Aos Olhos De Cherry

2 Cherry é a culpada


Já haviam se passado quatro dias desde que vi Cherry no metrô. Seus traços precisos estavam colados no mural em frente a minha cama, quando em casa ficava presa naquele desenho como se fosse o único motivo de ainda não ter saído da cama, mas espere, era realmente o único motivo. Fiquei aficionada naquele rosto, naqueles olhos, naquele cabelo que ela deve passar horas no espelho arrumando, apenas para parecer que nem sequer se importou em alisa-lo. Por outro lado Cherry era uma garota extremamente feminina, dava pra ver pela textura de sua pele, o rosado de seus carnudos lábios, que podia ser visto apenas quando os mesmos não eram pintados com vermelho sangue, pois bem, já tem ao que culpar caso ela me pegue comendo com os olhos seus lábios, é difícil não notar um batom vermelho.

Entre meus devaneios minha mãe entrou, sem bater como sempre, no meu quarto.

– Já faz cinco dias que está enfiada neste quarto, quando não está na rua está aí! Olhe pra essas embalagens de fast-food aí do lado, vai ficar gorda desse jeito e nunca vai casar com alguém decente, desse jeito vai ter que namorar um classe média e acabar tendo que ficar em uma casa de dois quartos cuidando de quatro-cinco filhos que ainda por cima, sem culpa da família miserável onde nasceu vão estudar em colégios públicos onde apanham dos professores, e sabia que existem professores pedófilos nessas escolas imundas?

Ouve um enorme silêncio... Sabe quando você está ali, porém sua mente já se desmembrou e está viajando bem longe? Longe onde eu queria estar.

– CHELSEA FORK!

Neguei automaticamente com o agudo de minha mãe e então revirei os olhos até ela.

– O QUE FOI? Já estou saindo, tudo bem pra você? – me levantei apressada, peguei minha camisa entre as roupas no canto de minha cama e então sai entre o sermão de minha mãe.

Era incrível como ela conseguia conciliar o fato de eu estar deitada com meu suposto filho que um dia será violentado por um professor tarado.

Saí pelas ruas, as nuvens cinzentas se misturavam com os rastros do sol que já se deitava no horizonte, e era nessa direção que eu andava, com minhas mãos sentindo o forro de minha jeans, vestindo minha camisa xadrez favorita, tinha ganhado do meu pai antes dele partir. Sentia-me livre, podia até escolher uma trilha sonora mentalmente naquele momento, o resto de luz solar que sobrava naquela tarde iluminava meu rosto e a brisa faziam meus cabelos pretos voarem contra meu rosto. \"\"

Havia centenas de coisas nas quais devia me focar, minha futura faculdade, minha maior idade, minha independência financeira... Porém só no que pensava era Cherry. Cherry sorrindo, Cherry se sentando na cadeira do grupo de desenho, Cherry ajeitando seu decote, Cherry mordendo o canto dos lábios, Cherry mordendo a ponta do lápis enquanto pensava no seu próximo traço, Cherry me olhando, me tocando, me beijando... E então: Cherry sendo o motivo pelo qual sou atropelada a cinco quadras da minha casa!

Sim e não, sim, estava imaginando coisas demais, e não, não vi o carro, mas assim ele devia ter me notado antes, apenas acho um direito meu botar a culpa nele. Ele pegou em cheio em mim, veio da minha direita, e eu só notei quando caí há uma distancia razoável do automóvel. Senti minha jeans rasgar-se no asfalto fazendo meus joelhos arderem no mesmo momento. Meu rosto ralou deixando um rastro de pele sobre a rua e quando me dei conta de toda a merda já não tinha forças pra me mexer, estava toda torta grudada ao asfalto úmido e estava entrando em pânico. Fui perdendo a consciência, senti mãos me tocando, vozes me chamando, mas simplesmente desmaiei.

Ao acordar já estava na maca do hospital, a enfermeira logo veio mexer em mim, fez uma série de perguntas incluindo até um questionário de matemática. Disse que precisava dos telefones dos meus pais, precisava do meu nome. Era tudo tão confuso, porém passou a ser mais ainda quando olhei para o outro lado. Lá estava Cherry ao lado de quem parecia ser sua mãe. A mulher apavorada veio me deixar ainda mais atordoada.

– Me perdoe, por favor! Eu estava procurando uma rua e... Eu, você apareceu na minha frente do nada! Pelo amor de Deus, diga que está bem.

– Eu... Eu me sinto exausta, mas eu estou bem, senhora.

– Não garanta isso até os exames, senhorita. – interrompeu a enfermeira.

Sim, eu estava toda quebrada, ralada, machucada e assustada, mas procurei olhar ela novamente, ah... A razão de eu estar ali, duas vezes não? Pelo visto foi a mãe dela que me atropelou, atropelou por ironia do destino uma jovem desatenta que tinha pensamentos eróticos com sua própria filha!

Cherry que parecia assustada também, mas ao encontrar de nossos olhares pude sentir uma segurança tomando conta de meu ser, ela sorriu... Em meio ao caos e a dor a jovenzinha sorriu pra mim. Eu retribui o sorriso mesmo isso fazendo meu rosto queimar. Dor? Talvez. Paixão? Com certeza.

Notas finais
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