Apenas Um Olhar
26 É hora de contar toda a verdade.
Notas iniciais
Aconteceu exatamente como uma cena de um filme.
Eu virei-me para trás e saí dali o mais rápido possível, praticamente correndo e atropelando as pessoas.
— Ei, Mel, o que aconteceu? Para onde você vai?
Corri do meu próprio irmão. Não queria que ele fosse atrás de mim.
Fiz de tudo para não chorar na frente de todo mundo e fazer o maior papelão. Peguei o carro do carro e saí dali às pressas. Quase bati em uma lixeira em cima da calçada. Não fui para casa, assim todo mundo veria minha cara de derrotada. Sabendo que a maioria das pessoas estariam no show naquele instante, fui para praia que como eu já havia previsto estava praticamente vazia.
Tirei meus saltos e caminhei pela areia, sentindo as lágrimas escorreram por meu rosto. Elas tinham um gosto amargo. E tudo isso era minha culpa. Onde é que eu estava com a cabeça em pensar que algum dia conseguiria ser feliz outra vez?
Eu estava completamente enganada.
— Melissa, espera aí. – ele estava gritando por mim. Quando olhei para trás quase não acreditei no que vi.
— Como você.... Chegou aqui tão rápido?
— Seu irmão me procurei para dizer que você tinha saído correndo do show e parecia bem abalada. Peguei a moto de um amigo e vim correndo pra cá. Sabia que te encontraria aqui.
— Mas como você sabia? – passei a mão pelo rosto molhado, não queria que ele soubesse que andei chorando por causa dele, apesar de já ser um pouco tarde para disfarçar ou negar.
— Eu sei o que você viu. E eu logo soube que você procuraria por um refúgio. Não foi muito difícil ligar os pontos. – ele sorriu. Maldito! Queria arrancar aqueles dentes perfeitos com as mãos. — Melissa, escuta, não é o que você está pensando.
Ele tentou se aproximar, mas eu recuei.
Ainda me sentia muito ferida e confusa.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu não a beijei. Ela me beijou. Mas você só viu esse primeiro momento. Eu acho. Bom, enfim. Quando ela me beijou eu não entendi nada.... Então eu a afastei. Eu não queria aquele beijo. Não estava esperando algo assim. Eu nem gosto dela!
— Mas ela gosta de você!
— Eu sei. Eu deveria ter percebido isso antes. Mas sei lá, eu não queria que fosse verdade. Eu gosto dela, mas como amiga, quase como irmã. Ela não entende.... Ela estragou tudo.
Desviei o olhar me sentindo ainda estupida. Não acredito que me deixei abalar por isso. Está mais do que claro que a Vanessa estava disposta a me confrontar, me desafiar para ver quem levaria a melhor. Mas eu não estava em uma disputa. Não quando meus sentimentos estavam em jogo.
Eu só queria que algumas coisas fossem mais simples.
— Eu gosto de você. Você ainda não percebeu isso? – ele tinha me alcançado. Nesse momento estava a poucos centímetros de mim. Eu estava tensa, nervosa, confusa. Me sentindo muito mal! — Eu pensei que já estivesse muito claro. Mas pelo visto...
— Eu não entendo! – elevei um pouco a voz. Mas do que eu gostaria. Senti vontade de chorar ainda mais. — Porque você iria gostar logo de mim? Você não vê?! Eu sou gorda, feia, tenho filhos, tenho um ex-marido do qual eu nunca conseguirei me livrar, acabei de conseguir um emprego e sou muito mais velha que você...
— Eu não me importo, Melissa! Eu não me importo com nada disso. – ele parecia muito bravo comigo. Ou até mesmo decepcionado. — Eu não acredito que você pensa algo assim de mim? Você acha mesmo que eu seria capaz disso? Eu gosto de você pelo que você é. Eu gosto de você mesmo você tendo toda essa bagagem. Todos nós temos bagagens. E eu gosto do seu corpo, principalmente dos seus olhos. Eles são serenos, eles me acalmam. Eu gosto dos seus filhos, eles são adoráveis. Gosto do seu emprego, porque ele te faz feliz. E se você é feliz, eu também serei.
Ele me abraçou e naquele momento eu senti que ele era capaz de juntar cada um dos meus pedaços.
— Olha, eu não sou o cara mais romântico do mundo. Nem o mais bonito, o mais inteligente, o mais querido. Eu também não sou nem um pouco bom com as palavras. Eu não sei dizer coisas lindas nos momentos certos. Coisas que te façam sorrir ou suspirar. Eu não sou bom em quase nada desse tipo coisa. Mas eu sou bom em cuidar das pessoas. E eu quero cuidar de você.
Ele segurou o meu rosto e ficamos nos olhando por um tempo infinito enquanto a brisa refrescante que vinha do mar balançava os meus cabelos negros. Rodrigo passou os dedos nas minhas bochechas geladas, secando minhas ultimas lágrimas. Quando ele sorriu, eu sorri também. E por fim, ele me beijou.
