Apenas Um Olhar
23 Completamente envolvida.
Notas iniciais
Rodrigo se afastou, como se tivesse levado um choque de realidade. Ele começou a andar de um lado para o outro, pisando em cima de suas próprias roupas. Ela passava a mãos entre os fios dourados, parecendo muito frustrado e confuso.
Será que ele ficou com raiva com o meu irmão por ter interrompido nosso quase beijo?
— Mel, me desculpe por isso. – ele se ajoelhou diante de mim com uma expressão de desespero. — Eu não queria.... Eu não podia.... Eu não deveria. Eu sinto muito mesmo. Isso não vai acontecer de novo. Eu prometo! Eu não sei o que deu em mim...
Então, ele estava arrependido por um momento ter cogitado a possibilidade de me dar um simples beijo?
— Tudo bem. – digo, frustrada. Desvio o meu olhar. — Já está tarde. Acho que eu vou embora com o meu irmão.
Levantei-me apressada. Se eu corresse talvez desse tempo de acompanhar o Guto. Apesar de a minha casa ser aqui, logo em frente. Era só atravessar a rua. Eu poderia ir muito bem sozinha.
— Não! Não vai embora agora. Fica.
Rodrigo estava mais uma vez na minha frente, agora de pé, com as mãos no meu braço.
— Não, eu tenho mesmo que ir.
No fundo eu estava com um pouco de raiva dele por ele ter se arrependido em pensar em me beija. Isso era tão mal assim?
— Tchau, Rodrigo.
Abri a porta e saí, descendo a escadas às pressas, com medo que ele viesse atrás de mim e me impedisse.
Coisa que não aconteceu.
Afinal, eu não vivia no mundo dos livros.
Já eram quase duas da manhã. Não era justo acordar os gêmeos. Deixei eles dormirem na casa minha irmã aquela noite. Entrei em casa tentando ao máximo não fazer barulho.
Eu me sentia uma delinquente.
— Eu pensei que você fosse ficar mais. – comentou o meu irmão. Ele estava na cozinha, bebendo água e comendo bolo.
— Vi que estava tarde e resolvi ir embora.
Também enchi um copo com água.
— O que tá rolando entre você e o Rodrigo?
— Nada! Nada mesmo. Ele é só um amigo.
— Sabe, eu até que gosto dele.
Augusto terminou de comer e subiu para o seu quarto, me deixando sozinha novamente. Bebi minha água, apaguei as luzes, tranquei a porta e subi também, pronta para dormir.
Acabei acordando tarde no sábado. Olhei para o lado e vi que meus filhos ainda não estava ali. Era hora de levantar.
Mamãe entrou no quarto sem ao menos bater.
— Mel, tem visita para você. É aquele garoto!
O quê?
Eu estrava um trapo. Ainda de pijama. Só tive tempo de calçar os chinelos e descer correndo, tentando dar um jeito no cabelo.
— Mãe, ele não é um garoto.
— Pois pra mim ele é.
Rodrigo estava lá fora, esperando por mim.
— Oi, Mel. Só vim até aqui para me desculpar com você por ontem. Eu juro que não sei o que deu em mim.
Hoje eu já não estava tão brava com ele, apenas um pouco decepcionada.
— Tudo bem. – eu até consegui sorrir.
— Mamãe! Mamãe! – virei-me a tempo de ver os gêmeos correndo na minha direção com os braços abertos.
Abaixei para abraçá-los.
— Filhos, digam oi para o Rodrigo.
— Oi, Rodrigo. – disseram juntos. Vinicius sorria muito, já o Gustavo não parecia nem um pouco agradável.
— Oi, meninos. Prazer em finalmente conhece-los.
Soltei os gêmeos e eles saíram correndo, entrando dentro de casa para atormentar os avôs.
— Tive uma ideia! E se nós saíssemos hoje à tarde? Todos juntos! Eu, você e os garotos. Poderíamos ir à praia.
Mais uma vez pensei se seria ou não uma boa ideia.
