Apenas Um Olhar
5 Pega de surpresa.
Não preciso nem dizer que passei a manhã inteira pensando no Carlos e quando ele viria me buscar para irmos dar uma volta. Eu estava bastante ansiosa, mas também muito nervosa. Ele pareceu ter gostado tanto de mim, eu não queria estragar nada. Porque eu também gostei bastante dele e a aparição repentina dele na minha vida é algo que me enche de expectativas para um futuro totalmente desconhecido
Não contei a Alícia sobre o passeio e nem sobre a noite de ontem. Fingi estar muito ocupada, cheia de coisas para fazer. Mas a verdade é que eu só queria contar para ela quando a minha irmã também estivesse presente, mas elas ficaram a par de tudo ao mesmo tempo sem eu precisar ficar repetindo a história toda.
Mas é claro que ela logo percebeu que eu estava mais agitada, até mais sorridente.
— Você não vai me contar mesmo o que aconteceu ontem?
— Ainda não. Mais tarde nós conversamos.
Tentei me concentrar no meu trabalho, mas só consegui tirar o Carlos dos meus pensamentos quando a professora Beatriz trouxe sua turma para a biblioteca para eu ler historinhas para eles.
Essa era sempre a minha parte preferida do dia. Quando as crianças sentavam no carpete em círculo e eu sentava em frente a elas. Então eu dava duas opções de livros a elas. Através de votação nós chegávamos a uma conclusão. Mas elas sempre preferiam histórias com aventura, com mistério e que no final ficava tudo bem.
Eu adorava ver os olhinhos delas atentos a cada palavra minha. Ou a reação de espanto quando acontecia algo terrível durante a narrativa. Ou quando elas caiam na risada por algo divertido. Ou quando suspirava quando eu terminava de ler e dizia que ficou tudo bem e que todos viveriam felizes para sempre.
Eles gostavam muito quando monstros e bruxos eram derrotados e os mocinhos eram corajosos e se davam bem.
Ao final do expediente, peguei minha bolsa e saí às pressas, depois de dizer a Alícia que eu tinha uns problemas para resolver.
Assim que coloquei meus pés na calçada vi um carrão todo preto estacionado do outro lado da rua.
Será que era ele?
Então me lembrei do que a mamãe me disse noite passada.
Mas antes que eu pudesse tomar minhas próprias conclusões e ir pertinho para conferir, ele desceu do carro, usando jeans, sapatos pretos e um camisa ¾ de azul clara.
Bastante elegante, como sempre.
Olhei para os dois lados para conferir se não vinha nenhum carro e atravessei a rua. Ele se inclinou para me beijar no rosto e tocou minha cintura. Seu simples toque fez meu corpo todo estremecer e meu rosto pegar fogo.
Eu não tinha escolhido nada de mais para usar naquela manhã, antes de sair para o trabalho, mas de jeito nenhum minha irmã me deixaria usar qualquer coisa sabendo que eu teria um novo encontro.
Por fim, me decidi por uma calça de cintura alta, que segundo a minha irmã me caia muito bem, e uma blusinha branca. Para os pés um salto baixinho, que não me incomodaria em nada. Os cabelos deixei soltos mesmo, raramente eles me davam trabalho. E passei uma maquiagem básica, só para dar uma corzinha.
Carlos abriu a porta do carro para eu entrar. Eu nunca tinha entrado em um carro tão grande e tão chique. Era tudo tão espaçoso e limpinho. Dava facilmente para morar ali dentro.
— E então, qual será nosso primeiro destino?
— Eu pensei em irmos primeiro no museu, que tal?
— Um passeio cultural? São os meus preferidos.
Ele que dirigia, mas era eu quem dava as coordenadas. Apesar de nunca ter sido uma pessoa que sai bastante quanto a minha irmã, eu conhecia aquela cidade como ninguém. Especialmente os pontos que os turistas mais gostavam de visitar.
