Eu contei “toda” a manhã pra minha namorada durante o trajeto até sua casa. Quando ela estacionou o carro, eu hesitei com a mão na porta. Ela já tinha saído e quando estranhou minha demora deu a volta e abriu a porta, abaixando a cabeça pra olhar o interior do carro.

- Que foi? – ela perguntou me olhando com a testa franzida

- Tô sem graça! – eu disse rindo de nervosa

- Ai, meu Deus, Daniela! Vamos logo! – ela disse rindo e me puxando pra fora do carro. Após trancar o carro, nós caminhamos de mãos dadas até a porta, ela pegou sua chave e abriu a porta já gritando:

- Mãe! Cheguei! – ela disse olhando para os lados e eu fiz o mesmo

- FINALMENTE! – uma moça baixinha e bonita apareceu da cozinha dizendo, quando ela bateu os olhos em mim, Bruna apertou minha mão mais forte carinhosamente.

- Mãe, essa é Daniela! Dani, bom, essa é minha mãe!

- Ah, até que enfim conheci a famosa Daniela! Eu sou Helena. – ela disse chegando mais perto e me dando um abraço. Eu dei uma risada sem graça

- É um prazer conhecê-la, dona Helena! – eu disse sorrindo

- Calma, nada de Dona comigo, pode me chamar de Helena e espero que esteja com fome, preparei um almoço divino pra gente! – ela disse apontando pra cozinha, e até então eu não tinha me ligado que a casa exalava um cheiro bom de comida.

- Nossa, pelo cheiro parece estar maravilhoso! – eu comentei

- Verdade! – Bruna disse respirando mais fundo

- Só faltam uns toques finais e tudo pronto! Podem ficar na sala vendo TV, enquanto isso! — ela disse dando uma piscadela e saindo pra cozinha.

- Vem. – Bruna disse me puxando em direção à sala. Sentamos no sofá. – Então, ela te mordeu? – ela perguntou erguendo meu braço procurando alguma “marca”

- Boba! Sua mãe é muito simpática! – eu disse com muita sinceridade. Pra falar a verdade, eu não esperava que ela fosse tão simpática, eu diria até que foi estranho, mas espantei tal pensamento e tentei pensar que ela realmente era assim.

- Eu falei! Sabe que ela foi mais simpática do que eu mesma pensei! – Bruna disse arrancando uma risada minha

- Acho que foi meu carisma!

- Com certeza não foi sua humildade! – ela disse sarcástica. Ela se aproximou de mim dando a entender que ia me beijar e eu me afastei, ela ficou me olhando. – Que foi?

- Sua mãe tá na cozinha! – eu disse olhando pra porta da cozinha

- E? Disse bem: Ela tá na COZINHA!

- E pode aparecer a qualquer momento! – eu disse completando

- Um selinho? – ela disse fazendo biquinho e quem disse que eu resisto? Quando eu me aproximei meu celular apitou

- Acho que nossos celulares sabem quando vai acontecer alguma coisa entre a gente! – eu disse colocando a mão no bolso

- Nem me fala! – Ela disse em tom de decepção

Eu olhei no visor e tinha uma mensagem nova, abri a caixa de entrada e tava com o nome “Mãe”. Bruna olhava também para o celular.

“Filha, como você tá? Conheceu sua sogra? Não quero atrapalhar. Beijos. Mamãe.”

Quando eu terminei de ler dei uma risadinha acompanhada pela Bruna.

- Ela sabia? – Bruna perguntou

- Sim. Eu contei pra ela hoje de manhã.

- Hum... – de repente sua feição mudou pra pensativa

- Que foi? – eu perguntei

- Posso ver a outra mensagem? – eu engoli seco e disfarcei

- Qual? – eu perguntei olhando pro celular.

- Volta. – ela pediu e eu o fiz. Dentre as mensagens mais recentes tava a da Amanda de ontem. “Que sorte!” eu pensei. – Essa aqui! – ela apontou pra da Amanda, coisa que eu já sabia que ia fazer.