Fazia tanto tempo que eu não levava os gêmeos para brincar na praia. Apesar do dia de hoje está nublado e friozinho.
— Vou falar com eles e ver o que eles acham.
— Tá legal. Então, você me liga para me dar a resposta.
Eu não tinha mais celular. A maioria das minhas coisas ficaram com o Carlos. Então, corri para dentro de casa, peguei um pedaço de papel e uma caneta e anotei o número do Rodrigo.
Tomei café com a minha família. Depois subi para o quarto com os gêmeos para termos uma conversinha.
— Não sabia que as pessoas iam na praia no frio. – Gustavo parecia levemente confuso.
— As pessoas podem fazer o que eles quiserem, a hora que quiserem, desde que isso as façam felizes, querido.
— Mãe, eu quero ir à praia. – Vinicius sorria. — Vai ser legal, não vai? A gente vai se divertir muito.
— Sim, querido. Vamos sim! – eu sorri, passando a mão em seus cabelos negros e lisos. — Vocês não se importam se a mamãe chamar um amigo para ir com a gente, né?
— O Rodrigo? – Vinicius quis saber. Gustavo fez uma careta engraçada. Queria saber o que se passava nas cabecinhas deles naquele momento. — Ele parece bem legal. Ele é legal?
— Ele é. – respondi sorrindo. — Então vamos lá. Vamos tomar um banho e nos arrumar para sair. O Rodrigo está nos esperando.
Enquanto os gêmeos se divertiam em baixo do chuveiro, desci para ligar para o Rodrigo do telefone de casa.
Ele ficou bastante animado com a resposta.
Primeiro arrumei os garotos. Geralmente eles gostavam de se vestir igual, porém com cores diferentes. Coloquei uma calça jeans nos dois, um sapato marrom e um moletom escuro.
Pedi que eles me esperassem lá em baixo com o vovô enquanto eu me arrumava. Tomei um banho mais rápido que o normal. Também vesti um jeans preto, sapatilhas, uma blusinha azul de mangas longas e uma jaquetinha jeans. Não passei nada de maquiagem, apenas um batom rosado. E prendi o cabelo em um alto rabo de cavalo, deixando a franjinha sobre a testa.
Não estava tão frio assim. De noite costumava piorar.
Rodrigo não tinha carro e eu já não tinha mais o meu. Fomos a pé mesmo até a praia mais próxima. Vinte minutos caminhando. Gustavo reclamou bastante. Rodrigo até sugeriu carrega-lo no colo, mas ele disse que já era grande para essas coisas. Ao contrário do irmão, Vinicius aceitou uma carona nos braços do Rodrigo.
Como já era de se esperar, a praia estava praticamente vazia. As gaivotas estavam por toda parte a procura de resto de alimentos pela areia. Caminhamos até encontrar um bom lugar para nos sentarmos na areia. Não demorou muito para os gêmeos começarem a divertir, correndo atrás das aves.
O mar estava muito tranquilo.
— É interessante como eles conseguem se divertir com quase tudo. -–comentou o Rodrigo, olhando para os gêmeos.
— Crianças são mais espertas do que muitas pessoas acreditam. Elas veem as coisas ao seu redor com outros olhos.
— Eu era muito parecido com eles quando criança. Eu gostava de brincar com tudo que estivesse a minha disposição. Principalmente pneus velhos e pedaços de madeira.
— E você tem irmãos?
Rodrigo virou-se para mim.
— Infelizmente, não. Minha mãe bem que tentou ter mais filhos, mas ela não conseguiu e acabou desistindo.
— E vocês se dão bem? Digo, você e seus pais.
— Ah, sim. Somos muito próximos. Sempre fomos muito de viajar pelo Brasil, conhecer novas culturas. Até que eu cresci, quis me tornar enfermeiro e vim estudar aqui no Rio. Foi a primeira vez que tive que me separar dos meus pais. Mas sempre que podemos, eu vou visita-los no Rio Grande do Sul. Ou eles vêm pra cá.
— Você sempre quis ser enfermeiro?
