Apenas Um Olhar

8 A melhor noite de todas.


Carlos e eu tivemos um final de semana maravilhoso.

A minha vida com ele tinha dado um grande salto. Eu não era mais aquela mulher que ficava só em casa, lendo meus livros ou assistindo minhas séries prediletas esperando a vida me surpreender. Não que ler e assistir séries seja algo ruim, acontece que agora com o Carlos presente eu tenho muito pouco tempo para esse tipo de coisa. Porque eu prefiro mil vezes aproveitar a vida lá fora ao lado dele a ficar trancafiada dentro de casa.

Naquele sábado nós almoçamos na pousada e mais tarde fomos ao cinema, no shopping, onde ele me deu de presente três livros que eu desejava a meses. A noite ficamos em seu quarto, na pousada. Eu até sugeri que ele ficasse lá em casa esse final de semana, mas ele achou que na pousada teríamos mais privacidade. Ele tinha razão. Ficamos conversando e rindo até de madrugada, depois fizemos amor e dormimos juntinhos.

No domingo acordamos cedo e durante o café da manhã o Carlos teve uma brilhante ideia: irmos ao clube. Todos juntos. Ficaram todos muito empolgados, até mesmo o meu irmão, que continuava emburrado comigo. Rapidamente fizemos nossas mochilas e saímos de casa o mais cedo possível.

Mamãe deixou a pousada nas mãos de uma grande amiga, a Dona Irene, que era amiga da mamãe desde pequena. Elas estudaram e cresceram juntas. Irene também era nossa vizinha.

O clube ficava em outra cidade. Nós conhecíamos muitos clubes. Costumávamos frequentar muitos deles há alguns anos. Mas esse clube especificadamente nós não conhecíamos. Era um lugar muito chique, com mais de dez piscina de diversos tipos e formas. E adivinhem só quem era o dono do clube? Um colega do Carlos.

Nós tivemos um dia bem divertido. O papai ficou no parque, na churrasqueira, entre as arvores. Meu irmão logo fez amizades com outros garotos e pulavam de piscina em piscina, incansavelmente. Juliana e o namorado sumiram de vista praticamente o tempo todo. E a mamãe ficou tomando sol, descansando como há muito tempo ela não fazia. Coitada. Viviam cuidando de nós e da pousada. Era uma rotina cansativa.

Já eu e o Carlos ficavam juntinhos, na água, namorando, sem nos importarmos se estavam todos olhando ou não.

Voltamos para casa no comecinho da noite, todos muito exaustos. Fiquei com o Carlos em seu quarto, aproveitando as últimas horas que tínhamos juntos. As oito e meia ele foi embora.

E mais uma vez senti meu coração se despedaçar. Eu tinha a impressão de que me despedir dele nunca seria uma tarefa fácil.

Na segunda-feira, para minha surpresa, Alícia voltou ao trabalho e voltou a assumir sua turma. Nós nos esbarramos diversas vezes pelos corredores do colégio. Mas ela não disse nada, nem me procurou para conversar. Ela apenas sorria e seguia seu caminho.

Isso realmente me deixava muito aborrecida. Afinal, éramos muito amigas há bastante tempo. E nunca antes nos afastamos dessa maneira. Claro, nossa amizade nunca foi perfeita. Já tivemos sim alguns atritos e discussões. Mas eram coisas mínimas, que nós superávamos facilmente da noite para o dia.

Só que agora as coisas estavam bem diferentes entre nós.

O resto da semana seguiu normalmente. Acordei cedo todos os dias, levei meu irmão para a escola, sem trocarmos nenhum pio, apesar de toda a minha insistência e depois seguia para o trabalho, onde limpava prateleiras e organizava muitos livros. A tarde eu voltava sozinha para casa e almoçava na pousada sem a Alícia. Depois tomava um banho, ligava para o Carlos ou lia algum livro. Outras vezes eu substituía minha irmã na pousada e ajudava a mamãe. Ou dava uma arrumadinha na casa e adiantava o jantar, apesar da mamãe não gostar muito que chegássemos perto de sua cozinha.

