Após O Final
1 Curta-metragem.
Notas iniciais
V.O. - Voz Over. É a voz estilo "narrador", que não aparece na tela (e a voz também não está saindo de ninguém da tela. É uma voz que só existe para quem está assistindo). No caso, a mente da Ashley.
EXT. BOSQUE — NOITE
Tudo encontra-se completamente preto. Ouve-se vozes misturando-se e gritando sobre matar. Há barulho de pancadas.
ASHLEY (V.O.)
Não sei ao certo como isto foi acontecer...
Um flash de câmera fotográfica mostra rapidamente, de baixo, em subjetivo, um grupo com cerca de QUATRO GAROTOS, com cerca de 15 à 18 anos. Um ri e assiste, outro chuta, o terceiro mantém-se em possa da câmera fotográfica e o quarto possuí um taco de madeira em mãos.
Tudo escurece novamente, porém o barulho continua.
ASHLEY (V.O.)
Eu sei que bebi demais... Tipo, demais mesmo... Mancada da minha parte.
Outro flash mostra a mesma cena com as mesmas ações. O garoto em posse do taco rebate na direção, porém braços femininos se metem no caminho, aparecendo rapidamente antes de tudo escurecer novamente. O barulho continua.
ASHLEY (V.O.)
Não foi tão ruim, na verdade. As lembranças não passam de clarões...
Um terceiro flash repassa a mesma cena, com os quatro garotos vistos de baixo atacando. Eles riem, divertindo-se e tudo escurece.
GAROTO (O.S.)
(gritando)
Morre vadia!
Os ruídos cessam, restando tudo absolutamente preto.
ASHLEY (V.O.)
Mas eu acho que preferia me lembrar ao invés de apenas ter sido jogada no liquidificador desse jeito...
EXT. PARQUE — DIA
Ponto de vista subjetivo. O lugar é uma praça com bastante verde, poucas árvores e alguns bancos de metal. Ela se encontra completamente vazia.
ASHLEY (V.O.)
Minha cabeça dói como o inferno... Eu odeio ressacas.
O ponto de vista sobe, focando melhor a praça. Um pouco para a esquerda continua desértico. Um pouco para a direita há uma única pessoa, AMANDA, uma jovem morena de 30 anos, caminhando de forma estranha, meio cambaleante.
Ruídos e murmúrios sem significado e sem formar sílabas sólidas saem, soando bem próximos.
ASHLEY (V.O.)
Merda... Sou retardada agora?! Não consigo pedir ajudar!
Os ruídos continuam. Amanda, mancando, passa reto, sem olhar para os lados.
ASHLEY (V.O.)
Mas que porra... Devem ter me drogado ontem na festa!
O ponto de vista abaixa. Há um corpo feminino, do pescoço para baixo, de porte médio com um vestido preto justo no tronco e saia godê. Este se encontra com algumas manchas escuras, difíceis de ver por causa da cor do tecido.
ASHLEY (V.O.)
Merda... Meu vestido novo!
Braços e mãos pálidas esticam-se para encostar no tecido. Falta o dedo anelar da mão esquerda e os outros nove tremem exageradamente. Os braços e mãos encontram-se com grandes manchas secas de sangue e sujeira grudada.
ASHLEY (V.O.)
(exaltando-se)
Puta que pariu! Puta que pariu! Caralho, eu to fodida! Caralho, cadê meu dedo?! Eu perdi meu dedo! Saí pra uma festa com as vacas das minhas amigas e perdi a porra de um dedo! Cadê meu dedo?!
Observa-se de um lado para o outro do gramado verde, próximo dos pés de all-star preto de cano médio. Há muito sangue, fios de cabelo compridos e negros, alguns pedaços pequenos de algo que parece ser carne. Não há dedo decepado.
ASHLEY (V.O.)
(choramingando)
Meu dedinho... Meu precioso dedinho... Preciso ligar pra minha mãe...!
Novamente observa-se de um lado para o outro do gramado, após observa-se ao redor do corpo de vestido preto.
ASHLEY (V.O.)
Puta merda, roubaram meu dedinho e minha bolsa! Meu Iphone novo! Por que não ficaram só com o meu dedinho...? Ganhei o Iphone mês passado...! Ok, respire, Ashley. Vamos procurar ajuda... E depois comer o fígado daquelas vadias que se dizem "amigas" e deixaram eu me foder sozinha!
Muda-se do gramado para a praça. O caminho segue da praça para a rua igualmente vazia a esquerda.
EXT. BAIRRO DE ASHLEY — DIA
Entra na rua. É um bairro de classe média, com casas bem cuidadas e sem prédios grandes nas proximidades.
ASHLEY (V.O.)
Porra, tá difícil até pra caminhar...
Uma pessoa mancando dobra, entrando na rua. DONA MARIA, senhora de 60 anos, cabelos tingidos de loiro com raíz branca, maxilar caído e andar mancante, arrastando o peso de seu corpo em uma só perna.
ASHLEY (V.O.)
Dona Maria!
Os mesmos ruídos e sílabas mal-formadas são ouvidas.
ASHLEY (V.O.)
Puta que pariu, eu continuo retardada!
Dona Maria passa reto pelo lado. Segue-se os passos de Dona Maria, mancando, de olhar perdido e maxilar caído.
ASHLEY (V.O.)
Caralho, ela tá ainda mais assustadora... Será que tá bem...?
Ouve-se um barulho de passos correndo. A atenção sai de Dona Maria para CHRIS, um garoto com 12 anos que para na esquina, olhando apavorado.
ASHLEY (V.O.)
Hey garoto! Garoto!
Mais uma vez apresentam-se aqueles mesmos ruídos de sílabas mal-formadas.