— Sim, sempre. Claro que quando eu era menor já quis ser astronauta ou bombeiro. Mas eu sempre tive esse lado meu que gosta de ajudar as pessoas. Fazer o melhor por elas. Sempre foi fácil identificar isso em mim. Meus pais me apoiaram muito!
Sorrimos um para o outro.
Imaginei se seus pais eram tão doces e gentis quanto ele.
— E você, sempre quis ser professora? Sempre quis ser mãe?
— Sempre. Eu tive minhas dúvidas. Mas aos quinze anos eu já estava certa do que queria fazer. Sempre fui apaixonada por crianças e a forma como eles encaram o mundo, enxergando o que há de bonito mesmo nas piores coisas. E como eu sempre gostei muito de ler, gostava de imaginar que eu seria feliz para sempre, quando chegasse o momento certo. Claro, que nem sempre foi assim. Mas pelo menos eu ganhei a coisa mais preciosa que uma mulher pode ganhar nessa vida: filhos maravilhosos.
Rodrigo me olhava admirado. Nós estávamos sentados na areia, um do lado do outro. Ele sorria torto com suas covinhas a mostra. E eu sorria envergonhada com a maneira que ele me olhava. Então, ele esticou a mão na direção do meu rosto e naquele momento eu pensei que ele iria me tocar.
Ele esteve muito perto de fazer isso, se não fosse por um dos gêmeos, o Vinicius, que veio correndo em nossa direção e pulo nas costas do Rodrigo, aos risos. Eles pareciam muito próximos.
— Vamos brincar, Rodrigo!
— Vamos!
Rodrigo sorriu para mim, como se de alguma forma pedisse desculpa por mais uma interrupção entre nós. Depois ele se levantou, pegou meu filho nos braços e brincou com ele, como se ele fosse um avião. Os dois começaram a correr pela areia, fazendo barulho de motor com a boca.
De longe eu fiquei os observando.
Vinicius estava alegre e risonho. Já o Gustavo estava mais receoso, mais acanhado. Eu sabia que eles sentiam falta de uma figura paterna em suas vidas após serem separados do pai sem muitas explicações. Não queria que o Rodrigo fosse algum tipo de substituto para eles. Mas naquele momento, observando-os brincarem como se já fossem grandes amigos, eu senti que a nossa amizade havia alcançado um novo patamar.
Ele fazia bem aos meus filhos e isso só intensificou, conforme o Rodrigo foi entrando cada vez mais na minha vida de uma forma que eu nunca poderia ter imaginado.
No domingo, eu estava conversando com a minha irmã em frente de casa enquanto as crianças brincavam no quintal da casa dela. O Rodrigo apareceu do outro lado da rua e veio em nossa direção para nos cumprimentar. Quando os gêmeos o viram saíram correndo em sua direção e o abraçaram.
Em poucos minutos eles o convenceram a ir brincar com eles no quintal junto dos primos.
— Pelo visto ele leva o maior jeito com crianças. – comentou a minha irmã, dando-me um cutucão. — Ele será um ótimo pai.
— É, talvez. – digo, incerta. Juliana riu da minha cara. Então eu entendi que ela estava sendo sarcástica comigo. — Para com isso, Ju! Não é como se eu estivesse pensando em me casar com ele.
— Bem que você poderia cogitar essa possibilidade. Olha só, ele é um ótimo partido. Bonitão e bom com crianças. E cá entre nós, você está caidinha por ele. Admita de uma vez por todas!
Ela ria.
— Você é louca! – digo, me sentindo bem ofendida. — Eu não vou me apaixonar de novo, nem por ele, nem por ninguém. Isso não é pra mim! E você sabe bem porquê. Ei, crianças. – gritei para ele que eles pudessem me ouvir em meio as risadas. — Hora de almoçar!
Na segunda-feira, após levar os gêmeos para a escola, peguei um ônibus e fui direto a clínica. Era dia de consulta com o meu psicólogo. Conversamos por quase uma hora. Ele perguntou como eu estava, quais eram as novidades e se eu pensava no futuro. Mas na verdade, eu não tinha muito o que dizer.
