Apenas Um Olhar

33 Um alguém que me apoie.


Estamos almoçando na casa do Rodrigo nessa quieta tarde de domingo. Apenas eu, Vinicius e Rodrigo. O pessoal da casa tinha saído para ir ao parque. Mas como o Rodrigo ainda estava se recuperando da perna resolvi ficar aqui com ele e lhe fazer companhia. Estávamos vendo televisão na sala quando me ocorreu a ideia de preparar algo diferente para a gente comer.

Fazia tempo que eu não cozinhava sozinha, já que a mamãe tinha muito ciúmes da sua cozinha. Claro que ainda não era tão boa quanto ela. Mas eu me tornei uma boa cozinheira quando fui morar com o Carlos, longe de todo mundo. Tive que aprender a me virar. Fiz muitas pesquisas e experiências.

— Isso está muito bom! – disse o Rodrigo, ainda de boca cheia. O que me fez rir um pouco. — Você leva muito jeito, Mel.

— Sim, eu sei. E obrigada pela ajuda. Pensei que com a falta de pratica eu esqueceria tudo que aprendi. Mas pelo visto não. E você, Vini.... Gostou?

— Tá uma delícia, mãe.

— Então porque você está tão sério e calado?

— Eu estava aqui pensando... – ele largou a colher no prato que já estava praticamente vazio. — Tio Rodrigo, você vai a minha apresentação na sexta-feira lá no colégio?

Rodrigo ficou surpresa com o questionamento. E com razão. Eu tinha me esquecido completamente de mencionar isso a ele.

— A mamãe me comprou uma roupa bem legal!

— Filho, o Rodrigo não vai poder ir. Sinto muito.

— Mas porque não? – ele pareceu bem chateado.

— Porque ele ainda está se recuperando.

Ele abaixou a cabeça, deixando claro sua decepção.

— Quem sabe numa próxima eu vá. – sugeriu Rodrigo, tentando contornar a situação.

— É, quem sabe. – Vinicius suspirou.

Vinicius ficou calado e estranho durante todo o resto do dia. Mesmo quando o Rodrigo tentava anima-lo, perguntando o que ele faria na tal apresentação e se ele estava nervoso. Ele até que foi bem educado, respondeu a todas as perguntas. Mas não entrou muito em detalhes e depois fez questão que eu o levasse para casa.

Depois que ele dormiu, fiquei conversando com o Rodrigo pelo celular por um bom tempo, através de mensagens. Ele se desculpou por ter deixado o Vinicius magoado. Mas na verdade, eu é quem tive que pedir desculpas por ter esquecido de mencionar o fato.

O início da semana foi tranquilo. Dei minhas aulas, corri na orla da praia com a Alícia, passei um tempo com o meu filho e o Rodrigo, ajudei minha irmã com suas tantas crianças e descansei.

Na madrugada de quarta-feira algo muito inusitado aconteceu. Eu tive um pesadelo estranho com o Gustavo e o Carlos. Sonhei que o Carlos levava o meu filho para um lugar desconhecido e sombrio e que eu nunca mais tive notícias de nenhum dos dois.

Acordei assustada durante a madrugada. Olhei para a cama do lado e vi que o Vinicius dormia tranquilamente enrolado em seu lençol de super-heróis. Mesmo assim não consegui voltar a dormir. Faltava um pedaço de mim. Então me levantei e desci para beber água. E no meio da escada, quando eu já estava voltando para o meu quarto, esbarrei com alguém pelo caminho, em meio ao escuro.

Eu quase gritei de susto.

— Não grite, por favor. Vai acordar a casa toda. – era a Vanessa. — Me desculpe pelo susto, eu não pretendia...

— Não, tudo bem. – pousei a mão sobre o coração, que batia acelerado dentro do peito. — Eu só não esperava...

Ela se despediu e desapareceu.

Já de volta ao meu quarto eu pensei: então era sério. Eles estavam mesmo ficando juntos. Meu irmão e a Vanessa. Quem imaginaria? Mas seria apenas pegação ou namoro? De qualquer forma não era da minha conta. E ela teve muita sorte de ter sido eu esbarrado com ela na escada durante sua fuga. Imagine só se tivesse sido a mamãe? Ela teria um enfarte.

Na sexta-feira de manhã Vinicius acordou ardendo em febre. Fiquei muito preocupada. Afinal, ele ficou a semana toda bom e justamente no dia da apresentação ele adoece. Então imaginei que seria o nervosismo. Era a primeira vez que ele faria algo assim.

Lhe dei um banho e remédio. Liguei para o trabalho e disse que me atrasaria. Passei um tempo deitada com o meu filho. Rezando para que ele melhorasse.

— Você tem que ficar bom, filho. Se não vai perder sua apresentação e estão todos contanto com você.

— Eu não posso, mamãe. Eu não consigo. Estou muito nervoso! Acho que esqueci todas as minhas falas.

