Apaixonada pelo Mal
14 Mulheres da Máfia
Notas iniciais
Nós ficamos muito tempo no carro. Ninguém dizia uma palavra.
Fiquei colada em John por causa do frio, mesmo assim ele não fez ou falou algo para mim, apenas pediu que ligasse o aquecedor. John ficou toda a viagem com a respiração pesada, talvez pela minha proximidade, meus dedos estavam no bolso da sua jaqueta, perto da sua calça.
Eles foram a um bairro bem próximo de Nova Jersey, pelo que vi nas placas.
Entramos em um subúrbio de alta classe, só havia casas imensas, todas com muros altos, dando privacidade para quem mora ali.
Um a um os três homens que estavam conosco desceram, entrando nas casas. Quando o terceiro, o que estava dirigindo, saiu John assumiu o volante.
–Não faça nada estúpido – Disse quando saiu de perto de mim.
Ele acha mesmo que vou me jogar do carro em movimento? Fiquei quieta e John não disse mais nada. Ele dirigiu por mais quinze minutos e parou em frente a um casarão branco, com os muros cobertos por folhas. John falou com alguns italianos que estavam fazendo a vigia do portão e eles olharam para mim com curiosidade.
–Buon pomeriggio – Disseram e eu apenas assenti, não entendi o que eles disseram.
Assim que John entrou com o carro puder ver o exuberante e proeminente jardim. Havia dezenas de rosas, uma fonte linda, grande e lustrosa, como as de Roma. Todo aquele verde e as cores das flores só faziam que o casarão branco se destacasse.
John parou o carro em frente a casa e desceu, abrindo a porta para mim.
–Quem mora aqui? – Sussurrei olhando tudo.
–Nós vamos ficar aqui por um tempo – Disse John ignorando a minha pergunta.
Fiquei olhando para ele, fazia tanto tempo que eu não o via... Nada que planejei dizer caso o visse me veio em mente. John se aproximou de mim e ergueu meu braço com cuidado.
–Está ficando roxo... – Disse rouco e eu olhei meu braço.
Havia um roxo horrível se formando no meu antebraço, senti agora que estava dolorido. Deve ter sido na hora que Derik me jogou no chão...
John começou a limpar meu rosto e meu pescoço com a mão, quando eu as olhei vi que estavam vermelhas.
–Sangue... – Murmurei e John assentiu.
–John! Meu irmão! Não deixe sua mulher aqui fora! Está frio! – Disse um homem aparecendo — Não deixe sua mulher aqui fora! Está frio! – Disse. Ele é alto, musculoso, cabelos e olhos escuros, de certa forma lembra-me o John, mas ele é mais velho.
O homem beijou John na face e eles trocaram um abraço.
–Já soube o que aconteceu – Disse o homem sério e depois sorriu, olhando para mim – Então você é a famosa Olivia! – Disse encantado e beijou meu rosto – Você tem deixado meu amigo de cabelo em pé! Fez ele até tomar um porre por sua causa! – Disse e deu uma boa gargalhada – Mas não se preocupe! Não deixei que nenhuma putana se aproximasse dele – Disse brando e depois piscou para mim.
–Giovanni! Por favor, não a deixei constrangida! – Diz uma mulher saindo da casa, em um tom suave – Prazer, Olivia – Diz – Meu nome é Cristine e este é meu marido – Diz docemente.
–Oi... – Murmuro.
–Sei que vocês têm assuntos para tratar – Diz Cristine – Deixem-me cuidar de Olivia – Diz com um sorriso educado.
John assentiu – Obrigada, Cristine – Disse.
John e Giovanni saíram sem olhar para trás, então voltei minha atenção para Cristine, que estava me observando.
–Não fique triste Olivia, ele está chateado com você – Disse suavemente, mas eu não respondi.
Cristine me levou para dentro da casa falando sem parar sobre a decoração, do quanto trabalhou deu para combinar os móveis com o estilo da casa.