No final de semana o Carlos apareceu de novo, de surpresa. Dessa vez ele me trouxe flores e ficamos juntos o máximo de tempo possível até a hora da despedida, no domingo a noite.

Os finais de semana foram todos assim. A vinda dele deixou de ser surpresa. A mamãe até deixou um quarto fixo reservado para ele na pousada. E os finais de semana passaram a ser os dias mais esperados por mim e também os melhores.

Carlos e eu namoramos assim durante seis meses. Não preciso nem dizer que eu havia me tornado uma nova mulher.

Eu pensava que os finais de semana eram os melhores dias da minha vida, mas eu estava completamente enganada.

Carlos chegou cedo naquele sábado e passou em casa apenas para me dar um beijinho. Ele passou o resto do dia fora, sem dar notícias. Isso me deixou extremamente preocupada e curiosa.

A noite ele me ligou, pediu para eu me arrumar, pois ele iria me levar a um lugar muito especial. Mesmo ele me surpreendendo sempre, eu continuava ansiosa e agitada. Até perguntei para ele onde iriamos, mas ele disse que era segredo.

Como eu não fazia ideia de onde iriamos, se seria um restaurante, uma lanchonete ou um parque, pedi ajuda a minha irmã para escolher uma roupa para aquela noite.

Juliana tinha comprado um vestido rendado cor vinho algumas semanas atrás, mas não tinha usado ainda, pois estava um pouquinho apertado na parte dos seios e dos braços. Então, ela resolveu dá-lo a mim.

Era um vestidinho simples, porém muito bonito. Ia até a metade das coxas, a parte superior era mais coladinha e a saia rodada. Para os pés optei por um scarpin preto. Deixeis os cabelos soltos com pequenas ondas e fiz uma make básica.

Carlos me mandou uma mensagem, uma hora e meia depois, dizendo que estava lá fora, me esperando no carro.

Fomos o caminho todo calados e eu quase não conseguia me segurar de ansiedade. Mas ele se negava a dar informações.

Quando fomos nos aproximando da praia onde nos beijamos pela primeira vez, eu perguntei:

— Vamos a praia? Se eu soubesse teria calçado uma sandália...

Ele estendeu a mão para me ajudar a descer do carro.

Carlos estava usando suas típicas roupas sociais, todo elegante, como sempre. Com os primeiros botões de sua camisa abertos, deixando seu peito a mostra. Mas dessa vez ele não tirou os sapatos para caminhar na areia. Mas como eu estava de salto, tive que tirar os meus. Ele fez questão de carrega-los para mim.

Carlos foi me guinando por um caminho desconhecido. A praia estava vazia e bastante escura. De longe vi uns pontos luminosos e percebi que estava nos aproximando deles cada vez mais.

Eram velas espalhadas pela areia e as velas formavam um grande coração. Havia uma banda junto as velas e no meio do coração algumas letras que formavam a frase...

— Melissa Borges, aceita se casar comigo? – Carlos se ajoelhou, colocou meus sapatos sobre a areia e agarrou minha mão.

Na hora, eu comecei a chorar feito uma criancinha. Tremia dos pés à cabeça. Não acreditava no que estava acontecendo!

Aquilo só poderia ser um sonho.

As coisas estavam acontecendo de um jeito muito melhor do que eu havia imaginado ou sonhado. Eu me sentia dentro de um livro, mas as emoções eram muito mais intensas.

A cena a minha frente era perfeita. As velas, a banda, o céu estrelado, o mar, a lua, a brisa refrescante...

Carlos apertou a minha mão, me trazendo de volta a realidade. Olhei de volta para ele, sentindo as lágrimas escorrem por minha face. Ainda assim, consegui sorri.

— Sim, eu aceito. Claro! – me abaixei e me joguei nos braços dele, quase derrubando nos dois para trás. — Eu amo você!

Depois do meu pequeno surto, Carlos me beijou e me ajudou a levantar e me recompor. A banda continuava tocando quando ele colocou no meu dedo um anel brilhante de noivado que deveria valer mais que a minha casa e a pousada juntos.

