Apenas Um Olhar
13 Tempos difíceis.
Notas iniciais
Hoje, Carlos e eu, completaríamos um ano de casados.
Nossa, como o tempo passou rápido!
Parece que foi ontem... Apesar de eu já não me sentir mais a mesma Melissa de antes. Não aquela Melissa bobinha de antes. O tempo me fez mudar muito. Me fez crescer e evoluir. As novas experiências me tornaram uma pessoa muito mais madura.
Hoje eu sou tão boa no volante quanto o Carlos. Me considero uma ótima cozinheira, mesmo ainda não estando ao nível da mamãe. Sou boa dona de casa. Conheço cada cantinho desse apartamento mesmo de olhos fechados. Sei andar por aí sem precisar parar para pedir informação ou sem precisar da ajuda do GPS ou da internet. Meu inglês também melhorou muito.
Sou mais organizada e muito mais vaidosa. Não preciso mais da ajuda de ninguém para escolher minhas próprias roupas, nem para cuidar do meu cabelo, da minha maquiagem, da minha pele ou das minhas unhas. Posso fazer tudo isso sozinha, mesmo que as vezes seja muito bom ir a um salão de beleza e deixar que cuidem de mim pelo menos uma vez ao mês.
Para não deixar passar em branco, preparei algo especial para o meu marido aquela noite. Passei o dia fora cuidado de tudo e assim que cheguei em casa comecei a organizar as coisas.
Fiz o prato favorito dele para o jantar, depois vesti um lingerie especial preta e deixei os cabelos soltos, enchi o quarto de velas aromáticas e pétalas de rosas. Coloquei uma música suave para tocar de fundo. Depois só esperei ele chegar.
Carlos não esperava a surpresa, mas ele me trouxe um presente: um anel lindo que deveria ter custado uma fortuna. A essa altura do campeonato eu já estava acostumada a isso. Já eu comprei para ele um perfume, porque sabia que o dele estava acabado.
Primeiro nós jantamos. Depois eu o levei até o quarto. Fiz uma massagem nele para tirar toda a tenção de seu corpo. Por fim começamos a nos beijar e a coisa toda rolou. Já era muito tarde quando entramos juntos da banheira cheia de espuma.
Acordei cedo no sábado não só para me despedir dele que iria a uma viajem de trabalho e só voltaria na quarta-feira, como também para me arrumar, pois eu iria para a casa dos meus pais.
Cheguei lá a tempo para o café da manhã.
Ficaram todos muito felizes com a minha visita surpresa. É vergonhoso admitir, mas fazia tempo que eu não via a minha família. Nós nos falávamos muito por telefone ou pela internet. No começo muito mais que agora.
Depois do café da manhã, Juliana me arrastou para sua casa. Ela e o Igor tinham conseguido comprar a casa do lado. Eles estavam morando lá ia fazer quatro meses.
Fomos direto para o quarto da bebê no primeiro andar. Cecília já estava com mais de dois meses e meio. Eu era a madrinha. Mas a última vez em que eu tinha visto ela tinha acabado de nascer. E agora já estava tão grandinha. Já gostava muito de brincar com seus brinquedinhos coloridos e barulhentos para bebês.
Fiquei babando a minha sobrinha por muito tempo. Até que a mamãe veio nos chamar para o almoço.
— Ué, cadê o Guto? Eu trouxe uma coisa para ele. Sei que ele faz aniversário no mês que vem.
— Ah, minha filha, seu irmão não para mais em casa desde que encontrou uma namoradinha.
— Mas já?
— Ele tem quase dezesseis anos, Mel. – observou minha irmã, sentando-se ao meu lado. — Você queria o quê?
O dia passou muito rápido. Passei a maior parte do dia em casa, na companhia do meu pai, da minha irmã e da minha sobrinha enquanto a mamãe se ocupada com os afazeres da pousada.
A noite Augusto chegou em casa. Ele parecia muito radiante. Eu até pensei em brincar com ele a respeito da possível namorada, mas sabia o quanto os garotos detestam esse tipo de coisa.
Subi para o quarto atrás dele.
— Guto! – chamei-o antes que ele se trancasse no quarto pelas próximas horas. — Tenho algo para você.
Comprei para ele um Tablet, sabia que ele estava louco por um.
— Obrigado, maninha. – ele quase pulou do meu colo, apesar de já está muito maior que eu e muito mais forte. Com pelos nascendo no rosto e músculos nos braços. — Você é a melhor irmã do mundo!
