Apenas Não Deixe Que Isso Aconteça...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Bocejei, esfregando os meus olhos claros, ainda na cama. Para que eu me levantaria hoje? Obviamente eu teria de ir para o colégio, mas o que isso iria adicionar na minha vida? Me mexi debaixo das cobertas, me arrumando, ainda com sono, até que...
_ LEVANTA PREGUIÇOSO! QUERO VER VOCÊ DE PÉ AGORA! UM, DOIS, VAMOS COMEÇAR A FAZER EXERCÍCIOS! — uma voz berrou no meu ouvido.
Eu franzi o cenho, colocando o travesseiro em cima do rosto, tentando ignorar o jeito ridículo do meu "irmãozinho" de acordar os outros e respirando fundo. A paz da minha manhã tinha sido interrompida. Agora eu não iria conseguir dormir mais. Me sentei na cama, encarando o Jay, que me olhou, um pouco assustado.
_ O que você quer? — perguntei, ouvindo minha voz sair rouca e um pouco mais baixa do que o normal.
_ Nossa, como sempre acordando com uma cara de fantasma... — resmungava Jay.
Deixe-me explicar: Aquele ser agitado que tentava me acordar era eu mesmo. Ainda não entendeu? Ele era como... Uma alma minha. A minha alma estava do lado da minha cama, me acordando. Tinha a mesma aparência que eu, só colocamos nomes diferentes.
Eu ouvi a minha mãe sair do banho e pulei da cama, vendo Jay desaparecer. Agora ou eu corria ou eu estava morto. Me enfiei em uma calça jeans mais do que depressa, coloquei a blusa do uniforme e um casaco de neve por cima, já que nevava lá fora, correndo até o banheiro. Lavei o rosto, escovei os dentes e penteei os meus cabelos negros, voltando para o quarto e vestindo meus sapatos, arrumando a minha mochila em outro pulo.
Eu corri para a cozinha para tentar comer alguma coisa, mas minha mãe saiu do quarto dela elegantemente, com seus cabelos dourados caindo ondulados por seus ombros, já pronta para sair, com a maquiagem em sua pele branca e lápis delineando seus olhos claros. Eu peguei uma maçã, ainda resmungando um "bom dia" que não foi correspondido, indo até a porta.
_ É impressionante como você sempre demora a acordar, seu inútil. — resmungou minha mãe, me empurrando e passando na minha frente.
Deixe-me explicar outra coisa: Eu era um filho odiado daquela mulher, que me teve por causa de um estupro, então, eu não vou ser amado por ela nunca. Bom, eu apenas suspirei e segui atrás dela, correndo para não ter que pegar o ônibus e entrando no carro em alguns minutos.
_ Não só a acordar, pelo visto. — disse Eliana.
Ah, essa aí era a alma da minha mãe. É, as duas me odiavam. Revirei os olhos e olhei pela janela, enquanto ouvia o Jay começar a discutir com elas. Que ótimo, calmo do jeito que ele era, o que eu deveria esperar?
Observei a cidade passar. Será que a minha vida iria mudar mesmo? Peguei um livro escolar, sem o mínimo interesse naquilo, apenas querendo estudar um pouco. Minha mãe dirigia alguma das palavras á mim, mas eu nem me importava. Eu sabia que ela não iria parar de brigar comigo. E sabia também que o Jay só estava tentando me defender, fazer com que eu parasse de sofrer. Ele dizia que isso me matava aos poucos.
Logo eu larguei o livro dentro da mochila, resolvendo seguir á pé. Eliana não fez cerimônia, apenas disse para a minha mãe parar o carro, deixando que eu seguisse sozinho. Jay apenas desapareceu, como sempre fazia.
Eu procurei o ponto de ônibus, logo sentando ali para esperar que ele passasse. Quanto mais perto eu chegasse do colégio, melhor. Voltei o meu olhar para as pessoas á minha volta, que mal me notavam. Respirei fundo, observando o céu. Eu já estava cansado dessa vida normal que eu tinha. Poxa, se existiam mesmo seres mágicos, por que eles não apareciam?
Encostei a minha testa no ferro da cadeira do ponto de ônibus, querendo achar uma resposta. Peguei o meu celular, vendo se havia algum jogo nele, inutilmente. Eu sabia que havia excluído esses jogos há muito tempo e essa foi coisa mais imbecil que eu já fiz. Estou pagando por ela até agora. Não tenho com o que me distrair.
Continuei a observar os carros, vendo um ônibus que vinha na direção oposta passar, desistindo de ir para o colégio. Me levantei, andando até a praça deserta que havia ali, me sentando em uma espécie de cano que servia como brinquedo para as crianças. Eu não sabia o nome daquilo, apenas me abaixei e me encolhi, ficando ali dentro, sentindo ele gelar o meu corpo.
Comecei a fazer um desenho com um graveto naquela porcaria de neve, que apenas se amontoava no chão e em tudo, servindo só para deixar o clima mais frio. Joguei o graveto para longe, batendo a cabeça de leve no ferro atrás de mim, com os olhos fechados. Que vida chata. Não tinha nada para fazer.