- Mas por quê? – eu perguntei olhando em seus olhos

- Tem algum problema? – ela devolveu

- Não, mas... tá bom! – eu disse abrindo a mensagem da Amanda e olhei pra Bruna que mantinha seus olhos no celular, sem exibir nenhuma expressão. Eu só percebi que ela havia terminado de ler quando ela fechou o celular que estava na minha mão e olhou pra frente.

- Linda declaração! – ironizou. Eu fiquei em silêncio, na verdade, não tinha muito que dizer. Meu silêncio a fez parar de olhar frente e olhar pra mim. – Você não acha?

- Eu não acho nada. – eu disse dando ombros

- Mais alguma coisa que eu deva saber?

- Como assim? – eu perguntei fazendo meu coração acelerar

- Ué, não sei! Qualquer coisa!

- Você tá insinuando alguma coisa? – eu perguntei em tom de irritação

- Eu não estou insinuando nada, Daniela! Eu só te fiz uma pergunta. – Eu fiquei pensativa e não sabia se devia ou não contar sobre o ocorrido da manhã. Mesmo não tendo acontecido nada, eu me sentia na obrigação de me abrir com ela, afinal o que é um relacionamento sem sinceridade e diálogo? Claro que eu deveria saber das conseqüências, já que ela é ciumenta, ainda mais que tá com um pé atrás com a Amanda. Mas ok, eu decidi que vou contar, mas não agora, não quero estragar esse almoço que é importante pra gente.

- Depois eu quero conversar com você. – eu disse firme

- Sobre?

- Sobre uma coisa que aconteceu.

- O que aconteceu? – ela perguntou respirando mais fundo

- Calma, Bruna, eu não fiquei com a Amanda se é isso que você ousou pensar de mim! – ela esperou – Mas eu quero contar uma coisa.

- O quê? – ela perguntou agora mais calma, mas ainda tensa

- Depois. – eu disse enfatizando a palavra

- Tá bom. – ela disse se dando por vencida.

- Ei, e meu beijo? – eu perguntei sorrindo e ela fez o mesmo

Eu tomei a iniciativa e me aproximei, quando eu encostei meus lábios nos seus senti a maciez e vi que tava com saudade dela. Então, eu abri um pouco a boca e ela entendeu, antes deu um sorriso com seus lábios nos meus e deixou a minha língua entrar. Depois de um tempinho, ela se lembrou:

- A minha mãe! – ela disse colocando as duas mãos no meu rosto e dando um selinho demorado.

- Sim, a sua mãe! – eu disse dando balançando a cabeça.

Foi só falar nela e ela apareceu:

- Almoço tá pronto! Vamos?

- Tô com fome! – Bruna disse levantando – Vamos, amor.

Nós fomos pra cozinha onde a mesa que tinha lá, estava toda arrumada e cheia de comida.

- Nossa, mãe, caprichou, hein?! Vou trazer a Dani mais vezes pra ver se faz mais agrados. – Bruna disse arrancando risadas nossas

- Olha só isso! Daniela vai pensar que eu sou uma péssima mãe!

- Ah, não se preocupe comigo, eu conheço bem a peça também! – eu disse rindo e fazendo a Bruna abrir a boca e colocar a mão no peito

- Assim me sinto ofendida!

- Não se sinta filha! Nós apenas sabemos como você é!

- Nossa, melhorou bastante! – ela disse revirando os olhos

- Tá, depois nós conversamos sobre isso, mas agora vamos comer! — Helena disse.

Servimos-nos e a comida realmente estava boa, a mãe da Bruna ficou lisonjeada com nossos elogios à sua comida. Conversamos sobre diversas coisas e quando terminamos eu e Bruna ajudamos com a louça, mesmo que a mãe dela tenha dito que não.

- Então, Daniela, você não acha que a Bruna faz bem em viajar comigo? – ela perguntou de repente e nessa hora eu guardava um prato, me virei para Bruna que parou imediatamente de enxugar os talheres para olhar pra mãe, mas a mesma não a olhou.

