Apenas Um Olhar
15 Um novo homem?
Realmente as coisas mudaram muito entre nós. Ainda bem que de forma positiva. Eu não aguentaria prosseguir com essa gravidez se eu não tivesse o apoio e o carinho do meu marido. Que por sinal, seria um papai muito babão. Já dava para perceber isso, mesmo eu estando com tão pouco tempo de gestação.
Carlos voltou a ser o homem por quem eu me apaixonei. Ele deixou o trabalho um pouco de lado e passou a se dedicar mais em casa. Ele chegava cedo e as vezes nem ia trabalhar. Fazíamos nossas refeições praticamente juntos e passávamos muito tempo juntinhos, de bobeira, nos deliciando com aquele momento único.
Carlos passou a ser muito cuidadoso comigo. Parecia até que ele tinha medo que algo de muito ruim acontecesse comigo e com o bebê. Então ele contratou uma empregada doméstica. Que vinha pelo menos duas vezes na semana dar um jeito no apartamento. Mesmo eu dizendo que não era necessário, porque eu ainda podia tomar conta de tudo.
Ele não queria arriscar.
Por um lado, foi muito bom ter mais alguém para conversar. Ainda mais uma senhora experiente que sabia muito mais da vida do que eu. A Dona Célia tinha muito a ensinar. Ela era muito boa em seu trabalho, deixava tudo impecável e nunca era intrometida demais. Ela também me dava muitos conselhos. Era quase como uma mãe, já que a minha não podia estar ao meu lado todo o tempo.
Heloísa também estava me ajudando muito. Ela quase não saia lá de casa quando eu estava sozinha. Ela me passava toda sua experiência como mãe e me dava muitas dicas. Nós também saímos muito para comprar coisinhas novas para o bebê.
Não sei dizer bem por que, mas a minha irmã morria de ciumes da minha amizade com a Heloísa. E a Juliana nunca foi de sentir ciumes de mim. Quando eu a questionava, ela dizia que não conseguia gostar da Helô de jeito nenhum! O que era engraçado, pelo menos pra mim, porque a Helô é um amor com todos.
Aos quatro meses eu já sabia que seria um menino. Isso deixou o Carlos bem animado e a todos da família. Já que a filhinha da minha irmã e da minha melhor amiga era meninas.
Carlos me ajudou com todos os detalhes do quartinho do bebê. Tivemos que fazer uma reforma e tanto em um dos quartos de hospedes. Colocamos um papel de parede bem clarinho, com listra alternadas entre o azul bebê e o branco.
Pouco a pouco fomos comprando os móveis. Também brancos e com bastante espaço. No meio do cômodo colocamos o bercinho, em uma parede a cômoda e o pequeno guarda-roupa. Do outro lado um trocador e um sofázinho. Coloquei alguns quadrinhos divertidos em uma das paredes e conforme eu fui ganhando presentes, coloquei cada coisa em um lugar especifico.
Em pouco tempo já estava tudo completo.
Do jeitinho que eu sempre sonhei.
Li muitos livros sobre bebês no meu tempo livre. Assisti programas especifico na televisão e na internet. Fui a consultas médicas. Comecei a comer muito e tive que comprar roupas novas. Até pensei em começar a fazer ioga, para ajudar na reflexividade do meu corpo. Mas acabei parando de ir as aulas por preguiça e me empaturrei ainda mais de besteiras, principalmente doces.
Carlos me levou a muitos lugares novos e fez questão de tirar foto de cada detalhe. Nós queríamos montar um álbum. Fizemos muitos programas novos, conheci pessoas novas e outros tipos de culinária. Passei a comer de tudo e ter muito desejos, comecei a me transformar em uma bola, mas isso não me importava. Desde que o bebê estive bem e saudável.
Um dia desses tive um desejo estranho no meio da noite.
— Carlos? – ele já estava dormindo. Tivemos um dia cheio. Ele estava muito cansado. — Estou com desejo.
Comecei sacudi-lo.
— O que foi, querida? – ele perguntou, levantando-se. Coitadinho. Estava morrendo de sono!
— Não sei.... Acho que estou afim de um picolé de acerola.
— O quê? — ele estava pasmo. — Agora? Você não poderia esperar até amanhã? Acho que não tem nada aberto agora.
Ele tinha razão.
Mas minha vontade era grande e meu drama ainda maior.
Carlos rapidamente enfiou o corpo em uma roupa aleatória e saiu por aí, tarde da noite, a procura do meu picolé de acerola.
Eu estava ficando maluca!