Era exatamente beijo que eu estava precisando.
Tudo estava calmo outra vez. Eu já não me sentia estupida e nem envergonhada. Eu me sentia apaixonada. E só agora eu me dei conta do quanto aquilo era libertador. Como se eu estivesse deixando aquela fase ruim para trás para dar espaço a essa nova fase boa da minha vida. Eu merecia isso.
Nós nos sentamos na areia. Rodrigo me colocou entre suas pernas e apoiou seu queixo no meu ombro e segurava minhas mãos, com nossos dedos entrelaçados. Foi naquele momento que eu senti que ele merecia toda a verdade sobre mim. Se eu não contasse tudo a ele, eu nunca mais seria feliz de verdade.
Rodrigo me escutou calado e até me deixou chorar livremente enquanto eu lhe contava em detalhes a parte mais difícil. Algumas vezes ele apertava de leve as minhas mãos, como se quisesse dizer que ainda estava ali e isso me incentiva a continuar até o fim.
Quando eu me virei para olhar nos olhos dele, vi um misto de sentimentos. Triste e raiva. Coisa que qualquer um sentiria quando ouvisse a minha história.
— Tudo bem. – eu lhe dei um rápido beijinho e tentei sorrir. — Já passou. Eu estou bem. Estou aqui agora, com você.
— Não, não está tudo bem, Mel. – ele me olhava sério. — Como ele foi capaz de algo assim? Você não merecia! Nenhuma mulher merece passar por isso. Nesse momento eu não consigo sentir nenhuma outra coisa além de vontade de mata-lo.
— Não... Ele não merece todo esse esforço.
Passei a minha mão no cabelo dele que estava todo bagunçado, uma graça.
— É, você tem razão. Sabe de uma coisa? Eu te admiro ainda mais por isso. Você não foi fraca, muito menos covarde. Você foi tão forte, tão guerreira. Aguentou tanta coisa sozinha. Quando você estava em coma, eu te olhava intrigado. Imaginando o que teria acontecido de tão grave com uma mulher como você. E acho que foi naquele momento que eu me apaixonei. Você parecia tão frágil, tão vulnerável e eu só queria te proteger, cuidar de você. Era algo que ia muito além do profissional. Eu queria fazer parte da sua vida. Eu queria estar com você além dos muros da clínica.
Ele me beijou com carinho, com a mão na minha nuca.
— Eu sei que é complicado. Sei que passaremos por muitos obstáculos, muitas críticas, preconceitos. Sei que vão falar por nossas costas e falar coisas absurdas. Mas eu não me importo, Mel. Eu passo por qualquer coisa por você e com você. Acredite.
— Eu acredito.
Foi a minha vez de beija-lo e saborear cada pedacinho daquela boca só para ter certeza de que era real.
Rodrigo voltou ao show para entregar a moto e eu fui para casa com o carro do papai. Eles tinham acabado de jantar e agora estavam assistindo tevê. Já os gêmeos estavam brincando lá em cima no quarto, já com seus pijamas.
— Mamãe, eu pensei que você fosse sair. – comentou o Vinicius, olhando para mim com curiosidade.
— E eu saí, filho. Mas já voltei. Queria ficar aqui com vocês. — tirei os sapatos e joguei-os de lado. — Eu posso?
— Claro, mãe. – respondeu o Gustavo com um sorriso. — Nós estávamos brincando de Jogo da Memória. Você sabe jogar?
— Não sei. – menti, sentando-me com eles sobre a cama. — Vocês me ensinam para eu poder jogar também?
A noite foi longa. Nós brincamos bastante. Mas isso não era um problema. Amanhã seria sábado.
O sábado amanheceu ensolarado, mas assim como o dia interior não estava tão quente ou abafado. Rodrigo apareceu em frente de casa depois do café-da-manhã e convidou eu e os gêmeos para passar uma tarde em sua casa, na piscina.
Estavam todos presentes quando chegamos lá. Os gêmeos estavam curiosos e assim que foram apresentados ao pessoal, logo fizeram amizades. Patrick os levou para os fundos, para brincar na piscina. Eu já tinha colocado a sunga deles por baixo da bermuda. E dentro de uma mochila eu trouxe protetor solar, roupas limpas, toalhas e bonés para protege-los do sol.
Tiago e Ricardo estavam na sala, jogando videogame. Eles pareciam assustadores e ao mesmo tento engraçados, soltando uns berros altos que eu poderia ouvir lá de casa.
Vanessa estava lá fora, deitada no sol com seu biquíni e lendo uma revista de moda. Eu nem fui falar com ela.
Preferi me juntar a Fabi e o Rodrigo que estavam na cozinha, preparando o almoço para o pessoal.
— Como eu posso ajudar?
— Bom, eu estou preparando a massa da lasanha, o Rodrigo o recheio e você pode preparar o arroz e a salada, que tal?
— Claro, pode ser.
Lá em casa, como a mamãe comanda a cozinha, eu quase não cozinho mais. E eu tinha me tornado uma excelente cozinheira.