— Isso não é verdade! Você sabia todas elas até ontem de noite. E estava tão empolgado e ansioso. Você é capaz, filho. E eu, seus avós e seus tios estarão lá por você.

— Mas não o Rodrigo.

— É, eu sei. – suspiro. — Mas posso filmar tudo pra ele ver depois, o que você acha?

— É, pode ser.

Esperamos algumas horas e foi como num passe de mágica. Vinicius já se sentia bem melhor. Mas antes de sairmos de casa, eu lhe perguntei inúmeras vezes se ele estava mesmo se sentindo bem e se queria ir à apresentação, pois se não quisesse eu entenderia e o apoiaria.

— Eu tô bem, mãe. Eu tô preparado. Vamos?

Saímos de casa primeiro. O resto do pessoal ia depois.

Todas as crianças que iriam se apresentar estavam em uma salinha vazia. O pátio do colégio já estava todo decorado e arrumado para a apresentação. Quando o portão abrisse ao meio-dia, o pessoal iria entrar aos poucos e ocupar os milhares de lugares.

— Não precisa ficar nervoso. – disse a ele, segundos antes da professora de teatro chama-los. — Você vai se sair muito bem.

Beijei sua testa e saí. E ele foi se juntar aos demais.

Fui apressadamente para o pátio. Fiquei lá atrás perto das outras professoras. Minha família já estava lá na frente, ocupando a terceira fileira. Meus pais com a máquina fotográfica, minha irmã e seu marido e seus milhares de filhos que não paravam quietos um só quer minuto e o Augusto tinha trazido a Vanessa.

Os alunos foram apresentados um a um e todos aplaudiram. Depois foi a que a apresentação começou e assim que o Vinicius entrou em cena eu não pude segurar as lágrimas. Estava tão orgulhosa do meu pequeno. Ele estava crescendo tão rápido!

Alguém ao meu lado me estendeu um lencinho para eu enxugar as lágrimas. E quando olhei para o lado, para agradecer a gentileza, foi que tive uma grande surpresa. Não era uma colega de trabalho sendo simpática. Era o Rodrigo. De muletas!

— Você veio! – não resisti ao impulso de abraça-lo.

Ele era o homem mais maravilhoso de todos.

— Mas você deveria estar em casa repousando!

— Não se preocupe, Mel. – ele me deu um beijinho na bochecha. Tão doce. Tão delicado. — Antes eu liguei para o meu ortopedista e ele disse que não tinha problema. Porque eu já estou quase recuperado.

Então ele se virou para o pequeno palco e acenou.

Vinicius estava olhando para nós e abriu um grande sorriso quando nos viu. Passei meu braço em volta da cintura do Rodrigo e continuamos a assistir à apresentação juntinhos.

Eu não era a única emocionada e chorosa. Estavam todos muito orgulhosos do meu filho. Não pararam de elogia-lo durante todo o trajeto até o centro da cidade. Principalmente meus pais que não pararam de tirar fotos de todos os instantes.

Estávamos indo almoçar para comemorar.

Foi um dia muito agradável, mas no final do dia me bateu aquela típica tristeza. Gustavo não estava ali. Só faltava ele para tudo estar completo.

No sábado de manhã acompanhei o Rodrigo até o ortopedista. Estava na hora de tirar o gesso da perna. Para o meu alivio estava tudo bem. Ele estava recuperado. Mas ainda precisaria de mais uma semana em casa para adaptar a perna e seus movimentos.

Na outra segunda-feira ele voltou ao trabalho. Ele estava tão contente e empolgado. Afinal, fazia mais de dois meses que ele não trabalhava com a coisa que ele mais gostava de fazer na vida: cuidar das pessoas. Dar a eles esperanças de uma vida melhor. Assim como fez comigo.

Ficamos aquela primeira semana sem nos vermos. Rodrigo estava muito ocupado com o seu trabalho na clínica e as últimas semanas de aula na faculdade em seu Bacharelado. Ao menos agora eu tinha um celular e nós trocávamos muitas mensagens nos momentos livres.

Na terça-feira da semana seguinte eu estava sem fazer nada em casa. Tinha acabado de almoçar. Alícia tinha me ligado para cancelar a nossa caminhada pois seu filho, Davi, ficou doente. Perguntei se era algo muito grave. Mas ela disse que era só um resfriado e que ele precisava de cuidados. Vinicius estava na casa da minha irmã, brincando com os primos. Rodrigo estava no trabalho. Meus pais ocupados com a pousada. Meu irmão tinha saído com a Vanessa para pegar um cineminha e eu estava sem nada para fazer. Então, resolvi subir, trocar de roupa e pegar o carro do papai emprestado. Pois eu iria fazer uma nova visita surpresa ao Gustavo.

Eu estava prestes a sair de casa quando o Rodrigo entrou e me pegou de surpresa.

— O que você está fazendo aqui? – perguntei.