Chris mantem-se parado, com respiração ofegante durante alguns segundos. Após ele volta correndo pelo caminho de onde veio.
ASHLEY (V.O.)
Não! Menino, volta aqui e me ajuda!
Tenta-se acompanhar Chris, porém este fora mais rápido, sumindo de vista.
ASHLEY (V.O.)
Porra... Ele tira um cheiro tão gostoso...
ASHLEY desiste e vira-se para o lado, vendo seu reflexo na vitrine de uma loja. Morena, e longos cabelos castanhos escuros, cerca de 18 anos, corpo médio de curvas, pele pálida e olhos claros. Está assustadora, com metade da cabeça violentamente mutilada. Um dos lados está faltando um pedaço, expondo o cérebro rosa dentro da cabeça.
ASHLEY (V.O.)
Mas que porra...
Ashley se aproxima da vitrine, focando em seu próprio reflexo. Sua mão sem muita coordenação motora aproxima-se do cérebro exposto, cutucando. Ela não reage.
ASHLEY (V.O.)
Espera! Wow, woooow! Puta que pariu, eu sou um zumbi?! Puta que pariu! Isso não pode ser real! Puta que pariu, teve um apocalipse zumbi nessa porra e eu já morri?! Não, cara! Não! Eu to pensando, não posso estar morta! Caralho, é um apocalipse zumbi! Mas porra, eu ainda tenho tanta gente pra matar!
Ashley encara seu reflexo por mais alguns segundos.
ASHLEY (V.O.)
A vida é sempre mais fodida do que a arte... Quem diria que zumbis tem consciência, ein...? Meu irmão deve estar dando pulos de alegria, aquele emo lunático por The Walking Dead... Preciso ir pra casa...
A visão passa do reflexo destruído de Ashley para de volta a rua desértica, por onde Ashley segue caminho, se arrastando. Dobrando à esquerda Ashley encontra novamente Chris.
Chris está de costas para Ashley e de frente para outro zumbi. As veias destacam-se na extensão dos braços expostos de Chris.
ASHLEY (V.O.)
Hum... Que cheiro bom... Oh, nossa, estou salivando... Zumbis salivam...? Que sede, que sede...
Ashley começa a se arrastar na direção de Chris.
ASHLEY (V.O.)
Só um pouquinho... Bem pouquinho... Parece ser tão bom... Hum, só pelo cheiro já parece mil vezes maior do que coca-cola... E essa carne morena... Nossa! Cara... Eu nunca fui muito fã de churrasco, mas ele parece tão...
Ashley murmura aleatoriamente e Chris se vira para trás, assustado e surpreso. Ele vê Ashley se aproximando e sai correndo para o lado. Sobra apenas o outro zumbi ali.
ASHLEY (V.O.)
Puta que pariu! Pirralho filha da puta, eu só quera um pedacinho! Puta que pariu, o que eu to dizendo?!
(suspiro e tom derrotado)
Preciso achar minha família antes que alguém me mate...
Ashley segue seu caminho lentamente pelas ruas vazias. Vez ou outra ouve-se alguns barulhos: pessoas batendo as janelas, passos correndo, ruídos de zumbi...
KEVIN (O.S.)
Oh Meu Deus, é a Ashley!
Ashley vira para o lado onde está KEVIN, de 15 anos, 1,70 de altura, magro, cabelo ajeitado e de franja, vestindo roupas pretas e com dois riscos pretos em cada maçã do rosto, imitando pintura de guerra.
ASHLEY (V.O.)
(esperançosa)
Oh, porra! É o meu irmão! Kevin, seu pirralho, nunca fiquei tão feliz ao vê-lo em toda minha vida!
Ashley se arrasta na direção de Kevin, resmungando de forma sem coerência e irracional o tempo todo. Kevin está olhando para o lado. Ouve-se passos de alguém se aproximando correndo.
ASHLEY (V.O.)
Hum... Meu irmãozinho, você tem cheiro de salgadinho de churrasco... Não, não, Ashley! Não devore seu irmão!
ANASTÁCIA, 37 anos, longos cabelos escuros presos em um rabo-de-cavalo alto surge correndo. É a mãe de Ashley, acompanhada de UM HOMEM com cerca de 40 anos.
ASHLEY (V.O.)
Mãe! Oh Meu Deus, mãe! Estou tão feliz em te ver!
KEVIN
Mãe, a Ashley virou um zumbi!
Anastácia olha para Ashley, surpresa.
Ashley reproduz ainda mais ruídos.
ASHLEY (V.O.)
Mãe, sou eu! Me ajuda!
KEVIN
(entusiasmado)
Posso matar ela, mãe? Ela virou um monstro, vai querer nos devorar!
ASHLEY (V.O.)
Pirralho filho da puta!
Anastácia olha para Ashley fixamente.
ANASTÁCIA
Não, eu mato.
ASHLEY (V.O.)
MAS O QU-
Anastácia saca sua arma, é uma calibre 38, e atira várias vezes na direção de Ashley, na cabeça. Ashley cai no chão.
Em ponto de vista subjetivo, do chão para cima, Ashley vê Kevin e Anastácia se aproximarem, ficando ambos acima, olhando para baixo. Ambos estão agindo com normalidade. Ashley tem seus últimos espasmos.
KEVIN
Ih, ela já foi pega por outro... Olha, tá faltando um dedinho... Posso pegar outro, mãe?
Kevin está olhando na direção da mão de Ashley. Anastácia olha fixamente nos olhos de Ashley.
ANASTÁCIA
(tom firme)
Pegue seu prêmio, caçador.
Anastácia atira mais uma ultima vez na cabeça de Ashley e tudo escurece.
FADE OUT
Notas finais
Obrigada por ler!
Fale com o autor