— Ei, eu ouvi isso. – Juliana gritou lá de baixo. — E sinceramente? Estou muito chateada.
Augusto e eu apenas demos risadas.
Sabíamos que ela estava brincando.
No domingo, passei o dia fora passeando pela cidade, revivendo os velhos tempos. Eu adorava aquela cidade!
Fiquei na casa dos meus pais até a terça-feira.
Quando já estava de volta a minha casa eu me senti ótima. No começo foi difícil de me acostumar a ideia de não ter a minha família por perto. Mas eu tinha aprendido a amar a minha própria casa, o meu cantinho, as minhas novas coisas, a minha privacidade e principalmente a calmaria desse lugar.
Carlos chegou na quarta-feira à tarde. Tomou um banho e foi se deitar. Eu sabia que ele chegaria muito cansado. Mas esperava que pelo menos fossemos sair e conversar sobre como havia sido a viajem. Mas ele andava muito distante ultimamente.
E isso só se agravou com o tempo.
Carlos parou de sair cedo do trabalho para pelo menos vir jantar comigo em casa. Agora, todos os dias, ele chegava quase as onze da noite, muito cansado. Tomava banho e ia dormir. Não conversava e muito menos perguntava como tinha sido o meu dia.
E nos finais de semana, quando eu sugeria uma viagem ou um simples passeio para sairmos da rotina, ele dizia que não, que só queria ficar em casa, no aconchego do seu lar. Se não estava resolvendo coisas do trabalho, ele estava dormindo ou assistindo televisão, jogado no sofá.
No começo eu entendia. Não sabia exatamente como era o seu trabalho, tinha uma pequena noção e o pouco que eu sabia já dava para deduzir que era bastante puxada e cansativo.
Eu sabia o quanto era bom para ele eu dar espaço.
Mas comecei a me incomodar bastante e me sentir muito mal, mesmo que não dissesse, quando ele começou a não reparar nos sacríficos que eu fazia diariamente por ele. Ele simplesmente parou de elogiar a minha comida, a minha roupa, o meu cabelo. Ele não percebia mais quando eu mudava os móveis ou alguma coisa de lugar. Para ele aquilo não significava nada.
Pelo menos era isso que dava para entender.
Eu não parei de fazer as coisas só porque ele não reparava mais ou fingia não reparar. Afinal, aquilo era tudo que eu tinha. Eu não tinha mais nada. Nem mesmo um emprego. E tudo isso eu fiz por ele. Para o melhor dele. Para o melhor de nós dois.
E por mais que sua indiferença me incomodasse, eu não dizia isso a ele. Não em palavras. Eu sempre tive medo de incomodar ou de irrita-lo. Sabia que ele tinha coisas muito mais importante com o que se preocupar. Como seu trabalho, por exemplo.
Não tinha porque eu me queixar. Não agora. Porque quando eu o conheci, eu já sabia que ele era muito dedicado ao trabalho.
Mas antes ele não era tão frio ou tão distante. Ele sempre dava um jeito de me compensar ao final do dia de alguma forma. Com um telefonema. Com um carinho. Com uma frase. Com um elogio.
Mulher sente falta dessas coisas.
— Porque você está com essa cara? – perguntou ele muito sério. Tinha acabado de chegar do trabalho. Todo molhado porque chovia muito lá fora. — Deveria estar sorrindo. Deveria estar agradecida e contente. Você não tem nenhuma preocupação e não faz nada da vida além de cuidar dessa casa.
Ai.
Essa doeu.
— Não estou te entendendo...
— Eu é que não estou te entendo. – ele bate os punhos com força sobre a mesa do jantar. Levo um susto daqueles. — O que foi? Você por acaso tem alguma coisa pra me dizer?
— Não, nada. Só que você está muito estranho nos últimos meses. Está calado, distante, frio. Você não era assim...
— As pessoas mudam, sabia? – ele me olhava de uma forma tão feia que meu corpo todo se encolheu involuntariamente. — Não sei porque você está reclamando! E eu só estou cansado. Tenho muito o que fazer e ainda por cima chego tarde em casa todas as noites e todo molhado por causa dessa maldita chuva.
Me aproximo, mesmo tremendo dos pés à cabeça.
— Acho que você deveria tirar férias. Você anda muito estressado. Isso não te faz bem.
— O quê? – ele voltou a erguer o tom de voz. — Melissa, você acha mesmo que eu tenho condições de tirar férias? Como você acha que eu sustento essa casa e todas as suas futilidades...
