Apenas Um Olhar

9 O dia tão esperado.


Notas iniciais
Sei que a história não está tão empolgante ou tão cheia de ação. Mas eu garanto que terá. É que eu deixei um pouco de emoção mais para o meio da história que é quando as coisas realmente vão acontecer. Será uma grande surpresa. Estou ansiosa! Não posso falar muito, porque por agora tem que ser assim, se não nem tem graça.

Carlos e eu nos casamentos em uma manhã de sábado em uma igrejinha bastante antiga e popular aqui em Niterói mesmo.

Ele contratou vários especialistas para cuidar de tudo por nós, inclusiva uma estilista de moda, que me ajudou a escolher o vestido perfeito de casamento. Ela me mostrou vários catálogos, com vestidos caríssimos e do sonho de qualquer mulher. Além de admirada, eu fiquei muito perdida e confusa, então ela me ajudou a escolher o que melhor se ajustava ao formato do meu corpo.

O vestido era como de uma princesa moderna, só que branco e tinha uma longa calda e um véu delicado embutido no meu penteado.

A maquiadora realçou a cor azul dos meus olhos com contornos escuros e a cabeleireira fez um coque em sofisticado. Com elas tinham uma equipe bem grande, elas também cuidaram de toda minha família, especialmente da minha irmã e da mamãe.

As duas eram minhas madrinhas de casamento.

Desde sempre eu nunca tive dúvidas de que algum dia convidaria a minha irmã para ser minha madrinha, mas eu também tinha planos de convidar a minha melhor amiga, Alícia. Só que eu não fazia ideia para onde ela havia se mudado. Ela nunca me ligou.

Como eu não tinha nenhuma outra amiga tão íntima, eu convidei a mamãe e ela quase teve um infarto.

Alguns dias antes do casamento, Carlos e eu tivemos uma longa conversa sobre o casamento. Fiquei muito surpresa e até um pouco chocada, quando ele me disse que não tinha convidado ninguém de sua família, já que eles não eram muito próximos. Ele não convidou nem mesmo os amigos. Se é que tinha algum.

— Mas e aquele seu amigo de infância que atualmente é o seu sócio? – perguntei, só por curiosidade.

— Ele e a esposa foram viajar. – foi tudo que ele disse, se tirar os olhos da longa lista de convidados que eu tinha feito.

Fiquei com aquilo na cabeça pelo resto da semana.

Porque é o Carlos não ia convidar ninguém de sua própria família para o nosso casamento? Porque será que eles não se davam bem? Será que ele tinha algum amigo, além do sócio, ou só era um homem solitário em busca da felicidade?

Eu tinha convidado bastante gente. Eu não tinha muitos amigos, mas por causa da minha família e da pousada, eu conhecia muitas pessoas e queria que todas elas estivessem presentes no dia mais especial da minha vida.

Eu quis muito perguntar a ele e me aprofundar um pouco mais em sua vida. Mas sempre que eu sugeria algo, ela evidente que ele ficava muito desconfortável e até mudava de assunto. Eu não queria bancar a chata e nem ser inconveniente. Esperava que algum dia ele se abrisse comigo sem eu precisar forçar nada.

Mas esses pensamentos logo saíram da minha cabeça, quando eu me ocupei com outros assuntos relacionados ao casamento: o sabor do bolo, o cardápio, as bebidas, a decoração, a lista de convidados, o lugar da festa, as lembrancinhas etc.

Minha irmã e a mamãe me ajudaram muito, já que eu era uma pessoa extremamente indecisa na maior parte do tempo.

Depois da cerimônia e de tantas lágrimas, nós nos dirigimos a festa do casamento, que aconteceria a beira mar. Em um lugar todo romântico que o Carlos mesmo havia escolhido.

Eu como noiva, quase não tive tempo de aproveitar a festa, já que estava sempre rodeada de atenções. Dos fotográficos e dos convidados. Foi bem divertido, eu nunca fui de ser o foco de nada. Mas aquele dia era único da minha vida. Um dia que ficaria, assim como muitos outros, para sempre em minha memória e entraria para a lista de “Os dias mais especiais de toda minha vida. ”

Houve um momento em que Carlos e eu fomos convocados para dançar valsa no meio da pista de dança. Todos pararam para nos olhar e eu fiquei muito envergonhada.