–Não foi fácil – Suspirou – É um casarão em estilo clássico da década de 20 e eu queria que tudo se mante-se no estilo clássico, como um palácio. Giovanni não queria isso, mas eu dei um jeitinho dele aceitar – Diz piscando para mim e depois riu.
A casa é linda mesmo, imensa e bem decorada, com cada canto preenchido. Cristine me levou para um quarto imenso no terceiro andar.
–Bia, minha cunhada, deve chegar logo – Diz – Pedi que ela trouxesse algumas roupas para ti – Disse Cristine gentilmente.
–Por que você está me ajudando? – Murmurei.
–Boatos voam com uma velocidade impressionante, Olivia – Diz – Atirar em um policial? – E deu uma risadinha – Mas você não fez isso para se proteger, não é mesmo querida? – E ergueu o meu rosto – Foi para protegê-lo, certo?
Virei meu rosto e cruzei meus braços em silêncio.
–Foi o que eu pensei – Diz Cristine – Está na hora de termos um papo entre mulheres.
***
Cristine me deu uma toalha e pude tomar um banho. Não demorei o quanto queria, estava interessada em saber o que Cristine tinha para me dizer.
Saí com um roupão do banheiro e me sentei perto da janela. Cristine estava sentada na ponta da cama com as pernas cruzadas, como uma verdadeira dama.
–Ah! Aí está você! Já entrei em três quartos a sua procura! – Diz uma mulher entrando no quarto. Ela parecia ser jovem. É magra e alta, olhos e cabelo escuros, nariz aquilino, mas com um sorriso de menina. Com certeza tem decência italiana – Me chamo Mandy Beatrice, prazer Olivia! Mas pode me chamar de Bia – Diz se sentando ao lado de Cristine, com um sorriso singelo.
Ambas usavam alianças e anéis nem um pouco discretos de brilhante. A única conclusão que tinha era que elas eram mulheres da Máfia.
Elas estavam falando em italiano e em inglês, só entendia meu nome e de John na conversa embolada.
–Desculpe-me, Olivia! – Diz Cristine com a mão na boca – Que descuido meu! Deixe-me explica-la... Meu marido, Giovanni, é um grande amigo de John Adam.
–E aqui somos todos da família, por isso estamos falando de vocês – Diz Bia – Para nós foi uma grande surpresa que John Adam se apaixonasse por uma mulher que... – Diz Bia e trava.
–Esteja fora dessa nossa vida – Completa Cristine – Não é comum que os homens desta família se relacionem com alguém que não seja conhecida da família ou amiga.
–Família que você diz é a Máfia – Murmuro e Cristine fica encabulada.
–Veja como quiser – Diz Bia imparcial diante do meu tom – Vocês de fora só veem o pior lado, não veem a família, a união, confiança que há!
–É impossível não ver o pior lado, eu fui vítima dele – Digo.
–Ela tem razão, Bia – Diz Cristine – Você pode nos ver como ladrões, criminosos sem coração, mas todos nós somos pai, mãe e irmão de alguém. Não podem nos julgar pelo que fazemos e sim pelo que somos. É isso que você está fazendo com John Adam, por isso ambos estão sofrendo.
–Por acaso ele já te fez mal? Bateu-te? – Pergunta Bia e eu não respondi – Apesar do que dizem não somos assassinos frios. Fazemos favores para a família. Os negócios são da e para a família. Se alguém da família tem um inimigo, ele é nosso inimigo – Diz Bia.
Eu podia sentir a força da família que elas dizem. É assim que elas veem...
–Para nós não faz diferença como nossos maridos ganham a vida – Diz Cristine – Estamos nisso há muito tempo, todos nós, meu pai, meu avô...
–Por isso vocês dizem família... É um negócio de família – Murmuro.
–Pode-se dizer que sim – Diz Cristine sorrindo.
