Ao mar

1 Calmaria


Era um dos mais adoráveis bailes que qualquer um já vira. Os lustres de cristais reluziam ao redor do teto dourado. Espelhos cobriam as paredes de ambos os lados e serviam para espalhar ainda mais luz pelo ambiente.

Com o rei e sua futura rainha no trono ao fim do salão, uma longa fila se formava até eles para parabenizá-los pela união. Todos aparentavam compartilhar da mesma felicidade, não só pelo casal, mas por ter mais eventos a comparecer. Fazia anos que os portões não abriam para receber tantos convidados. E havia um motivo.

Marin era filha única do rei Apolo e sendo a pessoa que herdaria o trono um dia, seu pai fazia o possível garantir sua segurança durante seus dezenove anos de vida, pelo menos até ficar noivo outra vez. Ao lado dos noivos, esboçando um sorriso forçado, cumprimentava com reverências e elogios superficiais qualquer um que lhe perguntasse a respeito da festa, do casamento ou de sua "madrasta". Pensar nessa palavra ainda era muito estranho. Aquela mulher em breve seria a mãe dela e não havia o que fazer para impedir. As duas eram tão diferentes.

— Querida, por que não se junta a seus amigos enquanto terminamos os cumprimentos? — Sugeriu o rei ao notar o grande esforço em parecer contente que Marin estava fazendo.

Quase teve vontade de perguntar para quais amigos, já que tinha sido privada de tê-los durante quase toda a vida, mas quando virou o olhar para o pai apenas agradeceu e sumiu entre a multidão que abria espaço conforme a reconheciam. A boca de Marin chegava ao ponto de doer de tanto forçar a sorrir. Se perguntava se teria que fingir por tanto tempo assim depois do casamento.

— Pensei que só sairia de lá após amanhecer — comentou uma voz aveludada atrás dela. — Dispensada das obrigações tão cedo?

Ao se virar deu de cara com Henri segurando uma taça de vinho vestindo um elegante terno bordô a admirando por inteiro como sempre fazia quando se encontravam. Marin vestia...

Caminhando devagar até seu encontro, pensou consigo mesma se existia um par tão perfeito quanto os dois. Se um dia o rei aceitasse, aquele homem seria seu marido.

— Apenas por enquanto. E você? Por que ainda não foi dar as felicitações?

— Ainda é um pouco difícil pra mim acreditar que a mesma mulher que declarou amor eterno ao meu pai, até pouco tempo atrás, irá casar com o seu amanhã. — disse exasperado — Tão esquisito.

— Sim — Concordou observando as pessoas ao redor para verificar se alguém os escutava — e saber que ele tem consciência disso me deixa profundamente irritada. Essa disputa entre eles beira ao ridículo. Não culpo ao meu tio que não tenha comparecido.

— Não é apenas esse fato que a incomoda — afirmou bebendo mais um gole da taça — O que houve?

Henri sempre via além das coisas, Marin não sabia nem porque tentava esconder.

— Desde o noivado, meu pai ficou diferente. — falou tentando não demonstrar desconforto.

— Diferente como?

— Quase não tem falado comigo. Praticamente não existo quando Aramita está por perto. — Marin torceu o nariz apenas por lembrar — Sei que não deveria me importar, mas me importo.

— Claro que deveria. A atenção antes era só sua, agora terá que dividi-la com mais alguém. — disse sem desviar o olhar dos seus — Mas não se preocupe, nunca terá que dividir a minha.

No ponto do salão mais afastado do trono, uma pequena orquestra constituída de violinos, violoncelos, um piano e instrumentos de ritmo começou a soar indicando que os cumprimentos haviam terminado dando lugar a todos para dançar.

Henri largou sua taça sobre uma bandeja vazia que passava com um serviçal e se voltou para Marin que balançava o corpo de um lado para o outro devagar seguindo o ritmo da música. Ela não conseguiu não demonstrar surpresa ao ver a mão de Henri estendida a chamando para dançar. Normalmente não ficavam tão próximos quando o rei estava perto o suficiente para vê-los, mas parecia que Henri não se importava com isso naquela noite.

