Após o Despertar
5 Capítulo 5: Ignorância é uma bênção
Notas iniciais
Salas de aulas transformadas em quartos compartilhados; diretoria e sala dos professores convertido em áreas de “somente pessoal autorizado”, ou nesse caso “somente pessoas que usam farda”; policiais transmitindo a todos os residentes as regras de moradia nesse abrigo que foram passadas por seus superiores, que receberam de superiores, que provavelmente receberam de superiores. É assim que se parece um refúgio improvisado depois que uma criatura colossal sai do oceano anunciando o fim dos tempos. Com certeza estar ali não era parte dos planos de Mariana para essa semana que envolviam terminar suas maratonas de animes atrasados e jogar jogos online com seus amigos. A jovem ao menos se sentia segura ali dentro, ver os policiais rondando do lado de fora da escola passava um ar de tranquilidade ao saber que pessoas capacitadas faziam segurança, e não haveriam batidas frenéticas contra o portão deixando manchas de sangue.
Já era o quarto dia que a jovem estava ali contando o dia em que chegara, e o número de pessoas se multiplicou exponencialmente. Muitos chegaram durante a tarde e anoitecer do dia anterior bastante agitados e aflitos, uma reação natural considerando o que eles testemunharam durante a manhã daquele dia. Mais uma transmissão governamental era exibida ao vivo em todos os canais, o presidente dizia que apesar de a primeira tentativa de parar aquele “animal gigante” ter falhado, logo outro ataque seria lançado. Um detalhe comentado por aqueles que assistiram é que o fundo atrás do presidente era diferente, só possuía uma parede branca e uma bandeira do Brasil, e a maioria concordava que ele provavelmente já estava gravando de um local diferente em que provavelmente tentariam resguardar por ele, o que ninguém esperava, era que um dos seguranças presidenciais fosse se revelar ser um dos tais “terroristas” e bem em frente às câmeras ele correria para cima do presidente e atiraria nele a queima roupa diversas vezes enquanto gritava palavras em um idioma que ninguém assistindo foi capaz de reconhecer. Depois disso, todos que vieram desejavam alguma sensação de segurança, por menor que fosse, mas era bem obvio que a sensação de desconfiança para com todos ali naquele colégio era algo que, inegavelmente, quase todos sentiam ao olhar uns para os outros.
Mariana pensava em quem seriam todos os terroristas e o que eles desejavam, já se falava nos fóruns da internet e se faziam memes de pessoas ao redor do mundo que estavam caminhando pelas ruas profetizando que o fim chegaria em breve, pois, as estrelas estavam na posição correta, outros estavam destruindo vários locais em todas as cidades. E voltando a lembrar do que seu amigo havia dito na mensagem de texto, Mariana teorizava o que realmente seriam essas pessoas.
— Com licença.
— Ah, olá. — Ao virar-se, Mariana reconheceu Ellen que esboçava um sorriso amistoso para esconder uma feição de preocupação.
— Oi Mariana, você chegou a ver o Tiago por aí? O Zeca tava agitado e ele resolveu dar uma volta no quarteirão com ele, mas já passou um tempinho sabe?
— Não vi ele não dona Ellen, mas posso dar uma volta na escola pra tentar achar ele também.
— Cê faria isso por mim? Muito obrigada.
— Claro, vou dar uma andada e se achar digo que a senhora tá procurando ele.
Mariana se levantou da cadeira onde estava sentada olhando para o nada e começou a andar pela escola, ela aproveitou que isso poderia distrair um pouco sua mente, ter um objetivo para focar e não só ficar pensando em teorias da conspiração como sua colega Lorena. Aquela escola pública era grande, possuía dois andares com salas de aula, um grande pátio central e uma quadra para esportes com portões grandes no lado oposto ao dos portões de entrada de alunos, as viaturas policiais e outros veículos de pessoas que vieram de carro foram deixados todos na quadra que já estava sem espaço vago. Embora a quantidade de pessoas ali ainda não se comparasse a quantidade de crianças que estariam ali em uma situação normal no mundo, ainda haviam bastantes ocupantes que também tentavam se distrair de alguma forma além de ficar no celular.
Depois de caminhar por toda a escola sem sucesso para encontrar o adolescente, Mariana decidiu sair para procurar na rua, os policiais que estavam ao portão de entrada de alunos só perguntaram o porquê de ela querer sair e recomendaram que ela não demorasse a voltar, mas em momento algum demonstraram qualquer sinal resistência contra a atitude dela de deixar o local.
