Apenas Outra Festa

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Se eu disse que não gosto de festa... Eu não vou estar mentindo.
Mas eu fui na do colégio e me diverti um bocado e voltei inspiradíssima! Mas uma pena que nem tudo isso tenha de fato acontecido :v

Entreguei o dinheiro e o troco foi devolvido, junto veio uma pulseira na cor azul neon.

Sorri animada ao ver a pulseira: ela era minha entrada para o próximo lugar onde eu iria balançar muito minha raba e de repente parar porque as pernas e a coluna não aguentam o tranco.

Coisas da vida.

— Clara. — uma voz me acordou para a realidade. — Para de viajar, eu ainda quero ir para a fila do lanche e comer seja lá o que as tias têm para oferecer hoje.

— Entendido, senhorita esfomeada. — brinquei e a puxei pelo braço saindo correndo.

O local de compra de ingressos para a festa do colégio que o grêmio estudantil estava organizando devia ser comprado em uma sala que ficava do lado oposto da cantina, então se nós ainda queríamos encher o bucho era melhor correr.

Não que correr tenha adiantado muito, porque a fila estava simplesmente quilométrica, então a única opção foi entrar na fila, esperar e rezar para que o sinal não batesse antes de pegarmos o lanche.

Aparentemente nesse dia minhas preces foram ouvidas, admito que talvez eu tenha agradecido a alguma entidade superior qualquer por isso.

— Animada? — a pergunta me chamou a atenção e tirei o fone do meu ouvido.

— Para quê?

— Para a festa, é óbvio. — ela disse e então chegou minha vez de pagar a passagem. Como é horrível fila até para entrar em um terminal de ônibus.

— Meu amor, meu segundo nome é “rolezera”. Eu vou me divertir como sempre nessa festa.

— Se “como sempre” quer dizer “não dar pt”, para mim está ótimo. Não quero ser babá de ninguém dessa vez, tem um garoto que… — cortei sua fala rindo.

— Camila. — a chamei quando estávamos dentro do ônibus que estava na plataforma. — Eu já entendi.

— Que bom. — ela parou para pensar um pouco, nos deixando em um pequeno silêncio. — E você? Algum alvo?

— A lista de alvos já está enorme, porque ela simplesmente não diminui. — a garota ao meu lado ri da minha resposta e concorda com a cabeça.

— A realidade é complicada. — comentou e decidimos ficar em silêncio, decidindo por dividir o fone.

O que pareceu uma eternidade, aconteceu: o dia da festa chegou.

De shorts e cropped olhei meu reflexo no espelho e sorri orgulhosa: que corpo maravilhoso.

Não que eu de fato tivesse um, em especial nos padrões, mas dava para o gasto.

— Clara, se você for com um batom desses vai voltar com a cara borrada.

— Mãe! — protestei com vergonha. Eu definitivamente não servia para ter uma família que falasse tão abertamente.

— Vai voltar com um neto para mim, né? — escutei a pergunta de meu pai e revirei os olhos. — Só me leva para a festa, por favor. — escutei a risada dos meus pais e vi os dois irem pegar a chave do carro.

— Você ainda tem que fazer a janta. — meu pai protestou.

— Alguém prometeu fazer a janta hoje. — minha mãe retrucou.

— Pedra, papel, tesoura. — sugeri e eles me olharam.

— Vai perder. — ambos disseram e jogaram.

“Vambora”, Clara. — minha mãe disse com seu ar vitorioso.

“Bora”. — respondi e nós duas olhamos para o homem que finge decepção, em seguida mandamos um beijo que ele retribuiu sem hesitar.

Passamos na casa da Camila e ela não tardou a entrar no carro.

— Estão lindas, meninas. Nem parece que era esses dias que vocês duas corriam de fraldas pela casa.

— Mãe..! — protestei arrastando a palavra e minha amiga só deu risada.

— Pois é, tia. Uma hora são bebês aprendendo a andar e outra hora são “aborrecentes” correndo atrás de macho. — olhei para a paisagem que o carro deixava para trás me negando a ficar ouvindo elas.

Céus, eu só queria chegar logo na festa… E enquanto eu me animava cantando as músicas que tocavam no carro e as outras duas conversavam animadamente, chegamos no local da festa.

Não era lá essa coisas, como da última vez, mas dava para o gasto e era suficiente para geral encher as redes sociais depois com frases como:

“O que aconteceu na festa, fica na festa.”

“Se me perguntarem, não lembro.”

“Negarei eternamente o que aconteceu.”

Enfim, deu para entender que mesmo o lugar sendo meio pombo era suficiente para a galera fazer besteira.

— Liguem a hora que quiserem voltar, okay? — minha mãe disse na hora que eu tirei o cinto.

