Ao Nascer Da Escuridão
1 I - Thainara
Notas iniciais

Antes de ser atacada por uma antiga rainha libanesa sanguinária, Thainara tentava aproveitar ao máximo seu jantar – talvez seu último jantar. O fogo da fogueira crepitava baixo no meio de tantas mesas dos chalés do acampamento, o que representava o sentimento ruim dos vários campistas de lá, possivelmente causado pelo fato de vários semideuses dali terem sumido misteriosamente em algumas missões.
O pior de tudo era que a garota partiria em algumas horas do Acampamento Meio-Sangue para uma missão, a fim de encontrar outros semideuses. Algumas lembranças perturbadoras de seu passado – como a da morte de sua mãe – assombravam sua mente.
Encarava sua comida enquanto estava sentada na mesa de seu chalé, quando sentiu alguém se aproximar por trás. Pelo canto dos olhos, reconheceu a pessoa.
– Tudo bem com você? – Questionou Giovanna, sua amiga – Está pálida, parece... Assustada, talvez.
– O que? Não! – Negou Thainara, porém Giovanna estava certa. — Venho esperando por uma missão há tanto tempo. Sei que vamos conseguir. – Tentava acreditar em suas próprias palavras.
– Todos esses anos de treinamento vão servir para algo finalmente. – Afirmou Giovanna olhando em outra direção. Seus olhos cinza refletiam a chama do fogo. — E você durma direito, nada de ficar aprontando por ai. Amanhã cedo receberemos as ultimas instruções.
– Eu sempre durmo cedo. – Thainara escondia um sorriso. – Sou a filha de Hermes mais comportada. – as duas não conterão as risadas que não apareciam desde que souberam de sua missão.
A noite não foi fácil para a semideusa. Os pensamentos positivos sumiam em sombras que rondavam sua mente, Thainara se sentia muito agitada, mas do que o normal. Suas lembranças ruins voltavam com mais força e a deixavam ainda mais preocupada com o dia seguinte. Depois de ser vencida pelo cansaço adormeceu.
Como conselheira do chalé Thainara acabava tendo que acordar mais cedo que os outros, na verdade ela tinha que acordar os outros, sempre tinha mais problemas com os meninos que não aceitavam ter uma líder mais nova que eles.
Depois das ultimas ordens no chalé 11 ela seguiu em direção a casa grande, no caminho viu Giovanna conversando com um dos sátiros da floresta, ele não pertencia ao acampamento, pois ela nunca o havia visto. Seu cabelo era loiro encaracolado e suas roupas estilosas. Tinha um cavanhaque como a maioria dos sátiros e dentro do bolso de sua camiseta azul havia uma flauta de madeira.
– Bom dia! – Thainara disse, aparentando estar com mais energia que na noite anterior – Vamos lá Giovanna, quer se atrasar, o que dirão se a filha da deusa da sabedoria não chegar na hora? – seu sorriso parecia ter voltado ao normal pelo menos por enquanto.
– Isso nunca aconteceria. Como eu estava falando, essa é a Thainara. Nós duas iremos à missão. – Giovanna ignorou a amiga por um instante – Esse é o sátiro Adam, foi ele quem trouxe as noticias para a nossa missão.
Thainara encarou o sátiro.
– E ai s.r. Estilo, então que noticias tem para nós. Espero que sejam tão boas quanto suas roupas. — Seu senso de humor parecia ter sofrido um acidente, estava completamente sem sentido.
Adam apertou os olhos tentando entender à piada. Thainara ao perceber fez um sinal com a mão que dizia “esquece” e apontou para a casa grande.
– Então, vamos? – indagou Giovanna sem entusiasmo, mais parecendo um “temos mesmo que ir logo”.
– Sim, vamos – Disse Thainara, indo na direção da casa grande.
Não andaram muito, pois já estavam perto do local.
A casa, assim como seu nome já afirmava, era enorme. Apesar de ser realmente grande não tinha nenhuma diferença de casas de bairro comuns. Era pintada com um azul nem tão fraco e nem tão forte, com detalhes brancos nas janelas e na varanda. A mansão era obviamente muito bem cuidada, pois não mostrava nenhum indício de sua velhice.