Já não pensava tanto assim nessas coisas.
Eu estava vivendo o agora.
Eu já estava de saída quando passei pelo jardim da clínica e de longe avistei o Rodrigo com uma paciente. Nem sei porque, mas parei para observa-lo. Talvez eu devesse ir falar com ele. Mas pensando melhor, não era uma boa ideia. Ele parecia bem ocupada cuidado de sua paciente, afinal, aquele era o seu trabalho.
Naquele instante algumas perguntas se passaram pela minha cabeça. Será que ele tratava todas suas pacientes do mesmo jeito que me tratou quando eu estava internada aqui? Será que ele tinha o mesmo tipo de ligação com todas elas? Era impressão minha ou eu estava com ciúmes?
Mas é claro que não.
Apertei a bolsa no ombro e continuei seguindo em direção a saída.
— Melissa! – alguém gritou por mim. Quando me virei para trás, vi que ele corria em minha direção. — Ia sair sem falar comigo? Nossa, isso magoa muito, sabia?
Ele estava brincando, é claro.
— Desculpa. Eu estava com um pouco de pressa.
— Sei.... Ah, lembrei. Quer ir jantar amanhã lá em casa? Vou sair mais cedo do trabalho e pensei que seria uma boa.
— Pode ser. – dei de ombros, como se aquilo não tivesse tanta importância. Quando na verdade tinha e muita. — Eu apareço por lá depois do meu expediente na pousada.
Nos despedimos e eu fui embora com um largo sorriso no rosto.
Passei a terça-feira inteirinha tentando não criar expectativa com esse jantar. Tentei focar ao máximo no meu trabalho na pousada. Eu estava mesmo precisando de uma grana. E agora com dois filhos as coisas não estavam nada fáceis para mim.
Pela manhã, após ajudar a minha irmã a servir o café-da-manhã para alguns hospedes eu fui ao mercado com o meu pai. Fizemos a compra do mês. Augusto que tinha acabado de chegar todo suado do jogo de futebol com alguns amigos ajudou a levar as sacolas pesadas para dentro de casa.
— Vai sair de novo? – perguntou a minha irmã com aquele típico sorriso malicioso cheio de insinuações.
— É só um jantar na casa dele.
— Sei... Bom, então eu posso levar os garotos para comer no shopping com os meus pimpolhos? Eu tinha prometido a eles.
— Ju, eu não tenho dinheiro. Não tanto...
— Alguém, por acaso, te pediu alguma coisa?
— Tudo bem. – eu sorri. — Você tem a minha permissão.
Quando terminei de me arrumar, ajudei os gêmeos a trocarem de roupa, colocando algo melhor para eles saírem com a Juliana, o Igor e os priminhos. Eles estavam muito animados. Fazia tempo que eu não os levava para um programa diferenciado como costumávamos fazer quando tínhamos todo o tido de mordomia.
Já estava tarde quando eu reuni forças e coragem para atravessar a rua e bater na porta da casa do Rodrigo.
Adivinhem só quem me atendeu?
— Oi, Patrick. Como vai?
— Uau! Você está um arraso, mulher. Estávamos só esperando por você. – ele me puxou pelo braço, me fazendo entrar a força. — Vem, vamos. Estão todos te esperando na cozinha.
E de fato, estavam todos me esperando na cozinha já sentados à mesa. Ricardo com a namorada ruiva, Tiago já atacando a comida e a Vanessa conversando animadamente com o Rodrigo.
Eu não sabia que era um jantar entre amigos.
Patrick, muito simpático, me levou até o lugar disponível na mesa, que era de frente para o Rodrigo. Ao seu lado estava a Vanessa que diferentemente dos outros apenas sorriu de um jeito forçado. Realmente, ela não foi a minha cara.
Eles haviam preparado uma macarronada com almôndegas e como sobremesa um delicioso pavê de doce de leite com coco. Alguns tomavam cerveja e eu optei por refrigerante diet.
Patrick parecia muito empolgado com a minha presença. Ele não parou de tagarelar um só quer momento.