— Okay, mãe. — respondi e me aproximei dela, deixando um beijo estalado em sua bochecha. — Te amo. — confessei e abri a porta do carro.

— Também te amo. — escutei sua resposta assim que saí do carro, então fechei a porta.

— Eu sei que digo que quero netos, mas não me traga um! — ela gritou e mesmo com vergonha daquilo, não pude evitar de rir junto de algumas pessoas que estavam na fila para entrar no local.

— Você não está usando psicologia reversa! — gritei ao virar para trás e vi ela rir da minha resposta e arrancar indo embora.

— Cara, eu amo sua mãe. — Camila me respondeu e eu sorri.

— Todos amam.

Entramos na fila, esperamos a mesma diminuir para nós e então entramos. Já fazia uma hora e meia que a festa havia começado, então muitos já estavam um pouco altos e já dava para ver muitos na maior pegação. Nada muito surpreendente.

Enfim, encontramos nossa roda de amigos, cumprimentamos todos e nos encaixamos em um cantinho já começando as conversas e danças.

E como eu já havia previsto: eu estava rebolando muito a minha raba, deliciosa e enorme (é mesmo, esse detalhe eu não havia dito) até parar porque fazer isso cansa e dói. Por exemplo, ir até o chão e voltar: se fizer errado vai é dar ruim nos joelhos. Cuidado, uma vez me deu uma dor tão grande que eu sentei no chão e fiquei por lá mesmo. Eu juro que só não deitei porque não há garantia de que não serei pisoteada, mesmo estando encostada na parede.

Ai, ai… Eu já falei que dançar dói? A música que tocava já não era mais funk, mas sim eletrônica, e ainda assim, eu estava dançando e dessa vez minhas pernas querendo um descanso.

Decidi acatar o pedido do meu corpo e fui descansar e de quebra tomar uma água, porque minha garganta estava seca mesmo depois de ter tomado meia lata de cerveja (que para ser sincera, eu não faço ideia de quem meu deu, mas com certeza foi alguém maior de dezoito, afinal, só quem é de maior pode comprar bebida).

Ah, sim. Foco. Encostei em alguma parede e abri a garrafa de água que eu havia comprado. Enquanto bebia vi dois rapazes se aproximarem. Lá vem…

— Oi.

— Oi. — respondi fechando a garrafa.

— Você tem namorado?

— Não, por que o interesse?

— É que meu amigo te achou bonita.

Sério mesmo? Me achou bonita? E por que que a madame não veio ela mesma me falar isso?

— É? Que bom para ele.

Os dois trocaram olhares e me deixaram em paz. Talvez eu tenha sido muito grossa, mas já era. Talvez não seja um talvez…

Suspirei nervosa, meu negócio é dar em cima dos outros, não o contrário. Decidi ignorar o episódio e voltei a aproveitar a água que eu não havia comprado a toa.

Amassei a garrafa vazia, achei uma lixeira e me livrei do resíduo plástico, me possibilitando voltar para a rodinha em paz.

— Quem era? — Camila perguntou a respeito dos rapazes do episódio anterior.

— Não sei. Nem vi. — respondi e começou a tocar alguma música sertaneja, já tratei de chamar Camila para dançar.

— Vai pegar alguém? — sua questão me fez rir.

— Sabe que não pego ninguém. Bebo, danço, dou em cima e no fim saio de mãos vazias.

— Porque é tansa.

— Acontece. — dou mais risada.

— Bebeu quanto?

— Acho que dois copos daquela mistura que eu não sei do que é e meia lata de cerveja, o que não conta, porque é sem álcool. — respondi.

— Isso não dá nem para te alterar, você é uma máquina de beber.

— Eu não quero me alterar hoje. — expliquei — Acho que fiquei com receio depois de ver o estado do Ruan… Muito bêbado e dançando daquele jeito…

— Deu mais vergonha alheia que o normal. — ela comentou concordando comigo. Fiz ela rodopiar uma vez e ela me fez o mesmo.

Dançamos juntas e depois que nos separamos ela avisou que iria se envolver em algum esquema e sumiu, não que eu me importasse, ainda tinha outras pessoas com quem eu poderia conversar e para dançar eu não precisava de fato estar com alguém.

Mas vou te contar… Que esquema, ein… Já havia se passado meia hora e a desgraçada ainda não tinha voltado.

Cansada de dançar, saí da rodinha e sentei em uma mesa de mármore que havia próxima da parede, suspirei aliviada com a dor que se esvaía só pelo fato de eu ter me sentado (eu poderia estar sentada em outra coisa…).

Fechei os olhos um pouco e senti a presença de alguém se aproximando, me obrigando a abri-los novamente. Olhei para Camila e sorri maliciosa.

— Pelo visto o cara era bom. Faz meia hora que você sumiu.

