Aparências - Um Clichê Não-Convencional

1 (Prólogo) Algumas Garotas São Maiores Que Outras


Julho de 1986, 11:40 da manhã. Era o final de mais uma nublada e entediante sexta-feira em uma supostamente renomada instituição de ensino particular no centro da cidade de Nova York, o Colégio St. Valentine. A última aula, de biologia, havia começado há 20 minutos na Sala 18 — Turma C. A Srta. Desireé Parker, com seus cabelos cheios e nas mãos um espelinho portátil e uma escova de rímel, mantinha-se muito ocupada, se maquiando para sabe-se lá o quê ao que papeavam seus alunos, outrora silenciosos e vigiados pelo Sr. Robert Patterson, o professor de química, que lhes aplicou um "oportuno" teste-surpresa relacionado à Tabela Periódica.

Para uma impaciente e peculiar garota que se sentava estrategicamente na primeira carteira próxima da porta à direita, o período já se tornara uma longa e infeliz eternidade. O padrão de seu uniforme — blusa de manga longa púrpura com detalhes em dourado, saia xadrez até o joelho, meias brancas e sapatilhas pretas — era quebrado pelo não-uso do charmoso lencinho branco no pescoço, ostentado por quase todas as outras alunas. Ela achava isso ridículo, uma demonstração estúpida de elitismo e puritanismo paralela apenas ao século XVI.

Veronica Ferrarini, de 17 anos e meio, era uma ítalo-americana de características singulares, as quais faziam-na ser visivelmente comparada à uma jovem Cher dos anos 60. Era magra e esguia, de estatura média, cor branca mediterrânea temperada a tons minimamente morenos, de cabelos escuros até o pescoço — estes numa indecisão entre o lisos nas mechas e ondulados nas pontas. Seu rosto era oval, adaptado a uma franja reta e uniforme, e uma boca mediana, de lábios rosados.

Seus traços mais marcantes eram o nariz afinado e reto, perfeito, acompanhado de olhos brilhantes e redondos, levemente arrebitados nos cantos exteriores e de cílios compridos e elegantes. As intensas sobrancelhas eram delineadas e escuras, e as pupilas castanhas quase negras, completadas por um levíssimo estrabismo no lado direito, que ao invés de causar estranheza, lhe dava um charme e profundidade a mais no olhar, sendo o toque final uma pinta no lado esquerdo da face.

Nas últimas folhas de seu caderno ligeiramente envelhecido, a misantropa aluna de descendência italiana em meio a uma maioria anglo-saxônica comumente escrevia relatos de seu dia, ao mesmo tempo que rabiscava desenhos abstratos, letras de música alternativa e xingamentos de todo tipo, destacada entre estes a incessante repetição de uma sigla: “T.B.B.”, ou “Trashy Blonde Bitch”, significando literalmente “Vadia Loira Lixosa”.

Hoje, seu passatempo habitual estava focado em dissecar Elise Schneider, a filha de um bilionário alemão que há apenas 3 dias havia chegado de intercâmbio e já se tornara a garota mais popular do colégio. Concentrada ao que escrevia em bela letra cursiva em caneta preta, com enfeites e destaques em vermelho, ela assim dizia:

“Querido diário improvisado, há muito tempo que lhe encho o saco com bobagens. Há muito tempo o faço aguentar minhas lamúrias, medos e frustrações... Isso quando minhas lágrimas de asmática não lhe caem, e você é obrigado a me ver com o nariz escorrendo. Às vezes me acho uma paranoica, uma completa estúpida... Mas não sei, dizem que os loucos dizem a verdade.

Antes de prosseguir, pergunto a você, querido: É realmente errado julgar, ou os moralismos que condenam este ato natural não passam de uma fabricação, que nos impede de alcançar o verdadeiro entendimento do que é justiça social? Afinal, ninguém julga os de cima, mas os de cima, estes estão sempre julgando os de baixo.

Dito isso, posso afirmar que hoje, neste dia, confirmei a crença que já tinha desde que bati os olhos nesta criatura. Sim, Elise Schneider é uma vadia riquinha e esnobe! Ela não é uma exceção, mas a continuidade da regra!

Era o intervalo entre os horários da Srta. Hernandez e do Sr. Patterson, e como de costume, havia aproveitado para ir ao banheiro, e já estava voltando após deixar meus bilhetes nos armários da Jackie e da Suzie. Foi então que o diabo em pessoa apareceu na minha frente... Um diabo em forma de patricinha, uma reação alérgica ambulante!