— Todos vão ficar olhando — comentou quando pegou A mão dele.

— Claro que vão. Você é a mulher mais bonita de todo o reino. Seria difícil para qualquer um ignorar sua presença.

— Não comece — o rubor foi se espalhando conforme se direcionavam para o meio de todos. Conforme Henri havia dito, quase todos os olhavam com admiração e alguns dos poucos casais que se lançaram primeiro para dançar, abriram espaço para ver os dois.

Cada passo era tão sincronizado, o corpo dos dois se encaixavam tão perfeitamente naquele instante, que foi muito fácil para Marin se esquecer que na realidade, não tinham nada a não ser o sentimento e um parentesco esquecido pelos demais.

Ao ser rodopiada pela terceira vez, o sorriso de Marin diminuiu após ter o vislumbre de seu pai entre a multidão. A testa franzida, a tentativa falha de disfarçar o desagrado.

Só vê-lo daquele modo, já foi motivo suficiente para querer fugir dali, mas aquele momento nunca mais voltaria. Aquela dança, a sensação de estar nos braços de seu amado. Faria questão de que durasse bastante.

— Está sentindo?- Henri perguntou quase sem fôlego quando a dança chegava quase no fim.

— O que? — Marin sentia tantas coisas no momento que era difícil se concentrar em qualquer coisa que não fosse os dois ou a expressão horrível do pai.

— Parece que nem todos estão gostando do nosso espetáculo — ironizou indicando para o pai de Marin com o queixo, mas não olhando na direção dele — Se for esperta vai fugir assim que a música terminar.

— E para onde exatamente deveria fugir? — Marin ergueu uma sobrancelha e sorriu para ver se estavam em sintonia.

— O lugar de sempre. — sorriu em resposta.

— Vá na frente, irei logo depois.

Após cada um seguir em uma direção, Marin se esgueirou até a saída dos serviçais mais distante da vista dos convidados e correu para o vasto jardim repleto de alamandas, astromélias e camélias localizado na parte de trás do Palácio.

Na fonte principal, localizada no centro de todas aquelas flores, Marin colocava algumas pétalas sob a água encarando o coelho de mármore e pensando no quanto sua vida mudaria a partir do dia seguinte. Teria uma nova "mãe" e tinha a plena certeza que dela só viria hostilidade.

Henry apareceu por trás de Marin e a abraçou sem dizer nada. Ela pessoalmente adorava aquilo. Se sentia protegida naquele abraço e quando acontecia sempre dava um jeito de fazer durar mais.

— Como está minha princesa essa noite? — perguntou perto de sua orelha lhe causando um arrepio.

— Bem melhor agora — sorriu soltando um suspiro de contentamento. — Acho que esse foi o melhor baile em que já fui em anos.

— Eu também. Ninguém nos interrompeu ou te levou para longe.

— Acredito que tenha sido por causa dos noivos. Eles foram o foco hoje, e vão ser por um longo tempo.

Henri não deixou de notar o leve ressentimento em sua voz.

—Está preocupada em ser deixada de lado por muito mais? — ele a virou para que visse seu rosto melhor sem desfazer o abraço.

— Não. — respondeu sem ânimo- mas não tenho um bom pressentimento a respeito de Aramita. E não é por ela casar com meu pai por puro interesse financeiro, muitas fazem isso. É apenas uma sensação ruim e você sabe que quando sinto algo parecido, acontece alguma coisa ruim.

— Depois de quase me afogar no lago, nunca mais ignoro seus pressentimentos. Mas o que pode ser?

—Ela não parece gostar muito de mim. Talvez tente se livrar de mim discretamente.

Henry soltou uma leve risada e alisou os cabelos levemente armados da cabeça de Marin. Ela realmente parecia preocupada com a possibilidade de ser assassinada pela madrasta.