Depois fomos jantar para comemorar o nosso noivado e pela primeira vez, algumas horas depois, fui a um motel.

No outro dia, quando voltei para casa, para tomar um banho e trocar de roupa, a primeira coisa que fiz foi esconder o anel dentro da minha bolsa. Sabia que seria a primeira coisa que minha irmã iria ver. Ela iria surtar! Carlos e eu decidimos contar juntos a todos o grande passo que tomamos noite passada.

Mamãe, sem muita novidade, preparou um almoço maravilhoso aquela tarde domingo. Ela adorava o Carlos e gostava quando ele dizia que ela fazia a melhor comida de todas. Por isso, ela fazia questão de agrada-lo sempre que ele vinha.

O papai continuava na dele. Às vezes eu o flagrava observando o Carlos com atenção, como se quisesse ter certeza se ele era o cara certo para mim ou não. Mas ele não falava muito a respeito.

Juliana também adorava o Carlos. Não cansava de dizer o quanto queria que o Igor se parecesse com ele, assim, eles não brigariam tanto e eles seriam muito mais felizes.

O Igor também se dava muito bem com o Carlos. Eles tinham se tornado bons amigos, apesar de viverem em mundos completamente diferentes. Acontece que, lidar com o Carlos é muito mais fácil do que parece.

O meu irmão tinha voltado a falar comigo. Muito pouco, mas já era um grande avanço. Mas acho que ele só voltou a falar comigo para eu poder ajudar ele nos trabalhos e deveres de casa. Com o Carlos ele ficou mais educado, mas continuava distante.

— Família – passei os olhos por todos, sorrindo. — Carlos e eu temos uma coisa para dizer a todos vocês.

— Ai meu Deus! – Juliana deu um pulo da cadeira. — Já sei: você está grávida. Ai meu Deus, nós duas vamos ser tias!

De olhos arregalados, todos olharam para ela.

Exceto o Igor, que apenas abaixou a cabeça, envergonhado. Como se minha irmã tivesse dito coisas demais.

— Como assim, Juliana? O que você quer dizer com isso? – mamãe quis saber, parecendo bem furiosa.

— Como sempre eu falei demais. – Juliana parecia decepcionada consigo mesma. — O.K. É isso. Exatamente o que vocês estão pensando: Igor e eu estamos grávidos.

Mamãe engasgou na mesma hora.

Estavam todos abismados, exceto Augusto, que parecia estar fazendo um grande esforço para não soltar uma gargalhada.

— Pelo amor de Deus, Juliana. Diga que isso não é verdade. – pediu a mamãe, após beber água e se recompor. — Filha, você não sabe nem cuidar de si mesma. E você e o Igor nem são casados ainda.

Mamãe era bastante antiquada em alguns aspectos.

Mamãe e Juliana começaram a discutir. Juliana tentava se defender, dizendo ser capaz de ter um filho, que era um de seus maiores sonhos. Sonho que até então eu desconhecia. Eu pensei que ela adorasse viver na farra, ser livre, dançar, beber. Não que ter um bebê te impeça dessas coisas, mas será bem mais complicado...

— Pessoal – disse, apesar da discussão prevalecer. — Carlos e eu vamos nos casar.

Mostrei o anel de noivado para todos, o anel que até então eu tentei manter escondido.

Isso foi o bastante para todos se calarem e voltarem a prestar atenção em mim.

— Isso é verdade? – mamãe perguntou, surpresa. — Ufa! Graças a Deus uma notícia boa. – então ela abraçou, levemente emocionada.

Juliana levantou-se, deu a volta na mesa e veio nos abraçar.

— Não acredito que minha irmãzinha mais velha vai enfim se casar.

Fui abraçada e parabenizada por todos, exceto por meu irmão, que saiu da cozinha e foi terminar de comer na sala.

Mas ele era só uma criança, ainda não entendia dessas coisas.

— Não se anima muito não, Juliana. – mamãe disse, olhando friamente para minha irmã. — Vamos conversar melhor mais tarde.

Eu tinha dois motivos para estar feliz: meu casamento e a chegada do meu primeiro sobrinho.