— Tudo bem, não pretendo demorar, só vou andar por aqui mesmo e depois eu volto, talvez ele já tenha até chegado se ele passar por alguma outra rua pra voltar pra cá e eu tenha andado atoa. — A jovem deu uma risada curta, mas estava nervosa com o fato de ter que sair, e aparentemente isso foi notado por uma policial que estava bebendo água em um bebedouro próximo ao portão e observava a interação entre seus amigos de profissão e garota.
— Eu te acompanho. — Disse a policial enquanto secava o canto dos lábios com o dedo indicador.
— Certeza Serrano? — Perguntou um dos policiais no portão em um leve tom de pergunta retorica.
— Certeza, meu próximo momento de guarda é só amanhã cedo agora não é? Dá tempo de dar uma volta e ainda descansar bastante depois.
A policial caminhou na direção do portão onde a jovem estava parada observando a cena, pensou em dizer que não era necessário ter essa companhia, mas ela não realmente não queria negar esse ato. Ambas sorriram uma para outra como se concordassem com isso mentalmente e Mari começou a caminhar em direção à rua ouvindo os passos da oficial vindo atrás dela, mas além disso ela ouviu a voz do segundo policial no portão falando baixo para sua colega.
— Você sabe que nossas ordens são de ficar na escola o tempo todo e azar de quem quiser sair.
— Eu sei disso Pereira, mas a situação por aqui tá tranquila, eu vou com ela e daqui a pouco estaremos de volta.
Mariana fingiu não ter ouvido a interação e depois de alguns segundos parou e olhou para trás, a policial parecia estar verificando sua pistola no coldre, em seu uniforme era possível ler “St. Adriana”, seu cabelo preto era curto e mal chegava aos ombros e a adolescente comparava o tom da pele dela com o de sua mãe, mas acreditava que a pele de sua mãe era mais escura, ainda assim, por um momento ela ficou fascinada com a presença e a posição daquela mulher de cor.
— Então esse seu amigo saiu para dar uma volta com o cachorro já tem um bom tempo e ainda não voltou, é isso certo?
— Sim senhora, eu não sei exatamente quando foi isso, mas de quando a mãe dele veio falar comigo parece que já tinha um certo tempo.
— Entendi, fique atenta caso escute latidos, vamos tentar encontrá-lo rapidamente. Qual é o seu nome mocinha?
— Me chamo Mariana, senhora.
— Entendido Mariana, sou Adriana Serrano, você mora por aqui?
— Sim, seguindo aqui a direita alguns quarteirões pra baixo.
Mariana guiou o caminho até a residência enquanto a policial fazia algumas perguntas que não pareciam ser relevantes, porém estar engajada na conversa fez com que Mariana não ficasse tão tensa enquanto caminhava pelas ruas. Chegando em seu destino, as duas notaram que o portão estava fechado, mas seguindo seus padrões de trabalho a oficial bateu ao portão e chamou pelo nome de Tiago, ambas ouviram um leve latido que parecia ter sido abafado vindo lá de dentro da casa.
— Tiago, você tá aí? É a Mari, eu ouvi o Zeca aí.
Em questão de segundos elas ouviram passos de uma pessoa acompanhado pelos passos ligeiros de um cão, Tiago abriu o portão e parecia estar aliviado ao vê-las ali, ele tinha em mãos um grande pacote de comida canina, mas o que chamou a atenção de ambas foi como ele olhou para os dois lados da rua, como se estivesse se certificando de algo, e só então ele e o animal saíram da propriedade.
— Oi, que vocês tão fazendo aqui? Vocês viram alguém andando por aqui? — Ele falou enquanto batia o portão atrás dele e trancava com sua chave.
— Sua mãe tá atras de você e eu tava ajudando ela a te procurar.
— Não vimos mais ninguém na rua rapaz, você viu?
— Vi, Eu tava andando com o Zeca pra ver se ele ficava mais sossegado, dai depois eu pensei em vir aqui em casa pegar mais comida pra ele, as vezes ele tava sentindo falta. Eu já ia voltar, quando cheguei no portão eu vi alguém meio estranho, com umas tatuagens nos braços e na cabeça, ele me viu e começou a me encarar de um jeito estranho, sei lá, dai eu voltei e fechei o portão e resolvi ficar de bobeira um tempo aqui antes de voltar.
— Pode me contar mais sobre essa pessoa?
