as lágrimas caírem

- Eu adoro o seu novo jeito de amar. Você não entende, a Camila conseguiu o que ela queria, que era me separar de você e ficar contigo.

- Eu não quero ficar com ela! — eu disse mais alto

- Mas ficou! — ela disse gritando — Mas ficou. — ela repetiu dessa vez baixo

- Não termina comigo. — eu disse olhando em seus olhos

- Eu sei que você sabe o quanto eu gosto de você e o quanto isso é difícil pra mim, mas é a minha vez de dizer que isso é certo. O que você faria se fosse comigo? Se eu tivesse saído daqui e fosse correndo pros braços de outra? — ela perguntou me desafiando

- Eu não sei. — eu disse em um sussurro

- A gente se esbarra, Daniela. — ela disse abrindo a porta e saindo

A única coisa que restava era o seu perfume que anunciava que a sua presença foi real.