— Você anda lendo demais. Talvez não seja algo tão grave. Seja o que for, ficarei por perto.

— Sempre?

— Ficarei tanto tempo ao seu lado, que vai exigir que eu me afaste em algum momento. — disse de forma melodramática.

Dessa vez foi ela quem riu.

— Impossível — disse ficando na ponta dos pés e roubando um beijo que logo foi retribuído dando um fim a conversa.

***

Marin chegou em seu quarto logo após todos terem se recolhido ainda vestindo a mesma roupa do baile. Assim que entrou no cômodo e viu a figura irritada do pai sentado sob sua cama, pensou que teria um ataque do coração.

— Onde você estava? — ele perguntou antes que Marin conseguisse encontrar a voz para dizer qualquer coisa.

— B-Bem E-Eu fiquei até agora no jardim. — gaguejou ainda processando a situação.

— Não preciso nem perguntar com quem. — Ele soltou um suspiro e olhou para o teto como se pedisse ajuda a Deus para controlar a filha e logo voltou seu olhar para ela — Quantas vezes já lhe disse para não ficar perto de Henri? O que foi aquilo no baile hoje a noite?

— O senhor já sabe que o amo — ela uniu as mãos sob a saia do vestido e abaixou o olhar envergonhada por dizer aquilo em voz alta — Por que não permite que ele me faça a corte oficialmente? Assim eu não teria que me esgueirar até o jardim para conversar com ele.

— Sabe que não é possível. — vendo que estava prestes a perder a paciência, pediu que Marin sentasse ao seu lado na cama e abaixou o tom de voz olhando bem nos olhos dela — Não tenho nada contra Henri. Ele é um ótimo rapaz...

— Então...

— Me deixe terminar. Ele é um ótimo rapaz, mas seu pai não é. Meu irmão é um homem muito traiçoeiro. Se eu permitisse o casamento, seria o mesmo que entregar nossa cabeça numa bandeja. Você seria a monarca, mas controlada por seu tio. Querendo ou não, ele tem seus meios de subjugar as pessoas e minha querida, não vou permitir que isso aconteça de forma alguma.

— Acredita que ele seria capaz de matá-lo? — perguntou horrorizada.

— Mas é claro. Ele sempre quis ser rei, mas nunca teve apoio de outros para tomar a coroa à força. Se tivesse, nós dois nem estaríamos aqui.

— Então o casamento não é possível mesmo... — sua voz carregava certa dose de sofrimento e seu pai alisou suas costas tentando tranquilizar sua mente.

— Não é possível agora. Se meu casamento for abençoado com filhos, você não será a herdeira direta. Logo seu tio não poderá fazer nada a respeito do reino mesmo que me mate.

Marin sorriu diante daquela perspectiva e se pegou desejando uma porção de filhos ao casal para finalmente conseguir casar com Henri. Nunca imaginou que seu tio teria a coragem de machuca-los. Em sua mente, aquela disputa entre os dois era apenas da boca pra fora como adolescentes que se ameaçam e nunca fazem nada.

Após supostamente ter resolvido essa questão, Marin perguntou ao pai o motivo de ter ido procurá-la naquele horário, já que normalmente nunca acontecia.

— Queria lhe dizer que nada vai mudar entre nós depois de amanhã. Sei que ultimamente não tenho sido presente, o casamento ocupou demais o meu tempo e não conseguimos conversar sobre nada direito, mas as coisas não vão continuar assim...

— Pai, eu entendo. Não me senti de lado por nenhum segundo — A presença de Henri ajudou muito, ela quase falou, mas não quis trazê-lo de volta para a conversa. — Estou feliz por ter encontrado alguém.

— E você gosta dela?

— Claro — mentiu exibindo o sorriso mais sincero que conseguiu- Se você também gosta.

— Eu gosto. Ela é divertida, veio de uma família nobre e não nutre nenhum sentimento romântico por mim.

— está feliz com isso?