No caminho de volta até a escola Tiago descreveu mais sobre esse homem estranho que avistou, Adriana parecia intrigada sobre essa figura peculiar. No meio do caminho, Ellen e Alberto foram avistados andando na esquina oposta da rua em que eles passam, os latidos alegres de Zeca para seus donos atraiu a atenção deles, eles vieram a passos acelerados na direção do filho se certificando de que ele estava bem assim como o cão que abanava a calda.
Depois de chegarem novamente naquele abrigo escolar os pais do rapaz agradeceram tanto a vizinha de bairro quanto policial por terem o encontrado, a aflição era grande depois de ouvir das pessoas que chegaram nos últimos dias as coisas estranhas e bizarras que elas haviam lido nos jornais online ou visto na televisão. Os pais passaram o resto da tarde ao lado do filho agora com o coração mais aliviado.
Não demorou muito para a noite cair, as pessoas abrigadas no local possuíam um horário para jantar, assim como almoçar, e todos faziam isso na cantina ou em uma parte do pátio. A sensação de liberdade e de seguir determinações eram conflitantes e se alternavam durante o dia a dia, mas nada que levasse qualquer um a reclamar com os oficiais, porem uma das primeiras regras impostas e que todos já conheciam ao chegar era que nenhum civil deveria deixar o local das 22 horas até as 6 horas da manhã sem um bom motivo, nem mesmo os oficiais da lei tinham muita certeza do motivo, mas todos ouviram de seus superiores para redobrarem a atenção durante as noites.
Antes da meia noite Mariana já estava dormindo em um dos muitos colchões infláveis dentro de uma sala de aula, a cada dia que passava os espaços eram divididos por mais pessoas e era bem claro que em breve poderia não haver o espaço adequado para acomodar a todos, porém essa questão se resolveria eventualmente pensava a jovem antes de cair no sono. Porém, como mais uma prova de que a garota se surpreenderia com eventos inesperados que dariam um novo rumo a sua rotina planejada, e assim, o som de disparos de armas de fogo pôde ser ouvido vindo do lado de fora da escola.
Todos ali na sala acordaram com susto e medo, já era possível escutar o som dos passos e alvoroço nas salas ao lado também, as pessoas estavam com sono, confusas e apreensivas, e quando o som de um berro de dor repercutiu vindo do exterior, o pavor também foi gerado. Mariana mais uma vez se encontrava em um momento em que seu coração estava acelerado e sua respiração desregular, se perguntando o que estaria acontecendo.
O som de mais disparos ecoava por toda a escola, agora também de armas de maior calibre, entretanto, o som de outras vozes gritando em sofrimento e agonia também começava a ser ouvido. As pessoas saíram das salas de aula, algumas corriam sem rumo, outras corriam para o pátio vociferando suas dúvidas sobre o que estaria acontecendo, e como se em uma resposta automática a curiosidade dos cidadãos, vozes de alguns oficiais gritavam para as pessoas voltarem as salas de aula e se fecharem, muitos obedeceram, Mariana não, ela começou a retornar a sua sala, mas parou sua caminhada ali no meio da escada que entre o segundo andar e o pátio, dessa vez ela não queria ficar enclausurada torcendo para que o pior não acontecesse.
Alguns dos civis foram tentar ajudar no que quer que estivesse acontecendo, a garota observou que o portão de entrada da escola estava aberto, mas era difícil saber o que estava acontecendo lá fora, foi quando ela avistou um homem fardado se arrastando pela calçada tentando entrar na escola, claramente estava ferido e com dificuldades de se mover, alguém correu para ajudar o policial, a garota reconheceu que se tratava do senhor Alberto, o pai de família estava prestes a segurar os braços do homem para trazê-lo para dentro quando de súbito ele foi puxado de volta pra fora com força. Alberto caiu de bunda no chão observando algo no exterior algo que nunca imaginaria ver nem seus pesadelos, ele ficou paralisado por alguns segundos e depois saiu correndo, esbarrou na jovem sem nem se dar conta disso e começou a bater na porta de uma das salas gritando o nome de sua esposa e seu filho.
Mari tentava decidir o que fazer, os sons dos tiros tão próximo de onde ela estava não eram como nos filmes, cada estampido tão alto dificultava tentar formular qualquer linha de raciocínio. Olhando para sua esquerda a garota viu outra família, um policial agitado e soando entregando uma chave para uma mulher que carregava uma criança com cerca de 3 anos no braço e a outra de 7 pela mão, o policial beijou a testa das crianças e a mulher nos lábios antes de pegar o fuzil que estava ao seu lado no chão e correr para o portão, já a mulher correu na direção da quadra, a adolescente enfim reparou que outras pessoas se moviam na mesma direção oposta ao portão de entrada.