Primeiro fomos ao museu e depois paramos para almoçar em um restaurante que até então eu só tinha passado em frente, porque sabia que ele era muito caro. Em seguida fomos ao teatro e antes de ir ao meu lugar preferido – a biblioteca municipal – nós paramos para tomar um sorvete, pois fazia muito calor.
Foi no finalzinho da tarde que o Carlos teve uma grande ideia.
— E se nós fossemos dar uma caminhada pela praia?
Eu não imaginava que ele quisesse isso, mas concordei.
O Carlos tirou os sapatos, coisa que eu não esperava dele, mas pelo visto ele era cheio de surpresas. Então, tirei os meus também. E juntos colocamos o pé na área, foi quando ele pegou na minha mão.
Como estávamos em temporada de férias, mesmo com o cair da noite a praia estava bastante movimentada. Principalmente de turísticas tirando milhares de fotos.
Caminhamos calados pertinho do mar, sem nos importarmos com a água molhando até o meio de nossas canelas.
De repente, o Carlos parou, segurando as minhas duas mãos.
— Sei que isso vai parecer precipitado e até um pouco estranho, mas, eu nunca conheci uma mulher tão incrível quanto você.
Ele soltou as minhas mãos, segurou o meu rosto, inclinou-se e me beijou apaixonadamente.
No início, eu não sou bem o que fazer. Nem onde colocar as minhas mãos. Acho que ele deve ter percebido isso, porque sorriu mesmo com os lábios colados nos meus. Isso foi o bastante para me fazer relaxar um pouco. E sem eu me dar conta, as minhas mãos pousaram nas costas dele e eu me entreguei pra valer ao nosso beijo.
Quando ele se afastou eu senti um frio na barriga. Não queria que ele parasse. Queria que ele continuasse me beijando. Aquilo era tão bom. Eu quase podia me sentir em outra dimensão.
— Mel? – alguém me chamou e rapidamente eu me virei para trás, dando de cara com o meu irmão.
— Guto, o que você está fazendo aqui? Você já não deveria estar em casa? A mamãe vai te matar, garoto!
Ele riu, como se eu tivesse dizendo alguma mentira.
— Relaxa, eu já tô indo.
— Vem com a gente. – sugeriu o Carlos. — Estamos de carro.
Não sei porque meu irmão olhou para ele com certa desconfiança. Ele adora carros! Pensei que isso o animaria.
— Tá. Pode ser. – ele deu de ombros.
Em quinze minutos chegamos em casa.
Ninguém falou nada durante todo o caminho.
— Seu irmão é sempre tão sério assim? – perguntou o Carlos, com curiosidade. Assim que paramos em frente da pousada, ele desceu e saiu correndo, direto para casa.
Sem nem se despedir ou dizer um “obrigado. ”
— Na verdade, não. Me desculpe por isso. Eu não sei o que está acontecendo. Ele está estranho!
Carlos riu, divertido.
— Deve ser só ciúmes da irmã mais velha.
— É, pode ser. – olhei para ele. — Foi um dia maravilhoso, mas eu tenho que ir agora.
— Eu sei. – ele me roubou um beijo rápido. — Nos vemos amanhã, então.
Eu ainda estava bastante desconcertada e confusa com o que rolou entre nós na praia. Não sabia dizer o que aquilo poderia significar. Sinto que algo mudou depois daquele beijo.
Quando entrei em casa, ouvi a mamãe dando uma bronca daquelas no meu irmão por ele ter chegado em casa em tarde.
Meus pais sempre foram bastante rígidos conosco.
Entrei na cozinha de mansinho para não atrapalhar nada.
Mamãe e Augusto se viraram para mim.
— Pelo menos não era eu quem estava aos beijos na praia com um homem desconhecido. – Augusto saiu batendo os pés.
Eu estava paralisada. Ele nunca agia assim.
— Eu ouvi a palavra “beijo”? – Juliana apareceu de repente na cozinha, acompanhada por Alícia, que deveria estar ali em casa há horas, apenas esperando eu chegar para saber de tudo.
Não tive como escapar.
Sentamos na mesa da cozinha e eu tive que contar tudo, em detalhes, o que aconteceu ontem e hoje na praia.
