Aos Olhos De Cherry
1 Primeiro contato.
Notas iniciais
Era só uma garota nova no grupo de desenho, não deveria ser tão difícil. Mas para alguém com aquela síndrome de inferioridade, sempre é mais difícil e pesado. Parecia que ela tinha uma impressão em que sempre haveria alguém melhor, mais interessante e com mais potencial onde ela estava. Era desconfortante ter de observar esses traços em Cherry, queria poder me sentar ao lado e de alguma forma a fazer se sentir especial... Mas de que merda eu estava falando? Eu não tenho a capacidade de fazer uma garota tão diferente como ela se sentir especial, até porque, eu não sabia nada além de seu nome e suposições que eu criei para suportar nossa falta de dialogo.
Ela se sentou em minha frente, eu gentilmente sorri e então voltei minha atenção ao caderno, minha boca passou a salivar, os lábios secos foram molhados pelo passar lento de minha língua sobre eles. Sem idéias para compor mais uma de minhas loucuras eu bati ritmicamente a ponta do lápis na mesa e desviei meu olhar para ela, foi então que notei a atenção da mocinha presa em meus lábios, ao notar que eu havia percebido, ela voltou imediatamente a apontar seu lápis. Eu senti minhas bochechas já rosadas esquentarem, deveria estar parecendo uma babaca estupidamente envergonhada. Uma puxada de ar dificultosa e um empurrão do colega do lado me fizeram soltar um gemido mais ridículo ainda, logo todos da mesa olharam para mim e para Jorge que me cutucava.
– Jorge, o que foi?
– O que acha, Chelsea? – indagou ele mostrando sua mais nova criação doentia, a representação de um demônio provavelmente de sua mente perturbada e inexplicável.
– Esta boa. – foi o único comentário que pode escapar de meus lábios, pois estava sendo observada e isso me deixava desconfortável, não acreditava que aquele era meu melhor ângulo para que ela ficasse me encarando daquela forma.
Novamente cacei-a, assim que nossos olhares se encontraram, ela já com todas as suas coisas guardadas na mochila, se levantou e saiu da mesa. Meus olhos a seguiram, posso até ser sincera e admitir que me prendi por instantes no balançar daquele quadril. Ela não devia rebolar assim sabendo que eu certamente estaria olhando, pois é claro que ela só esperou ter minha atenção para se levantar dali.
– Ow Cher! Ela é seu novo alvo, hm? – falou Jorge me cutucando de forma irritante.
– Tsc, o que te faz pensar isso? É só mais uma patricinha no grupo de desenho, Jorge. – respondi entre um sorrisinho molhado com ironia, peguei meu caderno em branco e sai da sala, rumo ao corredor.
Estava mentalmente exausta, não havia mais espaço em minha mente para nada, não conseguia me concentrar em meus desenhos, o que me restava era ir completamente sem inspiração para casa e tentar aliviar um pouco essa tensão. Como todas as quartas-feiras eu peguei o metrô para Santa Eugênia, rostos diferentes naquela tarde devido ao horário em que eu estava voltando. Ao me sentar próxima a porta e olhar para frente, avistei novamente Cherry, presa em seu desenho. “Eu não entendo, porque ela saiu da sala, um lugar completamente propício e favorável para desenhar para ficar numa posição tão desconfortável e desenhar nesse metrô?” pensei enquanto a encarava, acho que dava até pra ver carimbado em minha testa um belo ponto de interrogação, naquele momento. Eu peguei meus óculos escuros, os coloquei e então me encostei ao banco, assim poderia ficar apreciando a beleza dela sem que a mesma percebesse. Porém o que me intrigava é que a mocinha me olhava e então lançava traços em sua palheta. Seria possível que...? Ah! Era inútil tentar pensar com minha cabeça a mil da forma que se encontrava. Fechei meus olhos e em menos de 5 minutos cochilei, sim. Deixei-me levar pelo cansaço que pelo visto, era físico também. Não me pergunte o quanto dormi, muito menos se sonhei. Apenas acordei cinco paradas para frente da minha, acordei no susto quando escutei os freios do metrô. De imediato retirei os óculos e me levantei, ao fazer isso um sulfite caiu de meu colo, me abaixei o peguei, aproveitei a parada e desci. Já na plataforma pude perceber que era o desenho de Cherry, uma representação de seu rosto, os traços fortes sobre seus cabelos longos e sua trança lateral, porém bagunçados, olhos claros e bem delineados pela maquiagem pesada, olhando fixamente para frente... Para mim. No desenho havia uma escrita em sua testa e não estava um ponto de interrogação como eu me imaginava, e sim a verdade, escrito com caneta vermelha a palavra “Desejo”... Foi uma forma singela de dizer: “Eu sei que me deseja, eu sei que me deseja e então estou afim de jogar.” Se fosse realmente isso, estava na hora de começar a jogar também.
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