A garota correu de volta para a sala no segundo andar onde dormia anteriormente e bateu na porta dizendo querer pegar a mochila, ela ouviu o som de uma mesa sendo arrastada e ela viu senhora de meia idade abrindo a porta enquanto ou senhor ainda puxava um pouco a mesa. Sem perder tempo a jovem pegou sua mochila enquanto dizia a todos que talvez fosse melhor correrem para a quadra, a maioria não deu ouvidos a ela, outros ficaram na dúvida, ela não tinha tempo para argumentar, mas disse quase que gritando que a situação não parecia nada boa e saiu da sala correndo. Ao descer as escadas novamente, ela estava quase no centro do pátio quando ouviu a voz de um adolescente gritando “ZECA, NÃO NÃO NÃO!”, ela se virou e confirmou o que suspeitava.
A voz esganiçada de Tiago passando pela puberdade era acompanhada pelo som das patinhas do vira-lata descendo as escadas, Mari viu o cão correndo e latindo na direção do portão de entrada e sua coleira se arrastando no chão do seu lado, não era a primeira vez que ela viu o cão disparar a correr fazendo seus donos perderem a sua coleira de suas mãos. O fato curioso é que enquanto pensava tudo isso Mariana corria atrás do cachorro na maior velocidade que podia, ela nem mesmo se deu conta de que estava fazendo isso, agiu com tamanho impulso para parar o animal que nem pensou no que isso poderia implicar, contudo a garota foi capaz de em um movimento ágil se abaixar e agarrar a coleira do animal e puxar para trás como um pescador, não queria machucar o animal, porém ele já estava chegando no passeio do lado de fora, e Mariana, já estava parada no portão quando o alcançou.
A luz da maioria dos postes estava apagada, até a noite anterior não havia esse problema, dois postes ainda acessos falhavam o que fazia a luz piscar de maneira oscilante, além disso, os flashes de cada disparo de arma de fogo também oferecia algumas imagens horrendas a serem captadas por quem pudesse ver, embora o que fosse visto não fosse nada agradável, muito pelo contrário, se a mente de Mariana tivesse mais tempo para processar aquilo tudo seu estomago estaria se embrulhando com o que foi comido durante o jantar.
No asfalto, o sangue escorrendo mal podia ser visto na escuridão da noite, mas era fácil distinguir os corpos caídos com pedaços faltando e expressões de pânico congeladas no momento em que suas almas desencarnaram. Três policiais ainda estavam de pé, somente um parecia ferido, na perna, e todos recuavam lentamente enquanto atiravam contra algo que se movia lentamente.
O entendimento humano embora alimentado pela fantasia e pela ficção-cientifica, é capaz de processar coisas que não são naturais até certo ponto, contudo é inegável que se é preciso tempo para aceitar que seja real uma massa sem forma definida em processo de modificação constante. Os grunhidos somados a mastigação e também ao ranger de inúmeros dentes que comiam, sorriam ou emitiam sons trazia um desconforto auditivo a todos que escutavam, aquilo parecia ter tantas bocas quanto olhos em sua composição disforme e mutante, cada globo ocular mirado em uma direção, os cadáveres, a rua, o céu, o chão, a escola, a rua, cada direção era observada simultaneamente, inclusive, assim como Mari, aquela coisa também podia enxergar no fim da rua, na esquina do outro quarteirão, três figuras que observavam de maneira passiva a distância.
Quando a luz do poste piscava acima daquelas pessoas na esquina podia se ver que elas estavam com os cotovelos na altura da cabeça e as mãos erguidas para cima, todos pareciam mover os lábios rapidamente e em conjunto, e a figura no centro delas ostentava tatuagens nos braços e na cabeça até o centro da testa, seus olhos carregavam um brilho e uma glória que tornavam o momento ainda mais aterrorizante.