- É, temos mesmo que falar sobre isso agora? – Bruna perguntou percebendo meu desconforto

- E qual o problema nisso? Daniela se sentiu incomodada? – As duas me olharam e eu fiquei sem graça e fingi

- Não não. – eu disse rápido

- Viu Bruna?! Não seja mal educada. Diga-me o que acha Daniela. – ela insistiu

- Bom, eu sou suspeita pra falar, a senhora quer que eu fale olhando para o futuro dela ou que eu fale como namorada dela? – eu perguntei e até eu estranhei minha ousadia

- Que tal se você me falar sobre os dois pontos de vista? – ela disse fechando a torneira e se virando para mim

- Olhando pro futuro com certeza é bom, mas se a senhora perguntar se eu gosto da idéia, eu vou lhe dizer que não, afinal eu gosto muito da sua filha e vou sentir falta dela. – eu disse aproveitando meu momento de coragem. Quando olhei pra Bruna ela me olhava com um enorme sorriso no rosto

- Claro que sim. Eu entendo essa coisa de adolescente. – ela disse e deixou bem claro no seu tom de voz que não compreendia realmente a “coisa”.

- Vamos pra sala? – Bruna sugeriu enxugando a mão e esticando pra mim que imediatamente peguei pra me sentir protegida e assim que o fiz me senti exatamente como pensei muito protegida.

Quando sentamos no sofá, sua mãe também chegou.

- Mas veja bem querida: é uma oportunidade única. Eu sempre a chamei pra morar lá comigo e com seu pai, mas nunca quis e Eduardo também nunca insistiu, mas dessa vez ele caiu em si e viu o quanto isso será bom para ela. E Bruna também acordou pra vida e percebeu como isso vai ser promissor para seu futuro. – Bruna bufou e encostou-se ao sofá passando o braço em volta de mim.

- Mãe, por favor, esse assunto ainda?

- Estamos em uma conversa informal, deixe-nos conversar.

- A senhora acha que eu tento influenciar na escolha dela? – eu perguntei apontando pra Bruna e finalmente entendendo onde minha sogra queria chegar com aquilo tudo. Ela com certeza acha que eu de alguma forma faço a cabeça da Bruna, tentando fazê-la mudar de idéia.

- Não influenciar, mas você sabe que você é um grande fator para ela não querer, né?! – ela disse estreitando os olhos

- Bom, isso eu não sei, até porque esses são os sentimentos da sua filha, mas a senhora pode ter certeza que eu nunca tentei fazer a cabeça dela, até porque eu não tenho direito para isso, acho que ela é madura o suficiente pra saber o que quer da vida e tomar suas próprias decisões. – eu disse calma e extremamente educada

- Claro, com certeza! Não me leve a mal querida, eu só digo isso porque sei o quanto ela gosta de você!

- Sim, fique tranqüila, eu não levei a mal. – eu disse forçando um sorriso

- Quantos anos você tem, Daniela?

- 17.

- Tem pensamentos muito bem formados para uma adolescente da sua idade. Gostei disso.

- Obrigada. – foi apenas o que consegui dizer

- E outra coisa... – ela continuou e eu esperei. Eu vi a Bruna levar a cabeça pra trás e bufar de novo. – Você é muito bonita! Realmente Bruna não exagerou! – ela completou olhando pra Bruna que me olhava

- É... obrigada de novo! – eu disse rindo baixinho

- Ela é tímida com isso! – Bruna disse beijando meu ombro e eu lhe sorri

- Com o quê? – sua mãe perguntou

- Elogios. – ela respondeu

- Sério Daniela? Uma menina como você devia estar acostumada com isso! Imagino que muitos a elogiam e tentam algo com você. Ela não te dá trabalho, filha? – a Bruna na mesma hora se ajeitou no sofá

- É, mãe, muitos tentam mesmo, mas é minha! – quando ela disse fiquei muito sem graça e sua mãe apertou a mandíbula e forçou um sorriso

- Claro, filha! – ela concordou balançando a cabeça

Meu celular tocou e invadiu o ambiente.

- Licença. – eu disse levantando e saindo. – Alô?

- Daniela, sobreviveu? – Priscila perguntou

- Até agora sim. Mas depois eu quero te contar mais detalhes.

- Claro que vai!

- Onde você tá?