— De certa forma sim. É bom não ter que cumprir a expectativa de ninguém.

— Que bom então... Amanhã é o grande dia. Temos que descansar para aproveitar melhor.

Marin tentava apressá-lo para evitar alguma bronca sobre ter chegado mais tarde.

— Sim, tem razão. E também espero que esses encontros noturnos com Henri não se repitam. — alertou- Não vou dar nenhum castigo ou escândalo, mas tem que ter consciência de que será uma rainha e tem que agir como tal, além de já ter 19 anos. Se quer falar com alguém, fale num lugar público onde ninguém terá motivos para duvidar de sua conduta, principalmente eu.

— Está bem, vou me fiscalizar a respeito disso. — concordou — Não vou deixar nada manchar minha reputação. Mas mudando de assunto, estive pensando em Lorena...Na verdade, tendo pesadelos sobre ela.

— Outra vez?

—Sim. Nunca tive a oportunidade de falar com os pais dela para dar os pêsames e explicar o que aconteceu.

— Esqueça isso.

— Mas ela era minha amiga. Como posso esquecer disso se não falar com eles?

— Foi um acidente.

— Causado por mim.

Seu pai soltou um suspiro e colocou os dedos sob a têmpora.

— Não foi sua culpa. E acredite em mim, se contar isso aos pais de Lorena, não vão aceitar sem se vingar pelo ocorrido.

— E minha consciência?

—Será apaziguada com o tempo. Nem todas as tragédias tem culpados. Um dia irá aprender isso com mais clareza.

O rei se levantou acompanhado da filha e a abraçou afetuosamente antes de deixar o quarto. Marin não pode deixar de pensar que os pais de Lorena mereciam a verdade.

Lorena tinha sido sua primeira amiga antes de conhecer Henri. As duas adoravam brincar e fazer tiaras de flores no jardim. Lorena havia sido enviada ao palácio aos oito anos para receber educação e se tornar uma dama a fim de contrair um matrimônio satisfatório. Após quase cinco anos, ela e Marin eram inseparáveis. Comiam juntas, conversavam o tempo inteiro e brincavam, assim como qualquer criança em sua idade, mas em um dia ensolarado e quente em que passeavam as margens de uma lagoa, Marin teve a ideia de pular na água incentivando Lorena que tinha medo a fazer o mesmo.

Com o fundo da lagoa cheio de galhos, o vestido dela ficou preso impedindo que conseguisse sair do lugar. Marin ficou em choque e ficou paralisada. Era a primeira vez que estava diante de um perigo real e era de se esperar que ao menos conseguisse gritar, mas não. Apenas ficou ali vendo a amiga que tanto amava se afogar e quase teve o mesmo destino se não fosse por um guarda ter visto a cena de longe.

Ninguém nunca deu satisfações aos pais dela.

mandaram uma pequena soma para ajudar a família e fim, o corpo dela havia desaparecido como se nunca tivesse existido. Aquilo tinha acontecido há quatro anos e desde então, carregava a culpa e pensava frequentemente em como estaria a amiga se nada daquilo tivesse acontecido.

Nunca havia conseguido chegar perto da água outra vez, mas dizia desde do incidente que um dia esse trauma chegaria ao fim e seria capaz de nadar, mas isso nunca aconteceu. Gostaria apenas de esclarecer as coisas com seus pais, somente dessa forma conseguiria encontrar paz, mas seu pai era contra a ideia e nunca contou quem eram e onde poderia achá-los. Tudo isso só serviu para Marin desistir e continuar remoendo o que poderia ou não ser feito.

Pensava com frequência no que Lorena faria em seu lugar. A amiga não era alguém que deixava as coisas mal resolvidas, sempre obtia uma resposta quando queria. Uma pessoa determinada demais para sumir daquela maneira.

Marin prometeu a si mesma que após o casamento, iria procurar seus pais e contar toda a verdade. Mesmo que fosse perigoso, era algo que devia a sua amiga e assim seria.