Por sorte ele conseguiu o que eu tanto queria.
Eu quase não senti nada durante os primeiros meses. Poucos enjoos. E muita vontade comer. Mas alguns dias atrás eu levei um susto daqueles. Eu estava tirando um cochilo deitada no colo do Carlos quando acordei assustada e suando frio.
Sentia umas dores fortes na barriga.
Corremos até o hospital mais próximos. Mas não era nada. Era só uma cólica. Alguns gases. A minha médica passou alguns remédios e logo a dor sumiu e as coisas voltaram ao normal.
Fora isso, nada de diferente. Nem mesmo mudança constante de humor, como a minha irmã teve em sua gravidez. Eu só estava um pouquinho sentimental demais. Querendo sempre alguém por perto para ter atenção e carinho.
Eu estava no meu último mês de gestação quando o Carlos precisou ir a uma viajem de negócios. Ele bem que tentou não ir e adiar, mas era urgente, o Fred precisava muito dele por perto.
Apesar de ter todo o conforto do mundo em casa, eu preferi passar esses dias na casa dos meus pais, onde eu era constantemente mimada por todos os lados.
Em uma noite qualquer, eu estava lendo um livro sobre bebês em meu antigo quarto — agora sem a companhia da minha irmã — quando senti uma forte pressão entre as pernas.
Depois algo molhado.
A bolsa tinha rompido!
Comecei a gritar sem parar.
Me levaram ao hospital da minha cidade no meio da madrugada, todo mundo muito preocupado, mas me dando muito apoio e força. Eu gritava muito. Sentia muita dor. Era terrivel! Nunca senti nada igual.
Aquilo era uma loucura.
Eu ainda não estava preparada!
— Liguem para o Carlos, por favor. – gritei, desesperada. Já estavam me encaminhando para a sala de parto. — Liguem para ele agora.
Em poucos minutos, após sentir uma pequena picada na minha pele, eu passei a enxergar muito pouco. Parecia estar sob algum efeito de uma droga muito pesada. Eu via apenas borrões se movimentando de um lado para o outro com vestes azuis.
Alguém apertou a minha mão e disse que ficaria muito bem. Comecei a sorrir, mesmo sem conseguir ver ou sentir quase nada.
Em questão de segundos senti algo escorregar de dentro de mim. Depois um choro alto. Era o meu bebê! Acho que comecei a chorar também, não tenho muita certeza. Ouvi mais vozes e mais movimentações ao redor de mim.
— Tem outro bebê vindo aí. – a voz parecia apavorada.
O QUÊ?
Mais um bebê?
Não, não, não. Isso só pode ser brincadeira.
Eu ia ter um bebê. Apenas um bebê.
Aquele outro bebê não era meu.
Não podia ser!
Uma segunda coisa escorregou de dentro de mim.
— Eram dois bebês! – alguém disse, muito animado.
— São dois meninos! – disse outra pessoa.
Depois disso tudo ficou muito escuro. Eu apaguei.
Acordei em outra sala. Já era dia. Eu me sentia bem melhor agora. Ainda um pouco inchada, mas não tanto. E eu não estava sozinha, o Carlos estava ali do meu lado. Segurando forte a minha mão como se não fosse deixar nada de ruim acontecer comigo.
— Onde está o nosso bebê? – perguntei, sorrindo.
— Os nossos bebês. – ele sorriu de volta.
Então eram dois. Eu não estava delirando.
Eu não tinha muita certeza se poderia dar conta de um bebê, imaginem de dois.
Carlos soltou a minha mão, se levantou e chamou por alguém. Provavelmente a enfermeira para trazer o bebê, ou melhor, os bebês para eu enfim poder conhece-los de pertinho.
A enfermeira trouxe dois embrulhinhos muito pequenos em cada braço. Um embrulho azul e outro branco. Ela se aproximou sorrindo e depositou aquelas duas criaturinhas nos meus braços.
Pequenos e frágeis.
Nem pareciam reais.
O garotinho do lado esquerdo com a manta azul estava dormindo. Calmo e sereno. O garotinho da direita estava com os olhinhos abertos, atento a tudo. Seus olhos eram azuis como os meus. Ambos rosados e com cabelinhos rasos e escuros.
Não aguentei a forte emoção e comecei a chorar. Carlos me acompanhou, beijando a testa dos nossos filhinhos.
Eu só o vi chorar uma vez, no dia da visita de seus pais. Quando ele me contou a triste história sobre a sua infância.
Tive que passar alguns dias no hospital com meus bebês até poder voltar para casa. Toda minha família e amigos estavam lá, esperando por nós, para conhecer os novos integrantes.