— Eu não sabia que você cozinhava. – comentei com o Rodrigo, me colocando ao seu lado perto da bancada.
— Ele faz de tudo, Mel. – Fabi nos escutou e resolveu fazer seus próprios comentários. — Cozinha e arruma a casa. É um ótimo partido! Só não aprendeu ainda a manter o quarto organizado.
Tive que rir.
— Ei, assim você me ofende, Fabi! É verdade, Mel, eu sou um ótimo partido. – ele sorriu, provocativo. — Acontece que meu quarto é uma exceção. Eu tenho muitas coisas e o espaço é muito pequeno. Se é que vocês me entendem.
Enquanto a lasanha estava no forno e o resto das coisas já prontas, fui lá fora dar uma olhada nos meninos. Sentei-me na sombra, bem longe da Vanessa. Não que eu tivesse algo contra ela. Eu só queria distância de pessoas desse tipo.
Ela agia como se nada tivesse acontecido. Mas ela com certeza deveria saber que eu sabia o que ela tinha feito no show e propositalmente. Mas eu resolvi entrar no jogo também e fingir que não tinha importância pra mim. Porque o Rodrigo era meu. Só meu.
— Vem, Mel. Entra na água. Está uma delícia!
— Não, Patrick. Obrigada, mas estou bem assim.
Quinze minutos depois a Fabi gritou:
— Pessoal, o almoço está na mesa.
Ajudei o Patrick a tirar os gêmeos da piscina. Coloquei uma toalha em volta deles, tentando seca-los ao máximo. Só depois que eles colocaram o chinelo foi que entramos para comer.
Os gêmeos foram o centro das atenções durante todo o almoço. Eles sempre ficavam muito empolgados diante de tantas pessoas legais. Eles não paravam de falar e fazer graça.
Eu tinha muito orgulho dos meus pequeninos.
Mais tarde, quando o sol já estava se pondo, depois que já estavam todos de barriga cheia e cansados de brincar, nós nos reunimos na sala para assistir um filme.
Fabi fechou todas as cortinas, deixando o ambiente mais escurinho. Depois de uma longa discussão o filme foi escolhido. Fabi e Ricardo ocuparam todo o sofá grande. Patrick e os gêmeos deitaram no tapete. Vanessa não quis compartilhar aquele momento com a gente e subiu para o quarto. Tiago foi atrás ver o que ela tinha. O que para mim era só frescura. Mas ele gostava dela! Rodrigo e eu ficamos com o sofá pequeno.
Não deu nem meia hora de filme, os gêmeos começaram a rocar no chão com o Patrick. Fabi e Ricardo estavam concentrados no filme. Tiago e Vanessa não deram mais as caras. Rodrigo e eu aproveitamos para dar uma escapadinha e fomos lá para fora.
— Eu estava louco para te beijar, sabia?
Dei uma risadinha, deixando ele me beijar.
Ficamos nos agarrando ali fora, como se estivéssemos nos escondendo de alguém. À noite, quando o filme acabou, eu acordei os meninos e nós fomos para casa, depois de agradecer ao pessoal.
Como eles tinham desligado a bateria no finalzinho da tarde até o começo da noite, os gêmeos tiveram energia suficiente para correr até a casa dos primos para brincar.
Eu fiquei no quarto, sozinha, lendo um livro.
O escolhida vez era Anna e o Beijo Francês, da autora Stephanie Perkins.
Depois do jantar tomei um banho e nos preparamos para dormir.
Acordei no domingo com os gêmeos pulando na minha cama. Não consegui ficar com raiva, mas eu resolvi revidar e comecei a enche-los de coceguinhas. Eles riram horrores.
Descemos para tomar o café-da-manhã.
O dia estava cheio na pousada. Então, resolvi ajudar a mamãe e a minha irmã. Augusto estava distraindo as crianças. E o papai estava jogado no sofá, o que não era novidade.
A tarde fui até a casa do Rodrigo. Ficamos no quarto dele conversando, trocando carinhos e beijos apaixonados.
Como ele eu me sentia tão viva!
— Escutou isso? Acho que alguém está te chamando!
— Mas ninguém sabe que eu vim aqui.
Levantei-me e fui correndo até a janela.
Era a minha irmã gritando por mim, anunciando a toda a vizinhança que eu estava namorando as escondidas com um dos nossos vizinhos. Eu quis estrangula-la.
— Eu vou ver o que é. Talvez eu volte.
Dei um rápido beijo nele e desci correndo.
— O que foi? Ficou doida?
— Eu sabia que você estava aqui!
Ela estava sorrindo daquele jeito maroto.
— Tá... Mas o que você quer?
— Não sou eu. É que você tem uma visita.
— O quê?
— É melhor você ir ver. Ele está esperando a um tempinho.
Ele?
Quando entrei em casa mamãe apontou para a cozinha. Ela não estava com uma expressão muito boa. Entrei na cozinha bastante apreensiva e dei de cara com ninguém menos que...
Fred?
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