— Eu fui conversar com a Renata. — me explicou. — Ela disse que quer ficar com você.

— Sabe que não fico com ninguém.

— Eu sei, avisei ela.

— Desistiu?

— Sim, ela disse que era uma pena. E eu concordo, afinal, você tem uma queda por ela.

— Uma queda? — ri de suas palavras. — Tenho um penhasco por ela.

— Você é muito trouxa.

— Nenhuma novidade.

Se tinha uma coisa que só Camila sabia era que eu gostava de Renata, talvez eu tenha demorado para aceitar que gostava de uma garota, mas agora faz parte.

— Olha! Uma máscara de cavalo! — Camila disse animada ao ver o objeto do meu lado e pegou o mesmo colocando em si mesma.

Escutei ela fingir relinchar, mesmo com o som abafado pela máscara e pela música do local e não pude evitar de rir alto. Idiota como sempre. Então Camila retirou a máscara e a fitou um pouco antes de me olhar e decidir colocar na minha cabeça.

Quando chegou no meu nariz eu de repente senti mãos em meu rosto e no mesmo momento percebi que não eram as mãos de Camila, não eram tão macias como as dela.

Senti uma leve pressão em meus lábios e depois alguém a mordiscando. E nesse momento veio a dúvida cruel: parar ou curtir? Por que eu estava me perguntando isso mesmo? Vamos beijar pela primeira vez e vai ser hoje! (Agora vocês entendem porque eu bebo e danço, mas não beijo.)

Eu não sei dizer exatamente o que aconteceu, mas eu sei que foi estranho, tipo, muito estranho. Talvez porque foi a primeira vez que eu fiz isso, não sei dizer... Ah! Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu fiz os nossos dentes se baterem algumas vezes.

E claro, depois dessa desgraça eu queria sair da festa e me enterrar na terra, que desgraça que eu tinha feito? Seja lá quem era devia estar rindo de como eu tinha sido ruim.

Receosa retirei a máscara e a coloquei do meu lado. Então eu vi quem era a pessoa azarada que tinha tido o desprazer de me beijar.

Renata, a garota por quem eu tinha um penhasco.

Se antes eu já queria me enterrar sete palmos abaixo da terra, agora eu queria mil palmos.

— Olha, se serve de consolo. — ela disse ao se aproximar para arrumar meu cabelo bagunçado pela máscara. — Tem gente que beijou pior que você e já tinha alguma experiência com isso. — ri sem graça com seu comentário.

— Já me sinto um pouco melhor.

— Mas podemos melhorar esse seu beijo com mais algumas experiências. — sua sugestão me fez sorrir maliciosa.

— Tenho interesse nessas outras experiências.

Em meio a toda aquela pegação (e que pegação! O que aquelas mãos não devem saber fazer em outros lugares, ein?) ela me dava algumas dicas do que fazer e, admito, perdi a noção do tempo e de quantas vezes trocamos saliva.

— Se quiser de novo me manda uma mensagem que rola. — ela alertou próximo ao meu ouvido e mordiscou minha orelha antes de se misturar a multidão novamente.

Soltei a respiração que eu havia prendido e vi Camila retornar mexendo no celular e então enfiar a tela na meu rosto.

— Caramba, garota! — reclamei — Não vou ver nada com a tela na minha cara!

— Ah, tá. Foi mal. — ela afastou o celular o suficiente e pude ver a hora que Renata havia me beijado enquanto eu estava com a máscara.

E eu dei risada por causa da foto. Que coisa ridícula aquele objeto!

— Que coisa escrota! — comentei ainda rindo.

— Cala a boca, sua ingrata! Eu arranjei o esquema, o plano, a foto e você ainda reclama!

— Eu tenho a melhor amiga do mundo! — gritei me jogando em cima dela e obviamente acabamos parando no chão.

— Sua vadia! Sai de cima de mim! — suas palavras não me afetaram da forma devida, mas acatei sua ordem do mesmo jeito.

— Obrigada. — agradeci quando ajudei ela a se levantar.

— Quero meu pagamento em chocolate.

— Desgraçada. — falei brincando e ela riu — Outro dia te pago.

— Enquanto você ficou só com uma, eu aproveitei para ficar com três.

— Rodada.

— Sou mesmo.

— Tem que ser mesmo. — falei e então a puxei de volta para a roda dos nossos amigos para dançar.

Não preciso dizer que ouvi comentários de todos a respeito de eu finalmente ter beijado alguém, certo? Certo.

Depois de um tempo decidi que deveria ir no banheiro e fui, mas olha… Pensa em um desgosto! Abri a porta do banheiro e tinha urina para todos os cantos. Homem quando não quer mirar, não mira. Mas você já viu mulher quando não mira? Pois é, ser humano consegue ser uma negação nesse quesito.