— Nossa, você é sua irmã sãos idênticas! Eu sempre vejo ela gritando com os filhos e o marido. Dá para ouvir os gritos daqui de casa. – ele olhava para mim com certo divertimento. — Como é andar por aí sabendo que você tem uma xerox?
Dei risada.
— Não somos exatamente idênticas. Ela é mais alta, tem o cabelo mais cumprido, o corpo cheio de formas mesmo depois de ter parido quatro filhos. Conclusão: ela é muito mais bonita!
— Eu não concordo! – Rodrigo protestou, fazendo uma careta divertida. Percebi que naquele momento a Vanessa olhou para mim com um olhar fulminante. Não gostei nadinha!
Qual é o problema dessa garota, afinal?
Ela nem me conhece!
— Ah, e seu irmão é um gato! – Patrick suspirou, apaixonadamente. — Aquele corpo, aqueles olhos azuis, aquele cabelo preto reluzente. Minha nossa! Já estou com calor.
Todos riram.
— Patrick é muito afobado. – Rodrigo cochichou no meu ouvido, depois deu uma risada que me fez estremecer. — Você quer mais refringente? Vou pegar mais para você.
Rodrigo se levantou, me deixando sozinha com seus amigos na sala de estar. Eu estava apavorada!
— Seus olhos são lindos! Você é a cara da Zooey Deschanel. – a ruiva, a namorada do Ricardo, se sentou ao meu lado. — O Rodrigo comentou que você é professora. Eu achei um máximo! Eu sempre quis dar aula para crianças.
— Na verdade, eu não dou mais aula.
Estavam todos muito interessados em mim, como se eu fosse algum tipo de celebridade. Claro que, exceto a Vanessa. Que levantou-se bufando e saiu de casa sem dizer nada.
— Não liga para ela, não. – disse o Tiago, o gordinho. — Ela faz questão de ser insuportável. Ninguém suporta!
— Ah, cala a boca, Tiago! – disse o Ricardo, em tom de brincadeira, fazendo todos rirem, exceto eu. Não entendi a piada. — Todos nós sabemos que você sempre foi apaixonado por ela.
— Ah, que mentira! Você não sabe o que está dizendo. – Tiago levantou-se, parecia bem bravo com a brincadeira dos amigos. — Foi um prazer te conhecer, Mel. Mas eu vou subir. Tenho que estudar para uma prova que vou ter amanhã. Até a próxima.
— Minha nossa! Estou atrasadíssimo! – Patrick se levantou do sofá com um pulo. Ele conferiu as horas no relógio. — Eu tenho um encontro com uns amigos. – ele deu dois beijos na minha bochecha. — Apareça mais vezes, Mel. Adorei te conhecer!
— Nós também vamos subir, não é amor? – Fabi, a ruiva, levantou-se, puxando o Ricardo. — Tchau, Mel. Linda!
Por fim, Rodrigo e eu ficamos sozinhos na imensa sala.
— Eles são todos estranhos, não é mesmo?
— Eu gostei de todos eles! Mas a Vanessa parece não ter gostado muito de mim, pelo que pude perceber.
— Não dê bola para ela. Como o Tiago mesmo disse: ela faz uma certa questão de ser insuportável. – ele riu, me fazendo sorrir. — E aí, você quer ficar aqui em baixo assistindo alguma coisa ou quer subir e terminar de ver os meus livros?
— Eu fico com a segunda opção.
Ele segurou a minha mão e me conduziu lá pra cima.
— Ignore os barulhos estranhos que vem do quarto do Ricardo. Ele e a Fabi são muitos ocupados, entende?
Assenti, achando graça.
Entramos em seu quarto e ele trancou a porta.
Ainda era muito estranho estar ali, em seu quarto bagunçado, sozinha com ele. Um misto de pavor e receio. Uma parte de mim não cansava de repetir que eu não deveria estar ali. Não se eu quisesse sofrer de novo. Mas o convite era sempre tão tentador!
Passei um bom tempo terminando de ver os livros dele. Apesar de nem todos fazerem o meu tipo, pareciam bem interessantes.