A garota continuou puxando Zeca pela coleira para trazer o animal de volta para dentro, quando conseguiu, a jovem abraçou o animal e o tirou do chão. Ainda assim, seu olhar estava focado naquela coisa que se arrastava amórficamente pelo chão, ela teve a impressão então que logo atrás havia uma segunda criatura semelhante com parte dos olhos e com as bocas sem movimentos contínuos, ou talvez fosse parte de uma única criatura, ou a segunda estivessem no processo de digestão dado o estado dos policiais abatidos, eram tantas coisas passando pela mente da garota ao mesmo tempo que só faziam seu medo aumentar se aquilo entrasse no colégio
Assim como os monstros dos filmes que ela se acostumou a assistir, a coisa continuava avançando apesar dos tiros que estava recebendo, até que parte de seu corpo se envolveu na perna do policial ferido que mancava. A espinha de Mari gelou quando ela ouviu aquele som de uma mordida bestial unido ao som de carne e osso se rompendo, seguido do grito do policial que caiu no mesmo instante. Os outros dois policias atiraram mais insistentemente, mas parte do corpo daquela coisa simplesmente continuou deslizando por cima do homem até que outras bocas alcançaram seu braço e depois seu pescoço, e os gritos agonizantes pararam por fim, nos últimos instantes a adolescente distinguiu que ele se tratava do policial que beijou sua esposa e filhos momentos atrás, no momento de incerteza, ele conseguiu se despedir.
Os únicos dois policiais ainda vivos em meio a esse ataque de um ceifador faminto feito de massa gosmenta se viraram e correram até o portão, Mari recuou três passos rapidamente para liberar a passagem e eles bateram o portão com toda força. Nesse instante o policial mais velho e um com uma certa barriga começou a gritar para todos do abrigo correrem para a quadra, somente agora a jovem distinguiu que a outra pessoa de uniforme era Adriana, a mulher viu a expressão de assustada da jovem e gritou sem nem se dar conta.
— VOCÊ OUVIU ELE, VAI GAROTA, PEGA ESSE CACHORRO, SEUS VIZINHOS E VAI!
O tom da policial era mais assustado do que irritado, ela também estava tentando processar tudo que havia visto ali fora. Mariana concordou com a cabeça e foi até o pátio onde colocou o vira-lata no chão novamente e entregou a coleira dele nas mãos de Tiago que estava ao lado de seus pais, ela não disse nada, não saiam palavras de sua boca naquele momento, ela só entregou a coleira e começou a caminhar a passos apressados junto deles, seus olhos haviam testemunhado os segundos mais perturbadores que ela já havia presenciado. Em certo momento ela olhou para trás para saber como os policiais estavam, Adriana parecia vir da diretoria, ela entregava um pente de fuzil ao colega e também carregava na outra mão uma escopeta, ambos olharam para o portão de entrada quando ele começou ecoar o som de pancadas violentas sendo realizadas contra ele.
Os oficiais escoltaram alguns idosos e outras pessoas que por algum motivo estavam caminhando mais devagar até a quadra, os portões já haviam sido abertos por alguém e apesar do número limitado de viaturas e outros carros de pessoas que deixaram seus veículos ali com a permissão dos oficiais, se todos os carros fossem ocupados com cinco ou seis pessoas, todos poderiam sair daquele local, Adriana e seu colega tentaram coordenar as pessoas aos gritos, a maioria nem tinha noção do perigo que está do lado oposto ao que eles estavam. Aqueles que tivessem seus veículos deveriam tentar acomodar o máximo de pessoas possíveis nele e se dirigir para uma escola particular que ficava em um bairro vizinho, algumas poucas pessoas capazes de dirigir receberam as chaves das viaturas remanescentes e deveriam fazer o mesmo.
Alberto se aproximou de Adriana e praticamente implorou para pegar uma das chaves de viatura para tirar sua família dali, mas ele parecia um transtornado demais, e de fato ele estava, a oficial perguntou a Ellen se ela sabia dirigir e a mulher respondeu positivamente, ela então ficou incumbida ser a motorista e levar sua família, Mariana e também um senhor idoso no veículo, além é claro, do cachorro que ficaria no colo de Tiago. A policial disse para eles seguirem direto para o outro colégio sem parar em qualquer outro lugar, e disse que eles se encontrariam lá novamente. À medida que os carros deixavam a quadra da escola e se dirigiam como uma carreata para outro lugar, que esperam ser seguro, Mariana olhou pelo vidro de trás do automóvel e viu os policiais auxiliando o resto das pessoas que não paravam de perguntar sobre o que estava acontecendo, seu olhar então se voltou ao senhor Alberto sentado a outra janela da parte traseira, o olhar dos dois carregava o espanto de ao mesmo tempo saber, mas de uma maneira bizarra, não compreender o que haviam visto. Foi nesse exato instante que a jovem teve certeza de que sua vida não voltaria mais a ser a mesma. Este não seria o fim de uma história, e sim o prologo de uma nova e mais perturbada vida em que a escuridão da noite abrigaria os mais terríveis dos pesadelos na Terra.
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