— Você é a mulher mais bonita de todas. – ele sussurrou no meu ouvido durante a dança, acho que pra me tranquilizar, mas só me deixou ainda mais desestabilizada.

Assim que a música lenta terminou e foi substituída por uma música mais agitada, muitos convidados se juntaram a nós na pista de dança. E só depois de toda aquela euforia nós cortamos o bolo e fizemos poses para mais uma enxurrada de flashes.

A festa foi até as cinco da tarde. Mas e eu o Carlos tivemos que sair um pouquinho antes, pois tínhamos um voo marcado para as seis horas. E eu ainda não sabia o destino da nossa tão esperada lua-de-mel. O Carlos insistia em manter o segredo e o mistério.

Era a primeira vez que eu entrava em um avião. Era muito maior do que eu havia imaginado. Eu fiquei apavorada! Só sabia tremer e o Carlos ria muito da minha carinha de medo.

Quando finalmente sentamos em nossos assentos e o piloto ganhou voz, foi que eu descobri o destino da nossa viagem: Caribe.

Eu nunca nem saí do Rio de Janeiro, imagine só do país!

A viajem era um tanto longa, o Carlos logo adormeceu. Mas eu não conseguia me conter de ansiedade. E não tinha ninguém para conversar. E lá fora, através da janela, estava tão escuro que eu não conseguia ver absolutamente nada. Uma pena.

Primeiro, tentei ler um livro. O máximo que consegui foi dois capítulos. Depois me interessei por um filme que estava disponível, mas ele era muito chato e não prendia a minha atenção. Por fim, peguei meu celular e me conectei aos meus fones de ouvido. Coloquei uma música aleatória para tocar. Me ajeitei na poltrona e fechei os olhos. Rapidamente consegui adormecer também.

Acordei apenas com o Carlos me cutucando. Tirei os fones e parei a música. Tínhamos chegado, ele anunciou. Aproveitei para guardar minhas coisas e depois me levantei e o segui para fora.

Pegamos nossas coisas e saímos do aeroporto. Era dia. Não sei exatamente que horas, devido a diferença dos fusos horários. Descobri naquele momento que o Carlos falava inglês fluentemente. Coisa que eu já deveria ter imaginado. Mas como se isso não bastasse, durante nossa viagem de táxi ao hotel, descobri que ele também falava espanhol e francês.

Quanto eu mal falava inglês.

Vergonhoso.

Chegamos a um hotel em frente ao mar – e que mar! – que era dez vezes maior que a pousada da mamãe. Nosso quarto ficava no décimo primeiro andar. E era uma suíte grande muito bem planejada, com uma vista privilegiada da praia.

Apesar de termos dormindo boa parte da viagem, nós decidimos descansar mais um pouco. Tomamos banho e depois caímos direto na cama. Só acordamos a noite, para comer algo.

Depois do jantar, fomos fazer nosso primeiro tour. Quando já era muito tarde, voltamos para o hotel. Carlos ficou assistindo televisão deitado na cama e eu fui para a sacada, contemplando o mar e o céu estrelado, e aproveitei para ligar para casa para dizer que estava tudo bem e que tínhamos chegado.

Acordamos no outro dia muito cedinho para aproveitarmos o tempo ao máximo. Foram quatro dias de pura diversão e muito romance. Conhecemos lugares novos e exóticos, pessoas divertidas, tiramos muitas fotos e experimentamos comidas diferentes.

Eu até nadei com os golfinhos! Foi uma sensação única.

Eu não queria mais voltar para casa, apesar de estar convicta que morreria de saudade da minha família. Ali com certeza era o paraíso. O lugar mais lindo de todos. Mas eu também tinha um trabalho novo me esperando e eu precisava dar tudo de mim.

Mesmo depois de casados, continue morando com meus pais, mas por pouco tempo. Carlos estava cuidando das coisas. Ele queria que tudo estivesse perfeito para minha tão esperada mudança.

Apesar de estar bem empolgada para ir morar com ele, eu evitava pensar nisso. Nunca pensei que algum dia eu teria que me separar da minha família, mesmo isso sendo o esperado. Eu sempre soube que meu lugar era ali, mas talvez eu estivesse enganada.