Em poucas horas, mamãe superou melhor a gravidez inesperada da minha irmã. Não demorou muito para restarmos só nos três na cozinha, enquanto dávamos uma geral em tudo e planejávamos o futuro. Os homens foram assistir ao futebol.

As sete e quarenta, Carlos e eu fomos lá para fora. Ficamos um bom tempo abraçados. Depois nos despedimos.

Posso dizer que a semana seguinte foi muito melhor. Agora que eu era noiva e carregava esse anel brilhante para cima e para baixo, meu sorriso não saia do rosto e todo mundo no trabalho me parava para me fazer perguntas.

No final de semana, Carlos e eu fomos viajar juntos pela primeira vez. Ele me levou a Ilha de Paquetá e só pudemos chegar lá através da barca, pois era proibida a circulação de veículos.

Conhecemos o centro, os bares, as praças, casas de arte, a praia, os parques. Andamos de bicicleta e namoramos bastante. Além das inúmeras fotos tiradas em todos os lugares possíveis.

Na segunda-feira, de volta a realidade, de volta ao trabalho, recebi a triste notícia de que Alícia havia pedido demissão da escolinha. Tentei ligar para ela para saber o porquê, apesar de não nos falarmos a meses. Mas pelo jeito ela havia trocado de número.

No final do expediente, aquela tarde, entrei na sala da diretora para termos uma conversa. Resolvi perguntar a ela sobre a Alícia, na esperança que ela soubesse de algo. E sim, ela sabia.

— Alícia disse que iria se mudar do estado com o namorado e sugeriu que colocássemos você, uma pessoa de sua total confiança, para substituir sua turma.

Era uma oportunidade única.

Por isso eu aceitei de cara.

Enfim, estava tudo dando certo na minha vida. Eu precisava compartilhar isso com o Carlos, já que não podia agradecer a Alícia. Liguei para ele assim que saí da escola após tratar tudo com a diretora. Eu começaria a dar aula na manhã seguinte.

— Nossa, meu amor. Isso é maravilhoso!

Para mim, ele não foi nada convincente.

— O que foi? – perguntei, receosa. — Você parece não ter gostado de saber da novidade. Não ficou feliz por mim?

— Não, não é isso. É só que.... Deixa para lá. – ele sorriu do outro lado, pude sentir. — No sábado vamos comemorar sua mais nova conquista. O que você acha?

No jantar, aquela noite, contei tudo a minha família.

Mais um motivo para festejar. Tanto que a mamãe foi correndo na pousada e pegou um dos vinhos mais caros que tinha.

Mais tarde, quando eu já estava me preparando para dormir, Juliana entrou no quarto bastante sorridente e sentou-se em sua cama.

— O que foi? Que carinha é essa?

— Ah, sei lá. – ela suspirou, sonhadora. — Ultimamente temos tanta coisa a comemorar. – então ela passou a mão na barriguinha. — Está tudo dando certo.

Sentei-me com ela em sua cama.

— O que você acha que é? Uma menina? Ou um menino? – passei a mão em sua barriga que era quase inexistente ainda.

— Espero que seja uma menina. Eu torço para que seja, ao contrário do Igor. Não vejo a hora de comprar vestidinhos e lacinhos...

Nós rimos.

— Sabe – coloquei minha mão sobre a dela e olhei-a no fundo dos olhos. — tenho certeza que você será uma excelente mãe.

— Você acha mesmo?

— Eu tenho certeza!

Ela me abraçou forte.

— Obrigada por dizer isso, Mel. Eu precisava muito ouvir algo assim. A mamãe não para de dizer que eu não tenho um pingo de juízo e o Igor acha não estamos preparados para ter um filho. Mas eu não penso assim, entende? Essa era a única coisa que faltava para minha vida ficar verdadeiramente completa.

— É claro que eu entendo. Porque eu também me sinto exatamente assim.

Notas finais
Vocês gostam da Ju? Será mesmo que ela será uma boa mãe? E a Mel? Parece que enfim está dando tudo certo pra ela... Vai se casar e começará a dar aula. O que vocês acham de tudo isso? Comentem! Eu AMO os comentários de vocês!