Notas iniciais
Não se esqueçam de comentar. Boa leitura! :)

Eu estava em um corredor, andando em direção a uma porta dupla de vidro, cuja uma delas estava dependurada e com o vidro estilhaçado por todo o chão onde eu pisava. As paredes em bege estavam cobertas de respingos de sangue, isso não se comparava ao estado do interior do edifício: lâmpadas fluorescentes brancas estavam penduradas fragilmente ao teto por cabos desencapados que ora ou outra se esbarravam e produziam clarões com um estampido. O vidro onde eu pisava gemia em protesto e meus pés deviam estar sangrando, mas a dor não era nada comparada a que eu sentia pela extensão do meu tronco. Minha cabeça girava enquanto eu tropeçava em direção a entrada do prédio arrastando minha mão direita pela parede. Havia um barulho alto abafado pelo incessante zunido em meu ouvido, que me deixava ainda mais desorientada.

Em meio a isso senti uma nova dor, perfurando minhas costas próxima ao meu ombro esquerdo. Isso fez com que todo o meu corpo voltasse a doer, como se a contração de meus músculos ao receber o impacto fosse o suficiente para quebrar o torpor de todas as outras.

Olhei para baixo, para onde mais doía. A camiseta vinho que cobria meu tórax e abdome estava coberta de buracos de bala, onde voltara a sair um pouco de sangue, embora eu soubesse que não havia nenhum projétil em meu corpo, exceto o das costas. Não me surpreendi que doesse tanto. Me virei lentamente, meus olhos analisando cada movimento. Logo identifiquei onde eu estava: era a entrada de uma espécie de hospital, um corredor de uns 10 metros coberto de toldo gasto; depois do corredor, no antigo estacionamento, começava uma pilha de entulhos, onde um único homem ferido, ao lado de vários mortos, empunhava uma arma.

POV. Homem

Eu a vi se virar lentamente e me encarar. Ela começou a andar na minha direção, muito lentamente, como se estivesse sentindo dor, embora seu rosto demonstrasse apenas confusão. Mesmo não parecendo ameaçadora naquele momento, peguei uma bala no bolso. Era uma diferente das outras, prateada por fora, mas contendo um líquido azul dentro. Me lembrei da conversa que tive com a Dra. Megan:

“–Olhe para isso, Phillip –Ela ergueu a bala frente à luz– Foi desenvolvida especialmente para os que são como ela. Uma dessas pode derrubar um elefante em minutos – sorriu orgulhosa, enquanto abria um compartimento lateral do projétil com um pinça, mostrando poucos gramas de um líquido azul vivo– É um tranquilizante.

–Quanto tempo ela vai ficar adormecida?

–Adormecida? Acho que você não me entendeu... Ela vai ficar apagada... por dias. Isso se não morrer. Por isso estou confiando isso apenas a você. Use apenas como último recurso.”

Carreguei a arma.

POV. Garota

O barulho ia aumentando cada vez que eu me aproximava a saída da parte coberta da entrada, mas era quase irreconhecível pelo zumbido que retinia em meus tímpanos. Minha outra mão agora arrastava na parede, como se eu estivesse tão grogue que fosse cair a qualquer instante. Confusa vi o homem apontar a arma para mim.

Novamente senti a dor excruciante de todos os furos feitos a bala em meu corpo, me fazendo ficar com raiva. A nova bala penetrara no lado direito do meu abdome, me deixando tonta, me fazendo me apoiar na parede. Ainda assim não parei de andar, levando a mão instintivamente ao local da bala, para retirá-la. Foi então que senti algo diferente: havia um tipo de tranquilizante. Pude senti-lo adentrando minha corrente sanguínea, e logo me deixei levar pelo efeito. Pra que quer que servisse aquilo não deve ter feito um bom trabalho, em vez de me fazer perder os sentidos apenas fez passar a dor que me deixava tão lerda.

Me desapoiei da parede ainda andando mais rápido e com o corpo mais reto, sem dor. Sorri. Agora eu me lembrava o que fazer.

POV. Homem

Observei a garota se apoiar na parede e esperei alguns segundos para o tranquilizante fazer efeito. Logo ela começou a andar mais rápido, e eu fiquei sem entender, era impossível ela continuar de pé. Tremendo eu peguei as outras duas balas, tentando carregar a arma, agora que ela estava a menos de dez metros de distância. Minhas mãos suavam e o cheiro de sangue estava em toda a parte. A bala tranquilizante não a fez parar, pelo contrario, a dor pareceu motivá-la e vi a raiva consumir seu rosto, a pouco tempo tão calmo e um tanto infantil. Ouvi o estalido do carregar da arma então mirei em seu peito e atirei. A bala atingiu logo acima de seu coração.