Ultimamente eu me sentia vivendo nas nuvens. Era um a mulher casada e realizada de todas as formas possíveis. Tinha uma família que não era perfeita, mas que era o bastante para mim. E agora tinha o emprego que eu sempre sonhei em ter.

As crianças me surpreendiam a cada dia. Estavam cada vez mais espertas. No começo foi difícil para elas superaram a saída da Alícia, mas com o tempo elas foram me aceitando de braços abertos. E logo nos tornamos todos muito próximos.

Eu não conseguia imaginar um trabalho melhor que esse.

Eu tentava levar a elas, a cada dia, algo novo e diferente para elas explorarem e aprenderem. Obtive muito sucesso com essas novas experiências. Tanto que a diretora me elogiou muito, assim com os pais na reunião. Minhas colegas de trabalho viviam me perguntando qual era a minha formula e eu sempre dizia a mesma coisa: fazer as coisas com dedicação, paciência e amor.

A barriguinha da minha irmã já estava ficando visível e seu humor mais intenso. Ela já era intensa antes, mas agora com a gravidez, ele variava com muita mais facilidade. Em alguns dias ela parecia que ia explodir de raiva por qualquer coisinha, em outros dias ela estava saltitante de alegria, já em outros tudo que ela sabia fazer era chorar e chorar mesmo sem ter motivos.

Suas roupas também logo começaram a ficar mais apertadas. E nós saímos diversas vezes para fazer compras. Mas ela sempre parava no meio do caminho, cheia de sacolas, para olhar as lojinhas que vendia tudo para bebês. E ela sempre saia das lojas aos prantos e ela só voltava a sorrir quando eu oferecia alguma coisa pra comer.

E o mais interessante de tudo isso é que ela estava ótima. Seu corpo continuava invejável. Sua médica não conseguia entender com ela comia tanto e ganhava quase nada de peso.

Por falar em médica, ela ia a suas consultas pelo menos uma vez por semana. Se dependesse dela, ela não iria, porque ela tinha uma cabeça de vento. Juliana esquecia tudo! Mas a mamãe estava sempre no seu pé, fazendo-a lembrar.

O Igor era o pai mais babão que eu conhecia. Com a gravidez ele ficou ainda mais presente e bobo. Se antes ele já morria de amores pela minha irmã e fazia qualquer coisa por ela, agora era muito pior.

O Igor fazia questão de estar sempre presente em todos os momentos. Ele não saia mais lá de casa. E eu sabia que ele estava fazendo um esforço danado para terminar os estudos o quanto antes e dar um futuro melhor para eles.

Na quinta-feira, quando eu estava saindo do trabalho com algumas colegas, vi que alguém estava me esperando do outro lado da rua. Era o Carlos. Eu não estava esperando, porque ainda nem era o final de semana. E ele nem ligou para avisar!

Minhas colegas deram risadinhas ao ver a minha cara de espanto, elas se despediram e eu fiquei sozinha, ainda imóvel. Carlos já me conhecia muito bem, então, para facilitar, ele veio na minha direção sorridente. Me deu um abraço e um beijo. Depois pegou a minha mão e me levou até o outro lado da rua.

Pela primeira vez, notei que ele não tinha vindo com o carro dele. Um Ranger Rover todo preto. E sim com um Citroen C3 prata, com um grande laço vermelho em volta do veículo.

Era uma cena engraçada. Nunca tinha vista nada igual.

— O que isso significa? – perguntei com um sorrisinho, apesar de já ser um pouco obvio.

— Esse é o meu presente de casamento para você. – Carlos sorriu de volta, todo orgulhoso. — Gostou?

Eu não conseguia acreditar!

Tirei minha carta de motorista aos vinte anos de idade, mesmo sendo muito medrosa para esse tipo de coisa, dirigir era uma coisa que eu queria muito na época. Mas desde então eu só tinha dirigido um carro na vida, acho que umas duas ou três vezes. E só.

— Carlos, não precisava! – eu ri nervosamente. Não tinha palavras para aquilo. — Eu nem me lembro como se dirige um carro, ainda mais um desse, novinho em folha e de última geração.

Carlos riu.