Fechei a porta com o pensamento de que eu aguentava de boas até chegar em casa e então dou de cara com Renata novamente.

— Eu não entraria se fosse você. — alertei.

— A situação é muito catastrófica?

— Catastrófica é elogio, cara.

— Que droga.

— Nem me fale. — murmurei e ela sorriu de repente.

— Será que nos esbarrarmos é obra do destino novamente?

— Oi?

E minhas costas bateram na porta quando ela se aproximou e tentei esquivar. É óbvio que eu me esquivei a toa, porque logo depois me rendi a aqueles lábios maravilhosos e suas mãos desceram para minha bunda para apertar o local.

Eu queria era estar em um motel com essa lazarenta.

Percebi que suas intenções eram ir mais longe, por essa razão optei por me separar e sorrir com sua expressão de frustração.

— Quem sabe outro dia, em outro lugar.

Com minha explicação eu saí dali decidida a voltar a me divertir ao bom e velho estilo de sempre: dançando e bebendo.

— Bom dia… — murmurei entrando na cozinha e suspirando, que ressaca do cão.

— Bom dia. — meu pai disse e tirou os olhos da panela que refogava algum legume — Meu Deus! — gritou ele assustado.

— O que foi? — questionei visivelmente mais acordada pelo seu susto.

— Esse roxo no seu pescoço! — exclamou — Não pode ser! Meu bebê foi atacado por um garoto! — fez seu drama.

— Foi?! — minha mãe gritou já correndo para dentro de casa, pelo visto estava entendendo as roupas — Como você sabe?!

— Olha esse roxo no pescoço dela! — meu pai explicou e minha mãe sorriu maliciosa.

— Ah, danada! Quem foi o azarado?

— Se eu peguei mais alguém além da Renata eu não lembro. — admiti.

— Foi uma garota?! — os dois gritaram.

Cara, minha ressaca… Estavam detonando comigo.

— Eu sabia que ela era lésbica. — falou meu pai mais calmo, porém não menos inconformado.

— Eu dizer que sou bi vai fazer alguma diferença?

— Eu ainda tenho chances de ter um neto biológico, então? — minha mãe indagou mais animada.

— Vou saber. Se um dia eu tiver estabilidade financeira quem sabe eu penso em netos.

— Eu vou morrer antes disso… — minha mãe murmurou visivelmente decepcionada, ela já tinha seu meio século de idade, como eu carinhosamente gostava de provocar ao falar de sua idade.

— Então, o que vai ser de almoço? — perguntei sem a mínima fome, mas sabendo que eu precisava comer — Cadê a caixa de remédios?

— Lá no meu guarda-roupa. Vai buscar. — explicou minha mãe e concordei já saindo dali.

Peguei meu celular que estava conectada ao carregador e subitamente começou a vibrar com uma ligação de Camila.

— Bom dia, flor do dia! — gritou animada.

— Cala a boca, minha ressaca agradece.

— Opa. Desculpa, não fui eu que me empolguei não.

— O que você quer?

— Como seus pais reagiram?

— Reagiram?

— Ao chupão no seu pescoço.

— Ah… Quem que fez isso?

— Eu vi bem, foi no final da festa e foi a Renata, ela realmente gostou de você.

— Eu peguei mais alguém além dela?

— Pegou alguns garotos aleatórios… Mas só porque estava bêbada.

— Feios? — minha pergunta fez ela rir.

— Não são bem o seu tipo.

— Já entendi. Meus pais reagiram do jeito deles.

— Você disse que foi uma garota?

— Sim.

— E?

— E que eles só estão preocupados em ter um neto biológico, só.

— Que sem graça…

— Do que você está falando, cara? Eu estou agradecendo aqui que eles aceitam minha sexualidade e você, minha melhor amiga, querendo treta? Sério mesmo?

— Não, sua louca. Estou falando que eu queria uma reação mais animadora deles, bem ao estilo seus pais. Porque do jeito que você está falando, parece que a reação foi broxante.

— Não foi broxante. Eles não gostam da ideia de eu estar com uma garota, eles respeitam. Por isso não tem como ter uma reação melhor.

— Faz sentido.

— Claro que faz. — ri de sua resposta — Vou procurar um remédio e ver se não vomito as tripas depois do almoço. Falou.

— Falou. Melhoras.

— Valeu. — e desliguei.

Abri a primeira rede social que vi notificação e vi uma foto minha com Renata e suspirei no mesmo instante.

Era para ser apenas outra festa...

Bom, quem liga? É a vida. A minha vida.

Notas finais
Aproveitei que minha enxaqueca decidiu sumir e terminei de escrever essa coisa doida aqui
Obrigada a quem leu! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!