Ele não estava falando sério. Ou será que estava?
Carlos nunca falou comigo assim antes.
— Carlos, você não precisa falar comigo assim... Eu não estou reclamando de nada, meu amor. Eu só acho que...
— Ah, por favor, cala essa boca. Não aguento mais ouvir a sua voz!
Dito isso, ele apenas ergueu a mão e bateu com ela no meu rosto. Doeu. Doeu muito. Eu precisei me debruçar, com a mão no rosto, que parecia estar pegando fogo.
Carlos tinha acabado de me bater. Isso só poderia ser um pesadelo. Não podia ser real. E o pior foi ele ter saído, subindo lá pra cima, como se não tivesse acontecido nada.
Fiquei ali parada, completamente imóvel. Me sentia muito humilhada. Também não sabia o que fazer. Ia tirar satisfações? Dizer que ele jamais poderia me tocar daquela forma? Porque ele não tinha direito nenhum em tocar em mim. Não desse jeito! Mas e se ele me batesse ainda mais? E se ele me colocasse para fora de casa?
Tentei controlar a respiração. Mas não consegui segurar as lágrimas que escorreram por meu rosto dolorido.
Não iria confronta-lo.
Nós só tínhamos acabado de passar por uma dessas brigas de casais. Sabia que essa tinha sido a primeira e última. Por que a partir de agora eu seria uma esposa melhor. Faria tudo certinho.
Iria sorrir sempre que ele chegasse em casa. Não reclamaria de mais nada. Eu tinha tudo! Graças a ele. E entenderia o lado dele. Daria o tempo e espaço que fosse preciso até que tudo voltasse a ser como antes.
Guardei a comida que não foi tocada dentro da geladeira. Lavei o pouco de louça. Apaguei as luzes e subi para o quarto. Estava tudo escuro. Ele já estava dormindo do seu lado da cama. Tirei aquelas roupas e coloquei a minha camisola. Estava sem sono, mas estava com bastante dor. Pensei até em ir dormir no outro quarto. Por medo de acorda-lo e de enfurece-lo ainda mais.
Mas meu lugar era ao lado dele.
No outro dia, Heloísa veio me fazer uma visita. Ela estava sempre bonita e impecável. E sua filhinha, Milena, cada vez mais crescida, agora com um pouco mais de dois anos de idade.
— Mel, o que é isso roxo no seu rosto?
Eu passei várias camadas de pó no rosto, mas pelo visto não adiantou.
— Não é nada. – eu sorri, mentindo na maior cara dura. — Eu que sou desajeitada e bati de cara ontem na porta de vidro.
Ela riu.
Acho que acreditou na história.
Passamos o resto da tarde comendo besteira e tagarelando, enquanto pintamos a unha uma da outra como duas adolescentes. Milena se divertia assistindo desenhos animados.
Carlos chegou no horário previsto. Quase onze da noite. Eu estava arrumada e perfumada. E com um sorriso na cara.
Me surpreendi quando ele entrou, deixou a pasta de trabalho no chão e veio direto me abraçar. Ele não fazia aquilo a bastante tempo. Ele quase me tirou do chão!
— Me desculpe por ontem, querida. – ele beijava meu rosto. Tentei ignorar a dor na minha bochecha direita. — Eu estava muito estressado e acabei me exaltando.
Ele me largou e pegou minhas mãos.
— Eu prometo que isso nunca mais vai acontecer. Eu prometo! Ah, eu trouxe uma coisa para você como pedido de desculpas.
De dentro da pasta ele tirou uma caixa aveludada.
Dentro da caixa tinha um lindo par de brincos com uma pedra AZUL brilhante.
— Fiquei o dia todo pensando em você e me sentindo muito mal pelo que aconteceu ontem. Então eu saí para almoçar e vi isso na vitrine de uma loja. Eles combinam muito com os seus olhos.
— Obrigada, querido. Não precisava.
Nós nos beijamos.
Estava tudo bem outra vez.
O episódio de ontem foi completamente apagado da minha mente.
— Você pode usa-los no domingo. Meus pais me ligaram ontem. Eles vão vir almoçar aqui.
— Sério? Não acredito!
— Pois é.
Enfim eu iria conhece-los.
Estava ansiosa e nervosa ao mesmo tempo.
Carlos raramente falava dos pais e eu tinha esperanças que esse almoço de domingo me mostrasse qual era a verdadeira história por trás disso.
Fale com o autor