- Na casa da Amanda! Aproveitei que ela desceu e resolvi te ligar!

- Entendi.

- Ela tá voltando, Dani! Depois a gente se fala! Beijos.

- Até. – eu disse antes de ela desligar

Quando eu voltei pra sala Bruna estava falando com alguma coisa com a mãe dela, parecia estar advertindo-a, mas falava baixo, ou seja, não dava pra escutar. Assim que sentiram minha presença se viraram para mim e imediatamente me incluíram em um novo assunto.

Ficamos conversando até umas 17:30, quando eu disse que tinha que ir embora. Conversamos bastante e sua mãe era uma pessoa inteligente, e simpática também. Mas eu ainda sentia alguma coisa estranha, talvez fosse coisa da minha cabeça, mas aquelas perguntas de mais cedo deixaram bem claro que a qualquer momento ela pode mudar.

- Eu vou te levar em casa! –Bruna disse saindo pra pegar a chave, me deixando a sós com a sua mãe

- Bom, foi uma prazer conhecê-la, Daniela! Você é um amor de pessoa. – ela disse sorrindo

- Obrigada! Foi um prazer pra mim também conhecê-la! – eu disse retribuindo o sorriso

Ela chegou mais perto e me abraçou

- Uma mãe é bem insistente... – ela disse baixinho no meu ouvido e eu fiquei confusa, quando me separei do abraço meu olhar ainda era de confusão, ela apenas sorria como se nada tivesse acontecido. Nem deu tempo de questionar alguma coisa, Bruna apareceu.

- Vamos? – ela disse estendendo a mão

- Vamos. – eu disse olhando para sua mãe e dando um tchauzinho com a mão, ela me respondeu com um enorme sorriso e um piscar de olho.

- Então o que achou? – Bruna perguntou ligando o carro

- Foi mais fácil do que pensei. – eu disse sem encará-la

- Que bom então. Ah, e desculpa por mais cedo, é isso mesmo que você captou, ela acha que você tenta fazer minha cabeça. – ela disse fazendo “não” com a cabeça

- E por que ela acha isso?

- Amor, você é minha namorada. Ela acha que você fica falando pra eu não ir, ela sabe que eu gosto mesmo de você, apesar de achar que é coisa de adolescente.

- Hum... eu deveria tentar fazer sua cabeça? – eu disse olhando para ela que mantinha os olhos na rua, ela apenas soltou uma risadinha de leve

- Bom, já tá sendo bem difícil fazer isso e se eu dissesse que não penso em desistir estaria mentindo, e acho que você tentando me influenciar seria a gota d’água.

- Então não vou fazer isso! – eu disse sorrindo triste

- Você não quer que eu fique? – ela perguntou tirando os olhos da rua por um momento

- Não é isso, amor. Mas pensa comigo: é como eu disse pra sua mãe, eu não disse que te acho madura pra poder ter uma boa resposta, mas sim porque eu realmente te acho madura pra tomar uma decisão dessas, eu sei que você vai fazer o que achar melhor e eu não posso e nem quero te influenciar, porque não é a minha vontade e sim a sua, se fosse a minha eu estaria implorando pra você ficar. – eu disse de uma vez e super sincera

- Eu entendi. E mesmo você não me pedindo, eu não quero ir mesmo. E por mais que eu pense que também tem meu futuro, eu penso que posso construí-lo aqui, sabe. Eu não preciso sair daqui para fazê-lo.

- Bruna, pense em você e somente em você. Não tome sua decisão baseada no que a sua mãe quer ou no que eu quero, faça apenas por você. Porque quem vai viver tudo vai ser você. – eu disse sorrindo de lado

- Obrigada por compreender e não ficar me cobrando nada. – ela disse me abraçando assim que paramos na porta da minha casa

- Você sabe que eu não vou te pressionar mais do que você já está sendo. – eu disse fazendo carinho nas suas costas.

- Bom, acho que temos uma conversa pendente. – ela disse se afastando do abraço e sorrindo pra mim

- É, acho que sim. – eu disse passando a mão no cabelo.

a279;
Notas finais
Às vezes é bom o suspense... rs
Beijos. (comentem)=)