Logo eu tirei a minha mochila das costas, pegando a maçã e comendo, me deitando direito no cano. Observei aquele ferro acima de mim, colocando a mão ali, observando ela ficar meio esbranquiçada á medida que esfriava mais, tirando ela dali logo em seguida. Fechei os olhos, esperando conseguir dormir ali, mas o frio não permitia tal feito.
De repente, ouvi um barulho alto e um grito. Espiei pelo cano, escondido pela neve e vi um garoto tentando roubar uma garota. Suas almas discutiam e brigavam sem parar, cada uma tentando proteger seu próprio corpo, percebendo que a garota chutava o homem e tentava puxara a bolsa para si. Aquela era uma cena cômica para quem não estava envolvido.
_ Você é muito cruel, Logan... — resmungou baixinho Jay, fazendo com que eu soltasse uma risada baixa.
_ Oras, quem mandou a menina ser tão descuidada? — resmunguei, vendo Jay ir na direção dos dois.
_ Eu não sou tão cruel quanto você. Não vou ficar só olhando. — disse ele, indo com o nariz empinado até as três almas.
Eu suspirei, agora que ele já tinha feito o favor de me denunciar, eu tinha que ir. Andei até os dois, pegando a bolsa da garota e entregando para ela, deixando Jay discutir com as duas almas.
_ Eu acho que cada coisa deve ficar no seu lugar. — resmunguei, logo percebendo como aquelas palavras me machucavam.
Cada coisa no seu lugar... Eu olhei para a rua, vendo que Jay percebeu também o que ocorrera, bagunçando o meu cabelo e desaparecendo. Eu vi a garota sair correndo e o garoto partir para cima de mim. E foi então que uma luz forte me prendeu contra a parede, fazendo com que eu parasse de respirar com o susto.
_ Moleque, você não sabe aonde mete o nariz quanto resolve salvar alguém, não é? — perguntou o garoto e vi um homem com o olhar fixo no meu.
O homem tinha os olhos vermelhos e cabelos brancos. Ele parecia ver tudo sobre mim e sorria maliciosamente. O garoto, que tinha cabelos negros e olhos da cor dos cabelos apenas riu e se aproximou de mim.
Eu encarei o homem de olhos vermelhos, franzindo o cenho. Quem era ele? Ou melhor... O que ele era? Quem diria que o dia em que algo mudaria chegaria tão cedo... E por culpa de ninguém menos do que...
_ Ei! Ninguém vai encostar um dedo sequer no Logan, estão ouvindo? — disse Jay vorazmente, fazendo com que eu saísse dos meus próprios pensamentos.
O homem de cabelos brancos abriu ainda mais o sorriso, indo até a minha querida alma, que tinha se colocado na minha frente, com um olhar tremendamente perverso e sádico.
_ Nossa, que bonitinho, a alminha do garotinho lindinho veio para proteger ele... — disse o garoto de cabelos negros, irônicamente, rindo mais.
_ Me... Me larga. — murmurei, quase sem voz.
_ Quem? Quem tem que te largar? — perguntou o homem de cabelos brancos, me fitando.
Eu fiquei bastante assustado dessa vez. Eu queria apenas conseguir sair correndo dali o mais rápido possível.
_ O que está acontecendo? Por que estão fazendo isso? O que é você? — Jay começou a perguntar sem parar, recuando, com o olhar fixo no homem de cabelos brancos.
_ Ei! — chamei a atenção do Jay, que se calou na hora, com um olhar de medo.
Por que é que é que ela estava com tanto medo? Eu encarei a minha alma, percebendo que eu estava começando a sentir aquele mesmo pavor que o Jay estava sentindo, tudo misturado com aquele desespero...
_ Quantas perguntas... — resmungou o homem de cabelos brancos, fazendo um sinal de desaprovação. — Você é tão ingênuo... Aliás... Todos vocês são...
Um sentimento ruim começava a se apossar de mim também. Aquele homem parecia ser algo muito ruim. De verdade.
_ Onde... — murmurei, perdendo a voz por um segundo. — Onde está a sua alma?
O homem parou de avançar, me olhando nos olhos novamente, fazendo com que aquele sentimento ruim se agravasse ainda mais dentro de mim.
_ Não faça as perguntas se não quer saber a resposta. E o meu nome é Luzian. — disse o homem.
De repente, a neve se transformou em chuva. Foi de uma hora para a outra, além de que as nuvens se tornaram ainda mais escuras. O que estava acontecendo? Eu senti um pouco de vontade de chorar... Por que? Frustração? Medo? Pavor? Desespero? Eu não sabia ao certo o que era... Eu só sabia que eu queria correr dali para o mais longe daquele cara o mais rápido possível.
_ Ele é o meu cachorro. — disse finalmente o garoto de cabelos negros, se pondo ao lado do tal Luzian. — E meu nome é Miguel. É um prazer te conhecer, moleque.
O garoto começou a estender a mão, mas eu me assustei com isso e gritei um: "Não me toque!" que fez com que os dois se entreolhassem. Agora eu só queria voltar á minha vida normal. Só isso.
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