— Não tem importância, querida. Nós temos tempo. Eu vou te ensinar tudo que você precisa saber. Podemos começar agora mesmo. Mas antes, que tal irmos comer alguma coisa?

— Tudo bem, eu aceito e concordo. Mas com uma condição.

— E qual é?

— Como eu não comprei nada para você, deixa que eu pago o almoço hoje. Pensei em comermos uns hambúrgueres, o que você acha?

Novamente ele riu, depois me abraçou e beijou a minha testa.

— Parece ótimo. Vamos lá?

Levei ele a minha lanchonete preferida. Eu costumava ir muito para lá quando mais jovens, com a minha irmã e a Alícia. Lá eles tinham um cardápio muito simples, mas muito saboroso.

Pedi um X- Salada e um Guaraná Antártica gelado. O Carlos demorou para se decidir, parecia que ele nunca tinha comido um hambúrguer em toda vida. Não tive como não rir da carinha dele. Por fim, ele se decidiu por um X-Picanha e um suco de melancia.

Depois de comer, Carlos me levou para digerir. Nós passamos a tarde inteira nos divertindo, rindo horrores. Principalmente ele, que ria de todas as minhas estabanadas. Pela primeira vez em anos, eu descobri o quanto eu era péssima no volante.

Mas tudo era só uma questão de tempo e prática, como o próprio Carlos disse para me apoiar e me incentivar.

A noite nós voltamos para casa, e eu chamei todo mundo lá pra fora para ver meu novo carro. Foram todos correndo e assim como eu não acreditaram no que viram. Meu irmão, Augusto, ficou extremamente animado com o meu novo brinquedinho.

— Você vai me levar para passear, não é Mel? E pode me ensinar a dirigir também. O que você acha? Eu já sou adulto!

Todos riram.

— Você não acha que é cedo demais para aprender dirigir, Augusto? – perguntou o Carlos, descontraído.

Meu irmão olhou feio para ele.

Prendi a respiração por um momento, pois sabia que quando ele abrisse a boca era para dar uma boa reposta no Carlos. Eu não fui a única a perceber isso, mas a Juliana foi mais rápida.

— Vamos, irmãozinho. Venha me ajudar a terminar o jantar. – ela colocou os braços nos ombros dele e o levou de volta para casa.

Quando nos reunimos a mesa para o jantar, ficamos todo conversando sobre a gravidez da Juliana. Estavam todos muito ansiosos e na expectativa para que essa criança viesse logo.

Aproveitando que minha irmã saiu para dormir na casa do namorado, levei o Carlos lá para cima, para o quarto.

Meus pais já não se importavam mais, afinal, agora éramos oficialmente casados.

— Tenho boas notícias. – ele comentou, sentando-se na minha cama. Sentei-me entre suas pernas e ele começou a massagear meus ombros carinhosamente.

Ah, como eu adorava aquilo.

— A mudança já está quase completa. Falta apenas os últimos detalhes. Acredito que já poderemos nos mudar na segunda-feira.

Surpresa, virei-me de frente para ele.

— Mas você nem me disse ainda onde fica a casa.

Eu torcia mais que tudo para que fosse por aqui perto. Sinceramente? Não estava preparada para viver longe da minha família e nem do meu trabalho. Minha vida ali era perfeita!

— Na verdade, é um apartamento, no Leblon.

Leblon?

Por essa eu não estava esperando.

Deixei essas coisas nas mãos do Carlos porque sabia que ele entendia muito melhor desse tipo de coisa que eu. Mas pensei que ele já tivesse consciência de quais eram meus desejos e vontades.

— Você vai adorar! E melhor: fica pertinho do meu escritório.

Não queria chateá-lo, porque era evidente que ele estava muito contente e satisfeito com a escolha do lugar. Mas eu estava muito chateada em pensar que em breve eu iria me mudar para tão longe de casa, da minha família, do meu trabalho.

Por outro lado, eu sabia que já estava mais que na hora de crescer, evoluir, criar coragem e sair de baixo das asas da minha mãe. Deixar todo esse comodismo e os medos para trás. Estava mais que na hora de ir viver minha própria vida e me arriscar mais.

E uma pequena parte de mim dizia que esse era o momento certo para isso.

Notas finais
Melissa vai finalmente sair de casa. Como será essa nova etapa de sua vida?