— Saí mais cedo do trabalho para resolver umas coisas no banco e pensei em passar aqui pra te convidar pra dar uma volta. – ele me analisou de cima a baixo. Depois voltou a me olhar nos olhos. — Mas pelo visto você já está de saída.

— Sim, eu vou ver o Gustavo.

— Na casa do Carlos?

— É claro! Onde mais seria?

— Eu pensei que a advogada tivesse dito para você esperar mais um tempo e não fazer nada sem pensar.

— Esse é o problema, Rodrigo. Eu só consigo pensar nele! – elevei um pouco a voz. — Estou preocupada. Há semanas não tenho notícias dele. Eu preciso saber como ele está. Eu pensei que você tivesse do meu lado...

— E eu estou. – ele se aproximou e buscou pela minha mão. Mas eu recusei o seu toque. Talvez estivesse um pouquinho exaltada. Ninguém me entendia! — Mas é perigoso, Melissa. E eu me preocupo com você. Se aquele homem estiver por lá e....

— Eu preciso arriscar! – interrompi-o. — Preciso ver o meu filho! E eu não tenho medo do Carlos. Não mais. Eu sei muito bem quem ele é. E sei muito bem do que sou capaz, Rodrigo.

Ele suspirou.

— Tudo bem. Então eu vou com você.

— Nem pensar! Eu faço isso sozinha.

— Mas eu quero ir com você! – ele rebateu, sério.

— E eu não quero meter você nisso.

— Mas eu já estou metido nisso, Mel. Você não entende!? Você não vê? Eu quero fazer parte disso. Quero estar com você.

Essa era nossa primeira discussão séria. E ainda assim ele conseguia ser um fofo comigo. Como é que eu iria conseguir manter minha postura de brava com ele me olhando desse jeito? Não dá. Simplesmente não dá.

Eu o abracei.

— Você não vai, Melissa.

O quê?

Soltei o Rodrigo e me virei para trás.

Era a minha mãe.

— Você ouviu tudo?

— A porta estava aberta. E eu fiquei preocupada quando te ouvi exaltada. Então vim ver o que era e sim... Eu ouvi tudo.

— Mas, mãe....

— Você não vai e ponto. Ordens da advogada e pedido da sua mãe. Você não vai querer desobedecer ou vai?

Ela estava me tratando como se eu tivesse doze anos.

E na frente do Rodrigo!

— Vocês não entendem! Vocês não veem o quanto eu estou sofrendo? Eu preciso saber do meu filho. Ter notícias dele. E esse homem não está facilitando. E eu não posso simplesmente ficar aqui esperando de braços cruzados. – desabafo, talvez um pouco alto demais. Coisa que eu nunca tinha feito antes. Não com a minha própria mãe. Ela acabou ficando um pouco assustada com a minha reação.

— E você quer fazer o quê, Melissa? Pegar o menino de volta a força? Porque me parece que ele está muito bem vivendo com o pai. Porque até então nem se quer telefonou para a gente. Ele já é grandinho o bastante para pegar um celular ou um telefone e discar o número de casa.

— Você não sabe nem da metade, mamãe. O Carlos o proibiu de me ligar. Disse que eu precisava aprender a viver sem ele. Que eu precisava de um tempo. O Carlos tem feito ele só comer besteira, assistir tevê o tempo todo e ficar sozinho sem nenhuma supervisão. Ele tem comprado meu filho com bens materiais. Tornando-o uma criança fútil e interesseira.

— E como é que você sabe de tudo isso, posso saber?

— Eu fui lá. Isso mesmo que você escutou. Eu fui vê-lo e vi algo que uma mamãe jamais desejou ver: uma criança robótica!

— Você não deveria....

— Mas eu fui! E saber porque? Porque ele é o meu filho. E você como mãe deveria entender.

Não estava mais em condições de brigar com a minha mãe. Então subi correndo para o meu quarto e bati a porta com tudo. Depois me joguei na cama e comecei a chorar muito. Não demorou nem dois segundos e o Rodrigo apareceu. Sentou-se ao meu lado e passou a mão no meu cabelo sem dizer nada.

— Tudo bem. Tudo bem. – disse com ele com sua calma de sempre. — Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui. E se você permitir, eu sempre estarei aqui por você. Então, por favor, não chore mais. Vamos dar um jeito nisso. E eu vou te ajudar.

Notas finais
Bom, a história está se encaminhando para os últimos capítulos. Não sei ao certo quantos. Mas vou fazer o possível para não esquecer de nada. Então, por favor, me ajudem. Me deem ideias. Me digam o que vocês ainda gostaria que acontecesse ou como tudo terminasse. É sempre bom ver a opinião de vocês também. E não se desesperem. Não é como se fosse acabar amanhã sem eu ter resolvido os principais pontos. Eu só estou preparando vocês desde agora. Comentem! Beijos e até ♥