POV. Garota

Senti mais um disparo em minha pele, outra bala tranquilizante, apaziguando ainda mais a dor, mas infelizmente ainda não abafava o zunido em minha cabeça. Dei mais quatro passos, estando em frente ao atirador, que deitado no chão se preparava para dar outro tiro. A bala perfurou meu coração e senti mais uma vez o veneno, desta vez fazendo o efeito esperado; Sem poder sentir meu corpo desabei, me virando para cair de costas, em seu lado, não sem antes fazer sua arma voar alguns metros, derrapando ao pé do barranco.

Vi com o canto dos olhos ele se afastar de mim com medo e tatear em busca de uma nova arma no corpo dos companheiros mortos Tentei me livrar do torpor, sem sucesso. Com muito esforço podia mover as pontas dos dedos, nada mais. O zumbido em meu ouvido não passava, mas, agora deitada olhando o céu, pude identificar o outro barulho, o mais alto: eram helicópteros. Dezenas deles, contendo centenas de homens armados, talvez mais. Sobrevoavam o que devia ser um pátio cercado do hospital, agora em ruínas. Nenhum homem ousava mover uma arma apontada contra mim, talvez com medo de seu helicóptero ser um dos próximos a estar estilhaçado no chão. Nisso o meu atirador arranjou uma arma, grande de aspecto grotesco e pesado, de um alto calibre, provavelmente uma das armas mais violentas que se pode imaginar. Ele colocava as pressas uma bala do tamanho da minha mão, com quase dois centímetros de diâmetro. Mesmo que não me matasse não é algo que não cause um grande estrago. Ele se posicionou, sem se importar que seu corpo se apoiasse sobre a perna ferida, mirando em meu rosto. Reunindo minhas forças rolei para o lado, no exato momento em que ele puxou o gatilho, a bala passou a poucos centímetros de minha orelha esquerda.

O som alto me deixou desnorteada e parcialmente surda por alguns segundos, e a situação de desespero, combinada ao barulho dos helicópteros me fez lembrar de algo. Algo ocorrido há muito tempo.

“A sala era branca, como tudo ali, as nossas roupas, a roupa dos guardas, as luzes, os leitos... tudo branco, tudo limpo, tudo sem graça. Estávamos numa roda, como sempre que nos reunimos, o que quase nunca acontecia.

–Tem mais alguém entrando pro nosso grupo– Uma menina alta, com os cabelos louros, cheio de mechas coloridas, falou o que todos tinham medo de pronunciar.

–É uma garota– constatei, me concentrado no barulho dos helicópteros.

–Quanto tempo?– Perguntou um garoto.

–Quatro semanas– antes que eu pudesse responder o mais velho de nós falou.

Um silvo baixo correu pelo grupo. Isso não era bom.

–Quando vamos conhece-la?– Perguntou uma menina.

Abri a boca pra responder, mas a garota de cabelos coloridos foi mais rápida:

–Três meses.

Sorri.

–Parece que antes disso –Eles me fitaram, finalmente– ela está chegando.

A porta de correr branca automática se abriu segundos depois e por ela passaram dois guardas segurando uma garota grogue. Atrás deles vinham mais três guardas armados e uma enfermeira/cientista. Nós observamos em silencio enquanto eles passavam por nós, passando por outra porta, uma das que ia dar num quarto.

–Estranho... – falou a garota de cabelo colorido.

Todos que tinham destreza pra detectar fecharam os olhos, até que o garoto do meu lado falou:

–Um daqueles estourou um cano, percebem?– me concentrei.

–Sim – disse outra menina– Sala 302.

Vacilei. Justo quando eu quase podia perceber ela disse aquele número e perdi a concentração. Todos olharam pra mim.

–Não é a cela dele? –perguntou uma menina, e todos passaram a cochichar baixinho, ainda me olhando.

–Parece que você está piorando cada vez mais –falou a cabelo de arco-íris.

–Mais ainda sou melhor que você –eu disse, maldosa, vendo ela estreitar os olhos.”

Nisso a lembrança tremeu e se modificou, antes que eu pudesse saber, ou ver rosto dele – quem quer que ele fosse – em minhas lembranças. Nessa nova memoria eu estava naquela mesma sala, mas em outro momento.

“O mais velho, e mais sábio de nós, já era um homem idoso, com a aparência de uns sessenta anos, embora eu soubesse que ele tinha muito mais que isso.

–Assim vocês podem desconectar corpo e mente, acelerando seu processo de cura, ou impedindo a dor, embora deixando-os indefesos. Lembrem que só funciona para alguns, nem sempre na classificação de níveis, mas quase sempre na de habilidades –ele estava no centro do círculo, como sempre mostrando algo importante pra gente– Usem apenas em ocasiões extremas, quando estiverem recebendo o tratamento.

Embora útil, era uma coisa muito perigosa, soltar o lado de comando do cérebro poderia te matar em segundos, mesmo que seu controle das emoções estivesse num estágio avançado, o que eu sabia que não era, nem de longe, o meu caso. Sentindo meu receio o garoto ao meu lado pôs sua mão sobre a minha. Olhei para as nossas mãos juntas e sorri, muito suavemente, erguendo a cabeça para olhar o rosto que sempre me reconfortaria.”