As três não tiraram os olhos de mim.
— Agora chega. – levantei-me, decidida. — Eu preciso descansar! Vou subir e tomar um banho.
E foi exatamente o que eu fiz.
Tomei um banho morno para tirar toda a tensão do corpo, depois vesti uma camiseta velha e um shortinho. Na minha prateleira eu peguei um novo livro, pois tinha terminado de ler Extraordinário alguns dias atrás. O escolhido dessa noite foi Apenas um dia, da autora Gayle Forman.
Me aconcheguei em minha cama para começar a leitura, mas a minha irmã apareceu no exato momento em que abri o livro. Ela não disse nada, apenas pegou o celular esquecido sobre a penteadeira. No rosto ela tinha um sorriso bastante provocativo.
— Você está querendo me dizer alguma coisa, Juliana?
— Não, nada. Estou apenas olhando. Não posso?
Ela riu e saiu, provavelmente para se encontrar com o namorado.
Acabei pegando no sono antes mesmo de terminar de ler o terceiro capítulo do livro. Acordei assustada, com o celular vibrando ao lado, sobre o criado-mudo.
Era um número totalmente desconhecido.
Resolvi atender mesmo assim.
— Não consigo dormir. Não paro de pensar em você.
Imediatamente reconheci a voz.
Era ele. O Carlos.
— Me desculpe.... Eu te acordei?
— Não, não. – menti. — Eu só estava lendo.
— Você gosta muito de ler, não é mesmo?
Foi bom ele ter mudado de assunto ou eu ficaria muito muda, por falta do que dizer, devido ao constrangimento.
— Sim, é o meu passatempo favorito. E o seu?
— Não sei.... Talvez seja olhar para você...
Eu ri, envergonhada.
— Mas nós só nos conhecemos há três dias.
— Eu sei. – ele riu também. — Mas eu tenho a impressão que te conheço uma vida toda. Talvez esse seja um bom sinal.
— Um sinal?
— Sim, um sinal que fomos destinados a nos conhecer.
— Você não está falando sério.... Você acredita mesmo em destino?
— Sim, muito. Você não?
— Sim, eu acredito. Mas não esperava isso de você.
— Porque? Eu não pareço ser um romântico a moda antiga?
Pensei um pouco.
— Não muito. – admiti, risonha.
— Então o que você sente quando olha pra mim?
— O que eu sinto? Não sei dizer. Mas te acho bastante misterioso e fascinante também. Ah, e você é bem surpreendente.
— Sério? Nunca me disseram isso antes. Quer saber o que eu sinto quando eu olho para você? Sinto que finalmente encontrei a pessoa certa, por quem estive procurando a vida toda e que eu seria muito tolo se deixasse essa oportunidade escapar.
Fiquei muda.
O que eu poderia dizer?
Que achava que estava me apaixonando por ele?
Sim, eu estava. Mas também estava com bastante medo. Medo de estar me iludido. Medo de ele não estar sendo completamente sincero. Medo que ele vá embora e despedace meu coração. Afinal, eu mal o conheço.
— Já sei o que você está pensando.... Você acha que eu digo isso para todas. Mas eu posso garantir que não. Eu nunca senti nada parecido. Apenas peço que você confie em mim e eu te provarei que estou sendo verdadeiro.
— Eu confio em você. Eu quero confiar em você. Mas acho que preciso de mais tempo para nos conhecermos melhor. Não quero que tudo isso se resulte em nada. Não quero viver apenas um romance de verão. Sinto que já estou velha demais para brincar de amar.
Acho que nunca fui tão corajosa em toda a minha vida em dizer tudo que estava se passando dentro de mim.
— Você tem razão. Não somos mais adolescentes. E se você precisa de mais tempo, eu vou te dar esse tempo. Vamos nos conhecer melhor, vamos ver no que isso vai dar. Mas saiba desde agora, que eu não estou aqui só para brincar com o seu coração. Eu realmente gostei de você desde o primeiro instante.
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