Eu já escolhido um nome para o meu bebê, pensando que fosse só um.
— Mas agora você tem dois e precisar escolher o nome ao outro do bebê. Ele não pode ficar sem nome! – observou minha irmã, pegando um dos bebês no colo.
Carlos e eu trocamos olhares.
— Eu escolhi Vinicius, então se você quiser pode escolher outro.
Ele pensou por alguns instantes.
— Eu gosto muito de Gustavo, o que você acha?
— Perfeito.
Vinicius e Gustavo.
Os bebês mal abriam os olhos, mas todos queriam ficar por perto. Eles eram uma gracinha de tão pequenos e fofos. Os dois eram muito parecidos. Nem dava para acreditar que eram meus! Para identifica-los a mamãe me deu duas pulseirinhas de ouro. Coloquei a pulseira do Vinicius no braço direito e do Gustavo no braço esquerdo. Agora seria bem mais fácil distingui-los.
Foi difícil, mas a mamãe conseguiu arrastar todos para irem embora, dizendo que eu e os bebês precisávamos descansar e ter um momento a sós em família. Eu fiquei muito grata. Gostava muito de ter todos por perto, mimando a mim e os meus bebês. Mas eu estava mesmo me sentindo exausta.
Naquela primeira noite os bebês dormiram juntos em um único berço. Mas o Carlos garantiu que no dia seguinte faria questão de comprar mais um berço, afinal, com o tempo eles iriam crescer e começariam a ocupar mais espaço.
Adormeci no sofázinho do quarto dos bebês mesmo sendo muito pequeno para mim. Carlos veio diversas vezes me chamar para me juntar a ele em nossa cama, em nosso quarto, mas eu recusei. Queria ficar ali, pertinho dos bebês e nunca mais me separar deles e nem permitir que algo ruim acontecesse a eles.
Aos poucos minha rotina foi voltando ao normal. Ou quase isso. Porque agora eu tinha dois filhinhos para cuidar. Mas por sorte eu tinha pessoas maravilhosas ao meu lado. Heloísa e Célia, a empregada, estavam sempre por perto para me ajudarem nas tarefas mais difíceis para uma mãe de primeira viajem com tão pouca experiência: dar banho, trocar fraldas e amamentar.
No começo foi bem difícil. Eu chorei de nervoso por achar que eu não tinha jeito como mãe. Ainda mais com dois bebês. Era tudo em dobro. Uma vez eu dei de mamar ao Gustavo duas vezes, por achar que na verdade tinha pegado o Vinicius. Mas eu me confundi na hora de olhar as pulseirinhas e o Vinicius ficou sem mamar. Ele chorou muito até eu me dar conta da minha grande confusão.
Carlos também estava me apoiando muito. Ele era um ótimo pai. Assim que eu terminava de dar de mamar para um dos bebês, eu pegava o outro, enquanto ele colocava o primeiro para arrotar. Nós também nos revessávamos na hora da troca de fraldas ou para coloca-los para dormir.
Por sorte, os bebês eram muito tranquilos. O Vinicius mais que o Gustavo. Eles dormiam praticamente o dia inteiro, só acordavam para tomar banho ou trocar de fralda e choravam quando sentia fome ou alguma dorzinha incômoda.
Depois da segunda semana, Carlos voltou ao trabalhar. Voltou a chegar tarde. Mas isso já não me incomodava tanto. Porque agora eu tinha os bebês para me ocupar.
A minha parte preferida do dia era passar um tempo com eles, contanto historinhas ou cantando musiquinhas infantis. Pouco a pouco eu fui pegando prática e já nem precisava mais tanto assim de ajuda. Nem me confundia ou fazia trocas entre eles. Com o tempo eu consegui perceber muitas diferenças nos bebês, mesmo que para os outros eles fossem idênticos.
Vinicius, o mais velho, é mais calmo, mais preguiçoso. Já o Gustavo é mais agitado, acorda com muita facilidade e é muito esfomeado. Como eles ainda são muito novinhos, não dá para saber muito sobre a personalidade deles. Apenas o básico e o essencial. Mas fisicamente eles são como eu e minha irmã. Iguaizinhos, mas com algumas pequenas diferenças.
Os dois são branquinhos, têm olhos azuis e têm pouco cabelo. Mas o cabelo do Gustavo é mais escuro, os olhos do Vinicius são maiores e mais expressivos, o Gustavo é mais gorducho e o Vinicius tem uma marquinha de nascença no pé.