O poste com pernas veio em minha direção como um poltergeist, espalhando terror e enfermidade por onde passava. Do nada, perguntou: "Tem alguém no banheiro?", deixando-me congelada, igual a uma paspalha (uurgh! Porque sou assim com desconhecidos?). Se já não bastasse a voz de burguesa superficial puxando sotaque alemão, e aquela loirice lambida e penteada pra trás, ela me olhou de cima, como uma policial da Gestapo, toda dura, com o nariz mais empinado do que já era, e ainda jogando aqueles dois balões de água que chama de peitos em mim... Como se quisesse fazer questão de mostrar que os dela eram maiores que os meus e os de todo mundo na nossa idade.

Eu naturalmente respondi que não, e antes mesmo que pudesse piscar os olhos, ela já me ignorou completamente, passando por mim como se não fosse nada, enquanto falava alguma coisa em alemão, acenando sem virar o rosto. Talvez o mais irritante nem fosse ser tratada como uma assistente de linhas de transporte público, mas vê-la andando até o banheiro com aqueles passinhos de modelo, exalando arrogância e ar de superioridade, esfregando no rosto de todos uma realidade infame.

Fora ela não me agradecer e achar que podia ter o banheiro só pra ela, você não sabe da maior...

Ela estava sem o crachá no pescoço!

Quer dizer que enquanto todo mundo tem que levar essa porcaria de "cartão do xixi" para onde vai, a princesinha pode andar livremente por aí? Já não basta conviver com as vantagens e "perdões" que alguns setores ganham no boletim anual por "representarem o colégio", enquanto o resto todo precisa se matar em estudos, leituras e trabalhos para tirar um B- ...Ainda vou ter que lidar com isso?

Não se pode negar que no mundo de ontem e de hoje, os que nascem em berço de ouro sempre vão pisar nos que estão embaixo. Eles já vêm ao mundo sendo privilegiados, e o resto que se ferre. Elise Schneider, a dondoquinha que chegou aqui em uma BMW trazida por motorista particular e usando uma boina à francesinha, é uma dessas pessoas. Me diga, com toda a seriedade, quem usa boinas no dia-a-dia além da Cyndi Lauper? Okay diário, não precisa me lembrar, a Jackie tem uma, e eu acho superfofa com aquele cabelinho cacheado dela, mas a Jackie... Ela é a Jackie, entendeu? Ela não age como uma vagabunda, só é idiota às vezes... Bem idiota.

Já se vão 2 anos nesta bendita escola, e desde o início, segue-se a mesma canção melancólica: Sophia Hailey e seu grupinho controlando a hierarquia social por meio de pressões, subornos e chantagens, formando uma legião de soldadinhos e conspirando contra quem não se ajoelha diante de seus pés, ao ponto de se cogitar a ideia de criar um clube secreto unicamente dedicado a odiá-las. Sério, já ouvi isso pelos corredores... Mas não é de todo ruim, pelo menos ela perdeu feio nas eleições para representante de colégio do ano passado, embora eu sinta que a vencedora atualmente não passe de uma marionete.

Todavia, há algo de interessante a se notar na chegada de Elise Schneider: não dá pra ignorar o quanto ela vem humilhando Sophia em presença e atenção gerada nesses 3 dias, como se suavemente estivesse a colocando de lado. Talvez se autodeclarar a mais nova "melhor amiga" da novata não passe de uma tática defensiva de nossa patricinha-mor, mantendo hipotéticas ameaças sob controle antes que se tornem um problema? Talvez seja eu outra vez com minhas maluquices conspiratórias, mas no mundo animal, dois predadores não dividem a mesma caça, e a natureza sempre leva-os a disputarem-na até a morte. Bem... Que se descabelem! Só sei que vou estar lá para dar o tiro de misericórdia.”

Antes mesmo que Veronica pudesse terminar de pôr a data no rodapé de seu texto, comente-se, digno de matéria do jornal estudantil do St. Valentine, o sinal das 12:40 havia tocado, e todos os alunos, exaustos após uma longa semana, saíam desesperados pela porta. Ela, que por lógica deveria ser uma das primeiras a sair, naquele dia foi uma das últimas. Perdeu totalmente a noção do tempo ao que escrevia o seu sincero e agressivo desabafo interno.

Nos agora movimentados e sonoros corredores pintados de branco e localizados junto à seção de armários, em frente à escadaria para a saída, já esperavam as suas duas amigas, Jackie e Suzie, alunas das salas 19 e 21. Estavam impacientes, afinal, “Ronnie” não costumava demorar.

Notas finais
Tema: The Smiths - Some Girls Are Bigger Than Others
https://www.youtube.com/watch?v=BLSLx5wt9Fg&app=desktop
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.