–Quero que entenda nosso lado, Olivia, que nos conheça – Diz Bia – Quer ouvir nossa história? Envolve John Adam e o pai dele.
Eu pensei um pouco. Ao que parece eu poderia ir embora se falasse com elas, elas são gentis demais, verdadeiras damas. Sua voz, seu andar, sua postura, a elegância de suas roupas, estava curiosa para saber este outro lado.
–Estou disposta a ouvir a verdade – Enfatizei.
Cristine suspirou em compreensão – Não imagino o quanto deve ter sido difícil ruim saber que tudo que John disse era mentira. Uma noite o ouvi falando com meu marido, ele estava arrependido de mentir para você, Olivia. Ele queria te contar a verdade, mas tinha medo da sua reação... A que você teve.
–É verdade, Olivia – Diz Bia – John Adam é meu primo de terceiro grau, eu cresci com ele e admito que ele sempre me deu medo. Ele sempre foi frio e reservado, mas desde que conheceu você ele mudou! Está mais falante, gentil... E ele ficou arrasado quando você o deixou. Eu sei que é ruim estarmos falando assim de vocês, tão intimamente, é que... – E Bia ficou quieta.
–Uma noite quando nossa família se reuniu John apareceu atrasado e... Completamente bêbado – Diz Cristine – Ele estava falando tudo sobre vocês, foi quando soubemos de você.
–O porquê de ele ter mudado tanto, ter se distanciado da família... – Acrescenta Bia.
–Tu não imaginas a confusão que deu quando souberam quem você é! Quando Dog, Tyler e Anthony contaram que já sabiam... Oh mia signora! Foi uma loucura esse dia! – Diz Cristine – Você sabe como são os italianos.
–Depois eu irei falar com o John – Eu disse.
–Já decidiu se vão ou não ficar juntos? – Perguntou Bia eufórica – Por favor, Liv, não se deixe levar por seus preconceitos, você o ama! Posso ver em seus olhos isso!
–Isso é algo muito sério e particular, Bia! Nós precisamos conversar, eu não sei se posso perdoa-lo ainda... – Murmuro e elas concordam – Você não me disse a história de vocês...
–Ah! É verdade! Nem percebi que havia perdido o fio da meada! – Diz Bia rindo.
–Nós não conversamos com outras mulheres constantemente para manter o papo em dia, somente quando nos reunimos o que é raro – Diz Cristine rindo – Eu tenho dois meninos e Bia um menino, sempre cercadas por homens – Suspira Cristine.
–Nossa história é conturbada, Olivia – Diz Bia – Uma das desvantagens de ter uma família assim...
“Meu pai trabalha neste... Ramo desde que me entendo por gente, toda família está, e acredite é uma família grande. Sou a caçula, tenho mais dois irmãos, então sempre fui o xodó do meu pai. Meus irmãos entraram para o negócio da família, mas eu não me envolvi. Estava começando minha carreira como violinista, foi onde conheci Anthony... Na época eu tinha 17 anos e ele 20. Ele estava entrando para o negócio da minha família, tentando ganhar a confiança do meu pai, que sempre foi o patriarca. Por causa disso, nós nos víamos com frequência, eu sempre estava ao lado do meu pai, às vezes Anthony fazia a minha segurança ou ia ver uma de minhas apresentações”.
“Numa noite... – E Bia segurou as lágrimas, mas prosseguiu com firmeza – Numa noite eu estava estudando algumas novas partituras no Teatro Municipal, estava longe de casa e... Houve um ataque. A Família Irlandesa, nossa rival, nos atacou, atacou nossa casa! Conseguiram colocar uma bomba no escritório do meu pai...”.
“Meu pai e mais dois primos morreram naquela noite”.