Sempre que eles dormiam eu dava uma organizada na casa ou tirava um tempo de descanso para mim. Quando eu precisava sair, deixava eles com a Célia ou aos cuidados da Heloísa ou do próprio pai. Achava que eles ainda eram muito novinhos para sair de casa e se deparar com a agitação do mundo lá fora. E também ainda não tínhamos comprado as cadeirinhas para o carro.
Quando eles completaram três meses eu resolvi que já era hora de apresenta-los ao mundo real. Não estava um dia bonito. O céu estava nublado e o ar friozinho mesmo pela manhã. Mas eu queria aproveitar o feriado para sair um pouco de casa com os bebês pela primeira vez. Eles já estavam mais grandinhos e mais espertos. Faziam gestos e sons. Também já reconheciam a nossa voz e tentavam interagir com as pessoas.
No porta-malas do carro eu coloquei os carinhos deles e uma bolsa grande com tudo que eu precisava. Coloquei os bebês nas cadeirinhas que tínhamos comprado recentemente. Me despedi do Carlos que iria ficar resolvendo coisas do seu trabalho e colocamos o pé na estrada pela primeira vez, rumo a Niterói.
Pela primeira vez eles conheciam a casa do vovô e da vovó.
Foi um dia muito bom. Juliana e Igor até fizeram um churrasco no quintal da casa deles. Enquanto os bebês iam passando de mãos em mãos, eu brinquei um pouco com a minha sobrinha, Cecília. Ela sempre ficava muito feliz com as minhas visitas. E dessa vez eu não me esqueci de lhe trazer um presentinho: um caderninho de colorir.
Naquela tarde também conheci a namorada do meu irmão, a Paola. Era uma menininha magra muito meiga, que não falava muito, mas tinha um sorriso bem contagiante. Ela e meu irmão pareciam muito apaixonados. Não se desgrudavam! Fiquei feliz por ele. Pareciam que enfim tinha amadurecido.
— O que aconteceu com o casal de idosos que moravam naquela casa? – perguntei a minha irmã no comecinho daquela noite, quando o churrasco já estava chegando ao fim.
— Pelo que ouvi dizer eles já estavam muito velhos e os filhos deles resolveram leva-los para morar com eles. – ela explicou, sem muita certeza. — Agora a casa está para alugar.
A casa fica em frente a pousada e é imensa. Eu me lembro muito bem do casal de velhinhos que morava ali mesmo muito antes de eu ter nascido. Os filhos saíram de casa cedo e sempre foram só os dois. Quase ninguém da rua falava com eles, mas eles eram muito unidos. Às vezes mamãe levava bolo ou torta para eles.
Quem é que fosse alugar aquela casa teria muita sorte. Porque ela é muito grande e muito bem conservada. Eu nunca entrei lá dentro, mas de fora dá para perceber que ela é linda. Deve ter pelo menos uns quatro quartos. E tem um lindo jardim do lado de fora e um piscina nos fundos.
Achei melhor dormir ali, na casa dos meus pais e no meu antigo quarto, por causa dos bebês. A viajem para casa não era longa nem nada, mas parecia arriscado sair assim tarde da noite com os gêmeos.
Os bebês dormiram cedo, mas eu fiquei acordada até tarde conversando com a mamãe e minha irmã. Era sempre muito bom me reunir com elas. Eu só fui embora no outro dia depois do almoço. Carlos já estava em casa, esperando por nós.
— Tenho uma pequena surpresa para você. – disse ele com um sorriso. Eu tinha acabado de colocar os bebês no quarto.
Sentei-me com ele no sofá, de trás das costas ele tirou um grande embrulho. Dentro havia um lindo álbum de fotografias que mais parecia uma espécie de diário e as primeiras páginas já estavam preenchidas com fotos nossas e dos bebês.
Cada foto tinha uma frase em baixo.
Uma delas era uma foto de quando eu e o bebês voltamos para casa depois do hospital e a frase em baixo dizia: “Papai estava preocupado e morrendo de saudades. Mas assim que viu essas pequenas preciosidades em casa pela primeira vez, teve que se segurar para não chorar na frente de todo mundo. ”
Fofo, não é?
— Carlos, isso é lindo! – deixei o álbum de lado após ter olhado todas as fotos e lido todas as frases e o abracei, emocionada. — Eu te amo muito, sabia?
— Eu também te amo, Melissa. Obrigado por tudo.
Ele me beijou e eu senti que nenhum outro lugar era melhor que está em seus braços, em nossa casa, com os nossos filhos.
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