Na varanda estava sentado em sua cadeira de rodas Quíron, o centauro diretor do acampamento. Thainara lembrou-se da primeira vez que havia o visto, quando havia recém chegado ao acampamento e ainda não conseguia acreditar que deuses gregos realmente existiam. Na primeira vista do diretor, havia achado que ele era apenas um homem montado em um cavalo.
– Olá garotas. Parece que já conheceram o seu companheiro de missão. – seus olhos pairaram sobre Adam – ele é o terceiro integrante que ira com vocês.
Thainara e Giovanna se entreolharam. Não estavam entendendo, a missão seria só das duas até o momento.
– Ahn...? Essa missão não seria só para nós duas? – Thainara apontou para Giovanna e em seguida para ela mesma.
– No principio seria assim, mas algumas coisas mudaram – sua expressão se tornou mais fria – como sabem, há vários meses o índice de monstros aqui em Nova York aumentou, tanto que eles estão em praticamente todos os lugares. E ainda, muitos de nossos campistas têm desaparecido em missões como esta. É mais seguro que levem o sátiro junto.
– Mas porque um sátiro, e bem esse sátiro? Porque não outro campista? – Giovanna não parecia satisfeita com o novo companheiro, ignorando sua presença ao falar.
– Porque eu sei onde temos que ir. Fui eu quem farejou e rastreou os semideuses, nada mais justo do que eu ir também – o clima entre os dois que antes parecia bom agora tinha desmoronado em ruinas.
– Mas Quíron... – Thainara tentou protestar, mas foi interrompida pelo diretor.
– Discussão não ajudará em nada na missão – sua voz estava mais seria do que o normal – vocês precisam ficar juntos ou a missão estará fadada ao fracasso. E meninas, quero que usem tudo que aprenderam aqui, inclusive a hora de correr. – seus olhos fixaram Thainara – E boa sorte.
Thainara entendeu o olhar de Quíron sobre ela. “Quero que usem tudo que aprenderam aqui, inclusive a hora de correr”, na verdade o diretor havia lançado uma indireta para ela -, para seu grande defeito de batalha.
– Tudo bem então. Adam – Thainara tentou mudar de assunto — onde estão esses meio-sangues que você farejou?
Levou alguns instantes para que o sátiro perceber que estavam falando com ele. Estava muito ocupado paquerando uma latinha de Coca diet que estava em cima da mesa.
– Ah sim! Eles estão em uma escola, aqui mesmo em Nova York, no Queens.
– Mas como iremos chegar nesta escola? – Perguntou Giovanna – É bem longe. E com esses monstros andando livremente pelas ruas, bem, não podemos sair ao ar livre para realizarmos missões.
Adam pigarreou, tentando chamar atenção para ele.
– Não se preocupe Martowl, o sátiro aqui já pensou em tudo. Acha que eu sou qualquer um, é?
– Na verdade, sim. – Admitiu Giovanna — Mas fale, no que você pensou?
O sátiro correu para fora da varanda sem falar nada, e Giovanna o seguiu.
Quíron fez um sinal com a cabeça para Thainara, para que ela o acompanhasse também, e foi o que fez.
Caminharam mais um pouco atrás de Adam, até que o sátiro parou próximo ao rio de canoagem. Adam apontou uma de suas mãos para algum lugar e as garotas o seguiram com o olhar.
Os olhos das duas meninas pareciam não acreditar no que viam. Uma grande carruagem se encontrava ali parada, e seu estado não era dos melhores. Do lado de fora estava totalmente enferrujada e sem parte do teto da cabine, Giovanna se inclinou na porta e olhou para dentro todos os acentos estavam chamuscados pareciam ter sido queimados.
O que puxava essa carruagem era mais estranho ainda. No início a garota havia achado que eram apenas pégasos, mas eram bem mais estranhos que a combinação dos cavalos com asas. Eram duas grandes criaturas, duas vezes maiores que cavalos. Tinham o corpo de uma onça – suave e felina – com asas e cabeça de uma águia.