— E como está o trabalho na clínica? Sem graça sem mim?
Ele sentou-se perto de mim em sua cama.
— Totalmente sem graça sem você. – ele sorriu, levando na esportiva. — Não é a mesma coisa sem você. Mas eu ainda gosto de trabalhar lá, apesar de alguns dias serem mais puxados que outros. E você, está se saindo bem na pousada?
— Mais ou menos. Não é bem a minha praia. – admiti. — Estou me virando. Eu preciso do dinheiro por causa dos meus filhos e tenho muito a agradecer a minha mãe por ter me dado essa oportunidade. Mas eu preferiria estar dando aula.
— Entendo. – ele pousou sua mão sobre a minha, como se quisesse me confortar. E funcionou. Um pouco.
Não sei o que deu em mim. Mas de repente comecei a me sentir muito mal por estar ali. Não por causa do Rodrigo, porque ele é adorável em vários sentidos. Não é misterioso, mas é envolvente. Eu me senti mal por mim mesma. Por não conseguir mais ter confiança nas coisas e nas pessoas.
E tudo isso graças ao Carlos e o que ele fez comigo.
— Mel, porque você está chorando?
— Eu não sei bem porquê.
Tentei esconder, tentei disfarçar, mas já era tarde demais.
— Não chora, por favor. Eu nunca sei como agir quando vejo uma mulher chorar. Ainda mais você a quem eu quero tanto bem.
Mesmo com as lágrimas escorrendo por meu rosto, eu consegui sorrir com o que ouvi dele.
— Amanhã eu tenho que ir a uma audiência muito importante. E eu estou apavorada! Preciso resolver umas questões com o meu ex-marido. E mesmo sabendo que meu pai e meu irmão irão comigo, eu tenho medo do que vou encontrar pela frente.
Eu não deveria ter dito aquilo. Não deveria me abrir assim com ele. Mas foi inevitável. Ele me dava tanta segurança!
— Desculpa. – tentei limpar as lágrima, me sentindo péssima e totalmente envergonhada. — Eu não queria te envolver nisso.
— Mas eu já estou envolvido! Desde que a nossa relação se tornou algo muito além de um simples envolvimento entre enfermeiro e paciente. Você pode contar comigo para o que quiser. Eu não me importo. Eu quero ajudar!
— Você não precisa...
— Mel, olha para mim. – ele segurou o meu rosto. — Me diz uma coisa que eu tenho vontade de perguntar a muito tempo. Por acaso seu ex-marido tem alguma coisa a ver com o fato de você ter ido parar no hospital com o corpo coberto de marcas?
Como ele.... Descobriu?
Senti ainda mais vontade de chorar.
— Pode confiar em mim, Mel...
— É que eu já confiei em tanta gente errada...
— Eu não sou como os outros. Eu nunca te machucaria!
Não pude evitar olhar dentro dos olhos dele. Ele me olhava com carinho. E estávamos tão próximos outra vez. Meu coração estava tão apertado! Mas ao mesmo tempo tão acelerado.
Eu estava muito, mais muito ferrada.
Rodrigo fez exatamente o que eu esperava. Ele me beijou! Finalmente me beijou. Mais não foi um beijinho qualquer. Foi O beijo. Como se quisesse de alguma forma quisesse me fazer esquecer todos minhas incertezas e medo. E ele conseguiu.
Quando dei por mim, já estava deitada na cama dele, com ele por cima de mim. Me beijando de um jeito que me deixava totalmente sem folego. Seu corpo era tão quente. Sua pele tão macia. Seus cabelos são sedosos. Sua boca tão.... Saborosa! Contendo um misto de sabores: álcool e menta.
Quando ele se afastou, me trazendo de volta o ar, ele me olhou com um desejo que eu nunca pensei que algum homem fosse capaz de sentir por mim outra vez. Então, com muita delicadeza ele tirou a minha jaqueta e lentamente puxou a alça da minha blusinha para baixo. E em nenhum momento ele tirou os olhos dos meus.
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