“Soltei um grito agudo, sentido os espasmos percorrerem todo meu corpo. O tratamento que já era por si só horrível, sempre fora pior pra mim do que para todos os outros, e eu me odiava por ser tão resistente. Se eu fosse fraca e desmaiasse como os outros logo no início, isso não estaria acontecendo comigo, eles não iriam prolongar o horário das minhas cessões, nem tentar testar minha flexibilidade de resistência, mas, embora a cada vez eles aumentassem a intensidade, eu nunca desmaiava ou mesmo chegava a perder parte dos sentidos, e eu me odiava por isso. Com todas as minhas forças.

Gritei novamente, desta vez trincando os dentes. Minhas costas arqueavam contra a minha vontade e eu sentia vontade de vomitar. Finas lágrimas cristalinas escorriam pela lateral de meu rosto, que se contorcia numa careta de dor. Deram uma pausa total para que eu pudesse respirar, o que estava se tornado impossível. Retomaram o tratamento. Gemi, ainda não estava pronta. Senti todo o ar que eu acabara de retomar sair de meus lábios num grito. A dor era excruciante, e, apesar de não poder contar o tempo eu sabia que ainda não havia chego nem na metade. Me contorci sentindo as grossas agulhas prateadas se mexerem em minhas veias. Eram oito; duas em meus tornozelos, duas logo acima de meus joelhos, em meus pulsos e na dobra de meus cotovelos. As do joelho eram novas, normalmente pra mim eram apenas as outras seis, mas acharam que eu já estava pronta pra uma maior intensidade, como se já não fosse ruim antes. Minhas mãos se fecharam ainda mais e as veias, já saltadas, estavam numa coloração arroxeada. Mais uma bolsa de remédio foi posta em cima da mesa, e a enfermeira se preparava para troca-la. Reparei algo diferente nela: o líquido, em vez de um amarelado claro era amarelo forte. Eu arquejei. Eles estavam se superando. Pararam os eletrochoques, para que pudessem trocar o remédio. Ela desconectou a antiga bolsa, quase vazia, e começou a colocar a outra. Quando senti a última gota da antiga bolsa eu tombei sobre a mesa fria de metal, tentando respirar fundo, mas não conseguindo, já que após ficar tanto tempo me apoiando na mesa apenas com minha cabeça e pés eu havia perdido a capacidade de levantar as costelas e encher o pulmão de ar. Tive mais uma ânsia de vomito quando ela abriu o cateter, permitindo que o remédio chegasse as minhas veias. Engoli em seco quando senti a acidez corrosiva do remédio. Minhas mãos se crisparam em torno de si mesmas e minhas costas voltaram a arquear e desta vez não tentei impedi-las. Um grito áspero era arrancado do fundo de minha garganta. Gotas frias de suor rolavam se misturando as minhas lágrimas e indo na direção dos meus cabelos. Senti o gosto metálico e quente do sangue vir do fundo de minha garganta e me engasguei com ele. Meus olhos rolavam nas órbitas, e quando o remédio atingiu minha cabeça eu não pode mais ver. Ouvi meus ossos se estalarem e logo perdi mais este sentido. Mas, por incrível que pareça ainda podia sentir, e voltei a me odiar por isso. Aos poucos também deixei de sentir o gosto de sangue, ou sentir o cheiro forte de formol, e outros produtos químicos do laboratório. Não podia me concentrar em nada para apartar a dor. Mas ainda podia pensar. Me lembrei do que poderia me fazer deixar de sentir dor, e se não fosse tão necessário eu nem cogitaria, por medo. Mas naquele ponto a dor superou qualquer medo que eu pudesse pensar em sentir. Me apegando a única imagem que me ajudaria a ter forças naquele momento, forcei minhas costas tocarem a mesa fria e respirei fundo, pensando nele.”

Afastei todo e qualquer resquício de sentimento da memoria, lembrando apenas da parte objetiva, separar mente e corpo para abanar a dor, ou, no meu caso, acelerar o processo de cura. Limpei minha mente e respirei fundo lentamente, separei então os braços do corpo, olhando para minha mão esquerda, depois para a direita, como se estivesse me lembrando de cada parte de meu corpo separadamente e igualmente. Me preparei, olhando para cima arqueei as costas para selar o ritual de ruptura. A última coisa que vi antes de apagar foi o rosto do atirador. Então me lembrei do rosto do garoto em minhas memórias. Eram a mesma pessoa.

Notas finais
Então, o que acharam? Comentem, nem se for pra dizer que está ruim e que eu nunca mais deva escrever na minha vida, ok? Mas me digam o que vocês acham, perguntas e tudo o mais.
Beijos.