“Nossa família revidou, mas quem agiu impulsivamente foi o meu tio... O irmão mais novo do meu pai, o pai de John Adam. O tio Marcus foi pessoalmente matar o patriarca da Família Irlandesa e mais dois primos, como eles fizeram conosco. Eles fizeram isso para nos abalar. Essa família sempre foi mais fraca que a nossa e o ato do tio Marcus os destruiu. Eles tiveram que sair de NY”.
“Infelizmente o tio Marcus foi preso e condenado pelo homicídio apenas do patriarca da outra família. Ele pegou 32 anos de prisão, e já cumpriu 16 anos”.
Bia se levantou e começou a andar pelo quarto.
“Meu irmão mais velho, Giovanni, assumiu a liderança da nossa família. Ele logo conheceu Cristine e se casaram. John Adam e Anthony se tornaram os braços do meu irmão. Assim que Anthony ganhou a confiança e respeito do meu irmão, e meu coração, ele pediu a minha mão”.
“Como você pode ver, Olivia, há muitos altos e baixos em nossa família. Os riscos e as consequências que temos que viver nesta vida já é nossa punição. Eu perdi alguém que amava e não desejo essa dor para ninguém”.
Bia voltou a se sentar e ficou em silêncio, talvez se lembrando do passado.
–Sinto muito por sua perda – Eu disse – Como a Cristine disse, todos somos pais e irmãos de alguém... E ninguém merece perder alguém que ama – Sussurrei diante da sua dor.
–Estes são os riscos que corremos Olivia – Diz Cristine – Eu amo meu marido, meus filhos e sou muito bem amada! Possuo pessoas maravilhosas ao meu lado! Mas posso perdê-los a qualquer momento, mesmo assim não os trocaria, não trocaria nada da minha vida – Sussurra – Pela minha família eu faço tudo! Pela primeira vez na vida eu encontrei algo que vale a pena lutar – Diz Cristine.
–Você não se importa com o que seu marido faz? – Sussurro.
–Não – Responde pensativa – Isso como se fosse um vácuo em minha vida. O perigo há! EU não me esqueço dele, mas minha atenção está no meu marido e nos meus filhos, nos homens da minha vida.
Fiquei em silêncio, ponderando sobre tudo que ela me disse.
–Você pode não achar nossa vida correta, mas tudo bem. Não precisamos ser aceitas, temos nossas mentes em paz. Já superamos qualquer insegurança sobre nossa decisão – Disse Cristine.
Alguém bateu na porta bem de leve e a abriu.
–Sra. Del Fiore? – Disse um senhor aparecendo na porta – O senhor Del Fiore está pedindo que desçam para o jantar.
–Obrigada, James – Diz Cristine – Nós já vamos descer.
–Vista sua roupa, Olivia – Diz Bia gentilmente – Vamos te esperar para descermos juntas.
Peguei as bolsas com roupas e corri para o banheiro. As roupas eram todas novas, ainda com etiquetas. Bia deve tê-las comprado. Ela trouxe tudo para mim, de calcinhas a sapatos. Havia roupas para dois dias. Tudo de marca.
Escolhi um vestido azul da Chanel. Meu cabelo estava seco a essa altura, eu o penteei e o deixei solto mesmo. No banheiro havia alguns produtos e eu usei alguns.

–Ah! Eu acertei! Azul é a sua cor! – Disse Bia batendo palmas – Está encantadora, Liv!
Nós descemos as três de braços dados. John ficou boquiaberto ao nos ver cochichando. Anthony foi falar comigo, com aquele mesmo jeito italiano de cumprimentar as pessoas.
–Obrigada por ter salvado o meu fratello – Sussurrou Anthony.
Passei o jantar ao lado de John Adam, observando os casais. Giovanni e Cristine, Anthony e Bia eram casais apaixonados, havia tanto carinho e respeito entre eles...
Quando o jantar terminou fomos para a sala de verão, havia um grande bar nela. Todos nós bebemos e antes de subirmos para nos deitar Cristine veio até mim.
–Espero que você se acertem... – Sussurrou gentil.
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