– Hipogrifos! – Afirmou Giovanna, animada.
– Isso mesmo, sabidinha. Subam a bordo!
Adam entrou na carruagem e segurou as rédeas. Giovanna estranhou um pouco, mas finalmente entrou, seguida por Thainara.
O interior da carruagem conseguia ser pior que o lado de fora. Várias latas de refrigerante estavam espalhadas pelo chão, junto com embalagens de chocolate. A ferrugem dominava aquele local. Qualquer toque deixaria até um deus com tétano.
Giovanna fez uma cara feia para Adam.
– O que você queria? – Questionou o sátiro – Estava em promoção na Sucata do Sátiro.
– Pelo menos você já colocou o que precisávamos aqui. Vejo várias mochilas com suprimentos, além de todo esse lixo. Parabéns Adam, você não é tão inútil.
– Obrigado. Eu acho.
Então o sátiro puxou as rédeas da carruagem e finalmente o veículo voador foi ao ar. No início, Thainara pensou que a carruagem iria cair aos pedaços, porém veículo aguentou forte. A rapidez dos hipogrifos era impressionante. Sem notar já estavam bem longe do acampamento, e as pessoas lá embaixo pareciam apenas formigas.
A manhã parecia um tanto calma. Os cabelos negros cacheados de Thainara não paravam por conta do vento forte que passava por ela. Enquanto visualizava o nascer do sol, lembrou-se de sua mãe. Como Beatrisse adorava ver aquela linda paisagem nas manhãs. Balançou a cabeça tentando se desvencilhar de seus pensamentos. Não gostava de se lembrar de momentos como esse, pois eles nunca mais voltariam.
A carruagem começou a balançar bastante, e Thainara apertou suas mãos em seu banco. Não era a primeira vez que viajava voando, mas era a mais desagradável.
Giovanna não parecia muito incomodada com tudo aquilo. Estava sentada quieta, segurando um colar que estava em seu pescoço. Thainara se perguntou o que era aquilo que sua amiga sempre usara.
Finalmente começaram a descer. Os hipogrifos começaram a fazer ziguezague com a carruagem, deixando o veículo em um estado de turbulência pior ainda.
Adam entrou em estado de desespero.
– Ai meus deuses, vamos morrer! Vamos morrer!
E então pousaram com um estrondo. Thainara saiu correndo para fora da carruagem, atordoada. Finalmente em terra firme. Quase já se sentia segura.
Ao contrário dela, Giovanna parecia bem calma. Já tinha sua mochila nas costas e seu punhal em mãos. Adam também já havia saído da carruagem, porém também estava aturdido.
Finalmente após o momento para se recuperar, a garota conseguiu visualizar melhor o cenário onde estavam. Era uma grande quadra de futebol, e em frente estava um grande edifício de quatro andares – um colégio.
Um letreiro no alto da escola mostrava o nome do prédio, porém com sua dislexia, Thainara conseguiu ler apenas “ECSLOA GIUNAIXIM AIGMO”.
– Aqui é uma escola, obviamente. – Disse Giovanna — Não acho que os hipogrifos tenham parado aqui por coincidência.
– E não pararam. É aqui mesmo – confirmou Adam – sinto cheiro de semideuses e... Monstro. Um monstro muito forte.
Um monstro muito forte? Essa informação fez com que os pelos do corpo de Thainara se eriçassem. Havia treinado durante anos no acampamento – depois do que havia acontecido com sua mãe por sua causa, tentava sempre se esforçar ao máximo. Entretanto, nunca havia enfrentado um monstro grande antes, o que a deixava preocupada se conseguiria vencer um agora.
Admitia que sentia um pouco de medo, até porque vários meio-sangues estavam sumindo em missões desse tipo a meses. Porém era a líder da missão. Não podia demonstrar fraqueza na frente de seus companheiros.
– Então pelo jeito vamos nos divertir – ela disse -, vamos lá.
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